Fire Scars
51 Virada de Jogo — Parte I
Capítulo L — Virada de Jogo — Parte I
“Posso me abrir?
Tenho uma cicatriz de outra pessoa
Posso me abrir?
Porque é quando você
Toque-me e nunca mais
Julgue-me, isso me leva
De volta para casa
E embora eu tenha medo de
Perseguir você
Com medo de apagar você
O que eu quero de você?
Lar”
Eddie Benjamin – Home
✻
Arlon – 1999
A névoa baixa engolia o pátio de carga, distorcendo as luzes amareladas e transformando tudo em vultos trêmulos. O ar pesado trazia um cheiro de ferro, óleo e algo ácido, como se a própria terra estivesse enferrujando. Torres de exaustão vomitavam colunas de vapor que subiam e se dissipavam em meio ao breu, escondendo os singelos raios solares do nascer do sol que tentava aparecer ao horizonte.
Depois de receber as orientações de Mia, Olga e eu partimos para Arlon, uma pequena cidade da Bélgica, próxima da fronteira com Luxemburgo. Segundo as investigações de Johnny, Taynara utilizou os recursos naturais e as montanhas que cercam a cidade para fundar uma fábrica clandestina de armas, nas quais ela tem exportado para diversas partes do mundo.
Por ser uma região mais isolada, mas rica em minerais, Arlon se tornou conhecida por ser uma região habitada por mineiros e caçadores de recompensa. No entanto, desde a chegada de Taynara à cidade, ela passou até uma grande influência sobre os moradores e uma enorme rede de informações. Por causa disso, Olga e eu precisávamos ser cuidadosos.
Mesmo contrariado, Johnny acabou nos enviando para a missão sozinhos. Como estamos acostumados a nos infiltrar em regiões perigosas, seria mais seguro que fossemos sozinhos para a missão de reconhecimento.
Assim, após algumas horas de viagem de avião até a Bélgica e seguirmos viagem de carro até Messancy, a cidade vizinha de Arlon. Depois de colocar nossos disfarces, continuamos nossa viagem de ônibus até Arlon, onde, seguindo as orientações de Mia, procuramos pelo recrutador de Taynara em busca de emprego.
Tivemos que esperar três dias até que finalmente fossemos recrutados para trabalhar na fábrica. Sem contato com a Resistência e tendo que contar apenas com as armas que trouxemos de Most e os planos que desenvolvemos durante esse tempo que esperamos uma resposta do recrutador, seguimos com alguns guardas da Stigma até a fábrica, que ficava em uma parte ainda mais isolada de Arlon.
No portão externo, dois seguranças da Stigma verificavam pranchetas e crachás, exibindo o emblema da serpente de três cabeças estampado em vermelho vivo sobre o preto dos uniformes. Cada um portava rifles de precisão presos por correias reforçadas. O som metálico das armas sendo ajustadas ecoava como um aviso de que um passo em falso e nós estamos mortos.
Mantenho o capuz sobre minha cabeça e o olhar fixo no chão rachado. Cada fibra do meu corpo está tensa, mas meu rosto precisa permanecer inexpressivo. O disfarce não pode falhar. A barba por fazer, as lentes castanhas, óculos de grau falso, a peruca curta e desalinhada. Tudo cuidadosamente escolhido para que eu pareça apenas mais um dos tantos operários subalternos contratados para “revisar a produção”.
À minha frente, algumas fileiras adiante, está Olga, que mesmo sob o disfarce, eu a reconheceria em qualquer lugar.
A peruca preta e lisa esconde os fios ruivos que sempre denunciam sua presença e as lentes escuras dão um ar de frieza anônima. Os óculos falsos, a postura curvada, a expressão cansada haviam a transformado em outra pessoa. A eficiência de Olga em se camuflar era quase assustadora, e mesmo assim, só de vê-la, uma parte de mim se acalmava.
O barulho das botas e o zumbido das câmeras automatizadas preenchem o silêncio tenso. O grupo avança em direção ao portão. Os seguranças passam o detector de metal sobre cada um, com movimentos mecânicos.
Quando chega minha vez, o leitor apita em um tom agudo. O guarda me encara, desconfiado. Permaneço com a minha postura de indiferença, torcendo para que o plano desse certo. Esse era o primeiro desafio do dia, então eu esperava que tudo desse certo.
