Flor da meia-noite

30 E agora, Allyson?


Notas iniciais
OPA, TUDO BOM? E aí minions do meu malvado coração ♥ To postando tão rápido que to até me estranhando, mas os capítulos vão ficando prontos e eu fico com dó de vocês, mesmo não merecendo. Bem-vindo povo novo, espero que gostem. Lete, já te considero pakas, obrigada pela recomendação incrível, é nois. Ps: Nunca saiam em plena terça-feira, vocês podem perder prova e estar de ressaca até agora e ter dizer que pra sua mãe que comeu algo estragado na faculdade. Não que eu tenha feito isso, loonge de mim. Se vocês leem isso aqui, vou parar de falar, e aí vocês podem aproveitar minhas palavras cureis, beijinhos, Tha.

"Mary, traga seu guarda-chuva

O sol brilha neste belo, belo dia

Mas as cinzas que chovem ternamente

Deixarão seu cabelo cinza.

Mary, mantenha seus remos firmes

Veleje pela enchente crescente

Mantenha sua vela pronta

Marés vermelhas são iguais a sangue."

Eu costumava achar que havia um botão, que eu podia apertar e tudo de complicado na minha vida desapareceria. Apertava e quem morreu, voltava à vida, eu não magoaria ninguém e ninguém me magoaria, ou mentiria pra mim, e tudo isso ficaria certo, normal, certo. Mas se eu apertasse o botão, eu sumiria também, tudo o que me tornei ao longo desses meses. Sou quem sou pelo que vivi, pelo que eu fiz, e por quem eu amei. Eu gosto dessa pessoa. Desajeitada, nada corajosa e tudo mais, mas eu.

Meu sonho foi o mesmo de sempre, mas, dessa vez, ao contrário: eu estava boiando no oceano, balançando as pernas e os braços para me manter na superfície, vendo minha mãe na beira de um penhasco a centenas e centenas de metros acima de mim — tão distante que não pude identificar suas feições, apenas linhas embaçadas de sua silhueta, emolduradas contra o sol. Eu tentava alertá-la, levantar os braços e acenar para que voltasse, para que se afastasse da beirada, porém, quanto mais eu me esforçava, mais a água parecia me arrastar e me deter, com a consistência de cola, travando meus braços e se infiltrando em minha garganta para deter minhas palavras. E, o tempo todo, grãos de areia flutuavam a meu redor como neve, e eu sabia que a qualquer segundo ela cairia e esmagaria a cabeça nas pedras escarpadas que emergiam da água como unhas afiadas.

E então ela estava caindo, movendo os braços, um ponto negro crescendo cada vez mais contra o sol ofuscante, e eu tentava gritar, mas não conseguia, e, à medida que a figura aumentava, eu percebia que não era minha mãe caindo na direção das pedras.

Era Jason. Pisquei e então era David. Os rostos mudavam enquanto o corpo caía.

Foi então que acordei.

Finalmente me levanto, ligeiramente tonta, tentando ignorar a sensação de pavor. Cambaleio lentamente até a janela da sacada do que sobrou do quarto da Adina no castelo Dunluce. É claro que a grande cama com dossel já não estava mais lá, fora substituída por um colchão fino no chão. Os móveis também sumiram, corroídos pelo tempo, dando a impressão de um quarto ainda maior. Era como estar na lembrança de novo, como se tudo ainda estivesse ali, aquela sensação de pisar no mesmo chão que era ela assustador. E era assim que eu me sentia todas as manhãs.

Fico aliviada quando percebo que não estou em casa, eu não aguentaria encarar tudo o que estava acontecendo por lá. Apesar de correr mais perigo quando estou aqui, e quando estou na sacada, mas ao mesmo tempo há um pouco de brisa. A atmosfera aqui dentro ainda é sufocante. As ruinas lá embaixo me deixavam intrigada, o quarto de Adina era o mais alto e não foi tão destruído como o resto. Por sorte, o castelo não recebia muitos turistas, há muitos outros mais históricos pela Grécia, e os poucos que recebíamos, era tudo encoberto por magia das diversas bruxas por aqui.

