Fire Scars
52 Virada de Jogo — Parte II
Capítulo LI — Virada de Jogo — Parte II
“Os dias passam e meus olhos secam
E eu acho que estou bem
Até me encontrar em uma conversa desaparecendo
O jeito como você sorri, o jeito como você anda
O tempo que você levou para me ensinar tudo que ensinou
Me diga, como posso seguir em frente?”
Imagine Dragons – Wrecked
✻
Messancy – 1999
O quarto do hotel em Messancy estava mergulhado em um silêncio tenso, cortado apenas pelo som distante dos carros passando na rodovia. As cortinas pesadas filtravam os raios solares do dia ensolarado que se fazia do lado de fora, não parecendo em nada o clima fechado que se fazia quando chegamos na cidade, após fugir às pressas de Arlon.
Olga estava sentada à beira da cama, penteando os fios ruivos molhados, exibindo uma expressão pensativa, enquanto encarava a televisão ligada, sem realmente prestar atenção ao que passava no telejornal local. Provavelmente, refletia sobre o que vimos na fábrica e a conversa que ouvimos entre Taynara, Gavin e Sofia. Enquanto isso, eu revisava pela enésima vez os papéis que havíamos conseguido roubar da Stigma.
Os mapas, rotas de transporte, registros de carregamento e códigos de comunicação que roubamos estavam espalhados sobre a mesa. Cada linha parecia um golpe no peito. As provas que tínhamos nas mãos confirmavam que Taynara estava pronta para mover a guerra para além das fronteiras de Krósvia.
— Ela sabe sobre Most — murmuro, passando o dedo sobre o mapa. — Ela tem coordenadas exatas do QG. Inclusive, os locais em que iremos construir novas bases da Resistência.
Olga apoia o queixo sobre a mão, pensativa.
— O que significa que alguém está passando informação de dentro da Resistência para Taynara. Essa é a única explicação para ela ter acesso a tantos dados nosso.
— Quem poderia ser o traidor? — questiono, encarando-a.
— Eu não sei, mas o melhor a fazermos é retornar para o QG e passar essas informações para Johnny. Conhecendo-o como conheço, eu acredito que ele já desconfie de quem poderia ser o nosso traidor, caso contrário, Johnny não teria nos enviado sozinhos nessa missão.
Ela se deita na cama e coloca o braço sobre os olhos. Suspiro e volto minha atenção aos documentos, esperando encontrar alguma informação nova que pudesse esclarecer minhas dúvidas. Quem sabe, descobrir mais algum detalhe sobre o negócio de Taynara.
— Eu não consigo entender Taynara — comenta Olga.
— Como assim? — questiono, desviando o olhar para a garota.
— Pelo que você, Manu e Tyler contaram, ela é uma verdadeira psicopata, que foi rapaz de matar a família da Manu e tentar destruir o reino, mas as duas vezes que eu a vi, ela parecia ser uma pessoa bem diferente. Eu entendo que ela pode ser boa em manipulação, mas, não parecia mentira a forma como ela parecia feliz pela gravidez da noiva do Gavin ou como parecia magoada ao relembrar do passado — comenta Olga, voltando a se sentar.
— Ela pode ser apenas uma pessoa que valoriza seus soldados. Isso não a impede de ser uma péssima pessoa — respondo, dando de ombros.
— Não faz muito sentido. Quer dizer, se ela queria acabar com a família real de Krósvia, por que ela te resgatou e não matou Lester quando invadiu o castelo na primeira vez para te salvar? E por que ela tentou convencer vocês de que não matou os irmãos da Manu? O que ela ganharia agora com isso se ela é tão psicopata? Odeio admitir isso, mas a Stigma é muito maior e mais poderosa que a Resistência. Com essas informações que ela tem, poderia nos destruir muito facilmente.
— Talvez ela queira algo da Resistência ou talvez ela pense que nós podemos nos tornar algum perigo para ela no futuro, então, quer nos manipular para nos fazer abaixar a guarda e então nos aniquilar completamente — digo, frustrado. — De qualquer forma, não importa se Taynara e Gavin estão mentindo ou não. No fim, ainda temos objetivos diferentes e eu não vou permitir que ela machuque a minha irmã ou que acabe com Krósvia.
Olga parece não concordar com a minha opinião, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, batidas intensas na porta ecoam pelo quarto. Encaro minha namorada em um sinal claro de que deveria se preparar.
