Flor da meia-noite
38 XXXVIII - Colcha de retalhos
Notas iniciais

" – Quem é você?
— Eu já nem sei, senhor. Mudei tantas vezes desde hoje de manhã"
— Alice no País das Maravilhas – Lewis Carol
P.O.V. Hazel
Allyson já está lá quando chego, apoiada na cerca de arame que contorna a pista, com a cabeça inclinada para trás e os olhos fechados para o sol. Seus cabelos estão soltos e caindo pelas costas, quase brancos naquela luz. Paro a cinco metros dela, desejando que pudesse memorizá-la exatamente assim e reter aquela imagem precisa em minha mente para sempre.
Depois que Jason me ligou desesperado, contando o que a Ally fez, tive que checar com meus próprios olhos, parte porque eu tinha que salvá-la daquilo, tirá-la daquela insanidade, o que aquela criatura tem na cabeça? Mas no final o que importava era: o que tinha mudado dessa vez?
Ela abre os olhos e me vê.
— Nem começamos a correr ainda – Diz ela, afastando-se da cerca e dando uma olhada teatral no relógio – e você já está em segundo lugar.
— Está me desafiando? – Ando mais três metros até ela.
— Apenas um fato – Ela sorri. Seu sorriso treme um pouco quando me aproximo. Está aí o que eu estava procurando, a prova de a barreira podia se quebrar, se eu batesse na rachadura certa. Não está tão ruim, pelo menos ela ainda não tentou me incendiar, até agora – Você parece diferente.
— Estou cansada – Confesso. Parece estranho nos cumprimentarmos sem um abraço nem nada, nunca foi assim entre nós. É um dos efeitos, suponho, ela não queria sentir coisas que a atrapalhassem, devo ser uma dessas coisas Me arrependi de não ter dito a Allyson o quanto ela significa para mim quando tive a chance – Tive dias longos.
— Quer conversar? – Ally estreita os olhos e me encara. Eu quero conversar, ela não.
Riverland a deixou bronzeada. As sardas em seu nariz se multiplicaram como uma constelação entrando em colapso. Realmente acho que ela pode ser a menina mais bonita de Ellicot, talvez do mundo inteiro, e sinto uma dor aguda atrás das costelas ao pensar que ela vai envelhecer e se esquecer de mim. Um dia ela mal pensará no tempo que passamos juntas – e, quando o fizer, o passado parecerá distante e levemente ridículo, como a lembrança de um sonho cujos detalhes já começaram a se esvanecer.
— Depois que corrermos, talvez – É a única resposta em que consigo pensar. É preciso seguir em frente: é a única maneira. É preciso seguir em frente, independentemente do que aconteça. É a lei universal da vida. Vida. Quase bufo, quando tudo isso acabar vou voltar para o lugar de onde vim e protege-la de lá, sem nenhum tipo de contato permitido. Os Arcanjos não vão ser mais tão liberais assim.
— Quer dizer, depois que você comer um pouco de poeira — Diz ela, inclinando-se para a frente e alongando as pernas.
— Você tira muita onda para alguém que vive sendo sequestrada.
— Olha quem fala! – Ela levanta a cabeça, amarra o cabelo e pisca para mim – Não acho que ficar choramingando duas semanas na cama conta como exercício – Sinto uma pontada, mas não discuto, não vou perdê-la dessa vez, não vou perder mais ninguém. De qualquer forma, minha expressão não deve ser das melhores – Relaxe Hazel, é só uma brincadeira. Não se esqueça que isso já aconteceu comigo – Mais uma piscadela.
Tudo parece tão normal, tão deliciosa e maravilhosamente normal, que apesar de tudo, uma alegria que há muito tempo não sentia me cobre da cabeça aos pés e me deixa tonta. As ruas estão pintadas pelo sol dourado e por sombras, e o ar carrega cheiro de sal, frituras e um ligeiro odor de algas na praia. Quero guardar este momento comigo para sempre, mantê-lo seguro como se fosse meu coração: minha última vida na Terra, meu segredo mais bonito. Sei que Ally também pensa isso, ela planeja alguma coisa.
— Peguei – Ela diz, dando um tapinha em meu ombro – Está com você – Sorri com a familiaridade da situação.