— Ferramentas de metal no bolso? — pergunta o guarda, ríspido.
— Canivete suíço para o caso de precisar usar ferramentas, já que não me disseram o que eu deveria trazer para o meu primeiro dia de trabalho — respondo, entregando-lhe o item, que propositalmente eu havia colocado em meu bolso para disfarçar a presença do colete a prova de balas que eu usava por debaixo do macacão e a arma escondida em minha cintura.
Ele o examina, confere o meu crachá com atenção.
— Mais algum equipamento? — questiona o guarda, desconfiado.
— Não, senhor — respondo, torcendo para que ele não voltasse a passar o detector de metal em mim.
Felizmente, minhas preces parecem ser atendidas, pois, após me encarar por longos segundos, parecendo analisar minhas feições, o homem assente e me entrega de volta meu crachá e o canivete suíço. Quase suspiro de alívio.
— Como hoje é o seu primeiro dia, siga para a sala de treinamento que fica no setor leste, onde você encontrará a supervisora que irá treiná-lo e guiá-lo pela fábrica. Siga as linhas azuis no chão que você chegará ao local do treinamento — orienta o guarda.
— Obrigado — digo, colocando a identificação em minha roupa e, em seguida, guardo a ferramenta em meu bolso.
Com um aceno seco, o homem indica que posso seguir. Respiro fundo e atravesso o portão, observando o lugar, enquanto sigo as linhas azuis pintadas no chão para orientação.
O interior da fábrica é um labirinto de estruturas metálicas, esteiras transportando peças de armamento e o som ritmado das máquinas operando em sincronia, quase como um coração mecânico batendo em nome da guerra. O cheiro de graxa é forte o suficiente para impregnar os pulmões. Homens e mulheres trabalham em silêncio, com movimentos rápidos e metódicos, quase robóticos.
Olga caminha mais à frente, também indo para o mesmo caminho que o guarda havia me orientado. O corredor que se abria à nossa frente era um emaranhado de ferro, sombras e ruídos mecânicos. O som das prensas pneumáticas vibrava pelo chão, e o cheiro de óleo queimado se misturava à fumaça das máquinas de fundição. Tudo ali funcionava com precisão industrial e brutalidade militar impressionante.
Saber que tudo isso é comandado por uma garota de dezessete anos é quase surreal. Obviamente, Taynara deve receber algum apoio, mas, eu sei melhor do que ninguém, que a mente dela funciona como uma máquina, capaz de desenvolver estratégias que vão além do que posso imaginar.
A vibração do chão aumenta à medida que adentrávamos mais a fábrica. O ar se tornava mais quente e abafado, e o som constante das máquinas faz o peito vibrar. Tubos de aço cruzam o teto, transportando vapores e líquidos densos, enquanto os operários passam apressados empurrando carrinhos de peças e caixas lacradas com o selo da Stigma.
Sigo as linhas azuis com o olhar fixo à frente, sem demonstrar nada. Olga continua afastada de mim à alguns metros, mantendo a postura calma e discreta. Mesmo sem trocarmos uma palavra, eu sabia que ela estava em alerta ao ver o leve giro da cabeça, os olhos avaliando cada detalhe, o jeito como o corpo dela parece sempre pronto para reagir a qualquer ameaça.
A sala de treinamento é ampla, cercada por painéis de vidro fosco e máquinas alinhadas em fileiras.
O som dos motores e das correias é ensurdecedor. Um grupo de novos operários aguarda instruções, todos igualmente vestidos com macacões cinzentos e crachás plastificados. Todos pareciam tensos e demonstravam um certo nervosismo. E eu me perguntava se todos ali sabiam a finalidade da fábrica e quem é a sua líder.
Uma mulher de estatura média, cabelo preso em um coque rígido e uma expressão impassível, surge diante do grupo. O crachá em seu peito traz apenas o nome Bree escrito. Ela segura uma prancheta e fala com um sotaque pesado de Elpízoume.
Ela nos encara por alguns instantes e deixa a prancheta que carregava sobre a mesa disponibilizada para ela. Bree pega um ponteiro metálico e o bate na própria mão, enquanto nos observa com um olhar avaliador.
