Flashes
2 Capítulo 2
Notas iniciais
" - Ah, obrigado! — Laerte falou ao garçom que lhe servia um café que não iria beber. Estava ali para registrar Vitória Castro acompanhada de rapaz misterioso. Eles falavam baixo, porém estava lá por imagens e não áudios. O homem levantou, olhou em todas as direções e saiu sério, num passo estranhamente rápido. A estrela foi conferir o celular. Enquanto terminava suas fotos começou a se distrair com o jeito dela. Era uma mulher bonita, precisava admitir.
— Ou você é um fã muito tímido ou o paparazzi mais descuidado que eu já conheci na vida — ela começou a falar na direção dele.
— Desculpe, não poderia deixar passar a oportunidade.
— Tudo bem, já estou acostumadíssima — Vitória se levantou e caminhou até a mesa de Laerte — Posso me sentar? Não gosto de almoçar sozinha.
— Bem.. você já está sentada, então...
— Então você pode me dizer como se chama...
— Otto — mentiu.
— Posso jurar que esse não é o seu nome, mas enfim, como é trabalhar como paparazzi Otto? — jogou verde.
— Como é que você... o que te faz acreditar que eu sou paparazzi?
— Simples. Uma pessoa que bebe café jamais vai deixar ele esfriar."
*****
— Você não pode acreditar na petulância daquela mulher! Aquela barriga pode ser qualquer coisa, menos instinto maternal — Clara narrava os fatos ocorridos mais cedo para um Laerte aéreo — Você está bem Laerte?
— Estou. Por que pergunta?
— Sua cara está me dizendo exatamente o contrário. Se estiver doente pede uma licença, o Fred te deve muitas exclusivas, é o mínimo que ele pode fazer.
— Eu estou bem, Clara. São assuntos pessoais, nada que vá interferir no trabalho. O elenco da novela está todo ai?
— Sim. De acordo com minha fonte a emissora ordenou que todos os envolvidos na produção estivessem aí, autora inclusive. Devem estar tentando conter qualquer declaração que soe... digamos... ambígua.
— Não entendi.
— Veja, Vitória nunca foi uma unamidade no meio televisivo, e os críticos especializados sempre questionaram seu talento. Ela foi descoberta num concurso de programa de auditório e construiu a carreira mais pelas polêmicas que pelas atuações.
— Eu estava assistindo à essa novela, devo confessar. O desempenho dela me agradava muito, ela conseguia passar uma veracidade...
— Definitivamente assistíamos Vitórias diferentes.
Depois da ironia o trajeto até a emissora seguiu silencioso. Quando chegaram viram que não eram os únicos a tentar tirar alguma declaração dos outros atores. A mídia nacional e a internacional estavam atrás de informações. Seria uma tarefa árdua, mas não para aqueles dois.
Rosana Queiroz estava acabando de chegar à emissora. Era a pessoa certa pois nunca recusava uma foto ou declaração à Flahes. Sua personagem não era da mesma novela mas não importava. O objetivo era entrar na emissora
— Rosana, uma palavra para a Flashes por favor!
— Ah querida, estamos todos comovidos com a perda repentina da nossa colega — ela ia respondendo e os dois iam no mesmo passo — O que queremos é um esclarecimento das causas para enfim prestar nossa última homenagem à Vitória — Rosana começou a embargar a voz — Desculpa, é tudo muito triste.
— Tudo bem Rosana, entendemos a sua dor. Muito obrigado.
Eles se afastaram.
— Incrível como essa tática funciona sempre — comentou Clara.
— Incrível como tem gente que atua o tempo todo — Laerte foi discreto na sua declaração.
*****
— Yara meu amor, você deveria escrever uma novela viu? O texto está emocionante! Se eu tivesse alguma pretensão de chorar a morte dessa aí não teria resistido.
— Não perdoa a mulher nem depois de morta, não é? Ela vai render uma edição histórica pra você Fred, para de guardar esse rancor!
— Perdão é pra seres superiores. Eu sou baixo mesmo..Alguma notícia de Laerte? Clara ficou de encontrá-lo não sei onde, ninguém me dá sinal.
