Flor da meia-noite

11 XI – Um adeus, A coroa e O Mestre


Notas iniciais
OPA, TUDO BOM? Esse tá um pouco pequeno porque dividi ele em dois, migos.

Meu coração parecia querer sair pela boca, por tantos motivos que eu até perdi a conta. Passei anos tentando construir uma imagem e agora estava prestes a desistir de tudo. E olhando para trás percebi o quanto aquela situação parecia banal, eu conseguiria não ser notada, conseguiria jogar vôlei apenas no ginásio público e conseguiria compreender melhor tudo isso melhor se estivesse com o Adam.

A encontrei sentada no nosso lugar de sempre perto das máquinas de refrigerante e me aproximei. Deu pra notar o quanto o clima estava tenso apesar de seus melhores esforços pra animar o grupo. Levando em consideração tudo o que aconteceu e o que estava acontecendo, era de se esperar que os nervos de todos estariam à flor da pele, era uma tpm constante. Tudo bem, eu não devia estar comparando isso.

— Olha só quem resolveu voltar de Aruba – Comentei cruzando os braços e ela se levantou.

— Olha só se não é a rainha viúva.

— Por favor, não envolva o Jake nisso.

— Sabe que isso não vai resolver nossos reais problemas, Ally – Hazel sussurra atrás de mim e percebo que ela se aproximou, junto com Jason e surpreendentemente Adam também.

— Novos servos? Surpreendente, Hale, nunca fica pra trás.

— Eu não quero discutir, Clove, sério, só tô passando pra avisar que eu cansei, cansei de ser o centro das atenções e o alvo de fofocas constantes. Então pode ficar com os meus restos porque eu tô fora.

Ouço alguns murmúrios e vejo pessoas assistindo a cena. Esse povo não tem mais o que fazer?

— Tá com raiva porque seu namorado preferiu a mim.

— É, vai ver ele morreu de herpes – Me arrependi na mesma hora que as palavras saíram da minha boca. Eu não queria desmerecer a morte do cara que amei na frente de toda aquela gente, mas nunca fui de baixar a guarda facilmente, e garanto que aquela não seria a primeira vez – Não quero mesmo brigar, então é isso, é a abelha rainha agora, obrigada – Faço uma reverência e levanto as mãos em sinal de rendição.

Caminho até minha sala com os três ao meu lado. Ou não já que Zack vinha logo atrás de Hazel, com Hanna nos seguindo com um olhar sapeca no rosto, Angel e Lind também vêm.

— E eu achando que hoje seria um dos dias bons – Bufo me sentando no lugar de sempre.

— A gente tá contigo Ally, somos seus amigos — Hann diz sorrindo.

— E eu vou pra onde essa mulher for, mesmo ela me chamando de humano toda hora, o que é muito estranho – Zack abraça Hazel e deposita um beijo em sua testa – Mas não se preocupe, também gosto de muito de você – Sorrio e balanço a cabeça, me sentindo um pouco mais aliviada – Sabe, sinto muita falta do meu melhor amigo, mas o bom da vida é que ela segue, e a gente vai com ela sem precisar esquecer os que foram importantes pra gente. Não acho que ele te trocaria pela Clove, tipo, eu mais do que ninguém sabia o quanto ele era louco por você, chegava a ser chato o quanto ele falava que você era especial, então...

— Obrigada Zack, de verdade.

Os meninos sorriem e se viram pra frente pra conversarem, Jason pega um livro na bolsa e começa a ler e solto um longo suspiro tentando não pensar muito no assunto de ontem.

— Porque fez isso? Você tinha tudo, você... é Allyson Hale – Adam questiona e eu me viro.

— Tá vendo só? Esse é o problema, é exatamente disso que eu tô falando. As pessoas sempre olharam pra mim e viam o que queriam ver, e sim, eu sei que dei muitos motivos pra isso, mas eu não sabia o que queria de verdade. O mito da Allyson Hale, mas é só isso, um mito, um nome não define uma pessoa, finalmente coloquei isso na minha cabeça do jeito certo. E quando eu vi o Jake morrendo nos meus braços, quando começamos a treinar juntos, que eu vi no que estava me tornando, percebi eu me sentia um robô.

