Flor da meia-noite

16 XVI – Baile de mascaras é sempre uma boa ideia para expor alguem


O cimento estava frio sob meus pés descalços enquanto eu me apoiava na grade da varanda, mas não queria entrar. Enrolei várias vezes a barra da minha camisola de manga comprida no dedo e fique olhando pra lua. Era crescente, como na noite do meu aniversário, quando tudo começou a mudar. Tentei me lembrar de todas a sensações que tinha antes disso, de como eu era, de como meus amigos eram, de como a escola era. Comecei a me sentir normal demais e percebi que odiei essa sensação, aquela não era eu, a Allyson de antes sentiria vergonha da Allyson de hoje.

Percebi de repente que me tornei Adina de verdade assim que aceitei o meu destino. Allyson é fraca, cética, boba e hipócrita, mas se importava com os sentimentos. Adina é guerreira e decidida, e eu tinha que aprender a conviver com as duas.

Jason trouxe o caos pra minha vida, com aqueles olhos escuros e penetrantes que diziam que nada podia entrar no seu caminho, e era verdade. Jason Benacci é invencível, inquestionável, insubstituível e... lindo.

Descobri a verdade de tudo, dos meus sentimentos, como se me entregassem óculos limpos.

— Eu o amo.

Disse em voz alta, tentando fazer com que aquela afirmação parecesse ridícula, mas era a pura verdade. Eu amava Jason Benacci. E entendi plenamente o que ele queria dizer com amor verdadeiro, é a coisa mais poderosa do universo. Podia destruir reinos, ou criar reinos, podia amaldiçoar e curar.

A janela atrás de mim se abriu e eu me virei, esperando ver a Clove, que deixei dormindo na cama de baixo. Mas era a Hazel.

— Ei – Ela diz baixinho e fica ao meu lado, observando a lua também – Amanhã vai ser um grande dia.

— É – Suspiro e me viro de frente pra minha anjo de luz – Não sei se tô pronta pra isso.

— Você, Adi, tá pronta até pro fim do mundo.

— Não deixo de pensar que esse é o fim do mundo. É tudo tão surreal, a Clove ter matado o Jake, o Jason... – Quase começo a chorar de novo – Quer dizer, porque se afastar?

— É complicado, mas a Clove, você confia nela?

— Não foi culpa dela, Hazel.

— Eu sei, fico pensando que se você não tivesse conseguido, todos estaríamos perdidos agora. Não podemos deixa-la ir à polícia.

— Ainda bem que dormiu, nunca a vi tão arrasada.

— Contei ao Zack.

— O que? Porque?

— Ele viu meus olhos.

— Ai meu Deus, sinto falta de me preocupar com as provas – Suspiro olhando pro céu e sinto vontade de chorar. Muito bom, Allyson.

— Foram bons tempos, me sentir humana, amar.

— Zack vai estar te esperando.

— Não sei, ele ficou tão perturbado.

— Eu quero dormir! – Clove resmunga e eu rio voltando pro quarto, encontrando ela sentada no colchão – Olha só pra gente, estamos juntas de novo.

— Com o pequeno detalhe de que a Adi pode morrer amanhã – Hazel diz mexendo na barra da camiseta.

— Positividade, gente, vamos conseguir.

— Preciso me entregar.

— Clove, volte a dormir.

— Não, eu cometi um assassinato, não dá pra encostar a cabeça no travesseiro e esquecer de tudo.

— Certeza que não se lembra de mais nada?

— Não, não sei quem fez isso comigo, só me lembro da sensação da... faca na minha mão. Ally, me desculpe, por favor.

— Não foi sua culpa, vamos pegar o David amanhã no baile de máscaras da Lissa.

♕♕

Meu vestido estava pronto e esticado na cama, Hazel deixou tudo nos mínimos detalhes pra noite ser perfeita em sem furos no plano. Jason havia destruído qualquer prova contra a Clove e usou um pouco de Persuasão nos policiais pra esquecerem do caso por um tempo, mas a gente sabia que de um jeito ou de outro, precisavam de assassino.

A tiara de flores estava ao lado do vestido junto com a máscara dourada, era tudo magnífico, tudo ao estilo de Allyson Hale. eu estava enjoada por ter que fazer aquilo, enjoada por ter que fazer aquilo sem o Jason do meu lado, enjoada de toda aquela situação que eu fui me meter. Mas ao mesmo tempo sentia que precisava fazer aquilo, precisava agir logo ou mais coisas ruins aconteceriam, eu precisava de um prato bem cheio de vingança.