E então ela sai correndo enquanto grito e pulo para tentar alcança-la, e contornamos a pista em direção ao píer sem hesitar ou discutir sobre a rota. Minhas pernas estão fortes, firmes. O ar fresco entra e sai de meus pulmões, doendo, mas é uma dor boa: que me faz lembrar como é bom respirar, sentir dor, sentir algo. Como é bom ter sensações humanas. Podem falar o que quiserem dessa raça que vive fazendo merda, mas uma coisa era certa, eles sabem como viver.
O sal faz meus olhos arderem, e eu pisco várias vezes sem saber se estou suando ou chorando.
Se há duas semanas me perguntassem se eu queria permanecer aqui na Terra, diria com convicção que não. Era uma ideia absurda e fora dos meu alcance, e além disso, era uma ideia absurda abrir mão das minhas asas, dos meus dons. Fiquei horrorizada com a Allyson quando percebi o acordo que ela tinha feito para que Jason continuasse respirando. Pensei: “Como alguém acostumado com tanto poder ser reduzido a humanidade e se contentar com isso?” Aposto que Jason também pensou assim por um tempo, então veio a resposta: Amor, a coisa mais poderosa do mundo. Jason amava tanto a Allyson que aceitou esse destino, se isso significasse ficar com ela.
Se Zack me ensinou algo válido ao longo desse ano é que não precisamos de muito para ser feliz. Agora vejo plenamente, e entendo, e me arrependo mais do que nuna de não ter visto a tempo.
E se eu for para a faculdade? Amar de novo? Poderia fazer isso se... abrisse mão de tudo o que eu tenho, de tudo o que eu sou.
Observo Ally ao meu lado. Bom, nem tudo. Zack e eu não éramos estranhos, ele tinha razão, assim como eu e Allyson não somos estranhas.
Não é a corrida mais rápida que já fizemos, mas acho que pode estar entre as melhores. Mantemos exatamente o mesmo ritmo, correndo quase ombro a ombro, dando uma volta do velho porto até Eastern.
Estamos mais lentas desde a nossa última corrida, com certeza. Após mais ou menos quatro quilômetros, começamos a desacelerar, e por um acordo silencioso cruzamos o gramado e vamos para a praia até a areia, rindo.
— Dois minutos – Diz Ally, engasgando – Eu só preciso de dois minutos.
— Patético – Zombo, apesar de estar tão agradecida pela pausa quanto ela.
— Você também – Diz ela, jogando um punhado de areia em mim.
Caímos de costas na areia, com braços e pernas abertos, como se fôssemos fazer desenho de anjos. A areia está surpreendentemente fresca e um pouco úmida em minha pele. Deve ter chovido mais cedo, afinal, quando eu estava em casa sentindo pena de mim mesma. O sol está afundando muito além das nuvens e a baía tem um tom cinza-escuro, levemente tingida de verde.
— Ouça, Hazel. Preciso falar uma coisa – Allyson começa, antes de virar a cabeça para olhar para mim.
— Seus olhos não estão verdes – Estreito os olhos e a encaro. Senti um tom de seriedade em sua voz, o que me deixou preocupada.
— Eu disse que seria diferente. Olha, prometa que não vai ficar chateada, tudo bem? Não vou conseguir... – Ela se detém antes de dizer o que sei que ia dizer, “não vou conseguir fazer o que tenho que fazer se você estiver chateada comigo, mesmo que eu não me importe mais com isso”.
Me sento, levantando a mão e forçando uma risada.
— Deixe-me adivinhar... Vai abandonar o navio, fugir, chutar o balde e
dar uma de independente para cima de mim, de novo – Digo em tom de brincadeira, mas há certa tensão em minha voz, um toque de carência. Quero que ela me contradiga.
Ally não diz nada. Por um instante simplesmente olhamos uma para a outra, e toda a luz e a energia de seu rosto escoam de repente.
— Você não está falando sério – Digo, afinal – Não pode estar falando sério depois de tudo o que a gente passou pra te salvar, depois de tudo o que eu passei.