— Sejam bem-vindos à linha de produção da Stigma. Eu me chamo Bree e serei a supervisora de vocês durante o treinamento. Aqui, não há espaço para erros, distrações ou atrasos — declara a mulher, caminhando entre as fileiras. — Vocês foram selecionados para operar maquinários sensíveis. O trabalho é simples, mas exige disciplina. Um passo errado e vocês podem perder uma mão... ou a cabeça.
Alguns dos novatos se entreolham, visivelmente tensos. Eu mantenho a postura neutra, observando. Olga também finge estar preocupada, buscando se misturar com os outros funcionários.
Bree passa a andar pela sala, olhando para cada rosto presente. Seus olhos passam por mim e, instantes depois, por Olga, sem demonstrar qualquer emoção. Como se apenas avaliasse a turma pela qual ela estava responsável dessa vez. Bree continua a explicação, aproximando-se do grande mapa da fábrica exposto na parede.
— Cada setor de operação da fábrica é responsável por uma etapa no processo de fabricação do produto. O setor A é responsável pela fundição, setor B pela moldagem e setor C cuida da montagem e calibração. Vocês serão avaliados e divididos em cada setor de acordo com suas habilidades e destreza com as máquinas — explica Bree, apontando com o ponteiro metálico para cada setor da fábrica conforme o apresentava.
Ela então se afasta novamente e encara cada um de nós com seriedade. Há algo de perigoso em seu olhar e meus instintos gritam que ela é alguém que não podemos subestimar.
— Antes, porém — continua Bree, batendo o ponteiro metálico contra o mapa —, todos vocês passarão pelo treinamento de segurança, no qual aprenderão os protocolos básicos e o funcionamento das máquinas principais. A Stigma preza por eficiência. E eficiência, senhores, é sinônimo de lealdade.
Ela gira sobre os calcanhares e aponta para uma porta lateral, onde dois guardas uniformizados e fortemente armados nos aguardam.
— Por este corredor, encontrarão os vestiários e, em seguida, a área de instrução técnica. A partir daí, cada um será encaminhado ao setor correspondente — orienta de forma quase mecânica. — Dúvidas?
Ninguém responde. Todos permanecem imóveis. O medo parece amarrar as línguas e de certa forma, eu entendi bem o sentimento de todos. Mesmo que tivesse uma expressão calma, os olhos castanhos de Bree eram frios e intimidadores. Além disso, as armas potentes carregas pelos guardas que nos observavam transmitiam um ar de que estávamos presos em uma prisão de segura máxima.
Bree exibe um sorriso apático, quase sem vida, e dá as costas ao grupo.
— Muito bem. Sigam-me.
O grupo começa a andar em silêncio. Olga e eu caminhamos próximos o bastante para trocarmos olhares discretos, mas sem atrair atenção ou demonstrar que nós nos conhecíamos. A cada passo, a sensação de ser observado aumenta. Câmeras giram, sensores piscam em vermelho, e o som do metal ecoa sob as botas.
Quando atravessamos o portão lateral, vejo Olga inclinar a cabeça quase imperceptivelmente e levar a mão ao pescoço, dando um sinal de que estava na hora de colocar nosso plano em ação.
Durante o caminho até os vestiários, os corredores se dividiam em três direções principais. Eu havia memorizado o mapa fixado na parede: o setor administrativo e de monitoramento ficava no segundo andar, logo acima da área de fundição.
Segundo as informações de Mia, a sala de controle central era o coração da fábrica e de lá, Taynara consegue monitorar todas as operações da fábrica, enviar relatórios criptografados e receber comunicações diretas dos seus aliados.
Precisávamos chegar lá.
Assim que Bree passa adiante com parte do grupo, Olga e eu diminuímos o ritmo. Um dos guardas olha para trás, desconfiado.
— Vocês dois — rosna, ameaçador. — Por que pararam?
Olga finge ajeitar o crachá e o zíper do macacão.
— Problema no fecho — murmura, com o tom de voz cansado e convincente. — Já está resolvido.
O guarda revira os olhos e volta a caminhar. Quando a curva seguinte os engole, Olga me lança um olhar rápido.
— Agora — sussurra.
