Flor da meia-noite

8 VIII – Sofrimento adora companhia


Notas iniciais
OPA, TUDO BOM?

Me vi correndo pelos corredores, desesperada. Tudo parecia estar em câmera lenta, meu mundo girava, e eu nem via as pessoas na minha frente. O vestiário masculino agora parecia longe demais, o que demorava apenas alguns minutos, pareceu uma eternidade, e quando cheguei, todos estavam aos gritos e uma rodinha se formou ao redor do meu namorado.

— Jake! – Gritei empurrando todo mundo – Alguém chama uma ambulância!

— Já chamamos – David me dá espaço.

Quando consigo focar no homem deitado à minha frente, o horror chega aos meus olhos. Jake está estirado, com as mãos ensanguentadas e enormes feridas nas costas, facas, ele foi esfaqueado milhares de vezes.

— Ally... ei, tá tudo bem – Começo a chorar e me sento colocando sua cabeça em meu colo.

— Os médicos já estão chegando, respira, eles vão tirar sua dor, eles vão...

— Não tá doendo.

— Não Jake, fica comigo, olha pra mim, fica comigo. Você vai ficar bem.

— Shhh – Uma lágrima solitária escapa de seus olhos e ele sorri, deixando um fio de sangue escorrer pela sua boca – Só preciso que você esteja a salvo.

— Eu vou ficar.

— Ok – Não consigo mais ouvir sua voz com clareza, seu rosto perde a cor e eu aperto sua mão como nunca apertei. A dor nos faz humanos. A dor nos faz humanos. Humanidade. Realidade. É isso.

— Não, Jake.

— Tá tudo bem – Ele fica com um pouco de dificuldade pra respirar e tosse mais sangue, manchando todo o meu vestido, mas não ligo, não ligo pra mais nada agora – Calma, eu tô com você agora, o amor da minha vida, está tudo bem.

— Não, por favor, não. Jake, por favor, não.

— Eu te amo.

— Isso não é um adeus!

— A Clove, você tem que achar a Clove e...

— Quem fez isso com você?

— Ache a Clove, e diga que...

— O que? Jake, o que?

— Peter.

— Peter? – Então, em um último suspiro, seus olhos perdem o brilho e a mão cai ao lado do corpo – Jake! Não ouse!

Escuto o som abafado de uma sirene de ambulância, passos pesados e rápidos. Dou um beijo na figura pálida deitada em meus braços e choro. Dois pares de mãos o puxam de mim e eu enterro a cabeça no meio das minhas pernas.

— Allyson – Escuto a voz da Hazel e me viro – Ele...?

— Sim – Balanço a cabeça e sinto seus braços ao meu redor.

— Eu... Eu sinto tanto, eu... meu Deus, o Jake, porque? Quem?

— Eu vou descobrir.

Eu não me lembro muito bem o que aconteceu depois daquilo, era como se minha mente estivesse anestesiada. A escola liberou a todos e fomos pra casa, estávamos todos chocados com o que tinha acontecido, todos queríamos entender. Jake foi morto a facadas, foi o que o médico legista disse, não consegui muitas informações dele, mas Jason me encontrou na saída e me contou o que realmente aconteceu, ele sempre parecia saber de tudo.

Mas eu não conseguia assimilar muita coisa do que ele tentava me dizer. Jake estava morto, ele havia sido o meu primeiro amor, não uma daquelas paixonites que tive no fundamental, eu o amava, de verdade, e não conseguia esquecer a visão se seu corpo perdendo a cor, esfriando lentamente em meus braços, seu sangue por toda a minha roupa, eu não conseguia esquecer. Era como se meu coração tivesse sido arrancado meu peito sem anestesia, a dor era sufocante.

Já em casa, meus pais saíram mais cedo do serviço e me fizeram companhia. Mamãe fez um chá e todos sentamos juntos no sofá, debaixo dos cobertores eles me davam força, diziam que tudo ia ficar bem, mas não estava bem, nunca ia ficar, e tudo era culpa minha, tudo culpa dessa maldição idiota, desse destino idiota.

Me peguei lembrando de como nos conhecemos, era o segundo ano e eu estava andando com as meninas pelo campo de lacrosse. Eu finalmente tinha conseguido me tornar a predadora que me propus a ser depois de um ano sentando um degrau abaixo de Clara Mason. Ele tinha gritado "Olha a bola", e eu levantei a cabeça a tempo de ver uma pequena bola de Lacrosse acertar em cheio a minha testa. Nunca entendi muito bem porque as pessoas nos mandavam olhar quando alguma coisa está vindo em nossa direção. Abaixe, cuidado, desvie, até mesmo atenção teriam funcionado. Fiquei caída de costas, segurando um livro junto ao peito observando o céu azul, e então um rosto familiar, cabelos loiros despenteados, olhos verdes um grande sorriso apareceram no meu campo de visão. Uma semana depois Jake e eu começamos a sair.

Mas o céu do enterro no dia seguinte parecia cinza, mórbido, como se tivesse cansado de sorrir e resolveu fazer uma pausa. É incrível como ele parece saber quando o dia está triste, e quisesse mostrar que também sentia muito. Sinto muito. Eu nunca tinha ouvido tanto essa expressão, ela tinha até tomado o lugar de Estranho no meu dicionário mental. Eu não conseguia encarar as pessoas direito, muito menos os pais de Jake, que não paravam de chorar sentados no seu lugar marcado dentro da igreja. Sinto muito, eu pensava em dizer, mas se eu estava morta por dentro por perder meu namorado, a Senhora Miller estava com certeza pior por perder seu único filho, e um simples sinto muito não fariam as coisas melhorarem.

