Flor da meia-noite

18 XVIII – O mestre mente


Notas iniciais
OPA, TUDO BOM?

— Passou a noite toda acordada? – Clove me perguntou e eu tentei esconder o sorriso enquanto escrevíamos o anuário.

— Não mesmo.

— Passou. Um olho tá maior do que o outro, tá parecendo uma das meninas super poderosas chapada.

— Para de olhar pro meu olho e presta atenção no que eu tô te falando.

— Não, espera – Hazel disse rindo – Tá parecendo uma garota inflável esvaziando.

— Ah, essa foi boa – Clove disse batendo na mão da Hazel.

— Fico muito feliz que minhas duas melhores amigas estão se divertindo às minhas custas – Sorrio cinicamente e me viro pro Jason – E você me paga por isso – Sussurro para ele, que sorriu com a lapiseira na boca. Que visão do paraíso.

— O que tá rolando entre vocês afinal? Estão de conversinha a manhã inteira – Zack pergunta olhando pra nós com uma feição curiosa e safada.

— Nada, nada mesmo – Me viro pro Jason de novo e sussurro ainda mais baixo – Claramente, precisamos achar maneiras de fazer nos verem como um casal, mas sem o Peter descobrir, e sem a escola toda achar que sou uma piranha.

— Que tal eu te apresentar como minha ursinha?

— Péssimo – Rio e meu querido pai biológico entra na sala. Endireito a postura imediatamente.

Meu quarto estava irreconhecível se eu levasse em conta ele há três meses. A mesa de estudos estava tomada por livros, mapas, equipamentos e manuais. As páginas permaneciam na parede e no teto, mas os adereços de menininha tinham sumido.

O treinamento com o Peter estava indo maravilhosamente bem. Caídos não conseguiam me pegar porque eu estava camuflada com o Jason. O mestre tirou um descanso e ainda não tinha me atingido, o que nos deus uma oportunidade de relaxar. Zack ainda estava aprendendo sobre o que nos rondava, mas se comportava como um garoto viciado em séries que acabou de descobrir que seu personagem favorito virou realidade.

Peguei uma bolsa, vulgo sacola rosa de piquenique, e coloquei algumas coisas de comer, pasta de amendoim, pães doces e coisas que sei que ele gosta. Arrumei o cabelo, calcei as botas e bati a porta do meu vizinho.

— Vamos andar de bicicleta – Disse sorrindo.

Adam e eu nos sentamos na frente da cabana pequena na floresta. Construímos ela aos poucos quando éramos criança e me arrependi de ter esquecido isso por três anos. Suspirei sentindo uma paz inexplicável por Adina ter dado um tempo para o meu amigo, tirar uma folga.

— Lembra quando costumávamos vir aqui? – Adam junta as mãos no colo e suspira tentando sorrir – Nosso maior problema era conseguir comer pasta de amendoim usando aparelho.

— Agora nem sabemos contra quem estamos lutando.

— Na verdade... acho sabemos sim.

Franzo as sobrancelhas e me viro pra trás, tentando ver pra onde Adam está olhando. Apago completamente quando sinto uma pancada forte na cabeça.

P.O.V. Jason

— Hazel! – Adam gritou correndo na nossa direção enquanto comíamos no Bake's. Ele parecia assustado, estava ofegante e com medo – Estávamos na cabana e... e aí ele...

— O que foi?! – Hazel se levantou da mesa e eu prestei atenção, ele estava estranho.

— O mestre, quer dizer, acho que é ele, pegou a Allyson, jogou ela em uma van e...

— Como é que é? – Me levantei também e puxei seu braço porta afora e Hazel nos seguiu – Eles não fizeram nada com você? Viu quem foi? Viu pra onde foram?

— Bateram na nossa cabeça, mas eu não apaguei, jogaram ela no carro e seguiram aquele caminho abandonado pros túneis da usina antiga. O rosto dele estava coberto por uma máscara, não vi nada, eu juro Jason.