Me vesti com o maior desânimo possível, há algumas semanas, essa festa era tudo o que eu esperava, mas agora eu tinha um pressentimento ruim, muito ruim. Alguma coisa ia acontecer.

— Ally, está pronta? – Meu pai entrou pela porta, me virei e sorri passando as mãos pelo tecido branco e delicado.

— O que achou?

— Tá linda, muito, muito linda.

— Obrigada, pai.

— Vem, eu te deixo lá.

A: Estamos saindo, encontro vocês lá dentro.

Mando a mensagem e devolvo o celular pra bolsa. Pego a máscara, a tiara e desço as escadas com meu pai. Vamos lá, garota, foco.

A decoração parecia ter saído de um conto de fadas, toda a casa foi reorganizada e transformada em um palácio do século XVIII, acho que por isso logo me senti no meu habitat natural. Vamos lá, Allyson, agora é com você, rainha do baile.

Reconheci todas as pessoas da escola, algumas calouras ficavam na porta pegando os casacos. Era incrível o quanto as pessoas se humilhavam pra aparecer em festas de veteranos. Acho que agora é uma boa hora de voltar a ser predadora. Ah, é a hora perfeita.

— Ally, você veio! – Lissa correu até mim e me deu um beijo na bochecha — O que achou da decoração?

— Nada parecido com as festas que eu ia em... – Merda — Quer dizer, tá tudo lindo, foi mal por não ajudar.

— Ah, tudo bem, vem beber alguma coisa – Ela me puxou pela mão e logo encontrei Clove e Hazel perto das mesas dos ponches e sorri – Estão se falando de novo?

— Sim – Sorri mais uma vez e me afastei. Ah, que menina sufocante. Cale a boca, Adi – E então?

— David é o que está com o terno preto parecendo o Drácula, ele nunca corta o cabelo? – Clove franziu as sobrancelhas e apontou pra escada, onde David estava sentado e encarando as pessoas.

— E notou alguma coisa?

— A mesma esquisitice de sempre.

— Hazel? – Perguntei colocando a máscara me preparando para o ataque, mas ela estava distante em pensamentos, olhando pro Zack do outro lado da sala – Ei, vai até lá.

— Oi, o que disse?

— Vou estar segura, tenho o Jason, e eu grito se precisar de alguma coisa, vai até ele.

— Você acha?

— Tenho certeza – Ajeito a tiara e caminho a passos firmes em direção à morte certa. Caramba, pare de pensar em morte. Adina, você é insuportável – Me concede essa dança?

— Allyson? Allyson Hale quer dançar comigo? – David se atrapalhou nas palavras quando se levantou e me olhou nos olhos. Os dele estavam escuros por causa da luz, e sua máscara não ajudava muito.

— A música acabou de começar, vem.

— Não vai chamar seu anjo da guarda?

— O que sabe sobre mim?

— O que todos sabem – Ele sorriu e passou o braço pela minha cintura e me puxou mais pra perto. Meu corpo emanava medo e nervosismo. É, eu percebi.

— Não, você sabe mais.

— Só que é a nephilim mais poderosa da Terra.

— E o que você é?

— Apenas um humano comum apaixonado por simbologia e misticismo.

— O que quer de mim?

— Essa na verdade é uma pergunta interessante, Allyson – David abaixa a cabeça para o meu decote e eu pigarreio – O que todos os caras de Lincoln High querem com a rainha do baile?

— De novo, você quer mais.

Engoli em seco quando encarei seus olhos, estavam claros, como os da Clove. Ou ele não era o mestre, ou isso era uma característica dele e ele como um psicopata nato, queria que todos se parecessem com ele. Mas quando salvei Clove, sua alma estava fora de ordem. O puxei pela mão até o jardim e me concentrei, eu nunca conseguiria olhar a dele com todas aquelas pessoas e volta. Fechei os olhos e quando os abri de novo estava certa, David Barney não era o mestre, era só mais uma vítima.

— Quem fez isso com você?

— Eu não vou falar.

— Pessoas vão morrer.

— Acha que eu ligo? Tudo o que eu queria era que você me notasse, e isso aconteceu.

— Eu sempre te notei.

— Você sempre cruzou comigo, mas nunca me viu de verdade!