Quando o padre começou a falar, eu queria morrer, aquelas conhecidas palavras de enterro me fizeram viajar até o dia que meu avô morreu, eu era pequena, mas me lembrei muito bem da sensação de se estar caindo, de perder meu refúgio, naquela época eu já sabia que era adotada, mas nunca senti que não dividia o mesmo dna com ele, éramos ligados de um modo especial. E aqui agora, eu sentia a mesma coisa, um elo se quebrando, uma corda dentro de mim dando seu último estalo, separando os fios que restaram e seguindo um rumo diferente.

— Allyson – Um homem se senta ao meu lado e eu aceno com a cabeça, cumprimentando um desconhecido pela milésima vez. Mas quando seus olhos azuis encontraram os meus, eu arfei.

— É o homem do meu sonho.

— Meu nome é Peter Blake, é um prazer finalmente conhecer você.

— Pai?

— Ah, Adina, não sabe o quanto é bom ouvir essa palavra.

— Mas... o que está fazendo aqui? O que... Como...?

— Eu sei que parece confuso agora – Ele sussurra e eu ainda estou de boca aberta — Mas eu posso te ajudar, posso te ajudar a encontrar quem fez isso, e juntos podemos...

— Saia daqui – Consigo dizer.

— Mas eu posso mesmo te ajudar.

— O amor da minha vida morreu, tenha um pouco de compaixão e me deixe chorar em paz – Falo baixo pra não atrapalhar e ele assente, coloca um pequeno pedaço de papel em minha mão e sai. Quando vejo que Peter passou pelas portas da igreja eu abro o bilhete, e nele está um endereço com a seguinte a frase embaixo: Juntos podemos detê-los. Sorrateiramente dobro o papel e coloco debaixo da minha pulseira.

— Se quiser conversar, estamos aqui, ok? – Papai diz com a mão em meu ombro e faço que sim com a cabeça, ele da um mínimo sorriso e sobe as escadas afrouxando a gravata. Mamãe se senta ao meu lado no sofá e coloca chá pra nós duas. Abraço minhas pernas.

— Eu devia ser capaz de impedir, mãe, foi pra isso que eu nasci assim né, pra ajudar as pessoas, pra acabar com essa guerra, então por que...? Meu Deus, eu devia ter sido melhor.

— Seu avô costumava falar uma coisa sobre a palavra "devia". Sabe o que acontece quando se diz devia com frequência? Acaba devendo a si mesmo – Sorrio e balanço a cabeça, apertando ainda mais as pernas contra meu peito – Eu sei que não consigo ser a mãe que pede pra você não fazer nada a respeito, porque você sempre vai se envolver, não só porque tem o poder pra isso, mas porque se importa o bastante com as pessoas a sua volta pra se envolver sim, pra lutar. Então o que tem que se perguntar é: O que eu vou fazer?

— Eu vou descobrir quem fez isso – Levanto o olhar pra minha mãe e ela pega minha mão, apertando em um gesto de carinho – E eu vou deter eles, nem que seja a última coisa que eu faça.

Tenho que ir pro colégio no dia seguinte, sustentando olhares de todos quando passo no corredor. Eu sabia que estava com os olhos inchados, mas não consegui me preocupar em cobrir com maquiagem, não consegui me preocupar com nada na verdade.

Me sentei com Adam no intervalo de novo, não queria pensar em encarar minha mesa e perceber que tinha uma cadeira vazia, não queria encarar meus amigos mórbidos, sem nenhum ânimo.

— E aí – Ele diz com um meio sorriso quando coloco minha bandeja na mesa e sento na sua frente.

— Oi – Abro meu suco e coloco no copo – Meu pai biológico veio falar comigo.

— É sério? Mas como? Achei que ele estava morto.

— Também achei – Pego uma batata frita e mergulho no barbecue – Mas aparentemente está bem vivo, me achou na igreja ontem, no... enterro do Jake.

— O que ele queria? Tem certeza que era ele?

— Tem tanta coisa acontecendo comigo que não duvido de mais nada.

— O que está acontecendo com você? – Adam de repente parecia interessado demais no que eu tinha a dizer, a pergunta é: Eu deveria dizer? Adam sempre foi meu melhor amigo, desde que me entendo por gente, mandávamos bilhetes na aula desde o jardim de infância e mesmo assim parecia errado.

— Lembra quando estávamos pesquisando aquelas histórias?

— Sobre anjos? Lembro.

— E você também lembra do mito que gerou criaturas metade anjo e metade humano? Bom, parece que eu sou uma, uma nephilim, quero dizer.

— O que...

— Eu sabia, não devia ter contado, esquece.

— Você finalmente aceitou isso?

— Oi? – Paro de mexer no meu prato e levanto o olhar.

— Não sei como você ainda não descobriu ou desconfiou, mas estamos juntos nessa Ally.

— Você acredita em mim?

— Eu sou como você, não sou tão poderoso e nem vou salvar a todos, mas sou como você, e acho que deve ver o Peter.

— Conhece o Peter? – Adam ri e estica o braço, no seu pulso está um símbolo, um V invertido, mas com um traço grande no meio, fazendo parecer um A, mas o traço no meio passa das linhas, deixando o A feio. Como nunca vi aquilo? – O que é isso?

— A marca do ciclo.

— Mas que ciclo?

— Você vai descobrir, vai descobrir tudo.