Fire Scars

29 Um Novo Lar


Capítulo XXVIII — Um Novo Lar

“As pessoas sorriem

Algo errado dentro de mim

Escolhas erradas na estrada, passei um tempo

Por causa de escolhas, que eu nunca faço

Aqui

Aqui vou eu novamente

Procurando em todos os lugares

Me queimando em chamas

Aqui

Não há mais tempo para a dor

Hora de fazer a mudança

E ir embora”

Beyond The Touch – Here I Go Again


Most – 1996

Johnny permanecia imóvel, com Dandara nos braços, como se o mundo inteiro tivesse silenciado para que ele pudesse escutar apenas a respiração da filha. O contraste entre o guerreiro implacável e o homem vulnerável diante da bebê era tão forte que eu precisei me segurar para não chorar junto.

Mia acariciava o braço do marido com cuidado, como se tivesse medo de que ele pudesse desmoronar a qualquer instante.

— Eu queria que esse momento fosse perfeito — confessa em voz baixa. — Mas, no meio da guerra, nunca existe o momento perfeito.

Johnny inspira fundo, tentando recuperar o controle.

— Você devia ter me contado — comenta, com a voz embargada. — Eu merecia estar aqui desde o início. Ter acompanhado você e ela. Estar ao seu lado quando ela nasceu.

— Eu sei — responde Mia.

Os olhos dela estavam marejados e era possível ver a sombra de culpa. No entanto, também havia uma determinação que mostrava que mesmo que pudesse fazer diferente, ela não teria feito.

— Mas eu também sabia que, se soubesse, teria largado tudo. E você sempre carrega o peso do mundo nos ombros. Eu não queria que carregasse o peso da nossa filha também, não enquanto ainda havia tantas vidas dependendo de você.

Ele fecha os olhos e encosta a testa na dela, ainda segurando Dara com firmeza.

— Não importa mais. Eu estou aqui agora. E nada neste mundo vai me afastar dela outra vez.

Os murmúrios ao redor cessaram. Todos assistiam à cena, sentindo que aquele era um instante sagrado e que não tínhamos o direito de atrapalhar o momento deles.

No entanto, foi Cat quem quebrou o silêncio com um sorriso suave:

— Acho que ganhamos uma nova mascote para a Resistência.

Alguns riram, o que fez a tensão se dissipar um pouco.

Johnny devolve a filha para Mia com delicadeza, mas sem desgrudar os olhos da pequena Dara, como se temesse que desaparecesse de repente.

Nina se aproxima de Tyler e de mim, colocando uma mão firme em nossos ombros.

— Vocês dois viram? É por isso que lutamos. Para que crianças como ela possam crescer sem precisar carregar cicatrizes de guerra.

Seu olhar azul cintilava de uma intensidade quase maternal.

— Nunca se esqueçam disso durante o treinamento. São pelas crianças e pelas pessoas inocentes que lutamos. Infelizmente, muitos já se feriram e carregarão a dor para todo sempre, mas ainda podemos salvar o futuro, as famílias que estão por vir.

Assinto em silêncio, sentindo um nó se formar em minha garganta.

Pela primeira vez desde que deixei Krósvia, percebi que aquela luta ia muito além de mim, de Prince ou de qualquer ressentimento entre reinos. Era sobre algo maior, sobre o futuro.

Claro que eu sempre tive alguma consciência sobre isso, mas estar diante daquela criança e de observar o amor entre Mia e Johnny, algo havia se tornado mais claro. Algo que estava camuflado pela dor e pelo meu desejo de vingança.

Johnny, ainda visivelmente abalado, recupera sua postura de líder.

— Está decidido. Vamos reorganizar os treinamentos a partir de amanhã. Mas, por hoje... todos merecem descanso. E eu preciso...

Ele olha para Mia e Dara, dando um leve sorriso que quebra sua rigidez

— Eu preciso passar um tempo com a minha família. Amanhã, vamos nos esforçar ainda mais para recuperar o tempo perdido.