Viramos para a esquerda, ao invés de seguir pelo corredor principal. A passagem é estreita, iluminada por lâmpadas frias que piscam. O som das máquinas diminui à medida que nos afastamos da rota. O cheiro de graxa e ferrugem é substituído pelo de ozônio típico das centrais elétricas.
Subimos por uma escada de manutenção escondida, onde havia uma placa discreta que indicava Acesso Técnico – Nível 2.
— A sala de controle deve ficar acima de nós — murmuro, relembrando do mapa exposto na parede. — No mapa, havia uma torre de supervisão nesse lado da estrutura.
— Eu vi — responde Olga, ajustando as luvas. — A entrada é protegida por um painel de segurança. Vamos precisar de um crachá de nível quatro.
Sorrio de canto, puxando um pequeno dispositivo de dentro do bolso.
— Por isso que Mia nos deu isso.
Olga arqueia uma sobrancelha, reconhecendo o dispositivo que Serguei estava desenvolvendo dias atrás e que havia nos apresentado.
— O emulador de credencial?
— É o protótipo que Serguei criou. Se o sinal da Stigma for o mesmo usado em Most, deve funcionar.
Ela me observa por um instante, depois assente, voltando a andar.
— Você está confiante demais.
— Estou tentando parecer — respondo, e ela quase esboça um sorriso antes de recuperar o foco.
O corredor superior é vazio, apenas o zumbido elétrico das máquinas preenche o ar. Em determinado ponto, uma grande janela de observação permite ver todo o chão de fábrica. Havia dezenas de operários manipulando moldes incandescentes, braços robóticos montando detonadores, caixas enormes com materiais sendo levadas para outros locais da fábrica. A magnitude da produção é assustadora.
Olga observa por alguns segundos.
— Isso aqui é assustadoramente eficiente, Prince. Taynara está produzindo armas em escala industrial e ainda é uma adolescente. Onde ela foi capaz de conseguir algo desse nível?
— Eu não sei, mas essa tecnologia vai muito além do que a Resistência ou qualquer outro lugar que já frequentamos possui — comento, sentindo um arrepio subir pela nuca.
Ela se afasta da janela, olhando para mim.
— Precisamos achar a central e pegar os documentos que eles usam para mapear a distribuição de armas. Com essa tecnologia e poder, é só uma questão de tempo até que Taynara assuma o controle de Krósvia — afirma Olga. — Nós precisamos descobrir um jeito de pará-la antes que seja tarde demais.
Assinto, sentindo meu estômago se revirar só de imaginar o que o pode acontecer com Krósvia se Taynara assumir definitivamente o controle de meu país natal.
Torcendo para que a nova invenção de Serguei funcionasse, assim que chegamos ao andar superior, Olga pega o dispositivo que pode paralisar a transmissão das câmeras de segurança e se aproxima de uma delas. Eu me abaixo para que ela consiga subir em minhas costas e a levanto na primeira câmera do corredor, torcendo para que nenhum guarda note a nossa presença pelas câmeras de segurança.
Com uma destreza que somente Olga é capaz de ter, ela rapidamente aciona o dispositivo de Serguei, conectando-o com um cabo até a câmera de segurança. Em poucos minutos, a ação parece funcionar, pois todas as câmeras do corredor desligam as luzes vermelhas que indicavam estar ligadas.
Desço Olga de meus ombros e suspiro aliviado. Ela assente e faz um sinal para que eu permanecesse em silêncio, afinal, não sabíamos quem poderia estar presente no local.
Continuamos pelo corredor até uma porta metálica marcada com o símbolo da serpente de três cabeças. Ao lado, um painel luminoso solicita credencial e impressão digital.
Olga se posiciona de forma a vigiar o corredor, enquanto eu conecto o dispositivo ao leitor. Um bip discreto preenche o silêncio, seguido por uma série de luzes piscando.
— Vamos, vamos… — murmuro entre os dentes.
A luz vermelha se torna verde. A porta se destrava com um clique suave.
— Funcionou — sussurro.
Olga solta o ar, quase imperceptivelmente.
— Graças a Deus. Vamos entrar, pegar os documentos e sair daqui o mais rápido possível.
Entramos.
