Flor da meia-noite

7 VII - A história toda? Não mesmo


Notas iniciais
OPA, TUDO BOM? Onde estão minhas fiéis escudeiras? Podem aparecer. Acham que podem sumir assim da minha vida e nunca mais voltar? Ah não, não vai rolar. Ignorem, amo um drama de café da manhã. Faltei a faculdade então me aturem queridas kkk

Na segunda-feira eu apareci no colégio com olhos desesperados, tentava encontrar em todos os rostos olhos como aqueles, uma cicatriz na bochecha, qualquer coisa. E quando senti um toque no meu ombro me virei com uma caneta na mão, na intenção de usar como arma, mas era só o Jason, então relaxei, voltando a atenção pro meu armário.

— Ia perguntar se você tá bem, mas tô vendo que não.

— Na verdade eu tô apavorada, e alerta.

— Vai ficar tudo bem.

— Você não devia falar comigo, achei que Jake tinha deixado isso bem claro – Fecho meu armário com força e seguro os livros contra o peito, seguindo meu caminho pra aula.

No domingo, Jake apareceu lá em casa pra ver como eu estava e deu de cara com Jason na minha poltrona, eu ainda estava meio sonolenta e sem saber se o que vi era real, mas seus gritos me acordaram na hora. Ele acreditou quando falei que não fazia ideia de o porquê de Jason estar no meu quarto, e era verdade, mas o olhar nada amigável que Jake lançou a ele meio que assustou até a mim.

— Ele não me assusta, eu sou...

— Um anjo, é, eu sei – Completo ainda meio atordoada sobre o fato de eu ser uma "aberração" –- Depois eu preciso conversar sobre uma coisa que aquele caído disse.

— Claro, vamos sim.

— Você é bem bipolar, é pra eu falar com você ou não? – Jason ri e me para no corredor.

— Eu só não posso me envolver demais, é complicado, mas meu dever me limita. Se quiser conversar sobre isso é só me falar que eu já conheço o caminho da sua janela – Dessa vez sou eu que rio e então entramos juntos na sala de inglês.

Todos estavam nos lugares de sempre, conversando em uma altura nada agradável aos ouvidos. Os olhares foram diretamente pra mim, e depois pararam no Jason ao meu lado. Xingo baixinho, me sento na frente da Clove e jogo os cadernos na mesa.

— Que azar ter machucado a mão esquerda, vai ter que copiar.

— Clove, eu fui atacada, não tô nem aí pra que mão eu machuquei – Resmungo, mas percebo que pareceu cruel e me viro com um pedido de desculpas na ponta da língua, mas ela está sorrindo.

— Graças a Deus, você voltou.

— Que?

— Amo você cruel. Mas e aí, como tá o ferimento? – Olho pra gaze em minha mão e a tiro devagar, deixando Clove olhar. Não está mais tão ruim, talvez cicatrize em duas semanas, se eu tiver sorte, e tudo isso porque segurei aquele maldito caco de vidro forte demais – Que pena, vai ter que ficar no banco hoje.

— E claro que você tá amando isso.

— Ninguém joga quando você tá na quadra.

— Vai ver é por isso que sou a capitã, e líbero — Clove sorri e a Senhora Grunwald entra na sala com um monte de cópias de "Oliver Twist", arrancando suspiros de desaprovação de toda a classe.

— Esse é um livro muito legal, parem de reclamar antes de lerem. Tenho que dizer isso toda aula? Nunca julgue um livro pela capa. Fala de como a vida nas cidades da era vitoriana pode ser difícil pra um órfão.

— Minha vida já tá difícil no colégio — Alguém grita lá no fundo.

— Espera até chegar na faculdade, Cobalt – Nossa professora rebate e todos rimos enquanto ela coloca uma copia na mesa de cada um.

A aula se seguiu tranquila e por um momento consegui esquecer toda a história do ataque que sofri na Vic. Eu amava estudar sobre a Era Vitoriana, parecia mágica demais pra mim, e eu meio que me reconhecia em todo aquele cenário. Tanto que mal percebi quando o sinal tocou e tive que guardar os livros, mas antes escrevi um bilhete rápido.

"O fantasma de Charles Dickens me disse que depois que se revirou no túmulo não conseguiu mais dormir. Decidiu deixar o descanso eterno, reabilitar seu corpo decomposto e se vingar por perturbar seu repouso. Você foi avisado. Reunião na biblioteca. 3B."

Arranco a página e dobro no meio, me certificando de que as pontas estão perfeitamente alinhadas. Nunca tive que fazer um amigo desde o fundamental. Aparentemente minhas técnicas não mudaram muito desde então. Me aproximar do Jason parecia certo, além de eu precisar de respostas, muitas respostas. Sorrateiramente, depositei o papel em sua mesa antes de sair.