A reação foi imediata: ninguém ousou contrariar a ordem. Afinal, era a primeira vez que víamos Johnny colocar a palavra família acima do treinamento.

Enquanto os membros da Resistência começavam a se dispersar, Tyler se inclina até mim.

— Isso muda tudo, não acha? Eu sabia que isso era maior do que a gente, mas... eu não sei. Sinto que isso se tornou mais significativo ainda.

Olho para Johnny, Mia e Dara reunidos em um abraço apertado.

— Sim — respondo. — E de alguma forma... sinto que a nossa história acabou de ficar ainda mais complicada. Não temos apenas uma vingança para se cumprir. Temos que nos esforçar para salvar um futuro.

Tyler assente.

— Ei! Vocês precisam conhecer a Tori — avisa Cam, chamando a nossa atenção.

Nós nos viramos para o garoto e ele sorria animado, enquanto acenava para a garota. Ela parece o reconhecer e imediatamente abre um grande sorriso, antes de correr até Cam e o abraçá-lo.

— Cam!

— Tori!

— Eu senti tanto a sua falta. Que bom que você está de volta e a salvo — murmura Tori, apertando mais o abraço.

— Eu também senti saudades — afirma o rapaz, afastando-se.

Cameron sorri e, após passar o braço por cima dos ombros de Tori, ele a vira para nós.

— Eu quero te apresentar meus novos amigos. Manu, Tyler, essa é a minha prima Tori — apresenta Cam. — Tori, esses são Tyler e Manu. Eles entraram recentemente para a Resistência e ainda estão aprendendo as coisas, então espero que você possa os ajudar.

A linda garota de olhos puxados e longos cabelos lisos pretos, possuía uma franjinha que a deixava parecendo ainda mais nova. Ela abre um grande sorriso e nos abraça animada, surpreendendo Tyler e eu. Não esperávamos ser recepcionados com tanto acalento pela jovem.

— Oi! Eu ouvi muito falar sobre vocês. Sejam bem-vindos! O meu nome é Victoria, mas podem me chamar de Tori. Eu tenho dezesseis anos e atualmente estou responsável por cuidar da Dara e dos estoques de alimento do QG. Fico feliz que tenham mais pessoas da nossa idade por aqui — comenta a garota, demostrando toda a sua energia.

— Você ouviu falar sobre a gente? — questiono, confusa.

— Sim. Nina nos contou que Johnny havia encontrado Prince e vocês dois quando escapava de Krósvia. Imagino que não tenha sido fácil. Sinto muito por tudo o que vocês passaram — lamenta Tori, parecendo realmente comovida.

— O que exatamente Nina falou sobre nós? — questiona Tyler, desconfiado.

Encaramos a mulher que conversava com Johnny de forma animada, enquanto acariciava o braço de Dara. Ela corresponde ao olhar brevemente, mas logo volta a prestar atenção na conversa, quando Johnny comenta algo com ela.

— Quem é ela, afinal? — indago.

— Vamos dizer que Nina e Leon são como os irmãos mais velhos de Johnny — explica Tori. — Quando ele foi para Krósvia para reunir a Resistência, eles meio que se tornaram os líderes daqui junto com a Mia. Passando por uma gravidez de alto risco, Mia não podia se estressar ou participar das missões, então foram eles que assumiram o comando até que a Dara nascesse e ela tivesse se recuperado o suficiente para voltar a liderar o QG.

— Quando eu saí de Most, Nina e Leon nunca se envolviam realmente. O que aconteceu para eles mudarem de ideia? — questiona Cam, surpreso. — Eles eram meio que os conselheiros de Johnny e apenas isso.

— Com o nascimento da princesa Allycia, as coisas mudaram muito por aqui. Além disso, também veio Dandara e acho que isso mexeu bastante com a Nina. Então, eles resolveram aceitar a proposta do Johnny e liderar as coisas na Resistência ao lado dele e de Mia — responde Tori, dando de ombros. — Eles conseguiram recrutar muitas pessoas e fizeram esse QG. Com a ajuda deles, a nossa influência sobre Most cresceu consideravelmente. O que antes parecia ser impossível, de repente, está se tornando realidade graças aos esforços de Leon e Nina.