Não estamos esperando visita e não solicitamos serviço de quarto, então, a pessoa que continuava a bater incessantemente na porta poderia ser um dos homens de Taynara, prontos para nos matar após roubarmos seus documentos importantes.
Levanto-me imediatamente e faço sinal para que Olga pegasse o revólver. Após assentir, a ruiva silenciosa e agilmente, corre até a nossa mochila e pega as armas. Com o revólver engatilhado, ela o mantém apontado discretamente para a entrada enquanto abro a porta o suficiente para ver o rosto de quem poderia estar do outro lado.
Surpreendo-me ao reconhecer Johnny vestido por roupas escuras, boné e óculos de sol. Suspiro e faço sinal para que Olga abaixasse a arma.
— O que você está fazendo aqui? — questiono, abrindo a porta para ele entrar. — O combinado era que nos encontrássemos no QG daqui três dias. Aconteceu alguma coisa?
Johnny suspira e retira os óculos de sol, assim que entra no quarto. Fecho a porta e o encaro, guardando minha arma em minha cintura. Algo dentro de mim se agitar ao ver que o líder da Resistência não tinha seguido o plano, algo completamente atípico de sua parte. Definitivamente, algo havia acontecido e eu não sabia se isso era algo positivo.
— Fico feliz que vocês tenham tido sucesso na missão — comenta Johnny ao encarar os papéis sobre a mesa. — Bom, eu sabia que vocês podiam fazer isso.
Estranho o comportamento incomum de Johnny ao mudar de assunto e a expressão inquieta do rapaz. Ele nunca foi de fazer rodeios. Parecia hesitar em relatar o que tinha ocasionado na mudança de planos. E isso parece não passar despercebido por Olga, que troca olhares comigo discretamente.
Assinto, em uma confirmação silenciosa que havia notado a atitude atípica de Johnny, mas em um acordo mútuo mudo, decidimos permanecer em silêncio e ver onde essa conversa levaria. Se ele estava hesitando, deveria ter um motivo sério, então, o melhor era dar espaço para nosso líder expressar o que o incomodava.
Olga suspira, guardando a arma que segurava.
— Por pouco. A fábrica é um verdadeiro campo minado. Segurança pesada, câmeras em todos os cantos. E Taynara é muito mais organizada do que eu imaginava. Por muito pouco não fomos pegos e foi realmente desafiador sair da fábrica.
Johnny se aproxima e espalha os mapas sobre a mesa, analisando cada folha. A luz da luminária desenha sombras duras sob seus olhos.
Ele passa a mão pelos cabelos, respirando fundo antes de finalmente encarar nós dois.
— Com base no que vocês devem ter visto desses papéis, suponho que já saibam que temos alguns agentes da Stigma infiltrados na Resistência e que Taynara está operando em um nível muito mais avançado do que previmos — comenta Johnny, parecendo frustrado.
Os documentos que roubamos de Taynara provavelmente comprovavam algo que ele já desconfiava e traziam informações além do que talvez, Olga e eu pudéssemos imaginar. Os olhos azuis de Johnny estavam mais escuros e brilhavam em um misto de raiva e medo, algo que eu não tinha visto com tanta frequência vindo do rapaz.
Ele aperta o maxilar, como se estivesse lutando contra o que precisava dizer a seguir. O silêncio pesa. Olga e eu aguardamos. Johnny inspira lentamente e, quando solta o ar, sua expressão se torna mais dura.
— O plano mudou — anuncia, direto. — Precisamos agir antes do previsto. Nós temos que impedir que Taynara se encontre com os líderes políticos na reunião que está marcada para aconteceu daqui três dias em Luxemburgo.
Sinto um frio percorrer minha coluna.
— O que aconteceu? — pergunto, aproximando-me do loiro.
Johnny desvia o olhar da pilha de documentos e nos encara com uma intensidade que faz meu estômago se revirar. Algo como um aviso de que algo muito ruim seria revelado pelo líder da Resistência.
— Taynara já sabe o suficiente sobre a Resistência para nos destruir. Não estou falando apenas de um ataque ao QG. Ela tem nomes, posições, rotas, bases futuras, aliados, controle de nossas rotas e sua tecnologia ultrapassou a nossa em níveis realmente perigosos. E como se isso não fosse o bastante, ela está muito perto de obter apoio internacional para tomar Krósvia à força e ser reconhecida como governo legítimo por outros países e a ONU com a justificativa de que a tirania de Lester está interferindo inclusive nas políticas internacionais. E, ao que tudo indica, pessoas dentro do próprio governo de Krósvia estão colaborando com ela.