A sala de controle é ampla e escura, iluminada apenas pelos monitores e painéis holográficos que exibem mapas em tempo real, relatórios de transporte e o logotipo pulsante da Stigma. Há cabos grossos no chão, conectando servidores que zumbem com o calor.
No centro, uma mesa de comando domina o espaço, e, sobre ela, havia um mapa tático de Krósvia, dividido em setores coloridos, cada um marcado com o símbolo da serpente.
Olga se aproxima lentamente.
— Ela está marcando rotas de suprimento e pontos de infiltração.
— Aqui — aponto para o mapa. — Most, Weyler, Kréne... Por que será que elas estão marcadas?
Ela me encara e seus olhos se arregalam, preocupada.
— Ela sabe onde estamos. Essas cidades são onde estamos construindo novas bases. Eu estive em Weyler e Kréne em minha última missão para recrutar alguns membros e garantir que as bases estão sendo construídas de forma discreta e ágeis. Quais as chances de ser apenas uma coincidência?
Um arrepio percorre minha espinha. Tudo estava sendo monitorado, talvez há semanas.
De repente, o som de passos ecoa do corredor. Eu não sabia quem era, mas pelas vozes, eu conseguia suspeitar que havia pelo menos três pessoas se aproximando da sala.
Olga apaga as luzes da sala e coloca os papéis de mapeamento no lugar com um movimento rápido. Usando a lanterna que havia em meu bolso, nós procuramos por algum lugar que pudéssemos nos esconder. Noto então que há uma saída de ar acima de nós. Aponto a luz para o local e Olga imediatamente entende o meu plano.
Assim como fizemos quando paralisamos as câmeras de segurança, ajoelho-me e ergo Olga pelos ombros. Enquanto ilumino a grade, ela alcança a saída de ar e pega uma chave de torque minúscula escondida no bolso do macacão.
Agilmente, Olga consegue soltar o parafuso que prendia a grade e me entrega para que não caia. O bafo quente do duto sobe como o sopro de uma fornalha. Ergo mais a garota e ela habilmente entra na instalação.
— Vem — sussurra Olga, desesperada.
Os sons dos passos se tornam cada vez mais próximos. Jogo a grade para que Olga a segure, guardo a lanterna no bolso e subo na mesa de operações. Em um impulso perigoso, pulo até alcançar a saída de ar no meio do escuro e finalmente consigo entrar. Olga recoloca a grade por dentro e a encaixa apenas o suficiente para parecer fechada. Ficamos de bruços, respirando curto, com o metal vibrando sob nossos peitos. O zumbido dos servidores sobe pela estrutura e faz os ossos tremerem.
Nesse instante, a obra da sala se abre e as luzes se acendem. Pela fresta da grade, consigo ver o momento em que Taynara entra na sala acompanhada por Gavin e por uma mulher de vestido escuro, barriga saliente sob um sobretudo fechado na cintura. A grávida segura o encosto da cadeira com cuidado antes de sentar, como se cada movimento exigisse cálculo e proteção. Eu não a conheço.
— Você está bem, Sofia? — indaga Taynara, parecendo preocupada.
— Não se preocupe, Tay. Eu estou bem — garante a mulher, sorrindo. — Não precisa me tratar como se eu fosse uma boneca de porcelana. Já basta a superproteção de Gavy.
— Eu apenas não quero que você se esforce demais — resmunga Gavin, agachando-se para ficar na altura da barriga da mulher.
Ele passa a acaricia a barriga, exibindo um sorriso doce, que é correspondido pela grávida. Quando Gavin encosta o rosto na barriga, Sofia passa a acariciar o cabelo do rapaz, exibindo uma expressão apaixonada. Taynara se senta e os encara com um sorriso amável no rosto.
— Nós estamos bem. Vocês precisam parar de querer me prender. Eu sei que estão preocupados, mas Thomas e eu estamos perfeitamente bem e saudáveis — garante Sofia. — Além disso, vocês já me tiraram todas as minhas funções. Eu estou quase morrendo de tédio.
— Nós apenas queremos garantir que você não se estresse — afirma Taynara, com tom de voz amável. — Eu sei que você está frustrada, mas vocês vão se casar em breve e Tommy vai nascer daqui alguns meses. Você ficará ocupada por um bom tempo. Aproveite esse momento para descansar e curtir os últimos momentos da gestação. Gavy e eu cuidamos do resto.