— Eu preciso, Hazel – Responde, em voz baixa – Olha bem a sua volta, sou eu que eles querem. Não estou dizendo que vou simplesmente vou me entregar, eu vou lutar, mas não vou levar ninguém com quem eu me importe de verdade, Peter tem bastante gente e... Escute, Adam falava uma coisa pra mim, repetidamente, que o coração é o nosso ponto fraco, sempre foi, e ele tem razão. Por que acha que eu desliguei? Vão me ferir ferindo vocês, é isso o que eles fazem.
— Quando? – Decido perguntar. Ally morde o lábio e desvia o olhar do meu.
— Depois do meu aniversário, todos vão estar bêbados, vou juntar gente e pegar um barco de madrugada. Preciso encerrar o assunto, já combinei com o Peter
Hesito por apenas um segundo. Expiro com força, e o ar assobia ao passar entre os meus dentes.
— Não pode estar falando sério — Repito. Mas não consigo forçar as palavras. Em vez disso, começo a tirar grãos de areia de minhas coxas com o polegar.
— Não tem nada para mim aqui – Ally insiste, sussurrando.
Ela então me encara. Meus olhos estão enormes, e finalmente, percebe que me magoou.
— Eu estou aqui.
— Exatamente! É a única solução, me desculpe, Hazel.
Algo me ocorre, ali na areia, encarando seus olhos em um cata vento de cores verde-água, suplicando meu perdão, minha complacência, suplicando que eu guarde seu segredo, esperando uma resposta; eu perderia minhas asas por ela, morreria por ela, e isso não é errado. Droga Allyson Hale, como você consegue fazer isso com todo mundo?
Balanço a cabeça em concordância.
P.O.V. Allyson
O parquinho perto da minha casa está vazio, as crianças já foram para o conforto de seus lares para fugir de uma noite escura e cheia de terrores. Ok, talvez eu tenha exagerado. Um ar mórbido preenchia o local, a lua está alta no céu e sorrio quando encontro Kaleesa sentada no balanço.
— Trouxe cerveja – Anuncio me sentando ao seu lado. Mexo as pernas para frente e para trás e bebo um gole da bebida que já se encontra em minhas mãos.
— Salvando a pátria como sempre – Rio e jogo uma garrafa em sua direção, que pega no ar e abre com rapidez – Só pra você saber, não acho que o que tenha feito foi errado, eu te entendo.
— Obrigada, você é a única – Sorrio agradecida – Sonhei com você, quando estava com Adam. Não sei por que demorei tanto pra dizer, mas enfim. Eu estava cansada e com medo, querendo desistir. E do nada, lá estava você, toda inteligente e formal... Pronta pra formular um plano de fuga, o que é estranho porque eu sempre bolo os planos – Ela ri e bebo mais um gole da minha cerveja, esperando o álcool chegar até a cabeça. Mexo as pernas no balanço e olho para o céu.
— Gostaria de ter estado lá realmente, Allyson – Kaleesa chama minha atenção depois de um tempo em silêncio absoluto – Gostaria de tê-la ajudado melhor.
— Mas é disso que eu estou falando, você ajudou, salvou a minha vida quando me deu esperanças. Bem antes de tudo aquilo, antes da explosão.
— Não acredito que não me chamara, pra beber! – Ouço sua voz primeiro, e logo depois consigo enxergar sua silhueta no escuro. A camisa escura de sempre, a calça jeans e o cabelo negro como a noite.
Jason parece mais calmo, mais relaxado e feliz que na noite passada, quando não parava de dizer que me amava para tentar me trazer de volta, para me salvar. Que besteira, eu não preciso ser salva, não mais.
Levanto a garrafa e sorrio, indicando um convite.
— Oi Kaleesa.
— Jason – Ela cumprimenta, termina sua cerveja e se levanta. Faço o mesmo com a minha e pego a terceira, mas me recuso a sair daqui, não quando sei que devemos conversar, e Kaleesa também sabe, aparentemente – Eu já vou indo, deixar Miriel sozinho não é uma boa ideia.
—Tchauzinho! – Sorrio e a acompanho com o olhar, até Jason sentar no lugar que ela estava antes e pegar uma cerveja da caixa.
— Então... – Pigarreio – E aí!
