Fita de Seda
42 Capítulo 42 - As mentiras têm Mesmo Perna Curta
Notas iniciais
Encarei a garota de cabelos escuros no grande espelho na porta do guarda-roupa, e ela retribuiu a minha observação com seus grandes olhos negros violáceos e brilhantes parecendo muito surpresos com o que via.
Havia passado delineador em estilo “gatinha” nas suas pálpebras, os lábios carnudos pigmentados com um gloss que acentuava a cor vermelha natural. Seu cabelo negro e brilhante havia sido cacheado e preso em um primoroso coque torto elegante que lhe dava uma aparência de mulher, assim como o vestido – ah, o vestido... Ele era de seda azul com detalhes em dourado, em estilo asiático, com decote em fenda e sem mangas, além de se moldar em suas curvas perfeitamente quase como se tivesse sido feito sob medida. Um cinto grande de couro preto demarcava sua cintura, combinando com os lindos saltos pretos em estilo boot que pertenciam a Sakura. O vestido ficava um pouco mais largo na saia lisa, dando liberdade de movimento, e era mais curto na parte da frente (parando alguns centímetros acima dos joelhos) e longo na parte de trás (próximo dos tornozelos).
O que mais era chocante naquela imagem no espelho era que a garota linda e curvilínea que eu estava olhando, na verdade era eu.
– Você está completamente maravilhosa, Hime! – Elogiou Sakura com sinceridade, batendo palminhas empolgadas. – Eu falei com você que seu vestido era perfeito. Tenho certeza que Kaname vai pirar quando te ver!
Eu sorri para ela, agradecida, me sentindo mal por todas as vezes que pensei coisas ruins a respeito daquela menina – se eu estava com o cabelo maravilhoso, com aqueles sapatos lindos e bem maquiada era graças a ela.
Se eu dependesse de Naomi para ir ao baile, estaria de chinelos de dedo e fazendo cosplay de palhaço.
– Obrigada. É melhor nós irmos de uma vez para esse baile.
Descemos as escadas do dormitório juntas, comigo impressionada por me equilibrar sem qualquer esforço naquele sapato com saltos tão perigosamente finos e altos (devia ter ganhado algum equilíbrio vampírico que sempre me faltou, porque normalmente eu teria quebrado meu pescoço), e com ela me contando empolgadamente o que estava esperando do baile – basicamente uma oportunidade de dançar com Ichijou e Aidou – e que esperava que o DJ tocasse a sua música; e eu fiquei apenas sorrindo e assentindo para tudo que ela falava, com inveja das preocupações bobas que Sakura tinha.
Sakura acabou encontrando algumas de suas amigas e até me convidou para caminhar com elas, mas eu recusei de maneira plácida falando que eu queria andar devagar e admirar a noite; o que foi uma ótima desculpa, pois elas estavam com pressa para chegarem e conseguirem algum aluno da Night Class para dançar.
Caminhei em um silêncio reflexivo, deslizando a língua pelos meus dentes de minuto em minuto, incrédula com o péssimo tratamento ortodôntico que aquela primeira parte da transição me deu. Minha gengiva ainda estava sensível com todo o remelexo que acontecera dentro da minha boca, e até um pouco inchada, mas nada que fosse chamar atenção alheia.
Será que as pessoas que fizeram essa macumba para os Sangues-Primários não podiam ter tornado essa transição mais fácil? Eu já não estava nem um pouco animada para me tornar vampira e criar um grande pânico geral nos vampiros por descobrirem que o mais poderoso não é Kaname Kuran; tinham mesmo que tornar essa mudança drástica tão excruciante?
Embora aquela pessoa albina que eu não queria lembrar o nome estivesse certa sobre o que Kira me contou fosse apenas a obrigação dele, ainda havia o grande risco que Leigh representava a todos naquela escola, e aquele desgraçado ainda estava me procurando. Eu não poderia defendê-los enquanto ainda era apenas uma humana de caninos pontiagudos, então o melhor seria evita-lo até que finalmente conseguisse a força que precisava.
Esse tipo de pensamento hoje não! Apenas aproveitar meu último dia.
Soltei um suspiro baixo e empurrei todas aquelas ideias para o mais fundo de minha mente, me concentrando no presente.
Aquela noite estava linda mesmo que bastante fria, a temperatura havia caído bastante de um dia para o outro e eu não me surpreenderia nem um pouco se começasse a nevar; mas isso não aconteceria ainda.
