Fire Scars
12 Sozinha
Notas iniciais
Capítulo XI – Sozinha
“Se você cometer os mesmos errosEu vou te amar de qualquer maneiraTudo o que sei é que eu não posso viver sem vocêNão há nada que eu possa dizerQue vá mudar você de qualquer maneiraQuerida, eu nunca poderia viver sem vocêEu não posso viver, não posso viver”
Safe Inside – James Arthur
Krósvia — 1995
Dois dias se passaram desde que realizamos o resgate de Prince e como era de se esperar, o reino havia anunciado o desaparecimento do príncipe, afirmando que a família real krosviana havia sido vítima de um ataque inimigo durante a madrugada. Obviamente, a tortura que o herdeiro da coroa havia sofrido do próprio pai havia sido ocultada no anúncio, que apenas informou que a rainha estava bastante abalada pelo ocorrido e que o rei se recuperava da agressão que sofreu de um dos invasores, enquanto tentava proteger o primogênito.
Temendo que Prince se tornasse vítima de Lester mais uma vez, Tony decidiu que era melhor manter o rapaz escondido até que ele conseguisse recuperar suas forças e curasse seus profundos ferimentos. E surpreendentemente, o corpo do príncipe estava respondendo bem aos tratamentos de Henry e havia melhorado consideravelmente. Por outro lado, não poderíamos dizer o mesmo de seu estado emocional que ainda se encontrava bastante fragilizado.
Suspiro, enquanto eu termino de trocar o último curativo. Prince estava com o olhar distante e não esboçava qualquer emoção. A única pessoa que ultimamente conseguia arrancar algumas poucas palavras do rapaz e o fazia sorrir nesses últimos dois dias era Manu, mas ainda assim era bastante complicado.
O fato de ter sido vítima de tortura ainda era muito recente, mas mais do que isso, eu sabia que ele jamais seria o mesmo garoto de antes. A raiva e a humilhação sentida jamais serão esquecidas. E olhando para o garoto que está há dias sem dormir por causa dos constantes pesadelos e as fortes dores físicas e emocionais, eu só consigo me questionar o que será do futuro de Krósvia e seu povo.
Reúno todo o material que havia usado para cuidar dos ferimentos de Prince e isso parece chamar a atenção dele. Sorrio compreensiva e ele apenas suspira, visivelmente cansado.
— Terminei. — Aviso, levantando da cama onde o príncipe estava deitado. — Daqui a pouco eu trago um lanche leve para você tomar os últimos remédios do dia. Se precisar de alguma coisa, eu estarei na sala. Por enquanto, tenta dormir um pouco.
— Obrigado. — Responde, suspirando antes de se virar de costas para mim.
Pondero se devo tentar fazer com que ele desabafasse um pouco, mas resolvo deixá-lo em paz. Tudo ainda era muito recente e talvez ele só precisasse de um tempo para reorganizar a mente e pensar no que fará de agora em diante. Ainda mais agora que ele sabe do que o pai é capaz.
Saio do quarto com a bandeja de materiais usados para higienizar e trocar os curativos de Prince, e fecho a porta. Suspiro cansada pelas poucas noites sem dormir. Minhas queimaduras já estavam bastante cicatrizadas, mas a sensibilidade e os ferimentos ainda dificultavam e muito a minha locomoção. As posições mais confortáveis para dormir, de repente, se tornaram torturantes para a pele que ainda possuía muitas bolhas de queimadura e casquinhas de cicatrização que machucavam com qualquer movimento um pouco mais brusco.
Tirando-me de meus devaneios, sinto algo agarrar minhas pernas. Ao olhar para baixo, vejo os cabelos encaracolados de Sean e os olhos brilhantes me encarando curiosos. Sorrio para o garoto e acaricio seus cabelos. Ele sorri e aperta ainda mais o seu abraço.
— Sean, se você não soltar minhas pernas, eu não vou conseguir andar. – Comento, rindo com a manha do garoto, quando tento me mover. – Eu preciso esterilizar esses materiais e jogar fora esses algodões.
— Tay, conta uma história! – Pede a criança, encarando-me com seus típicos olhos pidões que eu dificilmente conseguia resistir.
— Tudo bem. – Concordo, pegando na mão do garoto para conduzi-lo até a sala de estar. Prince precisava descansar e Manu estava dormindo no quarto ao lado. Eu não queria correr o risco de acordá-la, depois dela ter passado os últimos dias ao lado de Prince sem qualquer descanso. Não havia sido fácil convencê-la a ir dormir um pouco.
Assim que chegamos na sala, vejo Gavin encostado na janela da sala, observando a vista de Füssen ao longe. Ele havia decidido ficar na casa para se recuperar e cuidar da segurança, já que diversas vezes Tyler, Henry e Tony precisavam voltar para o palácio para cumprir seus papéis como soldados recrutados para a busca pelo paradeiro do príncipe e não levantarem suspeitas.
Em silêncio, a sua mente parecia distante demais para notar a minha presença. Sigo para a cozinha com Sean ao eu lado e, após descartar curativos, gazes e algodões sujos, cuido da esterilização dos materiais de Henry, assim como ele havia me ensinado. Com tudo pronto, volto para a sala e pego o livro de diversos contos de fadas preferido de Sean, que estava animado e insistia a todo instante que eu lesse a próxima história.
Como de costume, sento-me no chão, próxima a lareira e com as costas encostada no sofá. Sean se acomoda entre minhas pernas para poder ver as imagens do livro enquanto eu leio a história. Folheio as páginas, até que encontro uma história interessante para contar ao garoto que me encarava com expectativa.