— Isso é praticamente um golpe militar oficial — murmura Olga, chocada.
Johnny assente.
— Sim. E se ela tiver reconhecimento político externo, nós deixamos de ser um grupo que luta pela liberdade de Krósvia e nos tornamos um grupo terrorista perante o mundo. Se isso acontecer, ninguém irá nos ouvir e tampouco teremos suporte financeiro para arcar com a organização. Ninguém vai nos ajudar. Podemos facilmente ser condenados a prisão e responder por todas as ações que tomamos até agora para proteger a princesa Allycia.
— Mas Taynara tem apenas dezessete anos. Mesmo sendo menor de idade, ela conseguiria assumir o domínio de Krósvia de forma oficial? — questiono, incrédulo.
— Ela é menor de idade, mas Gavin não. Taynara o usará como um líder fantoche, utilizando como justificativa a legitimidade dele como herdeiro como sendo o único Dawson maior de idade vivo que pode assumir a liderança provisória de Krósvia. Ao que tudo indica, eles usarão o discurso que pretendem transformar Krósvia em uma democracia, mas sabemos que isso não vai acontecer — responde Johnny, suspirando.
— E ele em breve irá se casar e a noiva dele está grávida. Um jovem de vinte e quatro anos, que luta pela liberdade do povo e mantém as tradições da família. Esse discurso será comprado com exímio pelos conservadores e pela parte da população que deseja mudanças na política — murmura Olga, mordendo a ponta da unha de forma pensativa. — Nós realmente precisamos evitar que isso aconteça.
— Ele está noivo? — questiona Johnny, surpreso.
— Sim. Enquanto estávamos escondidos na sala de Taynara, vimos a noiva dele e parece que o bebê está para nascer. Taynara comentou sobre o casamento que será em breve e será madrinha do bebê. A noiva de Gavin se chama Sofia e parece que foi resgatada por Taynara em Kiev — conto, relembrando da mulher. Ela parece ter sido uma das pessoas que foi torturada na Ucrânia.
— Sofia... Kiev... — murmura Johnny, pensativo. — Poderia descrever como ela é?
— Por quê? — questiona Olga com curiosidade.
— Apenas... acho que pode ser alguém que eu conheço muito bem. Ou pelo menos, achava que conhecia muito bem — responde o homem, encarando-nos com a expressão um pouco atordoada.
— Ela é uma mulher de pele clara, olhos amendoados, cabelos ondulados com franjinha castanhos. Ela também tinha uma cicatriz que ia da orelha esquerda ao pescoço. Eu lembro que ela tinha uma tatuagem de água-viva no braço direito com uma frase em ucraniano que eu não consegui traduzir completamente, mas tenho certeza de que tinha a ver com lealdade. Sofia é uma mulher muito bonita — conta minha namorada.
— Sofia Odeska... — conclui Johnny, parecendo furioso com a informação. — Não acredito que ela está viva e que se juntou com a Taynara!
— Quem é essa? — questiono, confuso. — Você nunca citou nenhum Sofia Odeska para nós.
Encaro Olga, esperando que ela soubesse quem é essa mulher, mas ela apenas nega, parecendo tão confusa quanto eu sobre o fato de Johnny conhecer a noiva de Gavin.
Johnny apoia as duas mãos sobre a mesa, como se precisasse de apoio para manter o próprio corpo em pé. Seus olhos não desgrudam dos mapas e arquivos por alguns segundos, enquanto luta para controlar a emoção que lhe atravessa o semblante.
— Sofia é uma amiga de infância minha e de Mia. Éramos inseparáveis. Ela também fez parte da Fire Scars e, assim como nós, não concordava com o caminho que Dandara estava tomando. Quando nós três decidimos sair, fomos para a Ucrânia, onde tínhamos o plano de iniciar a um grupo rebelde que tinha a premissa do que um dia se tornaria a Resistência, mas ainda tínhamos Prince como principal esperança de salvação.
Encolho-me levemente, ainda sentindo-me um pouco culpado todas as vezes que eu pensava que por muito tempo eu fui visto como uma chave para libertar Krósvia. Mesmo sabendo que já não importava mais, uma parte de mim ainda fica bastante afetado com a situação.
— Enquanto recrutávamos membros novos, nós fomos atacados por aliados ucranianos de Krósvia. Nesse processo, Mia e eu nos separamos dela. Tentamos resgatá-la a todo custo, mas fomos informados que ela tinha sido morta e seu corpo tinha sido jogado no mar junto a outros rebeldes que foram capturados — revela Johnny, parecendo desolado ao lembrar do passado.