O céu negro estava limpo e maravilhoso, e se eu não entendesse o básico de astronomia poderia crer naquela antiga lenda grega que dizia que as estrelas eram cacos de vidro espalhados no tapete do céu.
– Está uma bela noite, não acha? – Disse uma voz masculina as minhas costas.
Eu girei nos calcanhares rapidamente com o susto, antes que minha mente assimilasse de quem era essa voz e encontrasse o tal dono com um meio sorriso pecaminoso nos lábios – e meu coração deu um tranco.
Kira Asamiya estava a um metro de distância de mim, seus olhos, de um azul tão nítido mesmo na meia luz dos postes, tinham um brilho quase sarcástico com minha reação exagerada.
Analisei-o de cima a baixo, um pouco apatetada.
Ele estava lindo em seu uniforme branco da Night Class, uma flor de um tom de azul parecido com o de seus olhos enfeitava o bolso do blazer, que jazia aberto. Seu cabelo negro permanecia a mesma bagunça, daquele tipo eu-finjo-que-não-me-importo-mas-na-verdade-eu-me-importo. Ele parecia um príncipe anti-herói bastante sexy, e pensar nisso realmente me surpreendeu, mas não porque antes eu não o considerava tal coisa.
Eu não tinha ideia de quando minha visão em relação à Kira havia mudado, mas vê-lo daquela maneira fez meu coração bater um pouco descompassado, e isso era novo para mim.
Seus olhos esquadrinharam a silhueta de minha estrutura e esse vagaroso movimento fez minhas bochechas flamejarem. Pare de olhar pra mim, era o que eu queria dizer, mas minha língua se tornara pesada demais.
– Você está... – Seus olhos ficaram por tempo demais em minhas pernas antes de finalmente ele voltar para o meu rosto, o azul se tornando algo pesado e malicioso. – Você está ainda mais linda, Hime.
Eu sabia que essa não era a palavra que ele planejava dizer, e isso tornou tudo muito pior.
– Obrigada, Kira. – Minha voz saiu um pouco instável. – Você também está ótimo, sabe? Aposto que as meninas vão ficar loucas para terem a honra de uma dança com você.
Estranhamente eu senti um leve gosto amargo do ciúme ao constatar isso em voz alta e eu me achei muito idiota por isso. O que poderia eu fazer? Eu o chutei, então teria que lidar com a atenção feminina que ele receberia, e além do mais eu guardava uma paixão não correspondida por certa criatura albina, não era? Ou poderia eu ter um sentimento ainda maior escondido em algum lugar por esse rapaz que realmente gosta de mim?
Naquele momento eu torci mesmo que tivesse...
– Elas não me interessam, Hime, só há uma garota de quem desejo atenção.
E meu rosto queimou com a vergonha mais uma vez, pois seus orbes ardentes brilhavam com aquela admiração cega que eu vira durante nossa conversa na floresta, como se eu fosse o único ser humano (ainda sou, por enquanto) que aprendera a voar.
Utilizei todo o brilhantismo do meu cérebro para dizer “hm”. Eu sei, eu sou um monstro insensível e idiota!
– Nós vamos embora depois desse baile, ok? – Mudei de assunto.
Fiquei apenas o suficiente para que ele assentisse em concordância, então me virei para ir em direção ao baile, não desejando ver a felicidade dele no que eu considerava uma tristeza sem fim que me espremia o coração. Eu morreria de saudades de Mitsuo e suas maluquices, de Kaien e suas mudanças de humor repentinas, até de Aidou e sua mania irritante de tentar voltar às alunas contra mim! Mas o pior de tudo é que eu sentiria muito a falta daquele albino imprevisível que eu não iria pensar no nome ainda; e eu me sentia tão idiota por isso, mas o que eu poderia fazer? Era ele quem me odiava, eu não podia sentir o mesmo, independente de cada palavra horrível que ele atirara em meu rosto assim que descobriu o que eu me tornaria.
Caminhei a passos largos em direção ao salão onde ocorria o baile, dessa vez com pressa para aproveitar cada minuto da minha noite, e Kira me acompanhou sem qualquer esforço – mesmo que eu não tivesse nenhuma intenção de mantê-lo distante.
Quando avistei a porta de entrada por onde um pouco da luz passava para a semiescuridão que havia do lado de fora, quase corri para a festa – quase, porque a segunda coisa que vi me fez hesitar.