—Já entrei em contato, estão na emissora. O estranho é que até agora não há um comunicado oficial, a diretoria está em completo silêncio até extraoficialmente. Isso não é bom.
— Também acho. Deve ser algo da polícia. Mandei Paulo à delegacia e até agora nada, sabia que deveria ter sido outra pessoa..
— Pois quem quer que fosse teria tido a mesma sorte — Paulo entrou de repente — O fato é que a polícia não vai liberar nenhum detalhe da investigação até amanhã. A autópsia foi inconclusiva.
*****
O Estúdio D estava muito movimento. Como não estavam com credenciais tinham que fazer tudocom muita discrição. Laerte tirava muitas fotos que não seriam publicadas mas que Clara usaria para todo o detalhamento de seu texto.
O casal Felipe Gomes e Ingrid Viana estava chegando. Apesar de noivos, nesta novela Vitória formava com Felipe o casal protagonista. Ingrid era a vilã.
— Um minuto do casal por favor! É para a revista Flahes! — Clara os interrompeu.
— Sejam rápidos por favor — disse Felipe.
— O que vocês tem a declarar sobre a morte de Vitória Castro?
— Ah, isso? — foi a vez de Ingrid — Um grande problema né? As gravações foram suspensas, logo a autora reescreve os capítulos e tudo dará certo. Até porque o casamento é no mês que vem, não podemos adiar.
— Então quer dizer que mesmo diante do acontecido ainda está mantido o casamento?
— Olha só — Felipe tornou a falar — Vitória morreu, foi algo muito chato. Mas a gente não pode parar a vida por essa razão. Ela não ia querer isso. Enquanto viva sempre nos deu a maior força. Agora com licença, sim?
Enquanto o casal se afastava, Clara não escondia a surpresa pelas palavras que acabara de ouvir.
— Dá pra acreditar no que você acabou dede ouvir? Zero sensibilidade, zero consternação. Até parece que não estão incomodados.
— Eles estão mais pra aliviados, isso sim. Como tratar a morte de alguém com tanta indiferença, com tanto desprezo? Minha vontade é de alcançar aqueles dois e dizer poucas e boas.
— Ei! Se controla cara! Até parece que falaram mal da sua mulher!
" Aí é que está. Eles falaram sim" — ele pensou.
*****
Paulo ainda estava detalhando para Fred todos os detalhes da tentativa furada de obter informações da polícia.
— Não sou nenhum perito no assunto, mas acredito que foi envenenamento. Fosse tiro ou ferimento por arma branca alguém teria ouvido alguma reação e a polícia não demoraria tanto pra divulgar a causa da morte, já que são causas evidentes..
— Concordo. Mas chega por hoje né? Eu não vou passar o dia respirando a morte de um desafeto — disse enquanto saia da mesa. Tenho coisas mais importantes pra fazer e...
— Fred, eu sinto a sua falta — Paulo disparou e o editor-chefe ficou paralisado — Eu sei que não é hora e nem lugar mas...
— Paulo, eu não sou a pessoa certa pra você... Eu.. Eu não mereço o seu amor... Eu...
— Eu vou te esperar às nove lá em casa. Ficaria muito feliz se você fosse...
*****
Depois de mais de vinte e quatro horas Laerte finalmente punha os pés em casa. Muita coisa aconteceu e ele precisava processar tudo: a morte de Vitória, os diálogos com Clara, aquele casal imbecil... Precisava dormir, mas tomou um banho frio pra despertar mesmo.
Enquanto se secava a campainha tocou três vezes. Pensou em quem poderia ser. No olho mágico não viu ninguém. Quando abriu a porta notou um envelope pardo no chão. Havia um celular dentro, junto com um bilhete impresso com os dizeres:
"Aperte um botão para iluminar a tela. Aproveite o presentinho"
Seguiu a instrução e viu a foto de uma mulher
— Mas o quê...?
Sentiu seu corpo congelar. Era o celular de Vitória.
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