— Vocês são tão chatos — resmunga Sofia, fazendo um bico.
Gavin ri e deixa um beijo demorado nos lábios da mulher, que não demora muito a abrir um sorriso e suspirar. O homem se senta ao lado dela e passa a encará-la como se ela fosse a pessoa mais importante do mundo.
— Eu ainda não acredito que vamos nos casar e que em breve vamos conhecer o nosso filho — comenta Gavin. — Além disso, todas as coisas estão indo bem na Stigma. Parece até que estou vivendo um sonho.
— Não é um sonho — garante Sofia, entrelaçando os dedos ao do futuro marido. — Isso é fruto do esforço de vocês dois. Principalmente o seu, Tay.
Taynara suspira e sorri.
— Não foi fácil, mas ao vê-los assim, eu sinto que tudo valeu a pena.
— Tay… — murmura Sofia, parecendo fazer um grande esforço para não chorar. — Acho que eu nunca te agradeci o suficiente por tudo o que fez por mim. Por nós.
Ela repousa a mão sobre a barriga e olha para Taynara com um brilho emocionado nos olhos.
— Se não fosse por você, eu e o Gavin talvez nunca tivéssemos nos encontrado. E, sinceramente, eu não teria forças para ter seguido em frente depois de tudo o que aconteceu em Kiev. Você me deu uma nova vida, Tay. Um novo propósito.
Sofia sorri, enxugando discretamente uma lágrima.
— Eu te admiro tanto. Pela coragem, pela inteligência, beleza, mas, principalmente, pelo coração que você tenta esconder por trás dessa frieza.
Taynara abaixa o olhar, claramente sem saber como reagir àquelas palavras. Um raro rubor colore suas bochechas, e por um instante, a postura firme dela vacila. Observo a tudo em completo choque, sem acreditar que Gavin será pai e que Taynara parecia genuinamente envergonhada.
— Você me dá mais crédito do que eu mereço — murmura Taynara, desviando o olhar. — Eu só fiz o que precisava ser feito.
— E ainda assim, foi você quem arriscou tudo para me tirar de Kiev, quem me deu abrigo, segurança e… — Sofia olha para Gavin e sorri — ...a chance de ter uma família.
Gavin aperta a mão dela com ternura e se volta para Taynara, concordando com um leve aceno.
— Ela tem razão — concorda meu primo, sorrindo. — Se não fosse por você, Tay, nada disso existiria. Sem você, eu jamais teria conhecido e nem me apaixonado por Sofia. E definitivamente nós não estaríamos aqui, esperando o nosso filho e finalmente conhecendo a verdadeira felicidade.
Taynara inspira fundo e observa os dois com um olhar que mistura orgulho e melancolia.
— Eu só fiz o que qualquer pessoa no meu lugar faria — responde, mas há um leve tremor em sua voz. — Só... quis evitar que mais uma pessoa sofresse o mesmo que eu sofri anos atrás.
O silêncio que se segue é pesado, mas parece ter um forte significado. Eu não faço ideia sobre o que Taynara estava falando, mas curiosamente, ela leva a mão a barriga. Gavin se aproxima e a abraça com intensidade.
— Eu sinto muito por não...
— Não começa, Gavy — resmunga Tay, correspondendo ao abraço. — De qualquer forma, não é necessário agradecimentos. Já se passaram quatro anos. Eu fico feliz que consegui impedir que você tivesse o mesmo destino que o meu e que conseguimos construir a Stigma. Se alguém tem que agradecer, sou eu, Sofi. Você não apenas faz o meu melhor amigo feliz, como tem sido uma amiga incrível. Não vejo a hora de ver o rostinho de Tommy e o mimá-lo o máximo possível.
Sofia sorri e volta a acariciar a barriga.
— Tommy vai ter uma madrinha incrível — comenta Sofia, rindo levemente. — E uma tia que é praticamente uma lenda viva.
Taynara ri baixo, balançando a cabeça.
— Madrinha? Eu? — questiona, arqueando uma sobrancelha. — Você tem certeza de que quer isso? Eu não sou exatamente um bom exemplo a ser seguido.
