Flor da meia-noite

10 X – Quase uma rainha


Notas iniciais
OPA, TUDO BOM?

“Como no meu sonho, eu estava observando a cena. Meus olhos demoraram pra se acostumar com a escuridão do cômodo até eu perceber que algumas velas estavam acesas. Eu estava em um quarto enorme, três ou quatro vezes maior que o meu, havia uma cama de dossel muito grande, em tons de branco, dourando e rosa, com longas cortinas de sena branca. Há uma escrivaninha da madeira escura ao lado da cama com vários livros empilhados e papéis espalhados. Uma porta do outro lado que eu imagino ser um closet, e outra, o banheiro. O quarto todo é forrado com um tapete fofo, assim, percebo que estou descalça.

Uma menina surge no meu campo de visão, lendo algo ao pé da cama, com um vestido cor de marfim, vestido não, ao que parece é um camisola, e vai até os pés, seus cabelos escuros estão presos em um coque bem feito, mas ainda assim folgado e despojado. Seu rosto não é muito diferente do meu, consigo reconhecer alguns traços, como se fizéssemos parte da mesma família, mas os olhos... os olhos são completamente iguais. Ela é linda.

Alguém bate na porta e ambas nos assustamos, mas um sorriso surge nos lábios da menina e ela corre graciosamente até a porta, segurando parte da borda da camisola.

General Benacci — Ela diz radiante.

Alteza.

Receio que seu turno de trabalho não tenha se estendido até essa hora da noite.

Vim checar como minha futura rainha estava, precisa de mim?

Sempre preciso de ti A menina puxa um homem pela gola até o quarto e tranca a porta atrás de si. Percebo então que o homem se trata de Jason, ele está com um uniforme oficial antigo, perfeitamente passado, e os cabelos negros jogados para o lado.

Nunca fomos bons em sermos formais, Ames Jason sorri e beija a mão da menina, que começo a me convencer que talvez possa ser eu, uma eu mais antiga, em uma outra época, assim como ele me explicou.

Amo quando me chama de Ames.

E me ama também?

Sim, é claro que sim, com todas as forças de meu corpo.

Como está se sentindo para a cerimônia de amanhã?

Ah, sinto como se meu coração fosse sair pela boca a qualquer minuto Ames puxa Jason pela mão até a cama e os dois se sentam Estou muito apreensiva, e nervosa, e...

Estarei ao seu lado.

Você sempre está.

Não é todo dia que se faz dezoito anos, Amelia.

Me causa indignação que eu esteja prometida àquele patife convencido do Oliver, meu pai insiste que fazer um casamento para juntar os reinos é a melhor opção.

Seu pai é um rei sábio.

Ah, se ele soubesse de nós...

Por favor, não insista em contar, vamos achar uma saída.

Podemos fugir.

Você é a princesa de Tarsus, não seria uma tarefa fácil.

Mas poderíamos tentar A menina parecia suplicar, agarrada a jaqueta daquele outro Jason, quase prestes a chorar.

Amanhã tudo vai mudar, confie em mim. O que precisa saber agora é que eu te amo, e que a protegeria com a minha vida se fosse possível.

Você tem andado estranho a semana toda, há algo de errado que não quer me contar?

Não há nada de errado, Alteza, tente dormir.

Não consigo sem você ao meu lado. E Jason...

Sim?

Quero que passe a noite comigo amanhã, quero ser sua, não suporto mais esperar.

Eu prometo, Ames — Jason a abraça e a menina pousa a cabeça em seu peito — Tudo vai mudar.

Como se eu tivesse dormido e acordado no outro dia, me vejo sentada em um banco de igreja, com um vestido longo branco, parecia ser de uma seda muito delicada e simples, e de novo, estou descalça. Ninguém parece me notar, estão todos sentados, absortos pela imagem de Amelia em um deslumbrante vestido dourado, cheio de camadas e um decote que me deixou com inveja, tanto atrás, como na frente.