— Então é por isso que Johnny os admira tanto — supõe Tyler.

— Sim. Assim como todos os membros atuais da Resistência — explica Cam. — Eles são pessoas maravilhosas. Então, não precisam se preocupar com o Prince. Tenho certeza de que o Leon vai torná-lo ainda mais habilidoso.

Eu não sabia bem o que pensar sobre o casal que era tão elogiado por Cam e tão admirado por Johnny, mas, de fato, eles transmitiam algo que me fazia querer confiar neles. Além disso, se eles podem mesmo nos deixar mais fortes, eu não posso perder essa oportunidade.

— De qualquer forma, sejam bem-vindos mais uma vez, Manu e Tyler. Se tiverem qualquer dúvida, podem falar comigo. Não sou tão importante aqui dentro, mas sei bastante coisa e posso ajudá-los a se orientar aqui dentro — afirma Tori, dando um sorriso gentil.

— Já falei para não falar desse jeito, Tori. É claro que você é importante. Assim como todos que estão na Resistência — repreende Nina, surpreendendo-nos com a sua chegada repentina. — Sem você, jamais conseguiríamos manter esse lugar funcionando.

Nina aperta a bochecha de Tori, que choraminga.

— São os pequenos detalhes que fazem o exército ganhar a guerra. Nunca se esqueça disso.

— Está bem, Nina — murmura Tori, envergonhada. — Desculpa.

— Certo. Agora, eu preciso organizar os membros que chegaram e acomodá-los no QG. Enquanto isso, por que você não apresentar o lugar para Cam, Manu e Tyler?

— Claro, Nina!

— Ótimo. Encerre o passeio no refeitório e dê algo para eles comerem — orienta Nina. — Manu e Tyler, eu encontro com vocês lá depois de passar as orientações para os outros membros. Depois disso, iremos para casa, onde vocês poderão descansar o restante do dia.

Tyler e eu assentimos.

Não tinha muito o que pudéssemos fazer a não ser seguir as orientações da mulher, que parecia ser extremamente importante para o grupo.

Em seguida, Tori passa a apresentar todo o QG e as pessoas que passavam por nós e nos cumprimentavam por reconhecer Cam. Como era de se esperar, a maior parte dos membros do QG que não estavam muito felizes com a nossa presença, mas ao menos nos aceitavam o bastante para nos cumprimentar.

Tori explicou sobre a função de cada um dentro do QG e como era a rotina do lugar. Ela também nos contou sobre como todos também trabalhavam fora e possuía uma vida normal para conseguir criar um álibi e manter escondida a existência da Resistência.

Em algum momento, Irina se juntou ao passeio e passou a nos contar sobre como conheceu a todos da Resistência. Isso ajudou um pouco a Tyler e eu nos mantermos distraídos e mais acolhidos.

Quando chegamos ao refeitório, comemos o lanche que era servido enquanto conversávamos sobre banalidades. Foi divertido, mesmo que a todo momento eu sentisse que algo faltava. Eu odiava admitir, mas já estava morrendo de saudades de Prince.

Em algum momento, Maria, Paul e Hugo apareceram no refeitório também. Era nítido como eles se sentiam desconfortáveis e inconformados com a nossa presença, mas não disseram nada. Apenas seguiram para uma mesa distante de nós, onde pareciam realizar uma conversa importante.

— Eles realmente nos odeiam — comenta Tyler ao notar que eu encarava o trio. — Você está bem?

— Sim — respondo, dando de ombros.

— Não se sintam ofendidos. Na verdade, são poucas pessoas que eles gostam — afirma Irina, dando um sorriso divertido. — Acho que no geral, eles só suportam as pessoas mesmo.

— É. Não deem muita importância para o comportamento deles. Logo, eles serão capazes de reconhecer que vocês são membros importantes para a Resistência — garante Cam.