— E aí você desiste de tudo? Pra que? Por que não mudar a forma de todo mundo pensar ao invés de jogar a merda no ventilador?

— Sabe que gosto do caos – Sorrio e tiro o caderno da bolsa e colocando na mesa.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Claro.

— Onde eu entro nisso tudo, Ally? Porque...

— Ah Adam, te conheço desde pequena, vi você virar de um pirralho que roubava minhas tiaras a um homem incrível. Você foi meu primeiro parceiro de aventuras inacreditáveis, não quero te perder de novo, então quero estar do seu lado quando eu fizer meu último ato de coragem.

— E qual seria?

Lhe jogo um sorrisinho que queria dizer encrenca e ele ri, concordando mesmo sem saber do que se trata.

— Talvez tudo fosse diferente se eu tivesse passado esse tempo todo andando com você, se eu tivesse me lembrado de verdade de você. Andei pensando muito nisso esses dias.

— Não é tarde demais.

— Na verdade é sim, eu morri por dentro, estou trabalhando em uma nova Allyson, ou uma antiga Allyson com interesses mais apropriados. E falei sério quando disse que você é meu irmão.

— Bom dia turma. O antigo professor teve um problema – Sinto alguém segurando meu braço com força, me virei e Hazel tinha um olhar assustado. Então encarei o professor e o sangue sumiu do meu rosto – Meu nome é Peter, Peter Blake, sou seu novo professor de história geral.

— Hoje definitivamente não é um dos dias bons — Jason murmura.

— Que gato – Um menina diz atrás de nós e eu me afundo na cadeira.

— Viu? Não me atrasei – Sorri sentando de frente pro meu pai no TacoPep — Tive que ficar na escola para um treino extra já que... – Calo a boca na hora me lembrando que não contei do incidente com a minha mão.

— Já que...

— Nada, como foi o trabalho? – Pego o cardápio e escolho meu de sempre.

— Não precisamos falar do trabalho.

— Sabe que é a área que eu quero seguir, pai, gosto de ficar conversando sobre essas coisas com você – Ele sorri, mas ainda assim é só a sombra de um sorriso – O que foi?

— Seus olhos, eles não estão os mesmos. Geralmente você sorria até com eles, mas agora... estão escuros, ainda tá doendo né?

Suspiro e bebo o refrigerante que acaba de chegar pra gente.

— É minha culpa.

— Ah Ally, não é não.

— É sim, pai, eles só foram atrás dele porque era importante pra mim, foram atrás da Zoe porque ela tinha conversado comigo e... é culpa minha, sinto como se eu tivesse cometido todos esses assassinatos, de noite eu sinto o sangue nas minhas mãos, é aterrorizante.

— Não precisa ficar se culpando, tudo vai passar. Às vezes, não se sente bem de novo até que haja uma espécie de contrapeso – O garçom chega com os nossos tacos e mesmo estando me sentido mal, nem espero e já dou uma mordida generosa.

— Tipo o que?

— Em vez de tirar uma vida, você salva uma, algo assim pode ajudar, mas talvez só por um momento, mas o verdadeiro conflito que está vivendo agora é consigo mesma, é entre sua cabeça e o seu coração. A sua cabeça sabe que o único erro que cometeu foi "sobreviver", mas seu coração ainda acha que foi tudo sua culpa, e que não vai sarar nunca. Então, eu acho que você precisa fazer os dois se entenderem, o melhor contrapeso são os seus amigos, sempre foi assim.

— Eu sinto que é mais do que a culpa, pai. Sinto como se... como se tivesse perdido algum detalhe importante, ele me tentou falar umas coisas mas eu nem me dei o trabalho de escutar, fui egoísta, e não consigo... recuperar.

— E não vai mesmo, mas recupera um pouco perdoando a si mesma, e isso nem sempre é a coisa mais fácil do mundo, então perdoe quem mereça perdão, porque só assim conseguimos seguir em frente.

— Alguém como a Clove.

— É, ela não sabe que o que está fazendo é errado, mas guardar essa mágoa vai corroer você por dentro.

— Conversar com você sempre me faz melhor.