As cartas que minha mãe enviava permaneciam debaixo do meu travesseiro, elas estavam se tornando cada vez mais escassas com o tempo, assim com as da Hazel, eram quase raras e eu sabia que isso era culpa minha e da minha falta de respostas. Isso ia acabar acontecendo de um jeito ou de outro, depois de tanto tempo.

A última da minha mãe ainda me deixava cheia de tristeza. Calcei as botas pensando em meu pai sofrendo em sessões no hospital, sofrendo com a doença que cada vez mais o corroía por dentro. Sabia que precisava estar com ele, mas eu prometi a todos que voltaria com uma vingança, e era isso que eu iria fazer, ou eu não me chamava Allyson Hale.

A porta pesada de madeira se abriu, revelando uma Liz toda tímida. Ainda não entendia qual era a dela, mas me tratava com fascinação, ela era uma das nephilins que havia desistido de tudo e se doado completamente à causa, não podia colocar tudo a perder. Por ela.

—Estamos prontos, Allyson.

—Tudo bem, já vou, obrigada.

Suspiro, toco a foto de Marie comigo no colo e sigo para mais um dia.

—--//---

A bruxas me prepararam para muitas coisas, mas quando avançamos para as ruinas de Doonagore e demos de cara com centenas de milhares de caídos, fiquei um pouco assustada. Ok, talvez muito assustada.

Era um caos, eu nunca tinha visto nada assim, nephilins e mais nephilins avançando para o santuário a fim de pegarem as cinzas de Darko, queimado pelo fogo da própria espada e guardado até a chegada de Adina, mas Adina morreu antes de alcançarem seus objetivos, até eu nascer. Era a história que tinham me ensinado, finalmente a história verdadeira.

“Você precisa saber as histórias verdadeiras, pra só então reconhecer as falsas”

Merda, Adam, sai da minha cabeça!

Tínhamos que ter vindo mais cedo, tínhamos que ter nos apressado nas descobertas, nos estudos. Tínhamos que ter conseguido mais gente antes, mais sangue, e mesmo assim, tudo parece estar completamente perdido.

As ruinas de Doonagore resistiram por milhares de anos, mas não sobreviverão agora. Construções antigas vêm abaixo, tanto pelos caídos quanto pelos seus parceiros: Ninfóides, Banshees, bruxas. Todos escravos. Um ataque com tudo e todos. Sinto cheiro de veratrum. O vento uiva forte como furacão. Água e lascas de concreto ardem meus olhos em rajadas tão afiadas que quase me cegam. O solo está tremendo sob meus pés.

Acordo de meu torpor e tropeço, confusa. Não costumava cair. Mas desta vez arranho o rosto no asfalto e deixo sangue no chão ao erguer a cabeça.

“-Primeira lição, Allyson: Não deixe que te vejam sangrar. Levante. Vamos, levante!”

Quando consigo levantar, um banshee solta um grito capaz de arrebentar vidraças e me derruba outra vez. Sou forçada a tapar os ouvidos. Mais sangue, gotas grossas escorrendo rapidamente pelos meus dedos.

Mãos fortes e ásperas me colocam de pé, e cabelos loiros brilham à luz do fogo. Só enxergo o suficiente pra distinguir o rosto através da ventania cortante. Miriel. Sem armas, com as roupas rasgadas e os músculos trêmulos. E mesmo assim ele não me solta.

Atrás dele, uma figura alta (logicamente) e familiar forma uma silhueta escura contra o fogo. É Liz. Ela está completamente perdida enquanto observa tudo, em choque.

—Vem, nós precisamos chegar até o santuário – Miriel diz com sua voz firme e autoritária.

—Não vou deixa-la aqui – Aponto pra Liz e ele bufa.

Consigo ver o templo daqui, dava pra correr até lá se não fosse pelo mar de gente ao longo da distância. Minhas mãos faíscam, querendo e ansiando para serem usadas.