— Não queremos um exemplo a ser seguido — rebate Sofia, divertida. — Queremos alguém forte, alguém que o proteja quando for preciso. E ninguém é melhor nisso do que você.
— Prometo que farei de tudo para protegê-lo — afirma Taynara, sorrindo para os amigos, enquanto parece fazer um grande esforço para não chorar. — Obrigada.
O ar dentro do duto estava quente e metálico, carregando o eco abafado das vozes que vinham da sala abaixo. Olga e eu trocamos olhares rápidos, mal respirando para não fazer ruído. Cada palavra dita por Taynara, Gavin e Sofia soava como um peso extra sobre minhas costas.
Eu me sentia confuso diante da interação doce entre os três e como seus comportamentos os faziam ficar completamente diferente da imagem que eu esperava encontrar. Ao invés de estarem falando sobre mortes, guerras ou planejando o próximo passo para tomar o trono de Krósvia, eles sorriam, conversavam sobre a vida e pareciam emocionados.
De repente, batidas na porta ecoam pela sala.
— Pode entrar — informa Taynara, limpando os olhos.
Ela então assume uma postura fria e indiferente, não lembrando em nada a mulher que sorria com tanta doçura ao encarar a amiga.
— Com licença, Taynara — lamenta um guarda, abrindo a porta. — Desculpe interromper, mas é que tivemos um problema no carregamento que vai para Volínia.
Taynara suspira e o encara com clara insatisfação.
— O que aconteceu?
— Um dos novos funcionários deixou uma das caixas cair e parece que tivemos perda de produto — responde o guarda, intimidado.
— Droga! Essa mercadoria precisa ser entregue até quarta-feira — murmura Taynara, pensativa. — Mas, nós precisamos ir agora na loja para experimentar o vestido de noiva da Sofia...
— Eu cuido disso — avisa Gavin, ajeitando a própria roupa. — Vocês podem ir. Uma certa grávida não vai conseguir dormir essa noite se tiverem que adiar mais uma vez a prova do vestido.
— Vocês não podem me culpar por isso — retruca Sofia, cruzando os braços. — Eu estou grávida e já adiamos a prova cinco vezes. Tem noção como é difícil não ficar ansiosa quando o universo parece conspirar para que nada dê certo?
— O universo não está conspirando para que as coisas não deem certo — retruca Taynara, suspirando. — Obrigada, Gavy. Vou deixar esse assunto com você então.
— Pode deixar — responde Gavin, aproximando-se da noiva. Ele deixa um beijo na barriga e outro nos lábios da mulher. — E você, mocinha, obedeça a Tay e não exagere demais. Vejo você mais tarde.
— Até mais tarde, querido — despede-se Sofia, sorrindo.
Gavin deixa a sala, acompanhado do guarda. Sofia então se vira para Taynara e lança um olhar de cachorro pidão.
— Vamos?
— Tudo bem — concorda Taynara, rindo.
Quando Taynara e Sofia deixam a sala, a tensão começa a se dissipar lentamente. O som dos passos deles ecoa pelo corredor, diminuindo até restar apenas o zumbido constante dos servidores e o bater acelerado de meu coração. Esperei mais alguns segundos, só para ter certeza de que estavam longe, antes de trocar um olhar rápido com Olga.
Felizmente, Taynara tinha deixado as luzes da sala ligadas, então retiramos a grade da saída de ar e descemos. Olga e eu descemos e pegamos todos os papeis que iríamos precisar para levar até Johnny, mostrando algumas das informações que Taynara tem sobre nós.
Temendo sermos descobertos, nós retornamos para o duto de ar que cobre toda a extensão da fábrica, assim como estava no mapa que Mia nos mostrou. Ainda assim, faltava os mapas com a rota de comercialização das armas.
Olga faz um gesto com a mão, pedindo silêncio absoluto, e começa a se arrastar pelo duto de ventilação. O metal range levemente sob nossos movimentos, e cada som parece um tiro no escuro. A distância até a próxima grade de saída não era longa, mas a sensação de estarmos sendo caçados a cada respiração tornava o trajeto interminável.