— Você tem certeza de que é ela? Quer dizer, temos apenas o nome. Quais as chances de ser a mesma Sofia? — sugere Olga.
— Por acaso a tatuagem de água-viva tinha a frase “virnistʹ ponad use”? — indaga Johnny e minha namorada assente. — A cicatriz da orelha foi feita quando ela estava lutando com um soldado krosviano quando éramos crianças.
O líder da Resistência assume uma expressão melancólica. Troco olhares com Olga, incertos sobre como deveríamos agir diante do comentário desolado do rapaz. Era nítido que ele tinha uma grande consideração por Sofia e saber que ela está viva e do lado de Taynara foi um golpe duro.
— Isso deixa tudo ainda mais complicado. Sofia me conhece melhor do que ninguém. Ela sabe os meus padrões de ataque e é uma das melhores estrategistas que eu já conheci. Juntando as habilidades dela, Gavin e Taynara, isso vai deixar tudo ainda mais perigoso — afirma Johnny com preocupação.
Eu nunca o tinha visto tão inseguro como naquele momento. Mesmo tentando não demonstrar, era evidente o quanto ele estava transtornado com a descoberta da parceria que ele considerava mortal. Eu não conheço Sofia, mas posso sentir um frio em minha espinha ao imaginar do que Taynara e Gavin serão capazes de fazer com um poder tão grande em mãos.
Johnny fecha os olhos por um instante, como se quisesse prender ali dentro de si todo o ruído de medo, raiva, lembranças de Sofia e a dor da traição que o assombrava. Quando ele voltou a abri-los, havia uma frieza nova no olhar, algo perigoso que demonstrava que ele havia tomado uma decisão intensa para proteger a Resistência.
— Não temos muito tempo para perder — afirma Johnny, com a voz baixa, cortando o silêncio. — Se Taynara e Gavin chegarem a Luxemburgo com o respaldo político, nós perdemos tudo. Nossos lares, famílias, a própria Resistência. Não posso aceitar isso.
Olga inclina a cabeça, percebendo o movimento nervoso das mãos de Johnny ao deslizar um dedo pelo contorno de um mapa. Eu sinto o peso daquela conversa pousar no peito de todos nós.
— O que você tem em mente? — pergunto, tentando manter a voz neutra, embora cada palavra me parecesse uma lâmina.
Johnny estrala os dedos e os entrelaças, encarando os papeis na mesa como se fosse um tabuleiro de xadrez. Quase posso ver sua mente trabalhando em busca de uma solução viável e certeira. De certa forma, nós sabíamos que impedir a reunião em Luxemburgo apenas adiaria os planos de Taynara, mas não os eliminaria por completo.
Levando em consideração a determinação inabalável de Taynara em sobreviver e conquistar o que quer, eu não tenho dúvidas, que, em algum momento, não teremos escolha além de nos enfrentarmos até que um de nós esteja morto.
— Primeiro, fechamos todas as comunicações internas da Resistência. Ninguém passa qualquer tipo de informação para qualquer membro que está no QG no momento. Seja por mensagem, e-mail ou rádio, não faremos contato com eles. Sem ter certeza de quem são os nossos traidores, precisamos reduzir o alcance da rede e evitar que mais informação confidencial vaze. Segundo, desarticulamos a logística de deslocamento deles. Temos que interceptar os carregamentos de armas e atrasar o encontro político. E, por fim, precisamos descobrir uma forma de acabar com a Stigma antes que Taynara possa contra-atacar — responde Johnny com determinação.
Olho para Olga, observando-a morder o lábio e apertar as mãos contra a perna, tentando parecer tão resistente quanto eu, mas ainda era possível ver a angústia presente em seus olhos ao entender o tamanho da nossa responsabilidade.
— Como vamos fazer isso em três dias? — pergunto, sabendo que soa desesperado.
— Não podemos fazer tudo — admite Johnny. — Mas podemos fazer o que importa. Eu já mandei mensagens criptografadas para Leon, Nina e Mia. Eles sabem de Luxemburgo. Leon e Nina vão cuidar das coisas enquanto eu estiver fora e buscar pelos traidores na Resistência. E Mia vai tentar conseguir informações de onde vem o apoio político da Stigma, quem são os financiadores e o que eles ganharão com essa jogada de Taynara, dessa forma, podemos achar um jeito de limitar os movimentos deles. Agora, o mais importante é descobrir uma forma de impedir que a reunião aconteça e que Taynara ataque nesse momento.
