Flor da meia-noite
17 XVII – Não desista de mim, de novo
Notas iniciais

Acordei com o despertador do celular tocando e resmunguei ainda debaixo das cobertas. Não queria ir pro colégio pra tirar fotos, agir normalmente e conversar assuntos do tipo "Qual vai ser o tema do baile?". Eu deveria ter pensado melhor quando me inscrevi pro comitê de eventos há três anos.
— Bom dia – Jason disse e revirei os olhos.
— Se perdeu suas asas, por que ainda dorme na minha poltrona?
— Porque estar com você, Flor, em qualquer nível, é melhor do que nada, e mesmo que eu não seja mais seu anjo da guarda, não posso correr o risco de te perder.
— Faz o que quiser.
— Ainda tá brava comigo?
— Não – Bati a porta do banheiro com força e peguei minha escova de dentes.
— É, ainda tá brava comigo – Ele disse e ouvi a janela sendo aberta. A energia do quarto ficou mais calma na mesma hora.
Estar com o Jason nesse nível me deixava aflita, ele não era um caído quando nos conhecemos, eu nunca me envolveria com um caído. Ele era um anjo importante no céu, com uma ordem social boa e respeitada, até que o mandaram pra me vigiar, e tudo foi por água abaixo.
Não me lembro das vidas depois de mim, mas se eu era humana, não era capaz de distinguir. Um caído tem a alma negra, e assim que entra em algum recinto, o lugar todo fica com a sensação de estar envolto em espíritos fugitivos. Eu não conseguia não ficar com medo, era amedrontador.
Eu não estava literalmente com raiva de Jason, mas ele ainda escondia coisas de mim, eu podia sentir, ver na sua alma. Eve não teria aparecido do nada, já que ela sabia das asas, e o contato extremamente íntimo me deixava intrigada. Se os diurnos da floresta sabiam quem era o mestre, era óbvio que ela também saberia, então porque Jason ainda não tinha comentado sobre isso? Nem uma palavra sequer. Ou os diurnos da floresta estavam blefando, mas acho pouco provável. Eu sou à prova de mentiras, Jason ia se dar mal comigo se continuasse assim.
— Allyson, erraram as cores do colégio, esse não é o azul que pedimos.
— Allyson, o fotógrafo ainda não chegou.
— Allyson, temos que levar a proposta de decoração pra diretoria, mas tem um problema.
Saí daquela sala com dor de cabeça e andei em círculos pelo corredor pensando no que fazer. Eu poderia desistir da escola e sair por aí. Não, tinha que me formar pra entrar na faculdade. Nephilins correndo risco de morte não deveriam se preocupar com tubos de ensaio. É a minha vida! É a minha também! Eu cheguei primeiro!
— Aaah! – Gritei para o vazio e escorreguei pelo meu armário até chegar ao chão, onde enterrei a cabeça entre os joelhos.
— Dia difícil? – David se senta ao meu lado.
— Vida difícil.
— Sabe do que você precisa?
— O que?
— Da quadra, faz tempo que não vejo você jogar – Ele diz tocando seu ombro no meu.
Ia falar alguma coisa sobre estar muito ocupada com chiliques adolescentes, mas senti aquilo de novo. Não era o Jason, aquele outro cara era pura escuridão, vi quando ele virou o corredor e andou na minha direção. O homem vestido de preto tinha uma câmera pendurada no pescoço, ele sorriu e estremeci no chão.
— Sou o fotógrafo, acha pode me mostrar o caminho, nephilim?
— Não vou mostrar nada pra você.
— Ah, você vai – Me levantei e gritei, o mais alto que consegui. David tampou os ouvidos e segundos depois Hazel apareceu. Pra que chamar a Hazel? A gente dava conta.
Eu não tinha mais ninguém pra chamar. Jason estava longe de mim. De novo.
— Ah, qual é, outro caído? – Hazel reclamou mas nós duas nos posicionamos e partimos pro ataque.
♕♕
Era a quinta bola seguida que eu errava, ou eu errava o tempo da bola e pulava antes, ou ia fora da quadra. Mas o que diabos estava acontecendo? Eu sou a capitã, sou a líbero, não posso me dar ao luxo de perder uma bola assim.
— Ally, se você não cravar essa bola na posição um, eu dou na sua cara – Clove disse com a mão na cintura e eu assenti.
O exercício se chama entrada de rede, e é basicamente uma troca de bolas para o ataque. Joguei a bola pra ela com toque no canto superior direito da quadra, Clove, que estava na rede, levantou pra mim de novo. Corri, pulei e ataquei. Na mosca. Está vendo, Adi? Tudo é mais fácil quando eu assumo.
— Ótimo, finalmente. Bom, já tá tarde, quer uma carona?
— Não, vou jantar na casa do Peter, e ficar aqui mais um pouco.
— Ok, depois a gente se fala.