— Mesmo que exista pessoas que não aceitem a presença de vocês, todos sabem que Johnny jamais os acolheria no grupo se ele não tivesse certeza de que vocês são essenciais para o sucesso da Resistência. Só precisam ter um pouco de paciência e logo vocês serão aceitos — afirma Tori.

— Está tudo bem. Eu não me importo se eles gostam ou não de mim. Contato que não nos atrapalhe, eles podem nos odiar a vontade — digo, voltando a me concentrar no meu lanche. — O que os outros pensam ou deixam de pensar sobre mim não faz a menor diferença.

— Já passamos por muita coisa para nos importarmos com esse tipo de coisa — concorda Tyler, pensativo. — Nós apenas queremos nos tornar fortes o bastante para proteger quem amamos e lutar pelo que acreditamos.

Cam suspira e troca olhares com Tori e Irina, provavelmente sem saber o que dizer. Ele e Irina sabiam um pouco sobre o que tinha acontecido com a gente e eu não sabia até que ponto a Tori sabia sobre a nossa história, mas eu estava grata pelos três não insistirem no assunto.

Não demora muito para que Nina apareça no refeitório, onde conversamos mais um pouco sobre as rotinas do lugar e como todos ficaram felizes com as novas acomodações, depois de terem passado tanto tempo naquele desconfortável submarino ou em locais quase insalubres durante as missões que realizaram em Krósvia.

A noite já havia caído quando deixamos o QG.

Nina nos guiou até uma pequena caminhonete que nos esperava do lado de fora do supermercado. O frio da noite era cortante, mas diferente do de Füssen, havia algo de mais puro e sereno no ar de Most. O céu estava limpo, cravejado de estrelas, e pela primeira vez em muito tempo eu me senti conectada com algo além da dor da guerra.

O trajeto até a casa dela não foi longo. A residência dos Gibson era acolhedora, com uma fachada pintada de amarelo claro, com janelas amplas e uma varanda que parecia convidar para conversas noturnas. Nada lembrava o peso da Resistência. Era um lar. E isso, por si só, me deixou desconfortável.

— Entrem — fala Nina, sorrindo enquanto abria a porta. — Não esperem luxo, mas fiz questão de preparar algo para vocês.

Assim que entramos, somos surpreendidos pela beleza do lugar. A sala era simples, mas cheia de pequenos detalhes: fotografias emolduradas, livros empilhados, uma manta colorida sobre o sofá. Era evidente que aquela casa havia sido construída com amor, e isso me deixou com um aperto no peito. Eu não estava acostumada com ambientes assim desde… a morte da minha família.

Tyler, por outro lado, parecia maravilhado.

— Uau… isso é incrível. É como se estivéssemos entrado em uma outra realidade, bem parecida com as presentes nos livros que eu li.

Nina riu suavemente.

— É exatamente isso que quero que sintam. Vocês vão treinar duro, mais do que já treinaram em qualquer lugar. Mas também vão descansar, comer bem e aprender o que significa ter equilíbrio.

— Obrigada — agradeço.

Ela sorri e assente.

— Eu vou apresentar os quartos de vocês e o restante da casa.

Seguimos Nina pelo corredor iluminado por abajures de luz suave. As paredes eram decoradas com quadros de paisagens e algumas fotos que mostravam momentos felizes da família Gibson — Leon sorrindo ao lado de Nina em frente a uma montanha coberta de neve, outra em que ambos apareciam ao lado de Johnny e Mia em tempos mais jovens. Tudo transmitia algo que parecia tão distante da realidade que eu conhecia: normalidade.

— Esse é o quarto do Tyler — disse Nina, abrindo a primeira porta à esquerda.

O espaço era simples, mas aconchegante: cama arrumada, cobertor grosso, uma escrivaninha e uma estante com alguns livros. Também havia um banheiro e um guarda-roupa que já estava cheio de roupas, sapatos e tudo o que supus que Tyler poderia precisar.

— Fique à vontade. Amanhã cedo, começaremos o treinamento.

Tyler parecia uma criança prestes a ganhar um presente de Natal.

— Isso é perfeito. Obrigado, Nina.