— É um prazer ajudar, Majestade – Rio e terminamos de comer nossos tacos em uma conversa um pouco mais agradável, como tubos de ensaios, laboratórios e o vestibular pra faculdade da mamãe. Aqueles são os meus pais, independente não termos o mesmo dna, são eles que me amam de verdade.

— Pai, ahn... me encontra em casa mais tarde, pode ser? Preciso pegar umas anotações com a Hazel.

— Claro – Ele me dá um beijo no rosto e dá a partida no carro enquanto inspiro o ar profundamente e ajeito o casaco caminhando até o cemitério que ficava perto do restaurante, então dava pra ir a pé.

O cemitério de Ellicot estava com um ar macabro, como sempre. Estava vazio e eu me recusava a entrar lá sem uma companhia adequada. O letreiro dizia aquelas mesmas palavras desde que me lembro: "Do pó viemos e ao pó voltaremos". Escuto o barulho de uma moto se aproximando e me viro instintivamente, então noto que é o Jason.

— Oi, tudo bem? Trouxe o que você pediu – Ele diz tirando o capacete e pega algo de dentro da jaqueta, a rede do taco de lacrosse do Jake.

— Obrigada, de verdade.

— Então, Flor, o cemitério de noite não é bem o lugar que as pessoas gostem de visitar.

— Preciso fazer isso, vem comigo ou não?

— Vou até o fim do mundo — Sorrio e ligo a lanterna.

Demora um pouco pra me acostumar com o caminho fofo de terra, e me perco algumas vezes até finalmente encontrar a lápide com o seu nome. Não vim aqui desde o funeral e nem mesmo consegui encarar aquele dia, Jake merecia isso de mim, mais do qualquer coisa.

Pego a rede das mãos de Jason e fungo, pensando no que dizer.

— Oi... achei que gostaria mais disso do que de rosas – Tento sorrir e me abaixo para colocar a rede no chão perto de onde seu nome está escrito – Obrigada por ter tentado me falar alguma coisa, mesmo que não tenha conseguido, eu vou descobrir o que está acontecendo, e seu esforço não será em vão. Espero que esteja em lugar melhor que esse, e sei que deveria estar feliz com isso, mas sinto apenas que agora você realmente partiu. E que não há nada pra fazer agora além de... – Soluço sentindo as lágrimas chegando e Jason me abraça com força – Eu sinto muito a sua falta, e queria dizer que eu me perdoo Jake, que eu te perdoo, e eu perdoo a Clove. E acima de tudo, eu o deixo ir.

— É uma bela declaração – Ouço uma voz estranha e me afasto – Mas estão oferecendo uma recompensa muito boa pra te levar viva até o Mestre.

Alguém sai das sombras devagar, um homem com uma coluna que precisava urgente de um conserto pois andava mais torto que o corcunda de Notre Dame. Ele devia ter uns 35 anos e o rosto estava coberto por pelos. Quando abriu a boca me assustei com as presas afiadas que saíam de lá.

— Mas parece que trouxe seu anjo da guarda – Os dentes deixavam sua fala ainda mais desajeitada e eu senti nojo daquele ser horrendo – Vou embora hoje, mas saiba que os jogos começaram, Allyson Blake.

— Mas o que diabos era aquela coisa? – Grito quando saio do carro depois de estacionar na frente de casa. Jason desce da moto e me puxa mão até o meu quarto.

— Liga pra Hazel.

Ainda com as mãos tremendo, consigo achar o celular dentro da bolsa e disco os números que sei de cor.

— Ally, é você? – Meu pai diz do seu quarto e eu respiro fundo, tentando controlar a ansiedade na minha voz.

— Sim, Jason me acompanhou até aqui e Hazel já está a caminho – Não ouvi resposta e fiquei aliviada.

— Alô? – Hazel atende.

— Oi, graças a Deus, meio que preciso da minha anjinha de Luz.

— Chego em dez minutos.

— Ah, Hazel, qual é – Ouço alguém resmungando ao fundo e franzo as sobrancelhas.

— Calado, humano – Ela diz e se lembra de desligar o celular. Rio ainda sem entender nada e cruzo os braços.

— O que fazemos agora?

— Hazel tem mais conhecimento dessas coisas, então é melhor a gente esperar – Jason sorri e se joga sem nenhuma cerimônia na minha cama.