Eu esperava já ter perdoado a Clove a essa altura, mas ela confessou que tinha beijado meu namorado pouco antes de morrer, e mesmo sabendo que ela foi manipulada, aquilo ainda me deixava apreensiva. E ainda não sabia o que mais ela tinha feito enquanto estava sob os domínios desse monstro, eu queria saber, mas ao mesmo tempo não queria, e notei que nossa comunicação não era a mesma, alguma coisa tinha acontecido e 1: Ela não queria me contar, ou 2: Ela também não sabia. Aquilo estava me matando aos poucos.
O parque ao lado do prédio da escola estava vazio pois já estava anoitecendo, o sol ja estava se pondo e fechei o casaco ao redor de mim pra espantar o frio, já que o banho havia esfriado meu sangue. Os balanços enferrujados iam e vinham lentamente por causa do vento e senti um calafrio percorrer minha espinha quando a escuridão se fechou ao meu redor.
Gritei quando senti uma fisgada gelada me atingir por trás. Olhei por cima do ombro e um homem me indicava a direção que devia seguir da pior forma possível: camuflado por detrás da sua jaqueta de couro, ele pressionava um objeto pontiagudo contra as minhas costas. Uma faca?
— Nem pense em parar, nephilim. Continue andando, tem muito veratrum nessa faca – Ordenou entredentes e, em estado de choque, obedeci.
Veratrum não era nada bom, meu corpo gelou quando lembrei que morri atingida por uma flecha ensopada de veratrum. Hazel não conseguiu me salvar daquela vez porque pegou no coração, a partir daí começou um ciclo vicioso até os dezoito anos. O horror de ter aquele objeto pressionado contra o meu corpo parecia drenar minhas energias. Comecei a ficar fraca. Eu sabia que precisava berrar enquanto ainda tinha forças, mas minha garganta queimava, fechando-se com velocidade assustadora, ele estava usando Persuasão comigo.
Novos ruídos. Um trepidar. A respiração dele me atingindo. Atordoada, vasculhei tudo ao meu redor. Nem uma alma viva que pudesse me socorrer. Absolutamente ninguém. O que fazer agora? Outros sons. Gotas d’água minando da ferrugem do balanço e mergulhando numa poça de óleo logo adiante, como um cronômetro denunciador do tempo que se esvaía.
— Solta – Ouvi uma voz familiar e quase suspirei de alívio.
— Eu achei primeiro.
— Tô perseguindo ela há dias – Jason disse e o caído nos virou – Me dá ela, agora.
O cara bufou, e depois de afastar a faca das minhas costas, ele me jogou com aspereza na direção do meu anjo. Meu anjo. Não o abracei pra manter as aparências, e ele segurou meu pulso com firmeza, esperando o homem de jaqueta ir embora.
— Você tá bem? – Jason perguntou.
— Sim, deu pra me seguir agora?
— De nada, Allyson. Tá indo pra onde essa hora a pé?
— Jantar no Peter, é perto – Respondi de cara fechada limpando uma sujeira invisível no casaco. Mas por dentro eu queria chorar por ter sido salva por ele mesmo não sendo mais meu anjo da guarda.
— Te acompanho até lá.
Estranhei quando Peter insistiu pra Jason ficar pro jantar. Peter não ia com a cara do Jason. Jason não ia com a cara do Peter. Era a lei natural da vida. Fiquei em silêncio durante o jantar enquanto observava os dois se encarando enquanto comiam, havia uma tensão insuportável no ar.
— Ally contou que vai começar a treinar com os meus aliados no centro na semana que vem, Jason? – Peter comentou e eu larguei o garfo no prato.
— Não, não contou.
— É uma excelente notícia, não é mesmo?
— Se a sua intenção é transformar ela em uma assassina, é realmente uma ótima notícia – Jason respondeu com sarcasmo e eu me levantei.
— Vou te mostrar o quarto que ele fez pra quando eu quiser dormir aqui.
— Claro.
Peguei sua mão e o guiei pelas escadas até o último quarto do corredor. Abri a porta e senti vontade de rir quando novamente, vi o quarto todo decorado em tons de rosa. Jason riu.
— Pode parar – Repreendi assumindo minha expressão de raiva novamente – Então, aposto que veio pra dizer pra eu ficar fora disso.
— Não.
— Ótimo, porque olha só, eu sei cuidar de mim.
— Eu sei. Mas... esses caras, Flor, eles são monstruosos. E ainda têm várias vantagens tipo uma força sobrenatural – Eu finalmente encaro seus olhos escuros e me aproximo.
— Você é bem forte e eu te aguento.
— Eu? – Jason ri.
— Não acha que eu teria chance contra você?
— Eu não disse isso.
— Talvez não tenha percebido, mas sou muita boa em atirar facas.
— Tá, mas e se não tivesse? Ainda tenho mais força sobrenatural que você.
— Tenho habilidade e treinamento.
— Eu tenho asas, quer dizer, não tenho mais, mas é irrelevante.
— Sou mais inteligente.
