Flor da meia-noite

37 O cadáver de Allyson Hale


Notas iniciais
OOPA, TUDO BOM? Notícias ruins galeris, meu notebook deu pau de novo, a imagem do capítulo estava lá, então não vai ter como eu colocá-la agora, mas juro que assim que arranjar um carregador eu edito e coloco. Divirtam-se, ou não. Beijinhos

O galpão está quase cheio a essa altura, alguns nephilins do Peter se juntaram a nós, outros ainda não confiam plenamente em mim, sei que dei motivos para isso, os deixei a esmo por meses quando prometi salvá-los.

Jason e David estão aqui também, mesmo tendo compromissos, Jason com a academia e David com a universidade. Mais uma vez admiro a coragem dos dois, o amor dos dois, são tão diferentes, mas ao mesmo tão parecidos e nem se dão conta.

Kaleesa, Miriel e Kyla conversam em um canto. Jake, Nick e Apolo discutem em outro, sei que estão falando de mim, já que a garota não para de me jogar olhares desconfiados. Nick e Apolo parecem ter uma conexão incrível, uma linha invisível, mesmo de longe, como se dançassem uma mesma música que ninguém mais pode ouvir.

Hazel não está aqui e sinto um vazio no peito, como se algo tivesse sido tirado de mim sem aviso prévio. Quer dizer, já fazem duas semanas. Preciso da minha anjo de luz, é ela quem me dá forças.

Peter ainda conversa com o conselho no andar de baixo, o andar onde a vida nephilim flui constantemente, como água descendo de uma cachoeira, sem parar, sem dormir. Chamam de fosso, é lá onde acontece praticamente tudo. A última vez que desci no fosso foi pra anunciar que eu partiria.

Minha cabeça doeu e eu tratei logo de tomar um comprimido.

Clove entra no galpão e olha ao redor, vasculhando o local até que me encontra. Ela anda a passos leves, porém decididos, até mim.

— Como ela está? – Pergunto logo de cara.

— Oi pra você também, amiga. Bom, um pouco melhor, mas ainda de cama, pelo menos não está como uma louca querendo vingança como você.

— Ah, por que eu sempre ferro com tudo? – Cruzo os braços e apoio as costas na parede.

— Não sei, mas você parece ser realmente muito boa nisso – Um sorriso escapa de seus lábios, o que me deixa mais a vontade – Então, porque estamos aqui afinal?

— Tenho algo a dizer, andei pensando muito e cheguei a uma conclusão.

— Vou querer saber?

— Provavelmente não, vai ouvir assim mesmo.

— Tudo bem, digníssima soberana – Sorrio e ela mexe no meu cabelo – Ah, você não me disse o que tá planejando para o seu aniversário.

— Se eu estiver viva até lá a gente dá uma festa.

— Eu te amo, garota – Ela ri e eu peço licença antes de me afastar.

Massageio as têmporas e sorrateiramente pego mais dois comprimidos dos frascos que peguei no hospital, engulo sem água mesmo. Coloco as mãos na parede e abaixo a cabeça tentando fazer com que as vozes sumam. O mundo gira ao meu redor, o suor se acumula em minha testa e fecho os olhos. Não consigo andar, não consigo falar. Tudo em câmera lenta.

Uma mão nas minhas costas me traz de volta à realidade.

— Ei, você tá bem? – Jason pergunta, me agarro a ele como se ele fosse o centro de paz do meu furacão interno. E, na verdade, ele não é exatamente isso? – Calma, respira.

— Eu tô bem.

— Não tenho tanta certeza disso. Respira Flor.

— Não consigo mais fazer isso.

— Não tem problema, podemos ir pra casa.

— Não – Me endireito quando percebo que algumas pessoas olham pra nós. Apoio apenas uma mão dessa vez e respiro fundo – Não consigo mais lutar por ninguém, sinto falta da minha antiga vida.

— Flor, olha pra mim. Ei Allyson, pra mim – Minha visão foca em seu rosto bonito – Falta pouco, eu prometo. Se quiser eu te levo ao shopping amanhã, podemos ver um filme e comprar uns sapatos.

— Você é maravilhoso, sabia disso? – Tiro uma mecha de cabelo que caiu na sua testa, e apesar de me sentir melhor, a culpa me invade pelo que fiz naquela semana com o David.