Ela estava sorrindo, parecia radiante e feliz enquanto entrava na igreja e falava com todos, logo se ajoelhou diante de um bispo e pude notar a riqueza da situação. Um homem quase velho, com barba bem feita, embora branca, e uma mulher linda de cabelos escuros estavam do seu lado direito. Jason estava do seu lado esquerdo, com um olhar sério e quase preocupado, mas atrás de toda essa formalidade, eu podia ver o brilho em seus olhos, e o medo.

Hoje, Amelia Bennet atinge sua maioridade, e com ela, a coroa O homem velho começa a falar e eu imagino ser seu pai Estamos muito felizes por poder comemorar esse momento tão especial com o povo de Tarsus, é com imensa alegria que...

Seu discurso é interrompido quando a princesa tosse, respingando sangue no altar.

Querida? Está tudo bem?

Jason corre ao encontro da menina e eu aproveito pra me aproximar da cena. O rosto dela agora começa a ficar roxo enquanto ela aperta o peito desesperadamente, tentando tirar a dor que eu suponho que não vá passar.

Jason... Ela sussurra quando cai em seus braços Quando você disse que tudo ia mudar...

Me perdoe, Ames, me perdoe.

Alguém chame o médico! Minha filha está tendo um ataque cardíaco!

Vou te achar de novo — Jason sussurrou no ouvido dela enquanto acariciava seus cabelos — Sempre vou te encontrar.

Eu... Eu... Ela tossiu de novo, e o sangue manchou um pedaço de seu vestido perfeito Eu amo... E então o pior, os olhos paralisaram em algum canto do rosto de Jason e ficaram assim por um tempo até todos perceberem que tudo tinha acabado ali. Senti um remorso, e um gosto ruim na garganta, como se quisesse vomitar, e quando quase fiz isso, a escuridão me tomou de novo, me levando pra outra época.

Dessa vez eu estava em um cais, tinha fumaça por todo lado e dessa vez já sabia o que procurar. A achei sentada no chão, escondida dos homens suados que passavam por ali. Seu rosto estava sujo, mas isso não abalava sua determinação e confiança, ela parecia centrada em um único objetivo, seus olhos azuis diziam que nada poderia aparecer no seu caminho.

É o que estou dizendo meu caro, algumas moedas não vão pagar esse estrago Ouço a voz de Jason e me viro.

Claro, Senhor, verei o que posso fazer.

Ótimo, obrigada Ean, não sei o que faria sem você meu amigo.

Como na última lembrança, ele permaneceu o mesmo, enquanto minha outra eu tinha cabelos negros como a noite. Eu a vi se levantando de onde estava, consideravelmente longe, e andar a passos firmes. Um homem gordo nojento sujo de graxa a parou, começando a fazer gracinhas. Me parece que Jason ouviu, pois tirou as mãos da calça e se virou, arfando quando viu de quem se tratava, então logo correu até lá.

Ei, pare de incomodar a moça, está bem? Ela tá comigo.

Ok, Benacci, odeio quando rouba todas as meretrizes para você.

Não seja tão duro, Robert, agora vá trabalhar O homem sai e ele segura a menina pelos braços Tudo bem com você? Quantos anos tem? Qual seu nome?

Não pense que direi meu nome pra você.

Parece que ela é bem chatinha nessa vida, hein, Jason Hazel aparece com um vestido pomposo azul e um leque na mão Me diga, criança, o que acha de um belo banho e um quarto limpo?

Quem são vocês? O que querem comigo?

Preciso do seu nome Jason insiste.

Porque eu deveria confiar em você? É como todos os outros, não estou à venda.

Lhe garanto que não, senhorita Ele sorri, e as covinhas aparecem, deixando seu sorriso ainda mais bonito.

Queremos ajudar Hazel diz estendendo a mão. Ela olha desconfiada para os dois e depois relaxa os ombros.

Meu nome é Aura, tenho dezesseis anos.