— Sean, essa é uma das minhas histórias infantis favoritas. – Revelo ao garoto que parece se animar ainda mais com a informação. — Era uma vez, uma família de ursinhos. O Pai Urso, a Mãe Urso e o Pequeno Urso. Os três moravam numa bela casinha, bem no meio da floresta. O Papai Urso, o maior dos três, era também o mais forte, muito corajoso e tinha uma voz bem grossa. A Mamãe Urso era um pouco menor, era gentil e delicada e tinha uma voz meiga. O Pequeno Urso era o menorzinho, muito curioso e sua voz era fininha.
A história parece deixar Gavin interessado. O rapaz se afasta da janela e se senta no outro extremo do sofá onde eu estava encostada. Sorrio levemente para o garoto e volto a narrar a história. Sean sorria e vez ou outra comentava sobre os desenhos do livro ou as atitudes de Cachinhos Dourados. Eu fazia questão de fazer caretas e mudar minha voz para interpretar cada personagem da história, arrancando risadas de meus ouvintes.
Depois de mais duas histórias, Sean acabou pegando no sono em meus braços. Com certa dificuldade, consigo levantar e pegar a criança em meu colo. Gavin tenta me ajudar, mas seu corte no abdome, ele não conseguia me ajudar muito sem que isso comprometesse o curativo feito por Henry. Nossos movimentos despertam levemente o sono de Sean, que resmunga e ameaça chorar por querer dormir.
Balanço Sean por um tempo e ele agarra meu pescoço, acomodando a cabeça em meu ombro. Sorrio e permaneço assim por um tempo, embalando a criança, enquanto cantarolo uma das músicas que meu cantava para mim antes que eu fosse dormir. Assim que confirmo que ele voltou a dormir, suspiro aliviada e sorrio para Gavin, que me olhava com um sorriso doce em seus lábios.
— Você leva jeito com crianças. – Comenta o rapaz, acomodando-se melhor no sofá. – Não tenho dúvidas de que será uma ótima mãe.
— Você acha? – Pergunto, animada. Ele balança a cabeça, concordando. – Esse é um dos meus maiores sonhos. Ser mãe e formar uma grande família. Eu sei que é bobagem, mas eu amo crianças.
— Eu tenho certeza que Henry vai amar construir uma grande família com você e se tornará um ótimo pai também. – Responde Gavin, surpreendendo-me. Meu rosto fica em chamas no mesmo instante. – É. Eu sei que vocês estão namorando.
— Como você descobriu isso? – Sussurro, envergonhada.
— Eu vi vocês se beijando. E vamos dizer que é bem óbvio que vocês se gostam. A forma como se olham e cuidam um do outro deixa bem claro isso. – Conta o loiro, sorrindo. Suspiro e me sento no sofá ao seu lado com Sean em meus braços. – É engraçado ver a Manu com tanto ciúme de você com Prince, quando na verdade, você é completamente apaixonada pelo Henry.
— Ela tem ciúmes de nós dois? Isso nem faz sentido. – Respondo, rindo. – Será que ela não percebe que ele é louco por ela?
— O amor nos deixa loucos e cegos, não é mesmo? – Gavin e me olha com curiosidade. – Mas, Tay, o que eu não entendo é o motivo de vocês estarem escondendo isso. Quer dizer, vocês são incríveis e parecem perfeitos um para o outro.
— Não acho que seja a hora de revelarmos isso. Nós começamos a namorar tem apenas dois dias. Ainda que a gente tenha se aproximado muito desde que ele passou a cuidar de meus ferimentos. Quero ter mais segurança em nós dois antes de revelar a todos. Além disso, eu não sei como Manu e Tony irão reagir. Ela tem estado bastante afetada desde que você matou a sombra do rei e ela se culpou pelo que aconteceu. — Relembro e ele suspira, cansado.
— Ela precisa aprender a se perdoar e seguir em frente, porque se continuar assim, ela vai sofrer ainda mais. É verdade que ela não deveria ter ido naquela parte do castelo, mas o rei é um maldito que deveria governar para o bem do povo e não agir como um vilão de filmes, usando até mesmo ferramentas para fazer lavagem cerebral. – Afirma Gavin, demonstrando toda a sua revolta.
— Ele é incrivelmente assustador. Eu me sinto... insegura sobre o futuro. – Comento, relembrando do tenebroso momento em que o rei acordou, depois de ter desmaiado e agarrou o meu tornozelo.
— O que aconteceu? Você parece estar escondendo algo desde o resgate de Prince. – Questiona Gavin, encarando-me com atenção. Pondero se devo contar ou não a Gavin sobre o que aconteceu. – Por favor, confie em mim. Eu posso te ajudar.
— Eu não sei se realmente pode. – Sussurro, sentindo-me tensa.
— Tay?
— Tudo bem. Mas você tem que me prometer que não contará a ninguém. Por favor. – Peço e Gavin balança a cabeça, concordando. Respiro fundo e me aproximo ainda mais do loiro, enquanto ajeito Sean em meus braços. – Existe uma grande chance de o rei saber que fui eu quem o atacou no dia do resgate a Prince.
— O quê?! – Exclama Gavin, embasbacado. Faço sinal para que ele falasse mais baixo. – Desculpa. Mas eu me lembro de Tyler falando que você conseguiu fazer que o rei desmaiasse assim que o tiroteio começou.
— Sim, mas antes que eu saísse do esconderijo do rei, ele agarrou a minha perna, me encarou com fúria e disse que aquilo não ficaria assim e que eu sofrerei como jamais imaginei. Eu tenho certeza que ele almeja vingança pelo que aconteceu e se ele souber que a pessoa responsável por matar seus homens e o machucar está morando na casa do homem que é braço direito dele, existe uma grande possibilidade de colocar a vida de todos aqui em risco. – Conto à Gavin, que parece não saber o que dizer.