— Vamos até lá, agora. Hazel, você avisa os outros, vou levar o celular – Peguei a chave da moto no bolso e corri.

Me desesperei. Relaxamos porque não houve nenhum ataque e esse desgraçado aproveitou. Depois de anos consegui me resolver com a Adina, mas a Allyson... meu Deus, nada podia acontecer com a Allyson, ela virou meu mundo de cabeça pra baixo, e essa sensação me tornou vivo. Eu não ia deixar aquela garota se machucar.

P.O.V. Allyson

Acordei com dor de cabeça, com uma dificuldade imensa de focar o que eu via. Mas conseguia notar que era um porão velho e antigo, parecia abandonado e fedia. Me colocaram em uma camisola de pano e comecei a ficar desesperada e com claustrofobia. Tinha vários canos no teto e o barulho de água pingando no chão me deixava irritada.

— Quem está aí? – Ouvi uma voz familiar gritar e meu corpo gelou – Oi? – Não, não pode ser, estou ficando louca. Completamente louca – Pode vir aqui, por favor? Estou com fome.

Olhei pra todos os lados e notei uma grade no canto, a porta do mesmo material estava aberta e eu rastejei até lá, com medo de estar ouvindo coisas. A voz estava abafada, não tinha como ser quem eu estava pensando.

Mas arfei quando os cabelos loiros entraram no meu campo de visão. Ele estava deitado de costas, mas eu o reconheceria em qualquer lugar, de qualquer ângulo. Jake se virou e sorriu aliviado.

— Ah, graças a Deus, você tá viva.

Eu tô viva?! Você tá vivo! — Gritei e arrastei meu corpo pelo chão o mais rápido que conseguia até ele – Mas como? Eu vi você morrendo em meus braços, eu fui no seu enterro, eu chorei no seu túmulo!

— Eu não morri. Allyson, o que está acontecendo?

— Ai meu Deus, cala a boca — O puxei pelo colarinho do moletom e o abracei forte, sufocando a nós dois – Você tá vivo...

— Porque acha que eu morri?

— Porque você morreu! – Me afastei pra encarar seus olhos claros, e quando percebi o que estava prestes a acontecer, chorei abraçando Jake de novo.

— Fui sequestrado na escola, passei meses aqui, quer dizer, foram meses? Fiquei com tanto medo, pensando se tinham pego você.

— Não me pegaram.

— Ah, Allyson, que saudade.

— Ainda não acredito, mas como... Você morreu no meu colo, Jake.

— Devem ter usado truque da mente, um muito forte, sobre todos naquela escola, os médicos e... sei lá.

— O que sabe sobre isso?

— Muito, estive tentando te proteger por algum tempo.

— Eu tô em choque, eu...

Ri, nervosa e me afastei, notando de repente que tinha algo grudado no braço dele, mas não me importei, não me importei com mais nada. Fiquei deitada, encarando ele com os olhos fixos, observando cada músculo, cada traço de seu rosto, me permitindo sentir saudade. Até que por fim, conclui: A abstinência de alguém é o pior efeito colateral que podemos ter. Ver Jake acendeu alguma coisa dentro de mim, uma parte do meu coração que tinha morrido ressuscitou junto com ele.

— Se a Clove não te matou, quem fez isso com você?

— Como assim você ainda não sabe?

— Jake, quem é o Mestre?

— Ally, é o...

P.O.V. Jason

— Você tem certeza que foi aqui? — Pergunto ao Adam.

— Certeza eu não tenho, só vi o carro vindo nessa direção.

Passamos pelo mesmo corredor de novo, eu já estava começando a achar estranho. A usina estava sem nenhuma segurança na cerca, entramos fácil demais, mas eu precisava encontrar a Allyson e tirar ela daqui. O cheiro daquele lugar estava me enjoando, imagina pra ela que era fresca um pouco demais.

Ri com o pensamento até escutar um barulho suspeito e me virar pra ver o que era.

— Jason, acho que estamos totalmente ferrados – Adam diz e sinto uma pancada forte na cabeça.

P.O.V. Allyson

— Ally, é o...

