Flor da meia-noite
9 IX – Ligações perigosas
Notas iniciais

P.O.V. Hazel
— Hazel! – Ouço meu nome e me viro na direção do som, Allyson está saindo do carro, seu cabelo louro voa em mechas e ondas ao redor do rosto. A alça do seu vestido escorrega, deixando a mostra um dos ombros bronzeados. Todos os meninos e meninas andando para entrar no prédio se voltam para vê-la. Ally exerce esse tipo de poder sobre as pessoas, todo mundo sabe – Hazel, espere!
Se passou uma semana e meia que Jake morreu no vestiário masculino e Allyson começou a ficar muito estranha desde então. Todos ainda estávamos mal, pessoas ainda colocavam fotos no armário dele, mas a Ally não. Havia dor em seus olhos, muita dor, mas ela estava lidando com isso como uma soberana, estava cruel e fria, como se tivesse erguido um muro ao seu redor.
— E aí – Ela diz sem fôlego, me alcançando. O que parecia um monólogo de tão grande cai da bolsa aberta e ela se inclina pra pegar. Consigo ver o título em negrito da primeira folha e disfarço quando percebo do que se trata: "Treinamento Nephilim parte 4: Facas". Desde quando Allyson aceitou que é uma Nephilim? E o que ela quer com treinamento de facas? Então percebo o quão patético foi esse pensamento, ela quer a vingança estilo olho por olho e dente por dente.
— Tudo bem?
— Na medida do possível, sim.
Allyson e eu caminhamos juntas para o laboratório, ela tem quase um metro e setenta e cinco, quando caminho ao lado dela tenho que saltitar a cada dois passos para acompanha-la, e acabo me sentindo como um pato, subindo e descendo na água. Mas isso não me incomoda, sendo um anjo da luz, há algumas futilidades humanas que não me deixo me perder.
Desde que cheguei a Ellicot para vigiar Allyson Hale/Blake de novo, percebi como ela era por dentro e mesmo estando a trabalho, quis mesmo ser amiga dela dessa vez, no primeiro dia de aula. Mas ela realmente parecia estranha, qualquer um poderia dizer que era por causa de Jake, em algumas partes cruciais até que sim. Mas eu vivi tempo demais nesse mundo pra dizer com convicção que não.
Ela sempre foi diferente dos outros, mais honesta, mais independente, mais destemida. Essa é uma das razões, ela é forte sem fazer esforço nenhum, nessa semana, porém, tem sido mais que isso. Ela parou de se importar com a escola, para começar, e foi chamada na sala diretora três vezes por responder mal aos professores, e às vezes ela para no meio de uma conversa e simplesmente se cala como se colidisse com uma barreira. Outras vezes a peguei fitando a janela do seu quarto, olhando pro oceano, como se pensasse em fugir nadando.
Olho pra ela, para seus olhos azuis e claros como o céu do verão, e a boca paralisada em um sorriso forçado, sinto uma pontada de medo, com a possibilidade de Peter já ter feito sua cabeça, já que ela corre pra conversar com Adam. E Zack, o humano, me dá um beijo no rosto antes de seguir para sua carteira.
Jason entra na sala e fica olhando, aquele mesmo olhar de todos anos que se passaram quando ele sempre encontra ela.
— Tá acontecendo de novo – Sussurro para Jason quando ele passa por mim.
— O que?
— Tá se apaixonando por ela de novo.
— Meio difícil isso acontecer quando eu nunca deixei de amá-la.
— Você falou que não ia se envolver.
— A questão é que eu não posso, não que eu não quero. Os arcanjos me colocaram como anjo da guarda dela, isso foi castigo o suficiente, porque tenho que estar perto dela cada segundo.
— Não pode amar ela, é outra Adina, é sempre outra Adina, as personalidades são totalmente diferentes, lembra da Adina de 1996? Ela era um saco.
— Não comigo, você sabe, é a mesma...
— Essência, é, eu sei, só toma cuidado.
— Ela tá estranha comigo.
— Ela tá estranha com todos, mas lembre-se...
— Não vou me envolver demais – Ele assente e segue pro fundo assim que Allyson volta e senta ao meu lado.
— O que ele queria?
