Fire and Water
1 O Jogo
Notas iniciais
Abro os olhos, identificando o lugar e percebo que não foi apenas um sonho, eu realmente estou me passando por outra pessoa. O quarto, todo decorado em diferentes tons de marrom e creme, é composto por um closet ao lado da porta que dá acesso ao banheiro, muitos espelhos espalhados, um grande tapete ao centro, alguns outros móveis nos cantos e uma cama de casal ao fundo, perto de uma janela que cobre quase a parede inteira, mas que está coberta por uma cortina. Não entendo o porquê de uma pessoa tão rica e coberta de luxo trocaria de lugar comigo, somos tão parecidas, mas ao mesmo tempo tão diferentes, somos como fogo e água.
Após alguns minutos admirando a decoração do quarto, resolvo ir ao banheiro tomar um banho e descer para o café da manhã com a família de Elizabeth, a garota que deveria estar aqui, mas me deixou em seu lugar. Enquanto penteio os cabelos em frente a um espelho ao lado de uma foto de Elizabeth, percebo o quanto somos parecidas fisicamente, parece que somos até clones uma da outra. Se eu me portar como ela me ensinou, talvez seus familiares nem percebam a diferença entre nossas personalidades. Ela é uma garota doce, bondosa, delicada e inteligente, já eu, um pouco arrogante e despreocupada com meu futuro, sempre achei que iria fazer sucesso tocando guitarra em minha antiga banda de rock, mas fui expulsa dela pelas inúmeras faltas aos ensaios. Desde então, larguei os estudos e estava trabalhando como garçonete quando minha sósia me encontrou e fez a proposta de me passar por ela durante dois meses. Como não havia nada a perder, aceitei na hora, pois sou órfã e ninguém daria minha falta.
Já na sala de jantar, todos tomavam café da manhã quando eu cheguei.
—Está atrasada, Elizabeth! — Falou a mulher de cabelos perfeitamente arrumados que identifiquei sendo a mãe de Elizabeth.
—Deixa a menina, Arabela, ela não é mais criança. — Disse o homem de terno e gravata, que aparentemente é o pai.
—Exatamente por isso, George! Elizabeth já tem 18 anos, está na hora dela ter mais responsabilidade por sua vida, começando pela pontualidade.
—Se vocês já cansaram de ficar falando da minha querida irmãzinha, será que agora eu posso falar? — Disse impacientemente quem eu reconheci por Anthony, o irmão mais velho do meu clone. —Ontem, depois do treino, o técnico do meu time me contou que apesar das minhas notas não terem sido as melhores, eu posso conseguir a bolsa de estudos em uma universidade se eu conseguir somar pontos suficientes na próxima temporada de jogos.
—Isso é uma ótima notícia, Tony! Estou muito orgulhoso de você! — Disse George enquanto Arabela se ocupava em dizer que nunca gostou de esportes violentos.
O resto do café da manhã foi uma longa conversa de como o irmão da Elizabeth teria que se esforçar para conseguir aquela bolsa e às vezes comentavam sobre o quanto eu estava calada. Após isso, subi para o quarto com o pretexto de que iria estudar e passei o resto da manhã lendo alguns livros que estavam em uma escrivaninha com um computador. Estava no auge do meu tédio quando ouvi batidas na porta.
—Pode entrar! — Era Anthony e ele tinha um ar de mistério misturado com animação.
—Olá, Liz! Você não vai acreditar quando eu disser o que descobri!
—E o que você descobriu, Tony? — O jeito que pronunciei seu apelido pareceu um pouco forçado.
—Vai parecer mentira quando eu disser, mas você vai se surpreender! — Dei sinal para que ele continuasse fingindo estar interessada. — Eu acabei de descobrir que você está nesse exato momento em um voo que parte para Paris e está sendo substituída por uma garota idêntica a você que está agora mesmo em seu quarto. — Ele disse com tanta ironia que parecia brincadeira.
Fiquei sem palavras diante dessa “acusação”, o que eu diria afinal? Resolvi contar a verdade.
—É verdade, Elizabeth está indo para Paris e me propôs um acordo para que eu tomasse seu lugar.
—E quem me garante que ela realmente propôs esse acordo? Sabe, Liz tem uma vida confortável e é muito ingênua, fácil de ser influenciada. Quem me garante que você não a forçou sair de cena para tomar seu lugar?
—Forçar uma pessoa a viajar à Paris enquanto eu fico ouvindo reclamações de uma perua e os problemas escolares de um mauricinho? É difícil acreditar que uma pessoa tão certinha iria propor algo assim, mas pelo que me pareceu, ela tinha muitos motivos para fazer isso. Aliás, como descobriu sobre isso tão rápido?
—Foi fácil, um amigo fotografou Liz no avião e me enviou a foto. Deduzi que você não era a verdadeira Liz pelo simples fato de que ela nunca se atrasa, nunca fica calada durante o café da manhã e principalmente, me odeia, o que você não demonstrou ao ficar me observando hoje cedo. Quem é você? Revelou suas garras rápido demais para quem está substituindo minha irmã.
—Meu nome é irrelevante, sou apenas uma jogadora. Não revelei garras, estou apenas entediada e aceitei entrar no jogo.
—Entendi. Não vou atrapalhar seu jogo, vai ser divertido ter alguém com quem jogar. — Ele disse isso com um sorriso de canto e frisou a ultima palavra, só espero que não seja o que estou pensando.
O dia passou rápido e creio estar me adaptando ao estilo da “Liz”. Apesar de ela ser mais expressiva e demonstrar ser alegre, diferente de mim, foi fácil convencer os pais dela que eu sou ela. A mãe dela só está preocupada em parecer a família perfeita e o pai, em ser o melhor em seu trabalho. Como o irmão já sabe, não terei a preocupação de atuar na sua frente, mas ainda tenho a preocupação do que ele quis dizer com “vai ser divertido ter alguém com quem jogar”. Eis que alguém bateu na porta me tirando dos meus pensamentos, novamente era Anthony.
—O que quer dessa vez, Anthony?
—Tão linda e tão grossa, é uma pena, o jogo fica menos divertido assim.
—Não estou interessada em jogar agora, se é isso que você quer.
—Que mente mais maliciosa. Eu não iria fazer algo impróprio com alguém que é a cara da minha irmã.
—Já que tocou no assunto, por que ela te odeia? — Creio ter tocado em uma ferida, porque Tony demonstrou estar bem incomodado com o assunto.
—Isso é algo que não vem ao caso. Boa noite. — Ele disse saindo do quarto com um ar bem sério. Não sei o que ele fez, mas isso eu vou descobrir... Ah se vou.
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