— Se você estiver correta, você é quem está correndo o verdadeiro perigo. – Afirma o rapaz, parecendo frustrado. – Droga, Tay! Não era para isso ter acontecido.
— Eu sei. Eu sei que não. Mas... aconteceu, Gavin. E eu tenho que fazer alguma coisa antes que todos se machuquem. – Respondo, encarando Sean em meus braços, enquanto meu peito se aperta ao imaginar o que pode acontecer comigo. – Por isso precisamos ser cautelosos e não contar a ninguém sobre isso. Você é o único que sabe sobre o que aconteceu comigo, Gavin, e quero que continue assim.
— Você não contou nem mesmo à Henry? – Questiona Gavin, surpreso.
— Como eu poderia? Ele ficaria morrendo de preocupação e eu não quero o deixar ainda mais assustado do que já está. Henry teme que rei descubra o paradeiro de Prince e desconte em Tony. Teme não ser capaz de curar os ferimentos do príncipe e de todos que ele ama que já se feriram gravemente nessa guerra. Ele já tem preocupações o suficiente. Por isso, não quero que conte a ele. – Digo e o rapaz parece contrariado. – É sério, Gavin.
— Tudo bem. Eu não vou falar nada para ele. – Afirma o rapaz, dando-se por vencido. – Mas ainda acho que você está cometendo um erro.
Antes que eu respondesse Gavin, um barulho estranho de algo caindo ecoa pela sala. Olhamos para a porta, a direção de onde vinha o barulho, e encontramos Stefan Santos, o patriarca da família. E de repente eu sinto o medo me atingir com força total. Eu não tenho dúvidas de que ele ouviu ao menos uma parte da conversa.
— Gavin Darius? – Pergunta Stefan, fechando a porta da casa, depois de pegar a lenha que havia caído de sua mão. – Desde quando você está aqui?
E a tensão nos domina. Não era para Stefan estar em casa. Tony nos disse que o pai passava dias sem voltar, quando algo como o suposto sequestro do herdeiro da coroa de Krósvia acontecia. Tony havia nos dito também que precisávamos manter sigilo sobre tudo o que aconteceu do homem a nossa frente, pois a lealdade dele ao rei pode nos colocar em um alto risco.
— Eu cheguei aqui não faz muito tempo, senhor. Logo após o ataque de fúria do rei, eu tentei ir atrás dele, mas acabei me machucando e fiquei perdido na floresta. Depois de andar por um bom tempo, eu coincidentemente encontrei sua casa. Taynara cuidou de meus ferimentos e me deu o que comer. Espero que eu não esteja atrapalhando vocês. – Mente Gavin, tentando soar o mais natural possível.
— De forma alguma. Você é muito bem-vindo aqui. – Responde o soldado, sorrindo levemente. – Mas me diga, Gavin. Você sabe onde o príncipe está? Nós temos procurado incessantemente por ele há dias e ainda não há nenhum sinal dele. Não sabemos nem mesmo quem está por trás dos ataques. Não temos nenhuma dica, ainda que o rei desconfie que Edgar esteja por trás de tudo. Sabe de algo que possa nos ajudar?
— Lamento, senhor. Eu não faço ideia de onde Prince esteja. Quando houve o ataque, eu fui atrás dele, mas fui pego por alguns soldados inimigos que me feriram. E infelizmente, acabei me separando de meu primo. Vaguei durante esses dias pela floresta e, por sorte, ao sair, encontrei a sua casa, onde Taynara cuidou de meus ferimentos, me deu de comer e me emprestou algumas roupas para me aquecer. – Responde Gavin, visivelmente tenso.
Nós não conseguíamos saber o que se passava na cabeça de Stefan. Seus olhos eram frios e sem qualquer tipo de sentimento aparente. Ele balança a cabeça lentamente, concordando com a fala de Gavin. Em silêncio, Stefan pega o pedaço de madeira que havia caído de suas mãos e caminha até próximo da lareira onde coloca as lenhas para serem usadas mais tarde. Tudo em um movimento lento e intimidador.
— Sabe, o ser humano é uma criatura que frequentemente comete erros por se envolver em assuntos que não são de seus interesses, mas elas se esquecem que as consequências de seus atos podem ser fatais. E sabe, a vida me mostrou que existem diversas formas de destruir a vida de uma pessoa. A morte, que coloca fim ao corpo, a tortura e a morte de seus entes queridos que destroem o seu psicológico e a sua alma. Vocês não acham essa forma de morte ainda pior do que o fim da vida? – Stefan desvia o olhar da lareira e me encara com intensidade. E aquilo era o suficiente para eu saber que ele havia descoberto tudo. Ele então sorri inocentemente e se aproxima de Sean, fazendo um carinho suave na cabeça da criança. – Desculpe. Eu devo estar assustando vocês com esse assunto tão sombrio.
Assustada, inconscientemente, acabo me afastando de Stefan, indo para mais perto de Gavin, temendo que ele fizesse algo a Sean. O homem retorna a sua expressão séria e nos encara brevemente, antes de voltar a observar a lareira. Gavin segura minha mão, provavelmente, me lembrando que eu não estava sozinha naquele momento.
— Bom, eu irei tomar um banho e voltarei para o castelo. Se souberem qualquer coisa sobre Prince, ainda que seja apenas uma dica, me avisem por favor. – Pede Stefan, deixando a sala de estar sem olhar para trás.
Assim que estamos sozinhos, solto lentamente a respiração que eu nem mesmo havia notado que estava prendendo. Meu coração batia tão rápido que parecia que sairia pela minha boca a qualquer momento. Gavin aperta minha mão, chamando minha atenção. Olho para o garoto, atordoada demais para ter qualquer reação além de chorar com a mão sobre a boca, impedindo que algum som saísse.