— Minhas anotações de matemática.
— Ah, quero correr hoje – Ela sorri, mas é um sorriso sem vida, forçado, pra manter as aparências, mas todos sabemos o que a morte de Jake Miller significou pra ela, não era do mesmo jeito que pra nós. Allyson Hale era um mistério, um desafio, difícil de compreender, e eu a amava nessa vida.
P.O.V. Allyson
— Quando você vai me levar ao Peter? – Pergunto ao Adam assim que entramos no laboratório – Estou cansada de ficar treinando todo dia só com você sem saber o que tá rolando.
— Ally, sentimento de vingança as vezes serve pra muita coisa, mas no seu caso, não se deixe levar só por isso.
— Eles mataram meu namorado, Adam, meu corpo agora é feito de vingança.
— Tudo bem, podemos ir ao galpão amanhã, mas só se correr mais rápido, você tá parecendo uma menininha.
— Eu descobri meus poderes agora, dá um tempo – Ele sorri e eu encosto meu ombro no dele – Você tá sendo ótimo pra mim, é bom voltar a contar com você.
— Ok, só não conte ao seu anjinho da guarda.
— Sei que não – Meu olhar viaja pela sala e noto Hazel e Jason conversando. Imediatamente me levanto e resolvo ir pro meu lugar, já irritada, se Jason não quer que eu siga o curso do que foi "escrito" pra mim (ainda tentando me acostumar), ele não é digno da minha complacência.
Hazel, com um dos pés em um banco, está amarrando os cadarços quando entro. Nem tive a chance de repousar minha bolsa antes que ela se inclinasse para a frente e agarrasse meu braço.
— O que foi aquilo no treino hoje? – Ela está contendo um sorriso, e seus olhos parecem um cata-vento de cores castanhas, todas em tons diferentes. O treino de vôlei hoje no almoço foi um pouco revelador demais quando ataquei a bola forte o suficiente pra derrubar Donavan no chão e ela ir pra enfermaria com uma dor causticante na cabeça – Allyson Hale, você é minha heroína.
— Não sei o que aconteceu.
Abro o armário que mantive em meus três anos e meio na Lincoln High. No fundo dele há uma camada de embalagens de chicletes, bilhetes rasgados e clipes de papel perdidos; por cima, uma pequena pilha de roupas de treino, dois pares de tênis, três camisas do time, várias embalagens de desodorante usadas até a metade, e um perfume. Em menos de quatro meses, vou me formar, e nunca mais verei o interior desse armário, e por um segundo fico triste.
É nojento, mas, para ser sincera, sempre amei o cheiro de vestiários: os produtos industriais de limpeza, o desodorante, as bolas de vôlei e até o cheiro de suor. É reconfortante. É tão estranho como a vida funciona: Você quer alguma coisa e espera por ela, espera, espera, espera, e parece que está demorando uma eternidade para acontecer. Então, ela acontece, acaba, e tudo o que você quer é voltar àquele instante antes que as coisas mudassem.
— Pronto – Digo, fechando o armário. Ainda conseguimos ouvir a Sra. Johanson assobiando em um dos banheiros. Uma descarga é acionada. Uma torneira é aberta.
— Minha vez de escolher a rota – Diz Hazel, com os olhos brilhando, e antes que eu possa abrir a boca para protestar ela avança e me cutuca no ombro – Peguei. Está com você – Diz, e com a mesma simplicidade gira e corre para a porta, rindo, e então preciso correr para alcançá-la.
Choveu hoje e a tempestade esfriou tudo. A água evapora das poças nas ruas, deixando uma bruma brilhante sobre Ellicot. Acima de nós o céu tem um tom vívido de azul. A baía está calma e prateada, e a costa é como um cinto gigantesco, envolvendo-a, mantendo-a no lugar. Não pergunto a Hazel onde estamos indo, mas não me surpreendo quando ela nos conduz para Old Port, rumo à velha trilha que corre paralela à rua Commercial. Tentamos nos manter nas ruas secundárias e menos movimentadas, mas é basicamente um jogo perdido. São quatro e meia da tarde. Todas as aulas terminaram e as ruas estão cheias de alunos voltando para casa. Alguns ônibus passam, e também um ou dois carros.