Olga suspira e me encara.
— Prince, acredito que você seja a pessoa que melhor conheça Taynara e Gavin. Acha que tem alguma forma da gente atrair a atenção deles e impedir que eles possam ir a reunião em Luxemburgo?
— Não a conheço tão bem como imaginam — murmuro, frustrado. — Apesar de termos passado um tempo juntos, Taynara sempre foi muito misteriosa. Enquanto a Gavin, nós chegamos a ter alguma amizade, mas não era forte o bastante para dizer que éramos próximos. Meu pai sempre tratou o pai dele e ele como servos e não permitia que eu interagisse com eles mais do que o necessário.
— E quanto a Sofia, Johnny? Alguma ideia do que poderia atrair a atenção dela? — indaga a ruiva, encarando nosso líder.
— A Sofia que eu conhecia jamais se uniria a Taynara e trairia os amigos dessa forma. Oito anos se passaram desde a última vez que nós nos vimos, então, agora ela é praticamente uma desconhecida para mim — responde Johnny, soando um pouco amargurado.
— Nesse caso, teremos que ser criativos e achar formas de impedir que eles compareçam nessa reunião — murmura Olga, pensativa. — Talvez causar algum problema na fábrica ou algo que...
— Espera! — interrompe Johnny, encarando a televisão. — Olha isso!
Olga e eu voltamos nossa atenção para o aparelho ao qual Johnny apontava e encarava com tanta intensidade. Noto então que o jornal mostrava uma reportagem sobre algum evento que ocorrerá em Luxemburgo amanhã.
A imagem no canto da tela mostrava o letreiro azul-escuro de um centro de convenções. A tarja do jornal anunciava: “Cúpula Transfronteiriça de Segurança e Comércio — Recepção oficial amanhã em Luxemburgo.” A repórter falava sobre a lista de convidados restrita, reforço de policiamento e sobre como essa reunião seria importante para decisões relacionadas ao comércio internacional e as medidas de segurança para acabar com o comércio ilegal.
— Malditos! — sussurra Johnny, frustrado. — A reunião política foi adiantada e será colada à cúpula. Eles vão usar o fluxo de autoridades como cortina de fumaça.
A câmera corta para imagens de apoio com vans descarregando cases pretos, técnicos com crachás, uma equipe de catering entrando pelos fundos do Museu Dräi Eechelenpara a recepção. Por um frame, uma mulher passa ao fundo, perfil nítido, cabelo longos escuros, olhos azuis intensos e expressão serena tão conhecida por mim.
— Taynara está lá — aponto, encarando Johnny e Olga. — Droga! Como ela conseguiu chegar tão rápido em Luxemburgo e participar da organização do evento?
— Não é tão difícil assim ela conseguir um avião para ir, o que leva cerca de uns quarenta minutos daqui até lá — responde o loiro, bufando. — Mudança de planos. Não temos mais três dias. Precisamos ir agora mesmo para Luxemburgo para impedir que essa cúpula aconteça.
— E como faremos isso sem termos suporte do QG, credenciais, veículos e armamentos adequados para a missão? — questiono, encarando o rapaz com preocupação.
— Teremos que improvisar — retruca Johnny, levantando-se. — O que não podemos fazer é ficarmos parados aqui, enquanto Taynara planeja uma Terceira Guerra Mundial.
Olga suspira e se levanta, passando a pegar nossas bolsas que estavam dentro do guarda-roupa do quarto com algumas armas e itens necessários que trouxemos para a missão de invadir a fábrica de armas e roubar os documentos de Taynara.
— Bom, não é como se fosse a primeira vez que embarcamos em missões impossíveis, praticamente suicidas, sem qualquer equipamento e preparo — comenta a ruiva, carregando uma arma, antes de jogá-la para Johnny.
Ele a pega e a engatilha, exibindo um olhar poderoso e intimidador. Eu não me sentia tão confiante quanto eles, mas sabia que ambos estavam certos. Não é como se tivéssemos alternativa. Diante do adiantamento do encontro dos líderes mundiais com Taynara e a possibilidade de uma nova guerra se iniciar, tudo o que podemos fazer é contar com a nossa sorte e torcer para sairmos vivos dessa.
— Tudo bem — murmuro, reunindo os documentos, ciente que sou encarado com intensidade por minha namorada e líder. — Vamos transformar esse evento em um verdadeiro espetáculo e impedir que essa cúpula aconteça.
Fale com o autor