—Você sempre pelos fracos e oprimidos, Allyson – A sombra de um sorriso passa pelo seu rosto e ele finalmente me solta – Eu os atraso e pego ela, mas vai!

Eu já deveria ter me acostumado com todo o poder de Miriel. Ele, assim como eu, é da linhagem de originais, mas sua alma não preambulou por aí, ele fez um feitiço de conservação, continuou vivo e com o rostinho bonito.

Miriel sabe exatamente o que faz ao conduzir as labaredas a nossa volta, como um raio contornando uma rocha. Como muitas vezes eu já o vi fazer, ele cria uma muralha ardente, impedindo a passagem de caídos. Ele pega Liz nos braços e sorrio, só assim consigo correr até o meu destino.

Edith aparece ao meu lado, ela corre um pouco mais rápido que eu, graças a uns anos a mais de prática. Mas em seu rosto eu ainda podia enxergar o medo do fracasso. Eu já pensei como ela. Pensava que os caídos era invencíveis, como deuses sobre a Terra, poderosos demais para serem destruídos. Mas agora eu sabia muito bem que não, que eu era forte o bastante pra eles agora. Era fogo contra fogo. No meu caso, energia, muita energia.

Edith é ainda maior do que eu, mais alta e mais forte em termos humanos, só que eu sou mais ágil. Mesmo machucada e meio surda. Um caído vem até nós e eu sorrio, pronta pra liberar tudo.

Imediatamente, viro para a frente com as mãos espalmadas, captando o que preciso, embora eu não precise sugar a energia de nada agora. Posso criar a minha.

O caído frita e volto a correr.

—Boa! – Ela grita e sorrio.

Encontro Miriel já dentro do santuário. Alguns caídos nos perseguem até lá e ele murmura ordens breves: quando andar, quando erguer uma muralha, quando desfazê-la. Pelo menos estamos tirando a atenção de lá de fora, salvando algumas vidas.

Miriel parece mais exausto do que jamais o vi: veias azuis e pretas marcadas sob a pele lívida, círculos cinza delineando os olhos. Sei que a minha aparência deve estar ainda pior. Mas o ritmo dele evita que gastemos tudo e permite que um pouquinho das nossas forças volte bem quando precisamos.

Quando as chamas dele caem, meus raios se erguem e vice-versa. Juntos, temos uma chance, sei disso.

—Só mais um pouco – Ele murmura.

—Allyson, vá, ache-o – Edith diz com convicção. Olho pra Liz caída no chão, sussurrando coisas sem sentido, e depois pra Miriel.

—A garota vai ficar bem, vamos sair todos daqui, eu dou minha palavra.

—Não confio na sua palavra – Minha resposta corta fundo.

Miriel é um nephilim de nascença original. Sua vida foi tudo menos fácil, e ele não é estranho à dor. Ainda assim, minha declaração o magoa profundamente. Vejo no seu rosto.

Peço desculpas mais tarde, digo a mim mesma.

Se o mais tarde chegar.

Corro o mais rápido que consigo até chegar na sala onde as cinzas de Darko deveriam estar, mas chego tarde demais, e ao invés de encontrar o recipiente, encontro uma bruxa murmurando feitiços.

Ela me encara nos olhos e eu apago na hora, caindo no chão como uma pena.

Nos últimos meses, acordei em uma cela, em um corpo estranho, no passado, e agora em uma cela de novo. Onde vou acordar amanhã? Vou acordar amanhã?

Estou começando a pensar que tudo isso foi um sonho, ou um alucinação, ou alguma coisa pior. Mas dá pra sentir cansaço num sonho? Porque com certeza estou cansada. Minha exaustão penetra cada osso, músculo e nervo. Meu coração é como uma ferida, ainda sangrando pela traição e pelo fracasso.