— Ótimo, sou muito boa nisso.

Automaticamente levo os dedos à boca e começo a roer as unhas, nervosa até demais com toda essa situação. Como se já não bastasse todas as coisas bizarras que me rondavam, o meu dia ficou bem mais sinistro que eu imaginei que seria.

Clove de repente decidiu que anos de amizade eram facilmente esquecidos por uma simples luta de "poder", então resolveu espalhar boatos sobre a fidelidade questionável do meu falecido namorado.

Peter parecia tão interessado na história americana que convenientemente se apaixonou pelo ensino e agora sua nova carreira consistia em lecionar, não esquecendo de colocar uma observação mental: Sua aluna favorita era eu.

Para terminar o desastre, uma criatura assustadora tinha surgido no meio da noite em um cemitério vazio (nada clichê) e anunciado que uma corrida pela minha cabeça tinha começado, o prêmio estava nas alturas.

E apesar disso tudo, a única pergunta que realmente importava aquela noite era: Quem é "O Mestre"?

— Tudo bem, já chega – Ouço Jason dizer e saio do meu transe – Tá sangrando.

— O que?

— Seus dedos – Abaixo meu olhar pra minha mão e percebo que a pele em volta das minhas unhas está quase em carne viva. Sinto um enjoo na hora e fecho os olhos com força, limpando os dedos na blusa.

— Odeio sangue.

— Isso é uma grande ironia.

— Pois é, acho que no outro dia no vestiário eu nem sabia o que estava fazendo.

— Você é forte, Ally, só precisa de algo que prove isso pra si mesma.

Me distraio de novo e encaro a janela, esperando o carro da Hazel chegar a qualquer momento, até que a porta do meu guarda-roupa é aberta e me viro na hora.

— Não toca aí.

— São coroas? – Ele pergunta sorrido enquanto tira uma da prateleira de dentro.

— Qual a parte do "não toca aí" você não entendeu? – Tomo minha coroa favorita de suas mãos e a guardo no lugar certo, ao lado das outras.

— Mas o que...

— São dos bailes, tá legal? Das vezes que fui rainha.

Jason inclina o pescoço pra olhar dentro do guarda-roupa e sorri.

— Mas tantas vezes assim?

— São dois bales por ano – Digo com vergonha por manter aquilo guardado e sento na cama. Dez minutos demoram tanto assim?

— Você merece uma coroa de verdade, com ouro e diamantes, aquelas são de plástico.

— Não estudo em um colégio interno junto com a realeza de Londres.

— Mas você já foi da realeza, nunca deixe alguém te tratar como menos que isso.

— Tudo bem, estranho. Posso te perguntar uma coisa?

— Mas é claro.

— Naquela época... gostavam de mim? Tipo, eu era uma princesa boa?

— Você era exatamente como é hoje, se importando até demais com a opinião dos outros – Jason sorri mostrando as covinhas e de repente a barra da minha camiseta parece bastante interessante – Seria uma ótima rainha, como Amelia ou Allyson.

Aquelas palavras me atingiram um pouco mais do que eu esperava, fui tomada pelo orgulho e um sorriso sincero apareceu no meu rosto, um que há muito tempo não aparecia por aqui. Tomei coragem para segurar a mão de Jason e tive aquela sensação boa de novo, de pertencer à outra época, uma época mais tranquila que eu iria gostar muito de viver, e aquilo me dava paz.

— É o elo?

— Sim.

— Você ainda tem muito a me contar.

— Eu sei.

A porta é aberta com força e uma Hazel de cabelo nada ajeitado entrou com tudo no quarto.

— Desculpe o atraso, qual a emergência? Ah, oi Jason.

— Ahn, amiga, espero que o batom manchado e o cabelo bagunçado seja por causa do voo muito turbulento até aqui.

— Ah, não, eu vim de carro – Hazel sorri e ajeita os fios até perceber do que se trata e parar na hora, com certa vergonha em nos encarar – Ok, talvez eu tenha me entregado um pouco demais aos prazeres da humanidade.

— Ai que horror, não quero nem pensar nisso – Jason diz fazendo careta.

— Tô contigo – Estendo a mão com o punho cerrado e ele faz o mesmo batendo no meu.