Hazel e eu corremos lado a lado, relembrando todas as fofocas do dia. Não conversamos sobre as avaliações pros últimos jogos estaduais da temporada porque é sempre um papo tenso. Em vez disso, ela me conta sobre seu exame de história geral, e eu falo da briga entre Cora Marshal e Nina Sparks. Também falamos de Willow Marks, que não vai à escola desde quarta-feira. Correm boatos de que Willow foi encontrada por algum amigo da família no parque Deering Oaks com um garoto, no maior amasso, dois dias depois ela fez um teste de gravidez e toda a escola ficou sabendo, o resultado ainda esta em segredo.
— Vamos – Sinto um aperto nos pulmões e o início de uma cãibra na coxa esquerda. A única maneira de continuar é correr ainda mais rápido – Vamos aumentar a velocidade, Lesma.
— Mande ver.
No rosto de Hazel surge um sorriso, e aceleramos. A dor em meus pulmões se amplia e cresce até parecer estar em todo lugar, rasgando minhas células e meus músculos de uma só vez. A cãibra na perna me faz franzir o rosto cada vez que meu calcanhar atinge o chão. É sempre assim nos quilômetros três e quatro, como se todo o estresse, a ansiedade, a irritação e o medo se transformassem em pequenos pontos de dor, e é quase impossível respirar, imaginar-se avançando ou pensar em algo que não seja: Não consigo. Não consigo. Não consigo.
E tão repentinamente quanto surgiu, ela some. Toda a dor se esvai, a cãibra desaparece, o aperto em meu peito relaxa e consigo respirar com facilidade. No mesmo instante, uma sensação de felicidade completa borbulha dentro de mim: a sensação sólida do chão sob os meus pés, a simplicidade do movimento impulsionando os meus calcanhares e me empurrando pelo tempo e pelo espaço, a liberdade total e o desprendimento. Olho para Hazel e percebo que ela notou minha expressão, ser nephilim talvez não seja tão ruim, afinal.
É estranho. Quando corremos, sinto-me mais próxima de Hazel que em qualquer outro momento. Mesmo quando não estamos conversando, é como se fôssemos ligadas por uma corda invisível, igualando nossos ritmos, braços e pernas, como se respondêssemos às batidas de um mesmo tambor.
Minhas pernas voltam a doer, uma sensação pesada, mas me forço a continuar enquanto dobramos a esquina da rua Commercial e deixamos St. Vincent para trás. Sinto Hazel se esforçando para me acompanhar. Viro a cabeça, mal conseguindo soltar a palavra “apostando”. Mas quando ela me alcança, movendo os braços, e quase me ultrapassa, abaixo a cabeça e avanço, correndo o mais rápido porem humanamente possível, tentando colocar um pouco de ar nos pulmões, que parecem ter se reduzido ao tamanho de ervilhas, e lutando contra os gritos em meus músculos. A escuridão come as beiradas de minha visão, e tudo o que consigo enxergar é uma grade com a malha em formato de losangos que surge de repente diante de nós, bloqueando o caminho, e em seguida estou me esticando e tocando-a com tanta força que ela balança, e me viro para gritar “ganhei!” enquanto Hazel chega um segundo depois, ofegante.
Nós estamos rindo agora, soluçando e respirando fundo enquanto andamos em círculos, tentando nos recuperar. Quando, enfim, consegue respirar no ritmo normal, Hazel se endireita, rindo.
— Deixei você ganhar – Diz ela, uma velha piada nossa. Chuto alguns cascalhos em sua direção. Ela se desvia, soltando um gritinho.
— Continue tentando se convencer disso.
Parte de meu cabelo soltou do rabo de cavalo, e eu luto para tirar o elástico, abaixando a cabeça para que o vento bata em minha nuca. Gotas de suor chegam a meus olhos, fazendo-os arder.
— Belo visual.
— É o que dizem, obrigada.
— Agora que você liberou a raiva e a frustração, podemos falar sobre o que Jake disse no vestiário antes de morrer?
Sinto meus ombros pesarem, mas balanço a cabeça e partimos pro quiosque pra comprar um refrigerante. É agora, o que eu estava tentando evitar chegou pra me assombrar.