— Ei você! – Nick grita e me viro assustada – O que é que você tá pensando?

— O que?

— Pare de nos enrolar e diga logo que quer com a gente. A alcateia Lupa não luta com nephilins, somos um povo livre! Desembucha.

— Você vai ouvir ao mesmo tempo que todos, não se ache mais especial que nós, Nick, agora volte ao seu lugar e espere.

Os olhos dela brilham de raiva, e a cena familiar quase me faz sorrir, ela nunca foi com a minha cara, mas não posso deixar de admirar essa garota. Um dia, talvez, até sejamos amigas.

Ela não concorda, mas também não discute, e se retira pelo canto lateral do galpão. Os outros a observam sair, seguindo-a com o olhar depois de ela ter desafiado a Filha da Profecia. Mas não me importo em um pouco com o que pensam. Não sou a capitã deles, nem a rainha. Não sou melhor nem pior que qualquer um deles, e já é hora de começarem a me ver como sou, mais uma pela causa, e nada mais.

— Estamos prontos – Peter anuncia vindo até mim e a rodinha começa a se formar quando subimos no “palco” improvisado – Não estão felizes – Ele sussurra.

— O conselho? Imaginei – Sussurro de volta e ele se afasta me dando um espaço – Em primeiro lugar eu queria me desculpar por ter demorado tanto pra convocar essa reunião desde que cheguei, mas tudo é sempre uma loucura com a gente né – Sorrio e dou um tempo pra secar as mãos na saia – Em segundo lugar eu queria dizer que minha visita à Grécia foi... reveladora, descobri coisas que podem nos ajudar, que vão nos ajudar, elas estão guardadas, ahn... na Caixa de Pandora, que está tão bem escondida que daqui a pouco nem eu vou conseguir achar – Algumas pessoas franzem as sobrancelhas – Ok, então, a má notícia é que Darko conseguiu uma gota do meu sangue, isso não é o suficiente pra ele assumir sua forma original, mas já consegue comandar o exército horrendo dele. Ele precisa de mais, por isso ainda está atrás de mim, e das pessoas que vieram comigo hoje – Meu olhar encontra o do Jason e ele sorri pra mim, me encorajando a continuar – Aquele é Miriel, filho de Mance, que está ao lado de Kaleesa, do clã de Tubal Cain. No outro canto estão os gêmeos Nick e Apolo, primeiros herdeiros de Licaão. Embora ainda não saibamos com o que exatamente estamos lidando, preciso da ajuda de vocês, estão comigo? – Ouço gritos de aprovação e sorrio.

— Adam prometeu nos vingar dos caídos, e você? Porque arriscaríamos tudo por você? – Uma garota no fundo pergunta e fico nervosa. Mais suor nas mãos.

— Eu sei que parece uma via de mão única agora, mas acho que se derrotarmos Darko, vamos...

— Promessas vazias! – Um velho grita.

— Os nephilins que Adam recrutou estão mortos, ele os matou, eu vi os corpos, eu só peço que confiem em mim, Darko...

— Nem sei se esse Darko é real – O argumento do velho faz com que mais pessoas duvidem da minha lealdade.

— Basta – Peter aparece ao meu lado, me dando uma chance de respirar – Fui até a hidroelétrica hoje de manhã. Uma sala se manteve intacta depois do incêndio, uma plantação enorme de veratrum, Adam estava cultivando nossa maior fraqueza.

— Tenho motivos pertinentes pra achar que ele está trabalhando para os caídos, ele sempre quis glória, talvez tenha feito um acordo, está imune à planta e muito mais forte. Sabemos como ele é com soros e poções, não podemos confiar nele.

— O que eles querem com nosso sangue?

— O que vamos fazer?

— Vamos lutar?

— Eu prometo que...

O chão começa a se desfazer, os gritos se transformam em múrmuros, longe demais, os lamentos, as vozes. O sangue pingando no chão, caindo de uma coroa presa na minha cabeça com grampos, perfurando meu couro cabeludo. Mais a frente Adam sorri pra mim, também com uma coroa. Ele estende a mão pra mim.

— Allyson? – Peter chama com a mão em meu ombro – Tudo bem? – Tão distante.