Compadecido, Gavin me abraça e permite que eu chore. Assim que me acalmo, afasto-me do rapaz e olho para Sean, que dormia tranquilamente em meus braços. Penso em Henry, que ainda não havia voltado para casa, e me questiono o que será de nós. Não acho que Stefan seria capaz de ferir o próprio filho apenas para me atingir, mas sua lealdade ao rei pode colocar a vida do rapaz em perigo também.
— Tay? – Chama Gavin, colocando a mão em meu ombro.
— Ele sabe. – Sussurro, soluçando. – Ele sabe, Gavin.
— Vai ficar tudo bem. – Afirma Gavin, tentando transmitir uma segurança que eu sabia que ele não possuía. Nós dois sabíamos que o rei não seria tão bondoso assim comigo. Não ficaria tudo bem. Não quando a pessoa que busca vingança é Lester Dawson. – Stefan deve saber que se contar ao rei que você está envolvida no resgate de Prince, isso colocará a vida dos filhos em risco. Não sei quanto tempo ele está escutando nossa conversa, ma ele deve saber que você e Henry estão namorando. Se ele fizer algo com você, Henry com certeza fará de tudo para te proteger, o que pode ser perigoso para ele.
— Isso não o impede de contar algo ao rei. Ele pode ocultar que eu estou envolvida com os filhos, principalmente com Henry. Stefan poderia armar para que eu me afastasse de Henry e assim, poderia me atingir através de Sean. – Digo e preciso respirar fundo para não me desesperar ainda mais.
— De qualquer forma, ele não deve fazer nada por enquanto. Apesar de deixar claro que ele ouviu nossa conversa, em nenhum momento fomos acusados de envolvimento com o desaparecimento de Prince. Talvez ele ainda esteja pensando sobre o que deveria fazer. Por enquanto, vamos manter a calma e pensar no que deveríamos fazer. – Sugere Gavin, um pouco mais confiante. – Você é inteligente e uma estrategista nata. Foi capaz de desenvolver um plano para expulsar o exército de Elpízoume de Krósvia como nenhuma pessoa tinha pensado antes. Você será capaz de elaborar um plano que impedirá Lester de machucar você e as pessoas que você ama. Eu tenho certeza disso.
— Obrigada, Gavin. – Agradeço, sorrindo levemente.
Eu ainda não estava tão confiante assim nas minhas habilidades de elaborar estratégias para impedir as ações do rei Lester, mas essa era a minha única alternativa. Quando decidi resgatar Prince, eu escolhi lutar ao invés de fugir, então não voltarei atrás com a minha palavra. Eu farei o que estiver ao meu alcance para proteger as pessoas que eu amo. Ainda que isso signifique desafiar Lester Dawson.
[...]
Era uma noite de céu limpo e estrelas brilhando intensamente. Füssen se encontrava em silêncio. Sentada no guarda-corpo da varanda da casa, eu observava a capital de Krósvia ao horizonte, iluminada fracamente pelas poucas luzes espalhadas pela cidade. Na escuridão da madrugada, minha mente se perdia em pensamentos e me castigava de inseguranças.
Uma semana se passou e não houve nenhum sinal de que o rei havia descoberto sobre mim. As buscas pelo paradeiro de Prince continuaram intensamente e Stefan não voltou a aparecer na residência desde então, para o meu alívio e o de Gavin, que continuava sendo o único a saber sobre o que aconteceu na noite do resgate do príncipe.
Ainda assim, eu não conseguia me sentir calma. Meus instintos me alertavam incessantemente sobre a possibilidade de Lester e seus homens agirem sem qualquer aviso. E por mais que eu tentasse elaborar algum plano para deter o homem, antes que ele agisse, nada parece ser bom o bastante.
De repente, sinto braços contornarem me corpo, me surpreendendo. No entanto, antes que eu me afastasse, reconheço a colônia amadeirada e o caloroso abraço que aquecia. Sorrio e me aconchego contra o tórax de Henry, que deixa um beijo estalado em meu pescoço. Suspiro, sentindo os pelos da minha nuca se arrepiarem com o toque.
— Um beijo pelos seus pensamentos. – Brinca o rapaz, encostando o queixo em meus ombros.
— Não é nada. Estou apenas pensando sobre o nosso futuro. – Respondo, encarando a bela paisagem de Füssen.
— Com “nosso futuro” você se refere ao seu futuro ao meu lado ou ao futuro de Krósvia? – Questiona Henry, parecendo saber exatamente como a minha mente funciona. Rio e suspiro, encostando minha cabeça no ombro do rapaz para encarar seu rosto bonito.
— Os dois. – Respondo e ele deixa um beijo suave em meus lábios. – Tanta coisa tem acontecido nos últimos tempos que me sinto insegura sobre o futuro. Não sei o que devo fazer e nem o que esperar. Se vai haver guerras, se Lester será capaz de machucar Prince novamente, se... conseguiremos ficar juntos.
— Nós iremos. – Afirma Henry com convicção.
— Mas e se algo de muito ruim acontecer? Nós estamos no meio de uma guerra. Não temos garantia alguma de que sobreviveremos. E nós somos jovens. A chance de que o que estamos vivendo é tão baixa de dar certo. – Exponho minhas seguranças e vejo os olhos de Henry brilharem com determinação.
— Nós ficaremos juntos. – Afasto-me do rapaz e me viro no guarda-corpo de madeira para fica de frente para meu namorado, que segura minha cintura, enquanto eu passo meus braços ao redor de seu pescoço. – Não importa quantas vezes eu olhe para você, eu sinto como se nunca fosse me acostumar com a sua beleza. Todos os dias você me apresenta um novo motivo para te admirar ainda mais. Você é a mulher mais doce, inteligente e linda que eu já conheci em toda minha vida. E olha que eu já conheci muitas mulheres. Ai... — Ele ri quando recebe um soco meu em seus ombros.