— Oi Flor – Jason ri e balança a cabeça, como se não acreditasse que eu realmente estava querendo ter uma conversa dessas com ele – Ahn... Já conversou com o David?
— Se você tá perguntando se contei, não, ainda não, estou ignorando suas chamadas o dia todo. E também acho que ele não ia querer me ver, já que, cá entre nós – Começo a sussurrar – Aparentemente eu fiz uma coisa terrível! Não é mesmo, Jason?
— Eu não disse isso.
— Tudo bem – Bebo mais um gole.
— Naquela época, deixar você pra trás foi a coisa mais difícil que já fiz, e quando voltei depois da mensagem, devia ter lutado por você, mas aí fui fraco pelo segunda vez no mesmo dia, lembro de ter pensado que já tinha tido minha chance. Isso me fez ignorar tudo o que estava acontecendo a minha volta, todas as coisas que deixei escapar, e agora tenho que lidar com isso.
— Não estou a fim de ouvir sermão de novo.
— Não, não, admite, só admite pra mim, Allyson, sei que não me deve nada agora, mas preciso ouvir você dizer.
— Não posso, porque não é verdade. Embora eu sinta tudo com menos intensidade, nunca deixei de amar você, preciso fazer parecer que sim, e é uma ilusão achar que...
— Não deixou, eu sei disso, mesmo que você tenha feito o possível pra afastar todos nós, é minha culpa, é sempre minha culpa.
— Ah, qual é, do que você está falando?
— Eu estou falando de você também estar apaixonada pelo David.
— Meu Deus, agora você definitivamente passou dos limites.
— Não, escuta, eu te amo, Flor, sempre vou te amar, só quero que olhe nos meus olhos e diga que não sente nada por ele.
— Eu... – Não sei o que dizer, tudo anda tão embaralhado e incerto, minha mente gira como um relógio com defeito, vai e volta, vai e volta. David? O que diabos sinto pelo David? – Eu não sei o que sinto.
— Tudo bem – Ele abaixa a cabeça e esvazia sua garrafa, a atira longe e pega outra.
— Jason.
— Tudo bem – Repete.
— Eu... vou pra casa.
— Boa noite então.
— Você não vai dormir comigo?
— Hoje não, Flor, hoje não.
— Só pra deixar claro – Me viro quando já estava saindo – Não sei o que sinto por ninguém, exceto por você, e se ainda assim que acha que o que fiz foi imperdoável, então não há nada o que eu possa fazer, sinto muito.
Saio de lá pisando duro. Estava um pouco tonta, mas quem se importa? Consegui chegar inteira em casa. Tirei o casaco, pendurei e deixei as chaves no aparador. Quando consigo focar o olhar na sala, David está lá.
Hoje não é meu dia.
— Você prometeu!
— Não me lembro de ter prometido nada pra você – Franzo as sobrancelhas e solto um risinho indo cambaleante até a cozinha.
— Mas que merda, Allyson, não consegue ficar uma semana sem fazer algo estúpido? – Ele corre até mim e segura meu braço, logo depois examina meus olhos – Eu disse que nunca mais iria querer vê-los desse jeito. O que vai ser agora? Qual o grande jogo?
— Eu estou bem, meu Deus, tá tudo bem pela primeira vez, tudo ótimo.
— Não posso te perder – David cola a testa na minha e inspiro seu perfume.
— Desculpe, você sabe que eu tenho esse dom, não sabe? Eu fujo das situações, das coisas, das pessoas. Você sabe que eu sou assim, então só... deixa. Sei que posso ser um enorme pé no saco, eu faço tudo errado. Mas, de alguma inexplicável maneira, eu sei que você sempre está lá por mim. Nem em um milhão de anos eu jamais vou merecer você, levando em consideração tudo o que eu fiz em quatro anos – Quase caio e rio de novo – Então, desculpa, e também obrigada. Saiba que fiz por vocês.
— Tá bêbada? – Ele ri ainda com a mão em meu braço.
— Allyson! – O grito da minha mãe me faz sair de meu torpor e ficar meramente alerta – Ally, cadê você?
— Oi, eu tô aqui – Me apoio no balcão e cruzo os braços, ainda encarando David em dúvida, o que eu acabei de dizer?