— Qual é, já vai me entregar assim de cara? – Ouço uma voz e nós dois nos viramos ao mesmo tempo.

Adam estava de pé na porta com os braços cruzados sobre o peito. Ele tinha um sorriso assustador no rosto e eu fiquei de boca aberta. Adam?

— Eu deveria ter deixado os dois bem separados, mas já estava na hora de meu plano andar.

— É você? Você era o mestre esse tempo todo? – Pergunto com voz de choro e ajoelho ainda sem acreditar – Como pôde fazer isso comigo?

Como pude?! Me poupe, Allyson.

— Porque? O que eu te fiz?

— Você roubou tudo o que era pra ser meu só por ter nascido!

Adam se aproxima um pouco e eu caio de medo. Ele me puxa pelo braço até a porta do porão.

—Baby! Solte ela, Adam!

— Você é tão trouxa, Jake. Allyson tá em outra agora, dando uns amassos no Jason, o caído.

— Jason? – Jake pergunta, horrorizado.

— Achei que estivesse morto – Supliquei chorando e Adam me puxou de novo até uma sala branca, fui arrastada na verdade.

Parecia com a sala no centro de treinamento do Peter, com poucas coisas dentro, mais sujo e mofado. O fundo da sala se estendia com algumas obras de artes bizarras, duas janelas grandes cobertas e poeira, e pude notar Jason atado à um cadeira, bem ali. Ele suava e parecia um pouco machucado. Ele me viu e tive vontade de chorar de novo.

— Adam, você achou ela, graças a Deus – Disse e abaixei a cabeça – Agora me tire daqui e vamos sair desse lugar.

Adam riu.

— Eu confiei em você – Sussurrei quando ele me prendeu em uma cadeira de dentista – Te contei tudo.

— É uma pena.

— Mentiu pra mim durante todos esses anos?

— Só nos últimos três. Ah, vocês caíram tão direitinho que comecei a ficar desconfiado. Primeiro colocar na cabeça do Peter que ele precisava entrar em contato com você, fingir que Clove matou o Jake pra você ficar tão desolada e querer vingança. David tão apaixonado a ponto de fazer tudo pra te ajudar, foi só eu falar sobre um procedimento e pronto, os dois faziam tudo por mim, até fingir que ele era o mestre pra despistar. Você indo ao Peter pra libertar Adina da maldição e se tornar nephilim de verdade pra aguentar o soro que logo vou colocar em você. Me fazer de coitado. Tudo. Vocês são tão burros.

— O que está acontecendo?! – Jason gritou, tentando se soltar.

— Ah é, sem falar de que soltando Adina, ela estaria louca de saudades do Jason e ele perderia as asas.

— Adam, não faz isso – Eu queria pegar sua mão, mas não conseguia. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Não conseguia gritar.

— Também é uma pena não ensinarem sobre o mito de Ártemis e Actéon na escola. Bom, Ártemis era uma deusa, e Actéon era um caçador que viu Ártemis tomando banho nua. Ah, e você sabe que Ártemis odeia homens, ela não ficou nada feliz com isso. Aliás, ela ficou tão irada que transformou Actéon em um cervo, os cães dele ficaram ouriçados, e ele foi devorado pelos próprios cães de caça.

Adam pega uma seringa em cima de uma mesa pequena de metal ao seu lado e testa ela, soltando uma pouco de um líquido verde no chão.

— O que tá fazendo?

— Eu não vou te transformar em um cervo – Ele ri e se aproxima bem perto do meu rosto – Mas você vai ficar totalmente irreconhecível para os seus amigos, e eles para você. Ah, Ally, você nem vai saber contra quem está lutando, ou matando.

— Adam, não! – O brilho metálico da ponta da seringa chega até a veia em meu braço – Para com isso, Adam! – Mas eu já estava fechando os olhos e perdendo as forças, sentindo meu corpo se virar contra minha mente – Jason! Vai embora daqui, antes que eu mate você, não quero isso, me perdoa. Dá um jeito de... sair... daqui.