— Espero que já tenha esquecido todas essas mulheres, porque eu não estou a fim de dividir o meu namorado com nenhuma delas. – Respondo, abraçando-o. Ele ri novamente e corresponde ao abraço com ainda mais força.
— De todas as coisas que eu te falei, é nisso que você presta atenção? – Questiona Henry, bem-humorado.
— Claro. Eu já ouvi isso de todos os muitos homens que eu já conheci. Isso não é novidade para mim. – Brinco e ele começa a me fazer cócegas. Começo a gargalhar e a me debater, tentando me soltar do rapaz, que continuava me segurando para que eu não caísse do guarda-corpo.
— Muito engraçadinha você. – Ironiza, voltando a me encarar, parando as cócegas que já estavam me deixando sem ar. Ele coloca uma mecha de cabelo minha atrás da minha orelha e começa a me encarar, com um fascínio que me deixa envergonhada. Tento desviar o olhar abaixando o rosto, mas ele segura meu queixo com delicadeza e vira meu rosto para que eu olhasse em seus olhos. – Você é a pessoa que traz sentido a minha vida nesse mundo caótico. Eu sei que somos jovens, que nos conhecemos há pouco tempo e que inclusive nosso namoro é bastante recente, mas eu não consigo imaginar minha vida com outra pessoa além de você. Por que no meio dessas guerras e de todo o inferno que estamos passando, você é única pessoa que me faz sentir como se eu estivesse no paraíso. E eu não quero colocar pressão em cima de você. Nós não conversamos sobre isso antes e você não precisa me responder, se não quiser. Mas eu sinto de verdade que preciso te dizer.
Ele respira fundo e me encara intensamente. Meu coração batia como um louco. Henry nunca esteve tão bonito como naquele momento. Era como se eu estivesse em um mundo perfeito. Seus olhos brilhavam intensamente e seu sorriso era como uma joia preciosa que me fazia sentir as tão famosas borboletas no estômago narrado pelas histórias clichê de amor.
— Taynara Miller, eu amo você. Eu amo seu sorriso. Amo a forma como você tenta sempre ver o lado positivo das coisas. Amo como você é inteligente. Amo como você pode resolver qualquer cubo mágico como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Amo como você é doce e gentil. Amo como você é cuida de todos com tanto carinho e paciência. Amo como você sempre se esforça e tenta o seu melhor. Amo como você é teimosa e sempre luta pelo que acredita, mesmo que isso me dê muitas dores de cabeça e quase me faça infartar. – Rio, enquanto as lágrimas se formam em meus olhos. – Eu amo tudo em você. Conhecer você foi a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo, porque eu não poderia ter me apaixonado por alguém melhor do que você.
— Você é tão injusto. – Digo, sorrindo, enquanto as lágrimas descem pelo meu rosto. Ele ri e beija minha testa, limpando minhas lágrimas com seus polegares, acariciando meu rosto. – Eu também amo você, Henrique Santos. E me apaixonar por você foi a melhor coisa que aconteceu comigo. Eu não poderia amar um homem melhor do que você. Obrigada por ser a minha luz no fim do túnel, por acreditar em mim e por me amar. Você também é a minha paz e o meu paraíso no meio dessa guerra maldita.
E então nós nos beijamos. Sob a noite estrelada, eu senti como se fosse impossível eu estar mais completa como naquele momento. Era como se pela primeira vez na vida eu me sentisse amada e importante para alguém. Nos braços de Henry eu finalmente havia encontrado minha paz e um motivo ainda maior para lutar. Eu não me sinto mais sozinha.
Assim que nos separamos, ele me levanta e me roda com uma facilidade surpreendente. Rio, surpresa. Era tão estranho me sentir tão feliz. Ele me traz tantos sentimentos novos e intensos. É como se a cada segundo que passo ao seu lado, eu encontrasse mais um motivo para amá-lo.
— Tay! – A porta da entrada é aberta e por ela sai Gavin.
Assustados, Henry me coloca no chão e nós encaramos o rapaz. Ele nos encara por alguns instantes e sorri sem graça. E eu tenho certeza que meu rosto não poderia estar mais vermelho. Gavin então tossi, como se tentasse recuperar a compostura e me encara.
— Qual o problema, Gavin? – Henry é quem quebra o silêncio, enquanto entrelaça nossas mãos. – Não deveria estar dormindo?
— Eu não deveria fazer a mesma pergunta aos dois? – Questiona Gavin, que após o meu olhar severo, suspira. – Ok. Isso não importa agora. Tay, você precisa sair daqui imediatamente.
— O quê? Por quê? – Pergunto, encarando o garoto.
— Porque eu vi pela janela da sala que...
— Ei, vocês! – O grito de Tony, interrompe Gavin.
Vejo o irmão mais velho da família Santos se aproximar de nós a cavalo. Tony galopava rapidamente e pela expressão em seu rosto, algo muito ruim havia acontecido. Encaro Gavin e leio seus lábios dizerem o nome que vem tirando as minhas noites de sono. Respiro fundo, tentando manter a calma. O desespero daqueles dois rapazes só poderia significar que meu tempo havia se esgotado. Lester Dawson havia me encontrado.
— O que houve, irmão? – Pergunta Henry, assim que Tony nos alcança e desce de seu cavalo com maestria.
