Flashes

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Gente, é a primeira vez que eu me aventuro a colocar uma história minha para ser lida. Reviews são sempre muito bem-vindos. Espero que gostem!

Já passavam das duas da madrugada e Laerte ainda não havia voltado pra casa. Sabia que precisava mandar as fotos pra revista rapidamente, Fred não é de tolerar atrasos e o material tem que estar no e-mail dele às oito, mas dane-se a Flashes. Estava ali na porta daquele hotel. Tinha que vê-la. Precisava vê-la. Nunca na vida soube de algum fotógrafo que ataca de paparazzi que tivesse flertado com uma celebridade, mas estava realmente interessado em Vitória Castro, a protagonista da novela. Pode acontecer, né?

Tomou coragem e entrou. Foi direto à recepção

— Oi, eu sou o motorista da Uber que trouxe a atriz Vitória Castro. Ela esqueceu o celular no carro — tirou o próprio do bolso para dar veracidade — e achei prudente vir devolver.

— Só um minuto senhor, vou telefonar para o quarto da senhorita Castro e avisá-la.

A recepcionista tentou uma, duas, três, várias vezes. Ninguém atendeu. Ela estava lá, tinham certeza. Então, a segurança foi acionada.

— Pimentel, você poderia ir até o 704? Não estou conseguindo contato com a hóspede.

— Pode deixar, Tina.

Dois minutos depois, o telefone toca.

— Tina, chame a polícia. A mulher está morta.

A polícia veio rapidamente, o gerente do hotel apareceu visivelmente nervoso, tentando controloar o movimento de curiosos. E Laerte... Estava atônito, incapaz de processar as palavras que ouvira... está morta... Não podia ser. O corpo passou por sua frente para ser levado porta afora, estava coberto. Laerte tinha poucas certezas na vida. A de que havia se apaixonado por aquela mulher era uma delas. Sentiu-se destroçado. Foi para o seu carro, mas não tinha destino. Tudo o que precisava era de um lugar isolado. E chorou como nunca pensou que choraria.

*****

A maldita mulher não poderia ter marcado hora mais imprópria para uma entrevista, mas Clara estava lá a postos, de gravador e copo de café na mão ao lado de Joca, o fotógrafo mais paciente da Flashes. Fred sabia que Clara não suportava Silvia Laport mas a escalou para cobrir os preparativos do nascimento da filha de Sílvia por uma barriga de aluguel. Clara odiou seu chefe por isso.

— Puxa, já era hora de chegarem — eram oito da manhã — tenho muitos compromissos hoje, senhores. Não gosto de esperar.

Clara a fuzilou com o olhar, apesar de se dirigir com doçura.

— Não se preocupe, querida. Enquanto Joca faz o trabalho dele nós vamos otimizar o nosso tempo. Quando você descobriu que era portadora de um instinto maternal, Silvia?

— Depois que eu decretei aposentadoria na carreira de modelo. Quando me deparei com esta casa enorme e com as viagens constantes de Jacques à Europa para os seus negócios percebi que havia um vazio a ser preenchido. E meu marido sempre foi louco pra ter filhos. Acho que esse é o momento ideal.

— E por que o uso de uma barriga de aluguel?

— Querida, eu tenho quase 40 anos, a probabilidade de uma gestação vingar é muito baixa. Por isso recorri à Maria, que era nossa empregada e é uma jovem de extrema confiança. Ali está ela, não é uma graça de garota?

Maria estava ali, quieta, imóvel. Parecia acuada e com medo de dizer algo. Dava pra ver que não queria tanta exposição, mas Clara achou que ainda não era o momento de questioná-la.

Quando ela estava pra fazer a próxima pergunta, seu celular lhe mostra uma mensagem de Fred com os dizeres VOLTE PRA REDAÇÃO AGORA, VITÓRIA CASTRO ESTÁ MORTA. A cara surpresa não passou despercebida por Sílvia.

— Algum problema queridinha?