Aquele albino que eu ainda me recusava a pensar, mas que a sua figura arrancara o nome dele do lugar onde eu o jogara, estava com as costas recostadas a uma pilastra do lado de fora da festa e parecia sugar toda a escuridão para a sua volta. Seus braços estavam cruzados de maneira displicente, o cabelo uma bagunça prateada tão fodidamente sexy que eu desejei raspá-lo, mesmo que o maldito ainda permaneceria sexy. Vestia o uniforme da Day Class como sempre, com seu blazer aberto e a gravata frouxa; mas não foi somente isso que me fez ficar parada encarando, abobalhada. Yuuki Kuran estava parada a sua frente e parecia estar passando algum sermão acalorado, então começou a endireitar a gravata e abotoar o blazer do desbotado com muita casualidade, e eu senti uma poderosa pontada de ciúmes em meu peito e meu sangue gelou. Tudo que Zero fazia era observa-la, seu semblante sério não dando nenhuma pista do que poderia estar pensando, mas eu podia sentir os sentimentos dele por ela passando pela nossa ligação e me estapeando o rosto.
Yuuki estava linda em um vestido rosa claro com saia drapejada e de alças caídas, exibindo a pele clara dos seus ombros; os longos cabelos castanhos estavam soltos e divinos como sempre, jogados sobre um ombro só.
– Você está mais bonita que ela, se quer a minha opinião. – Sussurrou Kira em consolo ao meu lado.
Eu não consegui evitar rir, de verdade, e não porque pelo menos uma pessoa preferia a mim ao invés dela, mas era engraçado levando em conta toda a situação fodida em que eu me encontrava.
Infelizmente meu riso atraiu a atenção de Zero, que primeiramente viu Kira ao meu lado e eu senti um traço de hostilidade atravessando pela nossa ligação até mim – parece que o muro que eu criei não era tão poderoso quando estávamos no mesmo ambiente – e logo depois seu olhar caiu sobre mim e tudo parou.
Seus orbes viajaram por toda a silhueta de meu ser de maneira lenta, sem qualquer emoção aparente, mas aquela ponte que nos ligava me dizia que as coisas não eram bem assim no seu interior. O branquelo estava admirado e até surpreso que aquela garota superlinda – ah, parem, eu tinha o direito de me achar um pouquinho levando em conta a surra na autoestima de uns segundos atrás – era a mesma menina que ele dispensou na tarde anterior. Pelo menos eu esperava que ele estivesse pensando isso, e não apenas me achando bonita.
Tire os olhos desse bastardo, Hime! Ele chutou você dizendo que odiava vampiros e está de papinho com a Yuuki.
Desviei meus olhos do dele e notei que Yuuki também olhava para mim, embora eu não pudesse ter certeza da sua expressão por causa das sombras e tudo mais.
Recompus a minha postura de diva e pus uma expressão esnobe no rosto, passando pelos dois com aquele ar de superioridade que eu senti que Zero não apreciou nem um pouco, provavelmente porque os “da minha espécie” não tinham o direito de tal coisa. Aparentemente ele ainda via Yuuki um pouco como a garota que ela um dia foi, já que não estava apontando Bloody Rose para ela como fizera comigo na tarde anterior, e isso apenas somou mais um motivo para ter raiva de Zero.
Kira que andava ao meu lado com um pequeno sorriso orgulhoso nos lábios também não dirigiu sequer um olhar ou palavra para eles – acho que com Kira as minhas “Guerras Frias” também eram as dele, e eu quase dei um beijo estalado na bochecha dele por isso.
Eu não tinha tempo para dramas românticos ou supostas fofoqueiras, eu estava em uma missão muito séria: divertir-me o máximo que desse e aproveitar minha última noite na Academia Cross.
Entrei no melhor estilo top-model, tentando incorporar um pouco da rainha que Kira esperava que eu fosse; então fiz uma pausa dramática na entrada – estava me sentindo a Cinderela, só que em um vestido mais sexy e em uma pose um pouco mais cheia de si.
Boa parte dos olhares se direcionou a minha figura convencida, e pela primeira vez na minha vida desmemoriada eu apreciei o excesso de atenção.
Kira sacudiu a cabeça, parecendo se divertir com a minha pausa dramática em apreciação ao look.
– Parece que esta noite você está com o que chamávamos de “Alma Teatral”. – Falou Kira ao meu lado com um brilho de diversão naqueles olhos inacreditavelmente azuis – Você estava fazendo faculdade de Artes Cênicas antes de tudo, sabia?