Tudo fica escuro e só me lembro de cair.

P.O.V. David

Ally ainda dormia quando me esgueirei até o seu quarto naquela noite. Ela estava mais confiante, mas seu rosto demonstrava preocupação, mesmo em repouso. Ela não acordava de jeito nenhum. A senhora Hale chamou um médico e ele disse apenas que ela precisava muito descansar, pois seu corpo mostrava sinais de estresse. Mas Allyson já dormiu um dia inteiro.

— Oi Ally – Sussurrei ao me aproximar de sua cama.

Ela não se mexeu. Não ousei me sentar, mas peguei sua mão, precisando urgentemente desabafar com ela, mesmo que não me ouvisse.

— Eu... eu vim pedir desculpas, quer dizer – Respirei fundo – Sei que já pedi por ter dito todas aquelas coisas, mas preciso reforçar, meio que pra mim dessa vez. Para ser honesto, peço desculpas por muito mais que isso – Admiti – Sinto muito por não ter te esperado tempo suficiente quando me pediu. É que eu sempre achei… – Engoli em seco – Sempre achei que com você eu poderia fazer as coisas direito.

Fiz uma pausa antes de continuar:

— O que é verdade, porque você partiu e aí tudo foi por água abaixo. Até... até você voltar e eu continuar estragando as coisas. Entregar aquela caixa foi uma burrice, mesmo sendo o que você queria, foi burrice, era a sua vida que estava em jogo, então pensei que talvez pudesse dar a você a chance de uma vida melhor do que a que esse mundo de loucuras tinha a oferecer. E convenci a mim mesmo de que esse era o jeito certo de amá-la.

Observei-a por alguns instantes, desejando que eu tivesse coragem para confessar essas coisas quando ela estivesse em condições de responder e dizer como eu errei.

— Não sei se posso desfazer minhas escolhas, Ally. Não sei se voltaremos a ser como antes. Mas não vou deixar de tentar. Eu vivo por você – Disse, dando de ombros – Você é a única coisa pela qual eu já quis lutar.

Havia muito mais a dizer, mas ouvi a porta do quarto se abrindo. Mesmo no escuro, Jason era inconfundível.

— Como ela está? – Ele perguntou.

— Precisando urgente de umas férias – Sorri e caminhei em direção ao corredor.

Observei-o puxar uma cadeira e sentar ao seu lado. Não pude evitar o ciúme. Desde aquele primeiro dia na festa do lago, desde o momento em que descobri o que sentia pela Allyson, fui obrigado a amá-la de longe. Mas Jason podia sentar ao seu lado, tocar sua mão, o abismo entre suas raças não existia mais.

Detive-me à porta, sem tirar os olhos da cena. A Profecia havia desgastado o laço entre mim e Ally, e Jason era a lâmina afiada, capaz de cortá-lo completamente se chegasse perto demais. E eu não tinha uma ideia clara do quão perto Allyson o deixava chegar.

Tudo o que podia fazer era esperar, e dar a Allyson o tempo de que ela parecia precisar. Para ser sincero, o tempo de que nós todos precisávamos. Só o tempo poderia resolver nossa situação.

P.O.V. Jason

Breves contrações em seus lábios indicavam que Allyson sonhava.

Me lembrei de como fiquei boquiaberto quando eu, enfim, a vi pela primeira vez depois de tanto tempo afastado, claro que já a tinha visto na rua, mas não tão intensamente quanto naquele corredor.

As lâmpadas daquele colégio não eram bem as melhores, mas iluminou completamente seu rosto. E como se não bastasse ela ser capaz de ela não ter medo de ser ela mesma na frente dos outros, Allyson tinha uma beleza impressionante.

Sob seus cílios grossos surgiam olhos azuis como o gelo, uma cor fria para combinar com as mechas claras do seu cabelo. Suas bochechas eram macias e estavam um pouco coradas por causa do que seja lá o que aconteceu dentro do banheiro. Seus lábios, suaves e rosados, abriram-se um pouco enquanto ela finalmente começou a me observar.

Senti uma palpitação estranha no peito, como a luz de uma lareira ou o calor da tarde. Aquela sensação permaneceu alguns momentos comigo, brincando com as batidas de meu coração. Era ela. A amei naquele segundo.