No almoço eu me sentei com Adam, ele está sempre sozinho ou com alguma piranha dando em cima dele. Mas almoça assim porque quer, ao contrário de mim, manteve sua personalidade no ensino médio, eu tive que mudar, e aí seguimos caminhos diferentes. Eu admirava ele, e ele sabia disso, gostava de me lembrar a pessoa horrível que eu me tornei todo dia.

Hoje tive sorte de todas as vadias do Lincoln High demonstrarem carinho apenas pelo time de Lacrosse que insistia em sentar junto, a mesa deles era ao lado da nossa, mas quis dar um tempo. Adam é um cara atraente, tem cabelos castanhos e os olhos são de um tom de verde impressionante, é diferente e lindo. Ele alto, tipo muito alto, 1.82, enquanto eu estava feliz pelo meu 1.70, o que me ajudou bastante no vôlei, mas não deixo de pensar que isso é só por causa da minha anomalia nada genética.

Eu perco o treino da tarde já que não posso jogar e vou direto pra biblioteca. Assim que entro encontro Jason perguntando algo pra bibliotecária, que baba por ele. A senhora Argen tem 50 anos, mas não deixa de se aproveitar dos novatos gatinhos que entram por essa porta, nunca sei se é coisa de avó ou de garota, e prefiro não descobrir. Jason me vê e eu aceno sorrindo, seguimos para a estante 3B e fingimos procurar alguma coisa.

— Seu namorado me deu um ultimato pra ficar longe de você de novo, ele é bem persuasivo quando quer.

— Jake só é ciumento, e ele não faz a mínima ideia do que está rolando comigo, nem tem como saber – Pego um livro de romance qualquer e me sento numa poltrona escondida pelas prateleiras – Ah, o cara da Vic falou uma parada estranha.

— Falou o que?

— "Me dê seu sangue, filha de Peter Blake". Tipo, esse é o nome do meu pai verdadeiro?

— Olha Ally, não vai atrás dele, está bem? Ele não é bom pra você.

— E porque eu deveria confiar em você?

— Porque eu salvei a sua vida — Ele disse como se fosse óbvio.

Eu não podia contestar aquela afirmação, se não fosse por Jason, eu com certeza estaria jogada em algum beco sujo por aí.

— Aquele cara era um caído — Ele continuou — Caídos sentem prazer bebendo sangue de nephilins por serem metade anjos. Já que foram exilados do céu, precisam de alguma coisa que o façam lembrar do poder, é como um vício.

— Eu fico cada vez mais confusa.

— Vou te contar a história toda – Ele deixa o livro de lado e eu faço o mesmo, me ajeitando um pouco mais na poltrona, pronta pra ouvir tudo de Jason sentado ao meu lado – Quando Deus criou o homem, Lúcifer ficou com inveja, tramou uma grande rebelião no céu junto com seu irmão. Seu exército de anjos foi derrotado e banido para sempre do Paraíso. Esses anjos, os caídos, abandonaram Lúcifer, e escolheram viver na Terra entre os prazeres humanos. Se casaram com as mulheres e criaram abominações, crianças chamadas de Nephilins: Com o poder de anjos, e alma de homens. Com raiva, Deus inundou a Terra, o acontecimento foi conhecido como "O dilúvio", matando os Nephilins e levando os Caídos a se esconderem, para limpar a humanidade de tal... infecção. Ele enviou poderosos anjos guerreiros para caçar os sobreviventes da inundação.

— Tá, isso tudo eu já sei.

— O que você não sabe é que existia esperança para aqueles que conseguiram preservar, eles não eram de todo o mal, só nasceram dele, e acabaram levando o fardo pra sempre. Mas há uma profecia: Vai nascer um nephilim que vai redimi-los, salvá-los e livrá-los da prisão, resumidamente. Ninguém nunca soube o que realmente a Profecia significava, elas são sempre complicadas e cheias de enigmas. Então os caídos esperaram e observaram, agindo na espreita. Os guerreiros do paraíso jogaram uma maldição nesse Nephilim, ele não nasceria poderoso, não seria capaz de lutar, e sempre morreria assim que fizesse dezoito, todas às vezes, em todas as vidas.

— Esse nephilim...

— É você. Bom, sempre há uma nova versão de você, mas se não morreu aos dezoito anos, a alma finalmente encontrou o corpo certo – Ele suspira e minha cabeça dói com toda aquela informação – Eu era um dos anjos do paraíso, não era um guerreiro, mas fui mandado pra vigiar a primeira de vocês, mas...

— Mas...? — O incentivo à continuar.

— Cenas para um próximo capítulo – Jason sorri e eu bufo, e então o sinal toca. Mas meu sorriso some por completo quando Hazel entra desesperada na biblioteca e me encontra.

— É o Jake, aconteceu alguma coisa.