— Tá, e a emergência? O foco aqui não sou ou que Zack faz com as mãos.

— Hazel! – Reclamo, horrorizada, mas ela somente ri.

— Tinha um metamorfo no cemitério hoje – Jason reassume a postura séria de novo e eu suspiro não gostando nada dela – Parecia um lobisomem, mas não tenho certeza, podia ser um Jaguar.

— Lobisomens em Ellicot? Isso não é nada bom – Hazel também engata na expressão séria depois de arrumar o cabelo e limpar o batom, então a única voz da inexperiência sou eu – Acha que eles quebraram a barreira?

— Alguém de dentro quebrou pra eles, alguém que precise deles aqui.

— O cara esquisito mencionou um mestre – Os dois se viram pra me encarar e me encolho na poltrona.

— Isso, é mesmo, eu já estava esquecendo – Me endireito de novo e sorrio como alguém que acabou de solucionar um crime. Viram? Eu ajudei.

— Mas é preciso uma bruxa, não conheço nenhuma aqui – Hazel insiste e Jason pega o livro que Adam deixou em cima da minha escrivaninha pra eu ler depois, embora haja mais alguns que peguei no escritório da minha mãe. Percebendo agora, meu local de estudos parece mais um local de estratégia de guerra, quando fiz tudo isso?

— Pode ser que alguém atingiu a maioridade, alguém no meio das netas de Salém que vieram pra cá.

— É, faz sentido, mas... que alcateia que se atreveria a vir pra Ellicot?

— Alguma que ame recompensas gordas.

Wyckoff — Hazel adivinha e estende as mãos sobre a minha mesa (ou zona de guerra já que amei essa expressão), parecendo pensar em algo.

— Oi, tô boiando – Arrisco entrar na discussão e Jason vem até mim. Me encolho de novo.

— Quero que tire uma hora do seu tempo livre todo os dias, vamos estudar uma matéria extracurricular.

— Te ajudo – Hazel cruza os braços e sorri pra mim – Não vai ser uma tarefa fácil.

— Se o bando de Wyckoff está aqui, quer dizer que a porta tá aberta pra qualquer criatura desse mundo entrar em Ellicot.

— Eu corro perigo?

O olhar que recebo da Hazel me faz automaticamente desistir da resposta, e me arrepender da pergunta.

— Ah, querida, você está a velocidade da luz se levar e consideração a palavra "correr" na frase "correr perigo".

— Que animador – Tento sorrir mas parece mais uma expressão de dor – Só eu aqui acho que preciso aprender a lutar? Tipo, urgente.

— Por enquanto não, você tem a gente.

— E se eu estiver sozinha?

— Ah, eu estava louca pra chegar na parte — Hazel sorri graciosamente e se senta do meu lado – Você grita, e eu escuto onde estiver, até na China, e convenhamos, eu tenho asas.

— Eu sinto quando você tá em perigo, e também tenho asas – Jason completa cruzando os braços.

— Eu tenho os protetores mais convencidos do mundo. É sério, Deus? – Olho pra cima a procura de alguma resposta.

— Ah, e tem mais isso – Hazel fecha os olhos e uma cicatriz surge do seu pescoço até bochecha, é muito feia – Um lobo de Wyckoff fez isso em mim alguns anos atrás, ele encantou as presas e aí nunca mais saiu. Uso magia de luz pra esconder isso dos humanos, mas acho que posso me desarmar pra você.

— Ah, Hazel, eu sinto muito.

— Tudo bem, somos um time, e vamos passar por isso juntos, como sempre fizemos – Sorrio com a frase da Hazel e ganho uma dose de coragem vinda pela minha melhor amiga. Ela me abraça e de repente penso em algo.

— Porque quis ser minha amiga se...

— Ok, papo de bff, vou nessa, qualquer coisa é só me ligar, Allyson, tchau vocês – Dou um meio sorriso e reviro os olhos quando ele pula da janela.

— Ele nunca usa a porta?

— Não – Respondo rindo.