— Me odeio por te fazer passar por isso, sei que você ainda tá mal – Reviro os olhos quando Hazel pega minha mão por cima da mesa – Mas o que, exatamente, Jake te falou aquele dia?
Estamos no quiosque de sempre perto do calçadão, e Bem chega com nosso refrigerante. Agarro a superfície fria da lata e tento me concentrar nas palavras daquele dia, mas elas parecem fugir da minha mente, flutuando sempre que tento pega-las.
— Pediu pra eu dizer algo a Clove, mas não conseguiu... terminar – Abaixo a cabeça e respiro fundo. Muito obrigada, Hazel. Percebo que minha visão começa a ficar turva e afasto as lágrimas – E falou "Peter".
— Peter?
— É, ao que parece é o nome do meu pai verdadeiro. Peter Blake – Meu cérebro finalmente raciocina – Não pode contar isso pra ninguém, prometa.
— Só se prometer não contar sobre isso — Hazel sorri e abre as enormes asas pelas suas costas.
— Meu Deus – Quando penso que isso vai me surpreender, percebo que se eu levar em consideração tudo o que sei, não posso confiar em ninguém.
As asas de Hazel são brancas, não douradas como as de Jason, e são maiores. Me pego pensando em Jason, e se afasta-lo foi a melhor decisão. Me distraio de novo e ela pega minha mão, seus olhos brilham em um tom de branco metálico, no exato momento que uma corrente elétrica passa pelo meu corpo.
— Anjo de Luz – Adivinho depois de passar uma tarde no escritório da minha mãe.
— Então já deve saber o que faço. Anjos de luz se conectam a energia de almas que julgam serem merecedoras, e mostram qual caminho seguir. Nós nos ligamos às pessoas – Meu olhar viaja pelas suas asas até as pessoas andando pelo deque, aí Hazel as recolhe — Ninguém pode ver.
— Ah é, claro. Então você está ligada a mim?
— Estou, eu escolhi.
— Então porque não me sinto nem um pouco segura?
— Esse é o trabalho do Jason, você esteve viva por dezoito anos, agora só ficou um pouco mais... complicado.
— Foi mal, não tô muito bem — Na verdade eu queria gritar que estava tudo indo por água abaixo, que eu estava tão sufocada na minha dor que até falar parecia exigir esforço.
— Voltando, o Jake estava conversando bastante com a Clove no últimos dias, e uma pessoa viu eles escondidos entre os ônibus da escola. Então de repente, Clove foi pra Aruba.
Como se já não estivesse doendo, um tiro acertou meu peito e eu deixei de respirar.
— Se serve de consolo, não acho que ele estava traindo você, ele sabia de alguma coisa, do Peter, e se Clove sabia também?
— Consolo?! – Me levanto em um salto e pego meu telefone, discando o número do Adam, que atende no terceiro toque — Me encontra em casa, não quero mais esperar.
— Ally, não faz isso, não aja como se só a vingança importasse agora, pense na sua segurança, não confie no Peter – Hazel tenta, em vão, me convencer.
— Já era – Bebo o resto do meu refrigerante em um só gole e começo a correr de volta pra casa.
— Levanta os braços, assim você protege o rosto e mantém os olhos no inimigo – Adam diz com paciência e faço o que ele pede, meio desajeitada, mas tento. Assim que armo minha defesa, vem o ataque – Quem for atrás de você não vai te perguntar se está pr... – Acerto seu pescoço e sorrio triunfante.
— Desculpe, o que disse?
— Boa, Hale, mas não o suficiente.
Adam ataca e eu desvio seu soco com meu braço, ele vem de novo e eu faço o mesmo, mas quando me distraio levo um chute na barriga e um tapa forte no ouvido. Cambaleio meio tonta mas tento não cair, determinada a levar aquilo até o fim.
— Tudo bem, não dá pra ser perfeita sempre e em tudo.
— Dá sim – Levanto os braços e me posiciono.
— Allyson...
— Vai Adam! – Ele ataca e puxo seu pulso, girando seu braço, mas ele é mais rápido e me prende na parede. Fecho os olhos, quase chorando por parecer tão fraca, com uma cara de dor patética, e quando os abro novamente, percebo Adam se aproximando do meu rosto um pouco mais que o permitido para amigos — Você jura?