— Todos. Vitória Castro está morta, precisamos ir Joca. Vamos continuar a entrevista semana que vem, está certo?

— Como assim semana que vem? É o nascimento da minha filha, vocês não podem deixar pra depois! Onde está o profissionalismo?

— Olha só, você acha realmente que o público está preocupado com isso? Temos a protagonista de uma novela morta e a barriga de aluguel de uma quarentona no ostracismo. Ainda acredita que tem condições de competir?

*****

Fred Nogueira é ferino quando se trata de jornalismo de celebridades. Nada escapa de seu radar. Tornou a Flashes a principal mídia brasileira de cobertura do mundo dos famosos. Uma verdadeira águia nos negócios. Só tem um defeito: é capaz de jogar a carreira no lixo quando se trata de homens atraentes. Muito modelo que a gente vê por aí teve um up na carreira depois de pelo menos uma noite com Fred..

— Queridos, estamos diante de uma história chocante, como há anos eu não via acontecer. A edição dessa semana será quase que inteiramente dedicada à memória de Vitória Castro. O site precisa de alimentação constante, por isso eu vou delegar as funções de hoje: Yara, você vai fazer um texto minucioso sobre a carreira de Vitória: onde e quando começou, detalhamento dos papéis na TV, etc, etc. Paulo, você vai para a delegacia junto com a equipe de jornalismo do portal do nosso site. Nada de detalhes muito lúgubres ou repulsivos, você está indo para noticiar e não investigar. Clara vai para a emissora entrevistar o elenco da novela e quero que capte todas as reações possíveis, Vitória gerava muita controvérsia no meio e todos sabem disso. Laerte vai com você, ele é ótimo pra fotografar coisas desse tipo. Aliás, onde ele está? Localize-o. Quanto aos que ficam, telefone vai virar brinco. Liguem para parentes, amigos, autoridades, qualquer pessoa com alguma relevância que possa dar um depoimento sobre a falecida, positivo ou não. E vasculhar as redes sociais é item obrigatório. Mãos à obra. Essa vai ser a nossa maior cobertura

Depois da equipe dispersada, Clara rumou para a sala de Fred.

— Não estou conseguindo falar com Laerte, acho que já saiu de casa.

— Vou lhe dar o celular. Até hoje não entendi o motivo de Laerte só divulgar telefone fixo para os colegas. No nosso meio privacidade é algo tão banal...

— Confesso que quando estava voltando da casa da Sílvia pensei que a nossa cobertura seria apenas uma notinha de rodapé. Você e Vitória nunca se deram bem, e a coisa piorou depois do processo. Por que essa mobilização toda?

— Clarinha meu anjo, entenda uma coisa: não importa se eu gostava ou deixava de gostar da mulher, o fato é que ela rende notícia e nós precisamos que as pessoas nos leiam. Mas Vitória é a prova que o brasileiro não sabe votar pra nada! Tanta gente mais competente e logo ela vence o concurso do Programa do Domingo? E roubou aquelas joias sim! Se minha fonte não tivesse dado pra trás não teria tido processo. Mas mesmo morta ela consegue ser assunto. Se eu deixasse a minha opinião influenciar nas decisões do trabalho não estaria aqui nesta cadeira, benzinho. Agora vai atrás do Laerte, vocês tem uma grande reportagem pra fazer!

*****

Laerte acordou com os insistentes toques do seu celular, era um número que ele não conhecia. Levou um segundo para raciocinar sobre estava: estacionado a três quilômetros do hotel onde aconteceu a desgraça. O telefone tocou mais umja vez.

— Alô? — disse num tom irritadiço.

— Laerte? Sou eu, Clara. Preciso que venha à redação imediatamente.

— Clara? Se for sobre as fotos que eu fiquei de enviar avisa pro Fred que...

— Esquece essas fotos, temos uma pauta-bomba. Vitória Castro está morta e eu preciso que venha para irmos até a emissora conversar com o elenco da novela... Laerte? Laerte você está ai? Laerte!

Laerte não conseguia dizer uma única palavra.