— Eu prometo que vou cuidar de você até o último dia da minha vida, Flor, e até quando eu partir.

—--//---

Hazel está sentada e apoia um copo de café na mesa, ela ainda parece um pouco mórbida, embora melhor.

— Fico feliz que a Ally está segura, e... fazendo as coisas de sempre. Dar uma de desbravadora e tal.

— Ela sente sua falta.

— Ainda não estou pronta. Deus, aquilo foi tão perigoso, eu devia tê-la impedido.

— Allyson é tipo uma arma – Me rendo e pego uma caneca no armário, me sentando com ela – Muito poder, mas difícil de manusear.

— Bom, acho que a palavra arma é feminino por um motivo – Rio e passo o braço ao redor do seu ombro, ela se aconchega um pouco mais em mim.

— É um milagre que ainda estejamos aqui, não é mesmo?

— É, enfim, eu tenho que ir – Me levanto e esvazio a caneca – Entre em contato com ela, sério.

— Farei isso amanhã.

P.O.V Allyson

Eu estava na beira da escada, observando uma foto antiga dos meus pais, estavam felizes, dançavam em um evento da universidade, lembro de ter tirado essa foto e guardado o momento no fundo do meu coração.

— Eu me lembro desse dia – Olho pro lado e lá está ele sentado em um degrau.

— Oi pai – Sorrio e encaro o porta-retratos.

— Um dos dias mais felizes da minha vida, estávamos bêbados, eu e sua mãe.

— É, eu sei – Rio e cruzo os braços – A gente tinha tudo, né? E agora...

— Quem disse que só por eu ter partido as coisas mudaram assim?

— Eu não sei, pai, a vida meio que está em ruínas agora, tipo uma avalanche, vejo as pedras descendo pela montanha, mas não consigo me mexer, e sei que elas vão me acertar a qualquer momento, quer dizer, eu já sinto. Seria mais fácil se você estivesse aqui realmente.

— Mas eu estou aqui.

— Não está, pai, é um sonho.

— Jura? Porque tenho certeza que posso escutar pessoas conversando, e carros passando lá fora.

— É... eu também, mas você não está aqui, você se foi.

— Eu disse que estou – Meu pai se levanta e ajeita o terno amarrotado – Estou aqui – Ele toca meu coração e logo depois minha testa – E aqui.

— Quero desistir.

— Você não terminou ainda. Todo mundo precisa de você.

— Eles tem os outros, Miriel, Ka... são bem mais fortes que eu.

— Mas é de você que a profecia fala, nunca duvide de si mesma. Não lembra de nada do que eu te ensinei? – Rio e sinto uma pontada de dor nas costas. Quando o encaro novamente, está sumindo.

— Não, pai, pra onde você tá indo?

— Pra casa.

— Estamos em casa!

— Você tem razão, Ally, isso não é real.

Não é real.

Quando abro os olhos, o mundo parece ter se quebrado em mil pedaços. Tudo o que vejo são pequenos cacos de luz, nebulosos, girando como se tivessem sido sacudidos em um caleidoscópio. Pisco diversas vezes e, lentamente, os cacos se reviram e se rearranjam em um lustre em forma de sino e em um teto creme com uma grande mancha de infiltração em forma de coruja. Meu quarto. Casa. Estou em casa. Por um segundo, sinto alívio: meu corpo está pinicando, como se eu tivesse sido espetada por agulhas em toda a pele, e tudo o que eu quero é deitar de novo em meus travesseiros macios, afundar na escuridão inconsciente do sono e esperar a dor aguda em minha cabeça se dissipar.

Já vi o tempo se estender como círculos se expandindo na superfície da água; também já o vi correr tão rápido e com tanta força que me deixou tonta. Mas até hoje nunca o vi fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Os minutos parecem inchar a meu redor e me sufocar com sua lentidão. Observo a luz se mover um centímetro de cada vez na parede, causado pela fresta na janela da sacada.

Luto contra a dor na cabeça e nas costas. Uma dormência vai se espalhando pelos braços enquanto tento descobrir o que aconteceu. Uma mosca voeja pelo quarto, zumbindo e batendo nas persianas, sem parar, tentando sair. Ela acaba caindo, exausta, atingindo o chão com um minúsculo ruído.