— Enfim, lembra aquela vez que você vomitou no trampolim? Era o começo do ensino médio e eu tinha acabado de me matricular na escola, as aulas iam começar no dia seguinte, me disseram que estava tendo um evento no lago e eu fui lá tentar encontrar você pra ficar de olho, na época era só isso, e eu já estava tão cheia dessa vida. Mas aí eu te vi, você preparou o salto e vomitou no ar.

— Acredite, eu me lembro – Começo a rir lembrando daquele dia e morro de vergonha.

— Bom, eu me lembro direitinho de como você ficou, você sabia que estava todo mundo olhando pra você. Chegou na borda, saiu da água e olhou pra gente, aí você limpou a boca e fez uma reverência. Eu fiquei chocada.

— Com meu vômito no trampolim? Eu estava morrendo de medo.

— Não, com a sua reverência, foi uma lição, tive certeza naquele momento que as coisas poderiam mudar mesmo, não só você nascer com habilidades especiais, mas aquela vida seria melhor. Aí eu descobri que queria ser sua amiga de verdade, que queria te conhecer de verdade. Uma semana depois eu te pedi pra fazer dupla comigo nas seletivas pro time da escola.

— Nossa, eu nunca soube disso.

— É porque eu nunca te contei – Sorrio e pouso a cabeça em seu ombro.

— Como tudo vai ser agora?

— Complicado, mas por mais difícil que seja, vou estar ao seu lado.

— Porque você é meu anjo de luz e está ligada a mim por uma corda invisível.

— Porque sou sua amiga.

— A única que me restou.

— Ah, não fala assim – Hazel encosta o ombro no meu e sorri.

Por um momento acho que vi algo prateado ao redor dela, como uma bambolê de sensações e sentimentos, mas quando pisco, tudo desaparece.

— O que foi? – Ela pergunta e eu me levanto.

— Nada, pensei em uma coisa, mas preciso de uma pilota de fuga caso meu plano dê errado.

Quando parei o carro na frente da casa da Clove, meu coração parecia à mil, eu me sentia enjoada antes mesmo de bater na porta e quase dei a volta pra ir embora, mas antes de sequer amadurecer a ideia, Hazel saiu do veículo e andou a passos firmes.

Toquei a campainha e por um milagre divino que pode ter salvado meu nariz, foi a senhora Farley quem abriu a porta. Seu imenso sorriso me fez querer voltar pro carro imediatamente. O que eu tô fazendo aqui?

— Allyson! Quanto tempo, entra, a Clove tá lá em cima.

— Obrigada Senhora Farley.

— Já combinamos que pode me chamar de Pâmela. E aí Hazel.

— E aí Pam!

Certo, Hazel tem muito intimidade que eu. Ou isso, ou ela é cara de pau ao extremo.

Seguimos pelo corredor sem fim até a última porta quando tive certeza que Pâmela correu para a cozinha fazer alguma coisa. Clove estava sentada na cama com os fones de ouvido e livros no colo.

— Mas que porr... – Ela começou a falar mas eu logo corri para o seu lado e tampei sua boca.

— Por favor, sem escândalo – Tentei sorri e quando ela revirou os olhos, eu relaxei.

— O que estão fazendo aqui? E caramba, essa menina te segue até no banheiro?

— No banheiro não – Hazel se defende e eu balanço a cabeça sem acreditar naquela situação e naquele papo.

— Preciso ver seus olhos — Sussurrei.

— Pra que? – Clove automaticamente recuou e xinguei baixo, puxando seu pescoço e examinando meticulosamente sua íris – Sai daqui, sua louca.

— Porque eles estão tão verdes? Mais intensos e mais claros.

— É uma... lente especial, agora dá o fora da minha casa, Allyson.

— Porque fez aquilo? – Hazel pergunta enquanto dirijo de volta pra casa.

— Jason comentou o que Peter ia fazer comigo, me roubar de mim mesma, e meus olhos iam mudar de cor.

— É, eu sei, mas acha que os dela estão diferentes?

— Estão brilhando mais, o verde tá mais forte, e você mesma falou que ela estava diferente.

— Pode ser, mas porque o Peter faria isso com ela?

— Talvez não seja o Peter que está fazendo isso, ele me tem na escola. Tem outra pessoa na jogada, esse tal de mestre.

— Acha que a Clove é alguma coisa?

— Hazel, eu não duvido de mais nada agora.