— Nós precisamos tirar Prince dessa casa agora mesmo. – Responde Tony, encarando-nos com intensidade. – Eu não sei ao certo o que aconteceu, mas acho que nosso pai descobriu que Prince está aqui e contou ao rei. Eu ouvir ele contar ao rei que ouviu boatos que havia grandes chances de ele encontrar o que procurava em nossa casa. O rei ficou furioso e ordenou que uma tropa com seus melhores homens viesse para cá. Eu consegui sair antes que os soldados fossem alertados, mas nós não temos muito tempo.
— Em no máximo 30 minutos eles devem nos alcançar. – Concorda Gavin, suspirando. – Eu os vi pela janela da sala.
— Droga! – Exclama Henry, frustrado. – Prince ainda não está em condições de fazer uma viagem a cavalo. E eu tenho certeza de que ele não consegue correr.
— Se ele continuar aqui, tenho certeza que será encontrado e o rei não terá piedade dele. – Responde Tony, mostrando a urgência de tirarmos Prince da casa.
— Eles não estão aqui por causa do Prince. Ou pelo menos, não apenas por ele. – Confessa Gavin e eu o encaro furiosa.
— Gavin! – Repreendo o garoto. – Você me prometeu!
— Prometi. Mas isso foi antes de saber que Stefan ouviu nossa conversa e que contou tudo a Lester. Eu não vou deixar você correr esse perigo. Eles precisam saber. – Afirma Gavin com seriedade.
— Do que ele está falando? – Pergunta Henry, encarando-me com seriedade.
— Não... não é nada. – Digo, desviando o olhar.
— Tay. – Henry pega em meu queixo com delicadeza e o conduz para que eu o encarasse. – Me fala o que aconteceu. Qual outro motivo além de Prince, Lester viria atrás de você? Que conversa meu pai escutou?
Suspiro. Eu não conseguia mentir para Henry. E já não adiantava mais esconder. Em poucos minutos os homens de Lester chegarão a nossa localização. Dependendo da quantidade de homens, eu não conseguiria lutar sozinha. E ainda tinha o fato de nós precisarmos proteger Sean e Prince, que não poderiam enfrentar uma batalha contra os melhores homens do rei.
— Ele viu que fui eu quem o ataquei no dia do resgate de Prince. Stefan ouviu quando eu revelei a Gavin no dia que ele resolveu aparecer de surpresa. – Conto e Tony e Henry me olham assustados. – O rei Lester acordou no momento em que eu estava deixando o esconderijo e acabou me vendo. Ele afirmou que me faria pagar pelo que fiz. Eu duvido muito que Stefan faria algo que pudesse incriminar vocês.
— Então foi por isso que você demorou a sair naquele dia. – Constata Tony, relembrando no dia do resgate.
— Sim. Mas isso não importa. Se ele realmente estiver atrás de mim, eu posso chamar a atenção dos soldados inimigos sozinha e os afastar para longe daqui. Assim, o rei Lester jamais descobrirá a localização de Prince e todos ficarão à salvo. – Sugiro, não vendo outra saída.
— Nem pensar! – Nega Henry, imediatamente. – Eu não vou te deixar arriscar sua vida dessa maneira. Pode esquecer essa ideia maluca.
— Você não vai servir de isca. – Afirma Gavin, indedutível.
— Você não pode enfrentar uma tropa inteira sozinha, Taynara. Isso é loucura. Não vou permitir que arrisque sua vida mais uma vez por causa da minha família.
— Mas fui eu quem os colocou nessa situação. Eu preciso assumir a minha responsabilidade e arcar com as consequências. De todos aqui, eu sou a que mais sabia o que poderia acontecer quando decidi ir atrás de Prince. – Argumento com os três rapazes que continuavam contra minha decisão.
— Eu não vou deixar que faça isso. – Insiste Henry, pegando em meus ombros em evidente desespero. Suspiro, já prevendo que ele reagiria assim.
— Henry...
— Você só tem trezes anos, Taynara. Não tem que assumir responsabilidade alguma. – Nega Tony, suspirando.
— Quatorze. – Corrijo, cansada. – E essa é a nossa única alternativa. Eu não quero que Manu, Prince e Tyler saibam sobre isso. Eles já estão abalados demais pelo que aconteceu e eu sei que vão acabar se culpando. Principalmente Prince.
— Mas...
— Me prometam que não vão contar a eles o que descobriram aqui e muito menos que Stefan contou ao rei sobre isso. – Peço, olhando com seriedade para cada um dos três garotos ao meu redor.
— Tay...
— Me promete, Henry. – Digo com seriedade, afastando-me de meu namorado.
— Não acha que já chega de segredos? – Intervém Gavin, aproximando-se de mim.
— Eu estou muito chateada com você no momento, Gavy. Você quebrou sua promessa comigo. Acho bom você ficar bem longe de mim no momento. – Respondo usando o apelido que havia dado ao garoto, deixando claro a minha chateação, que se encolhe, entristecido. – E nós estamos perdendo um tempo bastante precioso.
— Tay, eu não tive escolha. A sua vida está em risco e eu disse que faria de tudo para te manter a salvo. – Responde Gavin, parecendo realmente se sentir culpado. – Eu não quis quebrar a nossa promessa.
— Tudo bem. Eles não saberão de nada. Você tem a minha palavra. – Afirma Tony com seriedade.
— O que está fazendo, Tony? – Questiona Henry, insatisfeito.
— A sua namorada tem razão. Os três já se sentem culpados o suficiente. Principalmente Prince. Se souber que a vida de Taynara está correndo perigo, ele pode ficar ainda pior do que já está. – Responde Tony, surpreendendo tanto Henry quanto eu por saber sobre nosso relacionamento. – O quê? Acharam que poderiam esconder algo de mim? Vocês não são exatamente o exemplo de pessoas discretas.