Sinto muito, amiguinha. Sei como você está se sentindo.

— Ah, finalmente acordada – Clove surge sorrindo, traz um copo d’água e dois comprimidos em uma bandeja – Aqui, vai fazer você se sentir melhor.

Minha garganta arde como se tivesse engolido uma lixa. Bebo um gole longo e revigorante, e a queimação em minhas cordas vocais e em minha cabeça parece acalmar.

— Obrigada – Meu Deus, minha voz está rouca. Me sento ignorando a dor aguda nas articulações – O que aconteceu?

—Você caiu igual uma árvore molenga – Ela sorri – Está apagada há dois dias.

— Dois dias?! – Faço menção de me levantar, mas me arrependo na mesma hora quando minha cabeça pinica.

—Ei, paciência gafanhoto – Clove tira da bolsa o frasco de comprimidos que deveria estar comigo e me joga um olhar que por si só já diz tudo – O que é isso?

— Não sou tola pra achar que você ainda não pesquisou – Sorrio.

— Sabe o quanto é perigoso, Ally? Meu Deus.

— Eu sei, mas preciso, tem muito tempo que não durmo. Estou literalmente ficando louca.

— Quantos você tomou?

— Não me lembro.

— Teve muita sorte de eu ter achado isso e decidir não contar pra ninguém, só me prometa que nunca mais vai tomar.

— Tudo bem. Clove? – Chamo e ela se vira pra mim depois de arrumar meus travesseiros – Posso ser sua cobaia? Preciso conversar com alguém.

— Com certeza! – Ela logo trata de pegar meu óculos de grau em cima da escrivaninha e um bloquinho de anotações. Coloca o óculos na ponta do nariz e faz uma cara de profissional – Mande ver.

— Estou cansada, venho pensando em desistir e deixar isso na mão de outra pessoa, não sei, alguém mais apto a isso, com experiência – Me deito e cruzo as mãos sobre a barriga olhando o teto – É uma ideia estúpida?

— Não, não é, qualquer um pensaria assim. Mas acho que é apenas uma desculpa pra parar de lutar por aquilo que quer.

— Aí é que tá, não é o que eu quero, é que os outros querem. Tipo, é claro que quero que sejamos livres dos caídos, mas...

— Ally – Observo ela tirar os óculos e começar a falar sério, se inclina na poltrona e me encara – Qualquer dia eu poderia sair por aquela porta e ser atropelada por um ônibus, mas isso não me impediria de sair.

— Não é do ônibus que tenho medo, quero dizer, não se trata do ônibus. É difícil manter isso escondido da minha família, de todo mundo, as coisas que aconteceram em Riverland. David, Jason, eles esperam uma decisão.

— E por que não decide?

— Porque os dois merecem um futuro – Me viro na cama e a encaro – Já que perderam boa parte da vida por mim, os dois, e eu não posso dar isso a eles, não enquanto estiver com isso nas costas. Quero dizer que querem uma namorada, algo normal, não terminar mais um dia e agradecer por estar vivo e acordar com medo de morrer.

— Uma hora, isso vai acabar, e então? – Penso um pouco e bufo – Você e a Hazel são tão parecidas que me assusta – Suspiro. Não quero pensar na Hazel – Talvez essa decisão não seja sua, digo, eles sabem bem onde estão se metendo.

— Mesmo assim me sinto uma fraude, Clove. Essa “felicidade” é uma ilusão. Cheguei, lutei pelo final feliz de todos e... sinto que não consegui o meu. E nem vou conseguir.

— Mas ainda não acabou, está só começando. Ah Ally – Clove sai da poltrona e se senta na ponta da cama, tira uma mecha de cabelo do meu rosto e coloca atrás da orelha. Me sinto um bebê, e a sensação é boa quando ela pega minha mão – Talvez não seja sobre como você termina as coisas, e sim como as vive. Olha o tanto de pessoas novas que conheceu – Penso em Ava e no seu acampamento, e em como ela me tratou bem sem nem saber quem eu era.

— Sabe de uma coisa, Clove?

— O que?

— Você vai ser uma ótima psicológa.

— Eu sei – Ela ri antes de me dar um beijo na testa e sair do quarto.