Ótimo, terá muito tempo dessa vez, Jason, não desperdice Hazel cantarola guiando-os pelo caminho.

Encantado Ele diz beijando a mão de Aura, logo depois ela faz uma reverência desajeitada.”

Reviro os olhos quando os cantos de minha visão ficam escuros e espero o solavanco de ser puxada para outra realidade, mas quando os abro, estou de volta ao jardim da minha casa, no século XXI, graças a Deus.

— Porque fez isso? – Digo tirando a mão de seu rosto com certa grosseria.

— Porque você precisava ver.

— Pra que?! Quer que eu me apaixone por você? O quer que eu pense? Como quer que eu me sinta, Jason?!

— Não, não é por causa disso.

— Eu vou atrás do Peter, não vai me impedir.

— Sei que está magoada, todos sabemos, mas se vingar de quem quer que tenha feito isso não trará Jake de volta.

— Não se trata de vingança – Me afasto prestando atenção nas árvores e tentando controlar a respiração.

— Então do que se trata?

— Não posso ficar lamentando a morte dele, ele sofreu, nos meus braços! E chamou a Clove ao invés de mim, mas sabe o que ele disse no fim? Eu te amo. E eu não disse de volta porque prometi que aquele não seria um adeus, e tô disposta a cumprir essa promessa.

— Tudo bem, mas olha pra mim. Allyson, olha pra mim – Relutante me virei em sua direção e abracei as pernas, notando de repente que o sol começava a se pôr – O que você notou de igual nessas duas lembranças e no que você é hoje?

— Meus olhos, eles são iguais, completamente iguais.

— Eles são a sua essência, se você ir atrás do Peter, ele vai deixa-los verdes, você vai ser um experimento. Ele vai roubar sua identidade e tudo o que você é, vai roubar você de você mesma.

— Isso é verdade?

—Eu não mentiria pra você, Flor – Fecho os olhos, não querendo acreditar na força daquelas palavras, não queria deixar que elas me atingissem como estão me atingindo.

— O meu sonho, foi você quem o colocou na minha mente.

— Foi, eu precisava que você pensasse um pouco, que saísse do seu mundo de casa da Barbie por um tempo. Precisava que fosse Adina de novo.

— Serei obrigada a te desapontar, sou só Allyson, não todas essas garotas que te amaram antes de mim, nasci diferente dessa vez.

— E era só isso o que eu queria, não volte a ser Allyson Hale só porque as pessoas não têm o que falar, já disse – Jason se levanta e limpa os joelhos da calça jeans, me dá um beijo na testa e entra na casa, se despede de minha mãe e vai embora.

De repente sou tomada por uma saudade imensa e finalmente choro como deveria chorar pelo luto de Jake, independente do que aconteceu, eu o amava, tinha certeza disso como tinha certeza que o céu era azul no verão. Choro pelo arrependimento, e choro pelo seu corpo sem vida em algum lugar do cemitério de Ellicot City.

Eu mal consegui dormir naquela noite, continuava com aquela sensação de que algo grande estava pra acontecer, algo que mudaria tudo ao meu redor e traria consequências desastrosas. Pensar em como fui em todas as "vidas" antes dessa também me tirava o sono, em como quase fui rainha, e em como eu parecia suja e abandonada anos depois de toda aquela riqueza.

O que consequentemente me levou ao Jason, e a forma como ele pareceu me encontrar e me amar em todas elas, mesmo que eu só tenha conhecimento de duas delas, não sei por quanto tempo isso se estendeu até chegar na situação de hoje. Mas uma coisa era certa, ele tinha me achado de novo, e se Hazel sempre esteve com ele, porque não apareceu com ela assim que o ensino médio começou? Seria tudo diferente?

Parecia que eu mal tinha fechado os olhos quando o despertador do celular tocou debaixo do meu travesseiro. Estava frio la fora, e tirei essa conclusão quando um vento gelado fez os pelos do meu braço se arrepiarem. Automaticamente soltei uma risada debochada, quando ele vai aprender a fechar a janela?