— O que?
— Você tentou me beijar
— Não tentei não.
— Então você ia me dar uma cabeçada? — Adam sorri e se afasta um pouco, deixando o silêncio pairando pelo ar.
— Talvez eu tenha tentado te beijar.
— Ficou totalmente, completamente louco? Acha mesmo que eu ia querer te beijar? — Saio daquela parede e vou pro outro canto do quarto – Você é meu irmão, você... meu Deus, não.
— Bom, acho isso um julgamento um pouco limitado.
— Pode ter certeza. Eu nunca, nunca, te beijaria. Nunca, nunca, nunca.
—Aham, tá bem. Eu também não vou te beijar – Mas quando termina de falar, Adam tira o casaco que estava e eu suspiro quando os músculos do seu braço aparecem, suados e... Não sei bem o que estou fazendo, mas quando me dou por mim, estou tirando a minha blusa de frio também, ficando só com o top.
— Ally! Você tem visita! – Olho ao redor do quarto, percebendo como aquilo tudo foi ridículo. Peço pra minha mãe esperar e me sento derrotada na cama, enterrando o rosto nas mãos.
— O que eu tô fazendo, Adam? Essa não sou eu, não...
— Ei, tudo bem – Ele se senta ao meu lado — O que houve?
— Jake estava me traindo com a Clove, e agora não sei de quem sinto mais raiva, passei quase duas semanas determinada a vingar a morte dele e agora... não sei o que pensar, me sinto fraca, e talvez até seja isso, mas sei lá.
— Sinto muito.
— É, todo mundo sente muito. Preciso que me leve ao Peter, eu quero isso, quero mesmo.
— Ally...
— Adam...
— Você não tá pronta para aquilo.
— Allyson! – Minha mãe grita de novo e aguço minha audição pra saber se é Hazel quem está lá em baixo, mas não – Faz tempo que não te vejo, Jason.
— Tenho ficado atrás das cortinas por dezoito anos, Lanna, ela quer ir atrás do Peter.
— Hazel me contou agora à pouco, vocês tem se adaptado bem à tecnologia – Ouço Jason rir baixo.
— Mais de mil anos nesse mundo nos proporciona isso, mas enfim.
— Tem que impedi-la, Peter não vai ser bom pra ela.
— Eu sei, farei isso.
— Cuide da minha filha, Jason, por favor.
— Com a minha vida, Lanna.
— Porque não posso confiar no Peter? – Pergunto ao Adam me levantando da cama e arrumando meu cabelo num rabo de cavalo.
— Ele quer te transformar numa guerreira. Jason, Hazel e seus pais não querem que lute.
— Acho que devia ir.
Balanço a cabeça e desço as escadas, encontrando mamãe e Jason sentados no sofá, um de frente pro outro com as mãos no colo. Me apoio na parede, me lembrando de repente que estou apenas com um top e calça de moletom.
— Sim?
— Allyson – Jason se levanta e caminha até mim — Podemos conversar um pouco lá fora?
Cruzo os braços e o guio pela porta dos fundos até o jardim da minha mãe, que ela o exibia com muito orgulho para os vizinhos ao lado. Puxo uma espreguiçadeira e me sento, ele faz o mesmo, colocando a sua bem de frente pra minha, cruzando os dedos das mãos em seguida e apoiando o cotovelo nos joelhos.
— Então?
— Me dê a sua mão
— Por que?
— Quero te mostrar uma lembrança
— De quem?
— Minha.
— Como? Por que?
— Allyson – Jason diz com paciência como se eu fosse um bebê – Você viveu muitas vidas, sua essência viajou pela Terra todos esses anos, e eu a conheci em todas elas. Em todas elas tive que ver você morrer assim que completasse dezoito, quero que saiba o quão importante você foi até chegar aqui. Então me dê a sua mão – Lhe jogo um olhar estranho e devagar estendo meu braço, ele a pega e deposita sobre seu rosto, fechando os olhos logo em seguida – Essa é uma das minha preferidas – Não consigo perguntar do que ele está falando pois logo sou sugada para uma escuridão sem fim.
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