Flightless Birds
2 Capítulo 2 - Cacos de vidro Dylan
Notas iniciais
Já fazia uma semana desde que minha mãe havia partido. E convivendo com meu pai estava sendo pior do que já era antes.
Mesmo não convivendo muitas horas dentro de casa, já que nenhum de nós ficávamos muito lá, nós dois sempre tivemos um laço muito bom, firme. Infelizmente, a ficha caiu muito rápido quando ela foi declarada morta.
Meu pai não estava lindando com a situação muito bem. Garrafas estavam espalhadas perto do sofá que era dominado pelo cheiro de álcool e cigarros. Apesar de ele não ter o costume de fumar, havia adquirido esse hábito após a ultima semana.
Não achava realmente que aquele homem se importava com minha mãe, ele só queria usar a morte dela como desculpa para piorar seus hábitos. Na verdade ele costumava se importar tanto com ela quanto eu me importo com ele, ou seja: nada.
Algumas pessoas não acreditam que se possa odiar alguém que lhe deu a vida, que se deve tudo a ele e que é um dever ama-lo incondicionalmente. Mas eu nunca pedi para nascer, e muito menos ele. Fui um acidente de dois adolescentes imaturos. Minha mãe conseguira conquistar sucesso financeiramente, mas meu pai sempre fora um inútil, gastava o salário dos empregos (que nunca duravam muito) em bebidas.
Nunca entendi porque ela ainda ficava com ele. Minha mãe podia arrumar alguém muito melhor. Não acreditava que fosse amor, quando há amor em um relacionamento, os dois lados amam, os dois lados se importam, os dois lados demonstram.
Tudo que ele emitia era ódio.
Parte disso eu herdei dele. Lembro-me da primeira vez que tive esse sentimento voltado à ele.
Eu estava chegando da casa de um amigo, creio que eles não sabiam que eu voltaria tão cedo. Subi as escadas correndo, era possível ouvir os gritos da sala. Ele estava com a mão levantada, como se estivesse pronto para um tapa, e claramente alterado. Minha mãe, aquela doce mulher, sempre tão — a meu ver — segura e forte, estava encolhida no chão, com o sangue escorrendo pela testa. Nessa hora percebi como ela era frágil, afinal.
Ele estava rindo. Não soube o que fazer. Me recordo do quão rápido meu coração batia, e de quanto ódio estava sentindo. Sem saber o que fazer, corri para abraçar minha mãe, para tentar fazer ela fugir. Mas não funcionou. Me sentia inútil, incapaz.
Aquele homem desprezível que insistem dizer ser meu pai me pegou pela camisa bruscamente. Segurou-me pelo pescoço com um olhar frio e hostil. Com um movimento violento bateu minha cabeça contra a parde, incontáveis vezes, conseguia imaginar meu crânio se rachando aos poucos, como um espelho sendo atingido repetidamente. Minha visão escureceu, eu sentia uma dor absurda.
Ele sussurrou em meio à risos:
“Tente ajudar aquela vadia” me empurrou contra a parede novamente quando tentei me afastar “E vai ser o ultimo ato de heroísmo que você vai fazer, seu filho da mãe. Isso é entre mim é ela”.
Apertou um pouco mais meu pescoço antes de me soltar, as unhas arranhando-me como garras. Foi difícil recuperar o ar, podia sentir minha face vermelha e quente de raiva.
Sem forças, caí de joelhos, no chão, me apoiando com as mãos. Aproveitando minha situação de fragilidade, o homem deu um chute certeiro nas costas, e desei estar morto.
Olhei para minha mãe, que nos encarava com as mãos na boca. Lágrimas desciam em massa pelo seu delicado rosto, enquanto seu frágil corpo chacoalhava com os soluços.
Meu pai deu outro gole na garrafa de whisky que segurava e atirou a garrafa na parede.
“Sou eu que mando aqui. Entenderam?” gritou descontrolado, gesticulando com uma garrafa de vidro em sua mão.
Os soluços de minha mãe aumentavam. Meu coração batia cada vez mais rápido, era difícil de respirar, era difícil continuar vendo aquilo tudo.
“Eu não preciso de pesos mortos como vocês na minha vida.” Falou já grogue. Olhando para minha mãe com desprezo a informou: “É melhor você, sua cachorra, ganhar mais dinheiro” E então, com toda hostilidade que lhe restava me disse: “é melhor você sair logo dessa casa.”
Depois disso ele saiu do quarto, batendo a porta e me deixando sozinho com minha mãe e os cacos de vidro no chão.
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