Me arrumei o mais lentamente possível, tentando fazer aquele dia durar um pouco mais, tentando faze-lo normal, mas tive que pegar minha touca correndo quando percebi que ja estava atrasada. Quando cheguei no andar de baixo encontrei apenas meu pai lendo o jornal e tomando café puro. Espiei a primeira página e lá estava a foto de mais um adolescente morto daquele mesmo jeito. Estremeci e tentei soar normal.

— Cadê a mamãe?

— Saiu mais cedo, sabe como é a semana de provas.

— É mesmo, é que tem acontecido tanta coisa que mal prestei atenção na normalidade em si – Coloco o leite pra esquentar enquanto pego o capuccino em pó no armário.

— Eu imagino – Ele fecha o jornal com um sorriso mínimo e toma mais um gole da caneca – Como está?

— Melhor – Suspiro e me apoio na bancada, me sentindo culpada por não ter sido muito sincera quanto ao que realmente está acontecendo, como a noite na Vic — Bem melhor, pai.

— Fico aliviado. Sabe Ally... – Ele sorri – Estive pensando que faz um tempão que não jantamos, então como sua mãe vai trabalhar até tarde...

Antes mesmo de o meu pai terminar a frase coloco a mão atrás das costas e ele faz o mesmo.

— Um, dois, três! – Digo e revelo minha mão imitando uma tesoura enquanto ele mostra a dele aberta como papel – Rá! Ganhei, escolho comida mexicana.

O microondas apita e eu despejo o leite na garrafa térmica, misturando o capuccino. Fecho bem, pego a mochila, as chaves do carro e mando um beijo pro meu pai por cima do ombro, ele pisca um olho enquanto sigo apressada pela porta.

— Te espero pro jantar!

Consigo notar a agitação do pessoal assim que estaciono o carro na vaga de sempre, alguma fofoca tá rolando, sempre, e é quente. Mas assim que saio do meu amado veículo, o que foi uma péssima ideia, percebo que é algo relacionado a mim, pra variar.

Encontrei a Hazel logo na entrada do prédio e ela tratou de me puxar pelo braço até a primeira sala vazia que encontrou. Jason já estava lá, encostado na parede e eu me senti desconfortável sem saber se encarava ou não seus olhos escuros.

— É a Clove, ela meio que voltou – Ele diz primeiro.

— E tá espalhando que Jake estava com ela nas duas semanas antes do ocorrido, sabe, daquele jeito.

— Então é verdade? – Acho a cadeira mais próxima e desabo cansada – Eu meio que estava esperando que não fosse. Mas aqui, porque essa preocupação toda de vocês? Como se algo ruim tipo caídos e tal tivesse acontecido?

— Jason e eu notamos uma vibração diferente, e nos seus pensamentos, é como se estivesse brigando por controle, ficou diferente desde que voltou dessa viagem repentina, não sabemos, é... diferente – Hazel comenta com cautela enquanto mexe na mão do esqueleto em cima da bancada principal.

— Mas espera aí – Me endireito na cadeira – Tá me dizendo que podem ouvir os pensamentos das pessoas?

— É primitivo – Jason se apressa logo em dizer se afastando da parede, mas continuo de boca aberta. Ele suspira e começa a andar em círculos – Não se preocupe com sua privacidade, não podemos até que seja estritamente necessário, meio que também precisamos de permissão, não entenderia como funciona. O importante é que não é uma habilidade em comum com os caídos.

— Ah, muito obrigada, estou aliviada – Deixo a ironia bem presente na minha voz e cruzo os braços – Tudo bem, já sei o que fazer.

— Sabe?

— Clove sempre quis uma coisa, e vou dar a ela exatamente o que ela quer, será como um teste, vai depender da reação.

— E o que ela quer?

— O trono de Lincoln High.