— De qualquer forma, os soldados estão se aproximando. Eu preciso ir agora. – Digo, ignorando a minha vergonha pelo sorriso convencido de meu cunhado.
— Eu já disse que não vou deixar você fazer essa loucura sozinha. – Fala Henry, pegando em minha mão. – Por favor, desiste dessa ideia. Vamos ficar juntos. Essa é a nossa melhor escolha.
— Não. Não é. Ficar aqui só os colocaria em maior perigo. Se seu pai deu a entender que eu fui a única que participou desse resgate, como eu tenho quase certeza de que ele o fez, atraí-los para longe é a única forma de manter Sean, Manu, Prince, Tyler e toda a sua família a salvo. E você sabe disso. Além disso, estando sozinha, será muito mais rápido e fácil de me esconder deles. Eu já estou acostumada a fazer isso, Henry. Precisa acreditar em mim. Eu vou dar um jeito de voltar, mas por enquanto, eu preciso ir. – Explico a meu namorado, que continuava a me encarar contrariado.
— É muito perigoso. – Resmunga, suspirando frustrado. – Eu não quero que você se machuque ainda mais. Eu conheço esses homens. Tony e eu fomos criados e treinamos nossa vida inteira com eles, por isso sei que é arriscado demais enfrentá-los sozinha.
— Ela não vai sozinha. – Afirma Tony com seriedade. – Eu vou com ela.
— O quê? – Questiona Henry, surpreso.
— Eu também vou. – Avisa Gavin, determinado.
— Então eu também vou. – Decide Henry no mesmo instante.
— Não mesmo! – Nego, irritada por eles não me ouvirem. – Vocês três não podem ir. Precisam cuidar de Tyler, Manu, Prince e Sean. Além disso, estarão com problemas se os soldados de Lester reconhecerem vocês.
— Taynara tem razão. – Concorda Tony, pensativo. – Nós precisamos manter a segurança dos mais novos e temos o problema de Prince ainda precisar de cuidados, Henry. E Gavin, creio que Sean se sentirá mais à vontade com você.
— E você vai deixar que ela vá sozinha? – Esbraveja Henry, indignado.
— Não. Eu irei com ela. – Responde Tony, amarrando o cavalo dele no guarda-corpo da varanda. – Pegue uma mochila com mantimentos e tudo que julgar ser necessário para viajar. Eu te levarei a um local seguro até que possamos pensar em uma estratégia melhor do que continuar fugindo.
— Você não precisa fazer isso, Tony. Sua família precisa de você. – Nego, ainda que agradecida. Ele ao menos parecia ser o mais racional nesse momento.
— Por culpa do meu pai, você está nessa situação. Você já salvou minha família diversas vezes e eu permaneço sendo grato a você, Taynara. Por isso, farei o que estiver ao meu alcance para mantê-la à salvo. – Garante o mais velho com determinação.
— Você disse que a levará para um lugar seguro, irmão. Mas que lugar é esse? – Questiona Henry, desconfiado.
— O mesmo lugar onde eu conseguir as raízes de cinoglossa quando Taynara se feriu. – Responde Tony de forma misteriosa. Pela forma tensa em que se encontrava, ele não parecia muito feliz em ter que ir a esse lugar novamente, mas dada a situação em que nos encontramos, pelo visto não temos muitas escolhas. – Agora vá e pegue a mochila. Enquanto isso, Gavin, você deve se esconder com Sean. Taynara e eu iremos atrair a atenção desses soldados para longe de nossa casa, mas caso não seja o suficiente, Henry, faça o que estiver ao seu alcance para garantir que Prince não seja encontrado. Ao menos, não por enquanto. Farei o possível para estar de volta até o amanhecer. Permaneçam em alerta e aguentem firme até que eu chegue.
Concordo e corro para dentro da casa, pegando uma das muitas mochilas que Tony sempre deixa preparado para casos de emergência. Vou até o quarto que divido com Manu e a observo por alguns instantes. Ela dormia tranquila, completamente alheia ao que ocorria a seu redor. Deixo um beijo em sua testa em despedida e vou para minha cama, onde estava Sean. Acaricio o rosto da criança, rezando para que ele permaneça em segurança. Beijo a testa da criança e o encaro por uma última vez antes de procurar roupas quentes para usar durante o caminho para o esconderijo citado por Tony.
Abro a porta do quarto de Prince e noto que ele ainda dormia próximo a Tyler. Observo os rapazes, em uma silenciosa despedida. Mesmo convivendo há tão pouco tempo com eles, eu havia me apegado a essa família. Era doloroso dizer adeus sem saber quando eu os verei novamente. Fecho a porta e corro para fora da casa, onde Tony trocara suas vestes e se tornara irreconhecível.
— Você está pronta? – Questiona Tony, escondendo uma arma em sua cintura.
— Sim. – Afirmo, nervosa.
— Então vamos. – Responde o rapaz, encarando-me com um sorriso tranquilizador.
Assinto e me viro para Gavin, que me encarava com preocupação. Sorrio para o rapaz e me aproximo. Ele então abre os braços e eu o abraço com força. Apesar de tudo, ele ainda era alguém importante para mim.
— Cuide bem de Sean e me prometa que sobreviverá, não importa o que aconteça. – Sussurro, ainda abraçada ao meu melhor amigo.
— Eu prometo. E você também deve me prometer que vai sobreviver, Tay. – Pede Gavin, afastando-se apenas para me encarar.
— Tudo bem. Farei o meu melhor, Gavy. – Sussurro e ele beija a minha testa em despedida. – Cuide-se, maluquinha.
