Flightless Birds
1 Capítulo 1 - Más notícias Kaya
Notas iniciais
Minha única reação àquela noticia foi correr. Não entendi o por quê, afinal, nunca gostei de correr e estava uma chuva torrencial. Mas precisava fugir, escapar da realidade. Talvez eu tivesse absorvido isso literalmente.
Ao longe, conseguia ouvir minha irmã gritando. Por isso aumentei a velocidade. Meu desejo era não conseguir ouvir nada, não sentir nada.
Quanto mais longe eu ficava mais rápido eu corria, mesmo que minhas roupas encharcadas estivessem pesadas. Senti o vento batendo contra minha pele, a chuva molhando ainda mais meus cabelos e meus pés ficando ensopados à medida que ia pisando em poças de água no meio da calçada.
Senti-me invencível. Sorri. Ri. Corri mais. Gargalhei. Desabei em um choro. Lágrimas que eu estava guardando há incontáveis minutos.
Apoiei minhas mãos em meus joelhos, exausta. Arfei, ofeguei e solucei. Não sabia há quanto tempo eu estava correndo, mas sentia como se fosse há dias. Sentei na calçada sem cogitar que motoqueiros afoitos e motoristas descuidados pudessem me atropelar. Eu só precisava descansar, chorar e esquecer de tudo.
Ouvi uma buzina, mas ignorei. A porta de um carro bateu e consegui identificar passos vindo em minha direção.
"Moça? Você está quase no meio da rua" uma voz masculina informou. Mas uma vez decidi ignorar. "Moça?" perguntou-me mais uma vez.
"O que você quer?" perguntei ainda com a cabeça baixa.
"Já disse, você está na rua" disse como se estivesse se controlando para não perder a paciência.
"Melhor?" perguntei me levantando.
Olhei em volta. Não identifiquei direito onde estava. Não costumava andar por aí.
Estava quase escurecendo. O crepúsculo estava quase sumindo e uma tênue linha de laranja começava a aparecer entre os tons de cinza pós tempestade.
Os postes de luz acendiam aos poucos. O homem permanecia parado, como se estivesse pensando no que dizer.
"Isso é tudo?" indaguei me virando e procurando algum meio de transporte que pudesse me levar para... Algum lugar. Não sabia aonde ir. Arfei. O desespero tomava lugar do ar que deveria estar em meus pulmões.
Senti uma mão em meus ombros e me virei, com o corpo pesado pelo cansaço.
"O que foi agora?" funguei.
"Você quer que eu... Sei lá, você parece perdida." me informou, olhando para mim, e meu estado deplorável.
"Nossa, jura? Quer um premio Nobel?" ironizei, passando a mão no meu cabelo, tentando arrumar minha franja.
“Só estou tentando ajudar." olhou para o chão e chutou uma pedrinha que lá jazia.
"Por quê? Você nem se importa." joguei-lhe na cara, tentando desviar de seu olhar.
"Eu... Tem razão. Não me importo. Não tenho que aturar uma menininha mimada chorando porque a mamãe não quis comprar um sapato novo." vociferou, já irritado. Aquela conversa já tinha chegado ao fim para ele.
Irritei-me. Aquela fora a gota d'água. Ele não fazia a mínima ideia do que estava falando.
"Cale sua boca imunda para falar de mim! Sabe porque meus pais nunca mais vão comprar 'sapatinhos novos' para mim, seu desgraçado?" respirei fundo e falei pela primeira vez: "Porque eles estão mortos, idiota de merda!" enfureci-me em um grito.
Ele se mantinha paralisado, estarrecido. Parecia até sem jeito.
"Quando?" perguntou olhando para as mãos, e depois qualquer outro lugar que não me envolvesse.
"Isso é pessoal. Eu não te contaria” constatei o obvio.
Comecei a andar, mas parei no segundo passo, e me virei.
"Hoje." lhe contei em um suspiro. Como ele não disse nada continuei a andar.
"Sinto muito!" berrou quando eu já estava longe o bastante para ter a necessidade de gritar.
Continuei caminhando meio sem rumo. A chuva mantinha seu ritmo. A cidade estava quase vazia por ser final de férias, seria difícil pedir informação.
De algum modo, consegui voltar para casa. Não por vontade, ou necessidade, mas pela inexistência de outro lugar para eu ir.
Minha irmã dormia no sofá, seu rosto estava manchado de rímel dissolvido pelas lágrimas. Acho que eu ter fugido não havia ajudado muito.
Pensei em passar pelo quarto de meus pais, mas sabia que não conseguiria aguentar.
Eu ainda esperava vê-los chegando de viagem com as malas cheias de presentes aguardando para serem entregues.
Mas eles não voltariam. E meu coração doía tanto ao pensar nisso que quase não conseguia pensar na palavra com M, na palavra “morte”.
Não que meus pais fossem muitos presentes, mas eles eram meus, e eu os amava incondicional e eternamente.
O pior de tudo é que disso eu não conseguiria fugir. Eu não poderia fingir que nada acontecera, era algo definitivo e não havia nada que eu pudesse fazer.
Acho que é isso que irrita tanto no conceito da morte: é involuntário. Ninguém pergunta “você quer morrer?” ou “Tudo bem se a pessoa que você mais ama no mundo morrer?”.
Acho que a razão de essa pergunta não ser feita é não só porque sua resposta não vá mudar nada, não só porque não existe uma “Morte”, com foice e capa preta. Mas porque definitivamente não está bem para mim perder meus pais, meus avós perderem os filhos, e meus tios perderem seus irmãos. Assim como isso não estaria bem em qualquer outra família.
O pior de tudo é que as pessoas tem que continuar vivendo, pois não têm o que fazer com o fato de que a pessoa que elas amam ter morrido. Se você está vivo, seu papel é continuar vivendo e honrar aqueles que já se foram. Tendo chances, oportunidades, e fazendo coisas sobre elas. E eu acho que é isso o problema da morte: você perde a chance de fazer a diferença. Passa a ser apenas um corpo, uma alma perdida, cinzas sem valor.
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