— Porque não atendeu o celular? – Me viro quando ela se aproxima e deixa a bolsa na mesa.
— Ahm... tá desligado, carregando lá em cima.
— Eu deixei recados, Allyson.
— O que foi? Só fui andar um pouco com a Kaleesa e já voltei.
— Você não entende? Quando eu te ligo, preciso falar com você.
— Eita, tá bom — Minha mãe suspira e sai da cozinha – Acho melhor você ir – Digo ao David e beijo seu rosto antes de seguir aquela mulher furiosa – Meu Deus, mãe – Entro no escritório e encontro ela com as mãos espalmadas em cima da mesa, respirando fundo – O que foi? É o trabalho? O papai?
— Durante esse último ano, toda vez que você sai de casa uma parte de mim entra em pânico achando que você pode não voltar mais — Inclino a cabeça apara o lado e pego sua mão – Toda vez que você sai eu decoro a cor da sua blusa, se você está de jeans ou de saia, que bolsa está usando. Para o caso de eu ter que sair e...
— Ei, mãe, para – A forço a me encarar e passo a mão no seu cabelo – Acabou, tá? Eu juro que dessa vez acabou.
— Seu pai já se foi, por favor, não me deixe sozinha agora, eu simplesmente não consigo.
— Acabou – Puxo ela pra um abraço e encaro o chão, preocupada com o fato de ter que mentir mais uma vez.
P.O.V. Hazel
Encaro a casa dos Hale, tudo parece silencioso e surpreendentemente calmo, que quase pensei que as coisas voltaram ao normal, quase esperei ver a Allyson saindo pela porta para me chamar para uma festa na casa de alguém. Mas me lembrei de tudo o que aconteceu até agora e do que está prestes a acontecer, e quem saiu foi o David, com as mãos no bolso da calça jeans, ele nem olhou para o lado, abaixou a cabeça e andou a passos firmes.
O segui com o olhar, até parar no parquinho na praça ali perto e notar Jason bebendo sozinho no balanço. David também o viu, parou por uns segundos, e depois voltou a andar, mais determinado dessa vez. O que será que aconteceu?
— Eles brigaram – Meu corpo todo gela ao ouvir aquela voz, me recuso a me virar, me recuso a sofrer um pouco mais, mas... – Oi Anjo – Lá está ele, com a blusa azul de quando morreu, uma mancha escura de sangue na altura de seu coração, e apesar de tudo, Zack sorri.
— Como...?
— Ah, não, só estou aqui de passagem.
— Por que... por que eles brigaram?
— Allyson e David ou Allyson e Jason?
— As duas situações – Suspiro querendo me aproximar e sentir seu corpo quente no meu, mas sei que há a possibilidade de meu braço passar direto por ele.
— Eu sei que você quer evitar, protege-la disso, de tudo, mas mesmo assim, você não vê o que eu vejo, é muito fechada nas suas convicções, Anjo – Meu apelido saindo de sua boca me faz querer chorar, a saudade é avassaladora – Não é que ela faz o David se sentir uma pessoa melhor, ela faz, mas... ele também mexe muito com ela. David a desafia, surpreende, faz com que ela questione a vida, as crenças – Encaro a casa de novo e me abraço para espantar o frio, queria que ele me abraçasse – Jason é diferente, o amor dele é puro, ele vai ser bom pra ela de qualquer jeito. O David, para a Allyson, ou vai ser a pior coisa, ou a melhor, é intenso, sabe? Tem fogo.
— Zack...
— E sobre o soro, foi a melhor saída que ela achou para parar a dor, o sofrimento estava a consumindo por dentro. Não a culpe, Hazel, ela se importa demais contigo para suportar a sua desaprovação, para ter que escolher um caminho que ela não quer.
— Queria que estivesse aqui.
— Eu sempre vou estar. E Anjo, lembre-se que eu te amo, e faria tudo de novo se pudesse se isso significasse te salvar daquela flecha.
Corro até ele, mas já está desaparecendo, fugindo de mim, e ao invés disso, só encontro o ar frio cortante.
Ao invés de entrar na casa, vou atrás dos Arcanjos.
Fale com o autor