Olhei-o, impressionada com aquela informação. Antes de tudo eu queria ser atriz?
– Como uma nerd acaba ansiando por uma carreira no mundo das novelas? – Inqueri, confusa. – Isso é tão...
Eu não tinha a palavra para aquilo, mas ainda assim não conseguia ver a garota perdida em algum lugar depois daquela ponte destruída como uma aspirante a atriz.
Kira deu um aceno sutil com a cabeça em direção ao salão antes de se pôr a andar para lá, e eu o acompanhei, era claro, queria saber mais sobre a “Olívia”.
– Você não sonhava em participar de novelas, você queria atuar em teatros como faziam os antigos, esse tipo de coisa. Você vivia tagarelando sobre o seu futuro nos palcos e eu nunca ouvia de fato, o brilho nos seus olhos e o seu sorriso empolgado sempre me distraiam...
Minha garganta ficou seca e eu direcionei um olhar nervoso para Kira, que apenas deu de ombros com um sorriso suave nos lábios.
Nós paramos perto de uma pilastra branca no canto com uma visão geral da pista de dança, aonde os vampiros da Night Class dançavam até com quatro meninas e os garotos da Day Class bebiam ponche ou jaziam esquecidos nos cantos; mas alguns conseguiram alguma menina da Night Class para mexer seus esqueletos. Em minha humilde opinião, a dança em grupo parecia mais que eles estavam brincando de “ciranda, cirandinha”, então se já não tivesse um par perdido por aí ou um gato como Kira apaixonado por minha pessoa, eu estaria puxando alguém bonitinho da Day Class para dançar.
– Não me importo com o quanto isso te constranja, Hime, o fato é que eu sou apaixonado por você e nada do que você faça vai mudar isso, ou quanto desses babacas entrem no meu caminho. – Manejou a cabeça para a pista à frente.
Olhei para a direção que ele apontou, avistando Kaname Kuran atravessando o salão com aquela aura de liderança que o fazia se destacar entre todos. Quando nossos olhos se encontraram, aquele minúsculo sorriso suave apareceu e foi impossível não retribuir. Então aqueles orbes castanhos avermelhados peculiares viajaram por meu corpo e seus lábios se entreabriram um pouco em surpresa, e meu rosto quase se rachou com um sorriso satisfeito.
“Insensível e idiota, tem um cara que é completamente apaixonado por você do seu lado!”, lembrou aquela parte irritante do meu cérebro que dessa vez serviu para alguma coisa.
Virei-me para minha direita com a intenção de me redimir com a pessoa que eu estava magoando tão desvairadamente, mas ele já havia ido. Deixei meu olhar vagar pelo recinto a procura dele, temendo tê-lo deixado irritado ou qualquer coisa do tipo, mas o encontrei já do outro lado do salão conversando com Mitsuo, que jazia sentado em uma cadeira nos fundos e as bochechas do meu amigo maluco estavam começando a queimar de vergonha – provavelmente estava desconcertado com o poder daqueles olhos sobrenaturalmente azuis de Kira.
Eu sorri suavemente, rezando aos céus que Kira viesse a convidar Mitsuo para dançar, e quase fiz uma dancinha da vitória quando o Sangue-Puro se curvou daquele jeito antiquado que os caras da Night Class costumavam fazer e estendeu uma mão para meu amigo, que o rosto virou um tomate maduro, mas pegou a mão de Kira.
Voltei minha atenção a minha frente a tempo de ver Kaname parar a minha frente, tão lindo como sempre.
– Você está deslumbrante, Hime. – Ele falou com aquela voz suave que deve fazer as meninas quase se derreterem aos seus pés, e eu não era uma exceção.
– Muito obrigada, e obrigada também pelo vestido e tudo mais. Você sabia que azul é minha cor favorita? – Toquei o tecido suave da saia.
Ele pareceu um pouco surpreso.
– Na verdade, eu não sabia. Apenas achei que essa cor ficaria muito bem em você, e eu estava certo. – Estendeu sua mão para mim e notei que até ela era elegante, com dedos longos e magros como as mãos de um pianista. – Gostaria de dançar?
Eu assenti e pus minha mão sobre a dele, sentindo a maciez e o calor de sua pele contra a minha. Kaname entrelaçou nossos dedos, meu estômago se agitando um pouco com isso, e me guiou para o meio da pista de dança.