— Ok, David, eu não queria partir pra violência, mas isso é um mal necessário. Pode doer – Violência? Me poupe. Adi, pode fazer o seu trabalho. Hora do show.

Coloquei os dedos na sua cabeça como fiz na Clove e fechei os olhos. A energia passou por mim e tive um surto de poder. Senti meus dedos eletrizarem ao toque e reorganizei todos os seus pensamentos, mas quando o fiz, tinha uma parte que não se deixava ser tocada. David era mais resistente que a Clove, talvez por ter mais informações. Havia uma parte em suas lembranças em que só havia eu. Ele tinha me encarado por muito tempo, e eu só o desprezava. Quando eu me tornei essa pessoa tão superficial? Eu não precisava disso.

Quase caí derrotada na grama, mas ele me segurou a tempo.

— Ai meu Deus, Allyson, você é louca ou o que?

— Deu certo?

— Não sei quem ele é, toda vez que tento me lembrar a minha cabeça dói.

— Não consegui acessar essa parte – Suspirei e passei as mãos pelo cabelo. Esse salto estava me matando.

— Eu vou ajudar você – David disse pegando uma das minhas mãos.

— Porquê?

— Sinto que preciso.

— Me desculpe – Qual é, se desculpando porquê? Tiro a máscara e bufo.

— É você mesmo – Ele ri – Eu dancei com Allyson Hale.

♕♕

Finalmente encontrei Jason no colégio no dia seguinte. Eu ia correr para confronta-lo, mas David surgiu no meu campo de visão.

— Hey, vamos almoçar juntos?

— Tá, claro, eu só tenho que resolver uma coisa e já falo com você.

Jason tinha acabado de fechar o armário e colocou o celular no bolso da calça jeans. Dei mais dois passos na sua direção, mas aí foi a Clove quem me atrapalhou.

— Temos muitos assuntos da formatura pra cuidar, ainda preciso da sua foto do anuário. Ah, e temos jogo na semana que vem.

— Passo lá depois.

Dei mais alguns passos, decidida a encerrar a distância entre nós antes que ele se afastasse mais um pouco do armário.

— Zack e eu estamos bem – Hazel começa a andar do meu lado e eu bufo – Achei que ia ficar mais feliz.

— Não é isso, foi mal gente, é que preciso mesmo fazer uma coisa.

Jason entrou em um corredor e eu praticamente corri pra conseguir alcança-lo antes que ele virasse de novo e eu o perdesse de vista. Mas a cena que vi me tirou o ar. Eve, a diurna que sobrou estava com as mãos nos dois ombros do meu Jason. Ela tinha se aproximado um pouco demais e odiei quando ele deixou.

— Tem que contar logo pra ela – Agucei meus ouvidos pra entender do que ela falava – Não pode se esconder pra sempre.

— Não sei como fazer isso.

— Só conta.

— Contar o que? – Digo em alto e bom som e cruzo os braços me aproximando – Me contar porque não atende meus telefonemas? Me contar porque está conversando com uma vampira? Ou me contar o por que de não ter me dado nenhum apoio ontem?

— Allyson...

— Eu sou a Adina! A sua Adina! O que tá acontecendo?

— Ele não é mais seu anjo da guarda, Flor.

— Tira essa piranha daqui antes que eu dê na cara dela – Sussurro tentando controlar minha raiva. Como Jason não era mais meu anjo da guarda?

— Eve, vai — Ele disse olhando pro chão – Flor... você sabe de toda a maldição. Mas, teve um detalhe que não te contei.

— Ah, eu adoraria saber.

— Perdi minhas asas assim que me apaixonei por você, e aí me deram uma segunda chance agora, virei seu anjo da guarda e eles me deram elas de volta, mas...

— Mas o que, Jason? Me explique.

— Eles tomaram elas de mim de novo assim que você me beijou.

— Não – Dou um passo pra trás e coloco as mãos na boca – Não, o que eu fiz?

— Não foi culpa sua, não me segurei.

— Se você não é meu anjo da guarda, então... ai meu Deus, eu não quero nem ver.

— Olha pra mim.

— Não – Cruzo os braços e tento segurar as lágrimas – Não quero.

— Adina! – Ele grita com uma voz grossa e eu levanto a cabeça.

Seus olhos estão vermelho sangue e ele tem a feição de quem pretende me atacar a qualquer momento. Jason era um caído agora. E eu tinha causado isso.