Concordo e me afasto para encarar meu namorado, que continuava mal-humorado. Ele me encara e vejo a dor em seus olhos. Respiro fundo, tentando controlar as minhas emoções, que já estavam à flor da pele. Henry suspira e se aproxima de mim. Há tanto para ser dito, mas não temos coragem.
— Não tem outro jeito? – Sussurra, próximo a mim.
— Não. Não tem. – Respondo no mesmo tom, sentindo um nó se formar em minha garganta. Não resistindo mais, jogo meu corpo contra o do garoto, que me aperta com intensidade. Inspiro seu perfume amadeirado, tentando encontrar forças para ir. – Eu sinto muito, muito mesmo por tudo que eu fiz.
— Não. A culpa não é sua. Se meu pai...
— Não pense nisso agora. – Respondo, acariciando o rosto de meu namorado. – Eu vou voltar. Não sei dizer quando e nem como, mas eu voltarei.
— Eu sei que vai. – Concorda Henry, encostando sua testa na minha. – Não se esqueça que você é a minha paz em meio ao caos. Eu preciso de você viva e bem. Então não faça nenhuma besteira ou eu juro que eu vou até o fim do mundo se for preciso para cuidar de você.
— Eu vou ficar bem. – Rio, sentindo as lágrimas que tanto segurava, descerem facilmente pelo meu rosto.
— Nós precisamos ir. Eles já estão se aproximando. – Apressa Tony, encarando o horizonte. Não demoro a ouvir o som dos galopes dos soldados inimigos.
— Eu amo você. – Declara Henry, acariciando meu rosto.
— Eu também amo você. – Sussurro, beijando seus lábios em seguida.
Meu coração doía como nunca e as lágrimas se intensificavam cada vez mais. Eu não queria dizer adeus. Não queria ficar longe do meu maior milagre. Mas é por amar tanto esse homem de coração precioso, sorriso bonito e personalidade apaixonante, que eu não poderia ficar. Por isso, me afasto e o observo uma última vez, antes de correr em direção a Tony, que sobe em seu cavalo com maestria e me estende a mão para que eu montasse logo atrás dele.
Após me acomodar, observo a casa que passei meus últimos dias e respiro fundo, tentando controlar o choro. Ajeito a mochila em minhas costas e agarro firme a cintura de Tony, que se despede dos outros dois rapazes em silêncio e chuta seu cavalo para que galopássemos em direção ao exército que vinha em nossa direção.
O vento batia em nossos rostos, enquanto nos aproximávamos dos quase vinte soldados que galopavam intensamente. Ao notarem a nossa presença, eles diminuem a velocidade, como se estivessem tentando nos reconhecer. Tony pega a arma que havia colocado em sua cintura e ao identificar o lugar em que estávamos, logo entendo o que ele pretende fazer.
— Prepare-se! A partir de agora o caminho ficará bastante irregular, escorregadio e de difícil visibilidade. – Aconselha Tony.
Seguro firme e me encolho. Tony dispara algumas vezes contra próximo aos cavalos dos soldados, apenas para que eles se assustassem. No momento em que esses homens se preparam para revidar ao ataque, Tony instiga o cavalo em que estávamos e seguimos apressadamente em direção a Floresta Negra, fugindo com agilidade dos tiros e das árvores que apareciam a nossa frente.
O céu que antes estava estrelado e limpo, aos poucos começa a ficar coberto de nuvens. A floresta já fria e escura se torna ainda mais sombria conforme adentrávamos. Com a velocidade que galopávamos, não demoramos a pegar distância dos soldados inimigos e a chegar no ponto mais alto da floresta, ficando de frente para o mar. Prendo a minha respiração ao ver que estávamos sem saída. O que faríamos agora? Como conseguiríamos escapar dos soldados de Lester?
— Tony... – Sussurro, apavorada.
— Taynara, você vai precisar confiar em mim. – Pede o garoto, descendo do cavalo, que relincha alto, assustado com o som das ondas se quebrando contra as pedras do penhasco em que estávamos. Ele estende seus braços e me ajuda a descer.
— O que você vai fazer? – Questiono, preocupada.
— O que nós vamos fazer, na verdade. – Corrige o rapaz, olhando para baixo da colina. Por algum motivo, aquela reação não me agrada. Ele então se vira para mim, estende sua mão e me encara com seriedade. – Você confia em mim?
Os gritos dos soldados e os relinchos dos cavalos se tornam cada vez mais alto. Eu não sabia exatamente o que Tony tinha em mente, mas com certeza não era algo que me agradava. Engulo em seco, sem alternativa, e balanço a cabeça, concordando.
— Sim. Eu confio. – Respondo com sinceridade, pegando na mão do garoto, que a aperta com firmeza.
— Está vendo aquele ponto onde a água está mais escura? – Pergunta Tony, apontando para o local onde falava. Em meio a chuva que caia, forço minha visão e finalmente consigo ver. Assinto, concordando. – Nesse lugar não há pedras e é a entrada de uma caverna, onde podemos nos esconder até que a tempestade pare.
— Tudo bem. – Concordo, sentindo a adrenalina percorrer meu sangue. – Mas tem certeza que a gente vai sobreviver? E se eu errar o local?
— Não se preocupe. Apenas me agarre firme e confie em mim. Eu não vou deixar você se machucar. – Afirma Tony com convicção.
E então os soldados do rei Lester nos alcançam. Segurando firme a minha mão, Tony me puxa para pegar impulso e me encara, como se pedisse uma confirmação de que eu estava pronta. Assinto e após respirar fundo para pegar um folego, Tony e eu corremos em direção ao precipício. Sem sentir mais o chão em nossos pés, Tony me puxa contra si. Eu o agarro com todas as minhas forças e prendo a minha respiração, antes de sentir o forte impacto do choque de nossos corpos contra a água.
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