— E eu sou mais rápido.
— Ah é? Então prova, espertinho – Merda. Porque fui dizer logo isso? Não conseguiu pensar em mais nada? Ótimo Allyson, muito bom.
Jason me agarra, fico de costas pra ele enquanto um de seus braços segura firme meu pescoço, o outro imobiliza minhas mãos. Eu arfo com o calor que aquele contato me traz e consigo me virar, prendendo ele na parede. Sua única covinha na bochecha direita aparece e eu me distraio, dando a ele a chance de virar o jogo.
— Tudo bem, já entendi – Fecho os olhos e tento ao máximo não inspirar seu perfume — Pode me soltar.
— Tá tudo bem?
— Jason, me solta.
— Adi... eu não me importo com as minhas asas, só com você, não pode me evitar pra sempre.
— Você desistiu de mim? – Perguntei com um gosto ruim na boca, me lembrando de aproveitar da sua vulnerabilidade pra saber de tudo.
— Você tem ideia do quanto é difícil, Adina? – Jason se vira pra mim de novo e suspira sentando na cama. Não tive coragem de me aproximar dele – Toda vez eu te encontro, convivo com você sabendo que a hora exata que completar dezoito anos vai morrer. E aí tenho que esperar mais no mínimo quinze anos de novo, pra viver a mesma coisa, sempre e sempre.
— Quando você disse que vê as coisas que um jeito diferente...
— Me envolvi com a Eve há um tempo.
Como se uma faca tivesse me acertado bem nas costas, eu arfei. Senti meu peito ardendo e fechei os olhos indo pra escrivaninha. Não queria ouvir mais nada.
— Adi, por favor, foi um erro.
— Você desistiu de mim!
— Não desisti! – Sinto sua mão puxar a minha e chorei junto ao seu peito – Eu nunca desistiria.
— Isso nunca para, é sempre a mesma coisa, quando vou poder viver de verdade?
— Agora você pode.
— Sem você? Não consigo nem imaginar um mundo assim.
— Não disse que era sem mim, não tô disposto a deixar regras nos separarem mais uma vez.
O silêncio se alonga e tento pensar em alguma coisa para falar. “Obrigada” parece muito pouco… ou talvez demais, já que ele não tem como entender o quanto eu precisava ouvir tudo o que acabou de dizer. O quanto precisava saber que, mesmo sem minhas habilidades, sou alguém que vale a pena conhecer. Que todas as mínimas e mais ridículas qualidades que demonstro fazem de mim quem sou.
— E agora mesmo – Ele diz – você quer morrer porque ninguém está dizendo nada.
Mordo o lábio. Não vou chorar por isso.
— É melhor irmos.
Caminho até a porta o mais rápido possível.
— Aly, fique.
É uma das únicas vezes que ele me chama de Ally, e sei que estou dando a isso um peso muito maior do que deveria. Paro perto da porta, me apoiando no batente.
— Ally?
— Sim, a Ally.
— Você está confuso. Precisa de tempo para pensar.
Ele ri um pouco.
— Sobre o que estou confuso?
— Não sei.
— Falei sério quando disse que queria você.
Não sei o que dizer. Jason me envolve com os braços e relaxo junto a ele com um suspiro feliz.
— Esqueci de contar, quando fui pegar a sobremesa Peter disse que se me pegar tendo algum contato íntimo entre nós, ele corta a minha garganta. Foi bem convincente, ele é forte.
Eu ri e me aproximei mais do meu anjo. Então ele começa a acariciar minhas costas e sinto um arrepio descer pela espinha.
— Pelo manual do Peter, acho que não podemos acariciar as costas uns dos outros – Digo a ele. Suas mãos param de se mexer, e ele me puxa nais pra perto. Não sei o que é pior, porque agora meu corpo todo está pegando fogo.
— Você vai me deixar ler o manual para então eu saber todas as regras?
— Sim, vou.
Jason abaixa a cabeça e a apoia em meu ombro, esquentando minha pele com seu hálito. Por que ainda não o afastei?
— O manual fala sobre isso? – Ele pergunta. Confirmo com a cabeça. Seus lábios roçam meu pescoço quando se movimentam. Ele está tentando me enlouquecer?
— Lá deve estar escrito que isso não pode de jeito nenhum.
Seus lábios vão parar na região macia perto da orelha. Não consigo mais pensar direito. É quando me dou conta de que estou agarrando a parte de trás da camisa dele. Agarro com mais força. Ele deve considerar um estímulo, porque pega meu rosto entre as mãos e pressiona os lábios nos meus. Eles se movem sobre os meus com suavidade, seu hálito penetra minha boca. Sinto que meu coração está prestes a explodir. Quero rasgar o manual falso e jogá-lo na lata de lixo.
— Tudo bem por você?
Ainda segurando sua camisa, aperto com mais força e o puxo de volta para mim. Queria ficar daquele jeito, perdida nele, mas sabia que precisávamos conversar.
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