Ao nos aproximarmos da bifurcação, vejo a luz de emergência piscando abaixo. Olga puxa a pequena chave de torque novamente e começa a remover a tampa da grade. Eu seguro a lanterna com a boca, iluminando o mínimo possível, enquanto ela finaliza a remoção. O som do último parafuso caindo é abafado por um rugido distante de maquinário.
— Agora — sussurra.
Descemos com cuidado para dentro de uma sala auxiliar repleta de caixas metálicas. Pelo logotipo nas laterais, sendo o mesmo da Stigma, com a serpente tripla, parecia ser o depósito de documentos impressos. Olga vasculha rapidamente as prateleiras até encontrar um armário identificado como “Rota de Distribuição – Setor Tático”.
Ela olha para mim e eu apenas balanço a cabeça, afirmando.
Com um estalo seco, a fechadura se solta graças à pequena lâmina que ela carrega escondida na luva. Dentro, pilhas de pastas organizadas por região se alinham com precisão militar. Krósvia, Weyler, Arlon, Most e Rhosália.
— Aqui estão — murmura Olga, puxando uma pasta cinza. — São os planos de transporte e os pontos de entrega. Com isso, Mia pode rastrear os carregamentos antes que cheguem às fronteiras.
Começo a retirar algumas páginas, mas ela segura meu pulso.
— Não leve tudo. Se notarem a ausência, eles vão trancar a fábrica inteira.
Assinto e passo a procurar os documentos necessários que eu precisava levar e quais poderiam ficar para não ficar tão óbvio que eles perderam alguns deles.
— Pronto — digo. — Agora, precisamos sair daqui.
De repente, uma voz distante ecoa pelo corredor principal, sendo um dos soldados que estava nos vigiando na sala de treinamento.
— Bree, verifique o sistema de câmeras. Houve uma queda no sinal no Setor 2.
Olga arregala os olhos.
— Droga! Precisamos sair daqui.
Corremos até uma porta lateral de manutenção, que dá para o corredor de ventilação. No entanto, o som de botas já ressoa no metal, mostrando que alguém se aproxima. Sem tempo para retornar, Olga empurra uma das caixas e revela uma escotilha de inspeção no chão.
Descemos rapidamente.
O ar lá embaixo é quente e cheira a ferrugem e vapor. Estamos no subsolo técnico, por onde passam os canos de combustível. As luzes tremeluzem e gotas de água pingam dos tubos devido as altas temperaturas.
— O túnel de ventilação leva até o reservatório externo — comenta Olga, consultando o mapa que tirou das pastas. — Se formos rápidos, podemos sair pela tubulação de drenagem.
Seguimos abaixados, o som dos passos dos guardas ficando cada vez mais distante. A cada curva, o medo de ser descoberto nos fazia prender a respiração.
Depois de alguns metros, uma grade enferrujada bloqueia o caminho. Olga puxa de sua bota uma pequena lâmina de serra e começa a abrir uma fenda no metal. O brilho vermelho corta o escuro, enquanto o som de solda derretendo preenche o silêncio.
— Rápido… — sussurro, olhando para trás.
— Quase lá…
Com um estalo, o último pedaço de ferro cai. Atravessamos a abertura e seguimos até uma saída coberta por vegetação e lama. O ar frio da madrugada invade os pulmões quando empurramos a última tampa e finalmente emergimos do subsolo.
Do lado de fora, a névoa cobre o terreno como um véu prateado. A fábrica da Stigma brilha ao longe, como um monstro de ferro respirando fumaça e luz. Olga se apoia em uma pedra, recuperando o fôlego, enquanto eu me certifico de que estamos sozinhos.
— Deu certo? — indaga Olga, encarando-me preocupada. — Conseguimos pegar todos os documentos
— Sim. Está tudo aqui — respondo, exibindo os documentos.
Ela solta um riso aliviado, ainda que breve.
— Então, missão cumprida.
Olho para o horizonte, onde o céu começa a clarear com o primeiro toque de amanhecer.
— Por enquanto, vamos embora. Taynara vai perceber que alguém esteve lá dentro. E quando isso acontecer…
— A guerra vai começar de verdade — completa Olga com o olhar firme.
O vento sopra, levando o cheiro metálico da fábrica. E, por um instante, o silêncio parece anunciar o início de algo muito maior do que nós dois.
Fale com o autor