Quando abro os olhos encontro paredes cinzas sufocantes, tudo o que eu quero esquecer ressurge em minha mente. É como se Adam estivesse dentro da minha mente, me obrigando a rever minhas piores lembranças, me obrigando a passar por mais uma intensificação, enquanto matava meus próprios amigos. Por mais que eu tente, não consigo detê-las, elas chegam como raios, mesmo sabendo que já se passaram meses desde que saí de Ellicot.

O estrado sob mim é duro, os cobertores são finos, e não há nenhum sinal de travesseiro, mas parte de mim quer deitar de novo. A enxaqueca retorna, latejando com o pulso elétrico desse abrigo estranho e milagroso. Trata-se de um lembrete constante: não há paz para mim aqui. Ainda não, não enquanto houver tanto a ser feito. A lista. Os nomes. Preciso encontrá-los. Preciso protegê-los de Darko e da gangue dele.

Um calor se espalha pelo meu rosto e minha pele enrubesce com a lembrança do livro de segredos que Kaleesa se esforçou tanto para escrever. Um registro daqueles que são como eu, que têm a estranha mutação que nos dá sangue nephilim original e poderes que nenhum outro tem.

Aquela lista é o legado de Kaleesa. E o meu. Jogo as pernas para o lado para sair do leito, quase batendo a cabeça na cama de cima, e me deparo com roupas perfeitamente dobradas no chão. Calças pretas compridas demais, uma camisa vermelho-escura com os cotovelos puídos e botas sem cadarços. Nada parecido com as roupas finas que sempre encontrei em casa, mas dão uma sensação boa ao tocar minha pele, como sempre.

Nem termino de passar a camisa pela cabeça quando a porta com grandes dobradiças de ferro do meu compartimento se escancara. Miriel espera ansioso do outro lado, com um sorriso forçado e desanimado.

—Acho que não é normal você dormir tanto assim — Ele diz, e percebo a preocupação em sua voz. Dou de ombros e levanto sobre as pernas fracas.

—Acho que estava precisando. O que aconteceu lá?

—Era uma armadilha, conseguimos chegar a tempo, mas saíram com Darko e... uma bruxa pegou umas gotas do seu sangue, eu sinto muito, Allyson, falhamos com todos.

Um zumbido estranho toma conta dos meus ouvidos. Agudo, mas não doloroso. Sacudo a cabeça como um cachorro molhado, tentando me livrar do ruído.

—Deve ser o grito do Banshee — Ele diz, indo até mim para segurar minha cabeça com as mãos cuidadosas cheias de calos. Me submeto ao exame dele, suspirando impaciente. Ele me vira para o lado e dá uma olhada nas orelhas que há pouco gotejavam sangue. — Você foi sortuda de não ter te acertado em cheio.

—Sou muitas coisas, mas acho que sortuda não é uma delas.

—Você está viva, Allyson — Miriel diz, seco, se afastando. — É mais do que muitos podem dizer.

O olhar severo dele me faz voltar às ruínas, quando falei ao meu amigo que não confiava na palavra dele. No fundo, sei que ainda não confio.

— Desculpa — Murmuro rápido.

Claro que sei que outros morreram, pela causa e por mim. Mas eu também morri. A Allyson de Ellicot morreu no dia em que fez dezoito anos. Adina, a princesa original, morreu nas ruínas. E não sei quem é a pessoa que abriu os olhos no abrigo hoje. Só sei o que ela foi e o que perdeu, e o peso disso é quase esmagador.

—Acho que é hora de voltar pra casa – Digo com convicção me apoiando nele.

—Que casa?

—Ellicot, Miriel, eu tenho uma missão. Nós temos.

—Você não pode estar pensando que eu vá com você.

—Eu sei que vai. Precisamos de roupas novas pra chegar lá e duas passagens de avião, com urgência.

—Allyson...

—Vamos buscar a minha vingança.

Notas finais
LEIAM!! Gente, vocês preferem capitulos maiores ou esse tamanho tá bom? É que a fic já tem muitos capítulos e é porque eles sã bem pequenos. Então me digam o que acham: Capítulos maiores com menos frequência ou menores e constantes? Xoxo