Ainda era início de baile, então uma banda tocava apenas aquelas músicas clássicas de festa de gente rica.
Kaname parou de frente para mim, colocando uma mão em minha cintura – eu coloquei a minha espalmada sobre seu peito porque não sou besta – e com a outra uniu nossas mãos, e guiou-me em uma dança que não foi difícil acompanhar.
Agora é oficial, eu ganhei alguma coordenação e equilíbrio vampírico.
Ele manteve seus olhos fixos no meu enquanto dançávamos o que me fazia corar com muita frequência, pois sentia que ele estava lendo tudo que eu pensava. Ficamos em silêncio, porque aquele momento não parecia precisar de algo tão trivial quanto palavras; apenas desfrutávamos da companhia um do outro.
– Hoje eu fiquei sabendo de um rumor que anda correndo pela Day Class de que nós estamos namorando. – Ele falou de repente, e eu quase tive um enfarto fulminante – Sabe alguma coisa a respeito? Porque eu fiquei bastante impressionado ao descobrir que eu estava em um relacionamento sério com você.
Meus pés pararam de se mover, em choque, e Kaname não pareceu se importar com isso, e eu estava torcendo com todas as minhas forças que ele acreditasse que minha cara estupefata era por causa daquela informação e não por ele ter descoberto sobre minhas calúnias.
Senti minhas bochechas pinicarem como se todo o meu sangue houvesse sido drenado para o meu rosto, e eu me encontrava em algum lugar entre terrivelmente-envergonhada e horrorizada-demais-para-conseguir-falar-alguma-coisa; e meu único pensamento era que eu queria matar Aidou por ter aberto a boca e compartilhado um segredo (não tão secreto assim) que era minha escolha contar, minha escolha esconder para todo o sempre dele.
Perdi a conta de quantas vezes abri e fechei a boca na esperança de que uma desculpa muito boa saísse, mas quanto mais eu fazia isso, mais era difícil para Kaname manter uma expressão séria quando seus olhos já cintilavam com diversão.
Pra que estou me esforçando? Ele já sabe quem é a mente criminosa por trás disso, apenas confesse de uma vez!
Olhei para os nossos pés, me sentindo a criatura mais idiota colocada nesse planeta.
– Eu inventei isso... – Eu soltei meio engasgada, querendo que o chão me engolisse.
Ouvi o breve som do riso dele, e isso me fez erguer o rosto em uma velocidade impressionante apenas para vê-lo. Ele estava sorrindo para mim, um sorriso secreto e discreto que dizia tantas coisas; o tipo de coisa que ninguém deveria dizer em um espaço tão cheio de gente.
Minha respiração ficou presa na garganta e torci para não estar corando mais uma vez.
Ele me guiou pelo salão para através de um par de portas francesas, e no minuto seguinte estávamos em uma varanda vazia com um balcão de pedra e vista para uma fonte branca cercada por alguns bancos e a sombria floresta que cercava a Academia Cross mais atrás.
Afastei-me dele e coloquei as mãos sobre a balaustrada, meio encantada com a beleza daquele lugar que era iluminado apenas pela fraca luz branca dos postes e a lua oblonga, que nadava despreocupadamente sobre as nuvens; um barco branco sobre um mar de negro polvilhado com pequenos pontos brilhantes. Parece que no tempo em que estivera do lado de dentro, as nuvens havia coberto todo o céu, mas não haviam conseguido impedir que a lua exibisse seu esplendor.
O ar frio em minha pele quente foi um balsamo, principalmente porque agora tinha uma desculpa para estar com as bochechas rosadas.
Kaname veio para o meu lado, seus dedos me seguraram pelo cotovelo e me viraram gentilmente de frente para ele. Seus braços envolveram minha cintura, nos fazendo voltar a dançar, mesmo que mais lento do que o ritmo da música; o que eu não me importei nem um pouco.
Uma de suas mãos se ergueu acariciou a minha bochecha vagarosamente, de maneira quase contemplativa, e eu senti meu rosto quente sob a calma dos dedos dele.
– Desde o momento em que te vi pela primeira vez, você me intrigou, e eu quis saber mais sobre você – ele falou suavemente. – Quanto mais te conhecia, vendo seus sorrisos sinceros e esse magnetismo incomum, mais meus sentimentos por você cresciam. – Ele segurou meu rosto gentilmente, fixando seu olhar no meu – Eu amo você, Hime.
Então ele moldou seus lábios nos meus.
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