Mesmo com toda aquela conversa, não deixo de me sentir vazia, com medo. O frio nunca me deixa, nunca vai embora. Ele é pior do que qualquer outro fardo. O frio é vazio e devora minhas entranhas. Espalha-se como podridão, como doença, e um dia temo que me deixe ainda mais vazia. Então serei apenas a casca da Filha da Profecia, o cadáver de Allyson Hale.

Não posso deixar que chegue a esse ponto.

Meu olhar segue direto pra prateleira de livros e encontra um pequeno frasco verde, escondido entre dois contos de Agatha Christie. Por isso ignoro a dor ao me levantar e pego tudo que preciso.

Cortei um elástico de cabelo ao meio e amarrei bem forte no braço, um pouco acima da dobra do cotovelo, passei o algodão com álcool no local e com a seringa puxei um pouco mais da metade do líquido pra dentro. Não me lembro de quanto Adam usou, então não quero arriscar.

— Acabei de sair da academia e Clove falou que você tinha acordado – Jason entra no quarto no momento que a agulha está prestes a perfurar minha veia. Nossos olhares se encontram e ele percebe o que quero fazer. Ele fica estático e seu rosto assume uma expressão de medo. Droga Jason! – O que você está fazendo, Flor?

— Preciso de mais coragem, o soro separa o bem do mal, eu preciso muito não sentir nada de novo, porque o que eu estou sentindo está me matando. Tá doendo tanto, Jason. Preciso parar as vozes.

— Não precisa fazer isso, eu estou aqui, eu te amo, vamos enfrentar isso juntos, como sempre fizemos, ok? Se lembra do que houve da última vez? – Ele se aproxima devagar, com a palma das mãos estendidas – Você me matou, Allyson, você lembra?

— Eu sinto tanto! – Estou prestes a chorar, me afogar na minha dor – Mas eu estava sendo controlada pelo Adam, ele não está aqui agora, só preciso de coragem, para...

— Você é corajosa, Flor, olha o tanto de coisa que já fez por todos nós.

— Não é suficiente, os sentimentos atrapalham. Ah, Jason, você não tem a menor ideia do que está por vir, não é? Eu fico tendo essas visões, e não durmo há dias, eu...

— O que você vê? Me conta – Jason agora se senta na cama com calma, ainda estou com a ponta da seringa tocando a pele, meu braço lateja e minha mão treme.

— Vejo uma coroa pingando sangue. Uma tempestade sem trovão. Sombras se agitando sobre uma cama de labaredas – Respiro fundo e fecho os olhos, mas quando o faço, as imagens me invadem – Vejo o mar inundando a costa, engolindo tudo e todos. Vejo um homem de olho vermelho e casaco azul com uma espada, eu... sinto falta da minha sanidade, isso vai parar tudo, vai melhorar.

— Allyson, não!

Já é tarde demais, o soro sobe pelas minhas veias. Largo a seringa no chão e seguro seu rosto, encarando bem fundo seus olhos escuros.

— Desde que te conheci, sabia que ficaríamos juntos, naquele corredor do Lincoln High, quando olhei pra você, eu sabia, eu senti. Não queria admitir por que eu ainda não tinha noção de nada, mas depois tive certeza. Era você, sempre vai ser você. Foi como... destino. Mas isso foi antes de todas aquelas mortes, antes de mentir pra você e te deixar acreditar em coisas que não existiam, antes de sentir prazer em machucar meus amigos. Antes de vê-lo morrer e saber que tinha sido eu. Antes de toda essa crueldade ser direcionada a mim. Acho que espaço nenhum resolverá nosso problema, pelo contrário, somos um sonho que demorou tempo demais para acabar, o que chamariam de conto de fadas meio turvo – Rio pelo nariz e acaricio todos os cantos de seu belo rosto – Duvido que algum dia deixarei de te amar, e não estou disposta a te deixar ir de novo, por isso...

— Não, Flor... – Ele está chorando? Devo estar também. Tudo já parece tão incerto e confuso.

— Por isso preciso confiar nesse amor, confiar nesse seu terrível hábito de me salvar.

Jason ajoelha diante de mim e abraça minha cintura, mexo em seu cabelo enquanto ele me encara. Conheço aquela expressão, ela diz: Eu te amo, e sempre vou te encontrar.

— Também amo v... – Não há tempo, minha mente desliga.