Ela apenas sorri antes de abrir a porta seguinte.

— Manu, este é o seu quarto.

O espaço era parecido com o de Tyler, mas com detalhes sutis que me surpreenderam: uma manta lilás dobrada aos pés da cama, uma pequena prateleira com cadernos em branco e até um vaso com flores frescas no criado-mudo.

Eu também tinha ganhado um guarda-roupa recheado de roupas, sapatos e um banheiro só meu, algo que sempre desejei quando morava com meu pai e irmãos.

Constatar isso quase me fez chorar de saudade.

Respiro fundo, absorvendo aquele ambiente que parecia alheio à guerra.

— Espero que se sintam em casa — comenta Nina, com a voz calma. — Sei que não é fácil para vocês aceitarem esse tipo de aconchego depois de tudo o que viveram. Mas aqui, quero que aprendam a encontrar paz mesmo nos menores detalhes.

Assinto em silêncio, sentindo meu coração apertado. A paz me parecia quase um insulto quando Prince estava longe e minha família já não existia.

Após mostrar a cozinha, o quarto dela e de Leon, o banheiro social e a sala de jantar, Nina nos deixou sozinhos, dizendo que prepararia algo quente para bebermos antes de dormir.

Tyler foi para o quarto dele, mas eu permaneci parada diante da janela do meu, observando o bosque iluminado pela lua.

O contraste me atingiu como um soco: o cheiro de sopa vindo da cozinha, a casa aquecida, o som distante da madeira estalando na lareira… nada daquilo combinava com as noites geladas, escuras e sufocantes que vivi desde a morte da minha família. Aquele lugar parecia querer me acolher, mas eu não sabia se merecia esse tipo de acolhimento.

Deito-me na cama, mas ao invés de alívio, senti um desconforto familiar: a lembrança da voz de Prince me repreendendo para não exagerar e que deveria descansar, pois o dia havia sido longo, como diversas vezes aconteceu enquanto estávamos naquela fazendo afastada ao norte de Lofoten.

O quarto parecia grande demais, silencioso demais sem ele. Era como se o conforto fosse uma armadilha, e eu tivesse medo de relaxar, de me permitir baixar a guarda.

Nina bate de leve na porta e entra com uma bandeja.

— Chá de ervas — informa, colocando a xícara na escrivaninha. — Ajuda a acalmar a mente. Sei que seu corpo está cansado, mas sua mente provavelmente ainda está em guerra.

Ela me encara com aquele olhar profundo e firme.

— Manu, o maior desafio não vai ser correr, lutar ou suportar dor física. Vai ser aprender a confiar em si mesma, a superar seus medos e a culpa que eu sei que você carrega dentro de si. Eu sei que está assustada, mas confie em mim. Você é uma sobrevivente e uma guerreira que passou por muita coisa. Você é muito mais forte do que pensa. Eu acredito em você, assim como Prince, Tyler e toda a sua família.

— Obrigada — sussurro, tentado controlar a vontade de chorar.

Ela deixa a xícara ao meu alcance, sorri levemente.

— Boa noite, Manu. Amanhã acordaremos cedo para começar o treinamento, então, apenas descanse essa noite.

— Tudo bem. Boa noite, Nina.

Nina acena e sai, deixando-me sozinha novamente.

Seguro a xícara com as mãos trêmulas. O calor do chá contrastava com o frio que ainda insistia em habitar dentro de mim. Bebo em silêncio e, pouco a pouco, as minhas pálpebras pesam.

Deixo a xícara vazia sobre a escrivaninha e apago as luzes. Cubro-me com o confortável coberto e aconchego-me, fechando os olhos. Antes de adormecer, sussurro para o vazio do quarto:

— Eu vou tentar, Prince. Eu juro que vou tentar.

E naquela noite, embalada pelo som distante da floresta e pelo calor de um lar que não era meu, adormeci com a sensação de que o dia seguinte seria o verdadeiro começo da minha luta: não contra os inimigos lá fora, mas contra tudo o que ainda me prendia por dentro.

Notas finais
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