Fire Scars

13 Início do Inferno


Notas iniciais
Oii Cupcakes ♥! Demorei, mas estou de volta. Capítulo de hoje traz bastante informação sobre o motivo do ódio de Taynara e Manu. Espero mesmo que gostem. Muito obrigada Princesa Fefeh, Juliana Lorena e VacuumCleaner pelos comentários no capítulo passado. Boa leitura...

Capítulo XII – Início do Inferno

"Então, antes que você vá

Havia algo que eu poderia ter dito

Para fazer seu coração bater melhor?

Se eu pelo menos eu soubesse que você tinha uma tempestade para resistir

Então, antes que você vá

Havia algo que eu poderia ter dito

Para fazer tudo parar de doer?

Me mata saber como sua mente pode fazer você se sentir tão insuficiente

Então, antes que você vá. "

Before You Go – Lewis Capaldi

Krósvia — 1995

A temperatura gélida da água maltrata minha pele, quando caímos no mar. Abro meus olhos e vejo que estávamos cercados por pedras. Tony me solta e pega a minha mão para me guiar em direção a caverna que o rapaz havia citado anteriormente. Nadamos com dificuldade, devido o peso de nossas roupas, e quando finalmente alcançamos a entrada, subo até a superfície de forma desesperada em busca de ar.

Habilmente, Tony sai da água e me ajuda a subir. A caverna era escura e ecoava o som do mar agitado colidindo com as pedras pontiagudas da costa. Eu sentia que meu corpo iria congelar a qualquer momento. O frio intenso me fazia tremer e respirar com dificuldade. Tento falar alguma coisa, mas parecia que até mesmo os fios do meu cabelo estavam doendo. Eu apenas não sabia dizer se era pela queda contra as águas do mar ou pelo doloroso frio que eu sentia naquele momento.

Tony então começa a retirar o casaco grosso que vestia e as botas militares que calçava. Em seguida, o rapaz retira a blusa, ficando apenas com a calça. Ele parecia ainda sentir frio, mas sem as peças pesadas sobre o corpo, estava muito mais confortável e as chances de se aquecer pareciam ter aumentado.

— Deveria tirar o seu casaco e as botas também. Se continuar com elas, será ainda pior. – Recomenda o rapaz, dando um fraco sorriso. – Acho que ainda tenho uma manta guardada aqui. Se não se incomodar, podemos dividir para nos aquecermos um pouco.

Assinto, apenas porque tremia demais para conseguir elaborar qualquer frase e começo a tirar meu casaco e as botas, assim como Tony havia orientado. Ele então encontra a manta que havia mencionado e se senta em uma parte onde parecia estar seca. Estendo meu casaco no chão e me aproximo do rapaz, sentando-me ao lado dele. Tony então passa a manta por cima do meu ombro e eu me aconchego com o calor do tecido.

— Obrigada. – Agradeço fracamente, ainda me sentindo afetada pelo frio.

— Sinto muito. – Lamenta o rapaz, depois de alguns instantes em silêncio. Encaro Tony de maneira confusa e ele ri um pouco amargurado, antes de encarar o teto da caverna. – Eu não tive tempo antes de dizer isso, mas sinto muito pelo que você teve que passar desde que conheceu minha família. Eu já perdi as contas de quantas vezes você salvou Tyler e Emma, mas ainda assim, por culpa do meu pai, você está em perigo.

— Você não deveria se desculpar por algo que não fez. – Respondo, dando de ombros. – Você não tem que assumir a responsabilidade pelas ações de seu pai. E eu ajudei Manu e Tyler porque eu quis. Eles são meus amigos e sei que teriam feito o mesmo por mim. Por isso não me arrependo do que eu fiz.

Tony sorri e suspira, antes de me encarar. Ele parecia nostálgico e de certa forma, aliviado. De todos os membros da família Santos, o rapaz era o que eu mais tinha dificuldades de ler. Extremamente responsável, em todos os momentos em que tive contato com ele, Tony sempre agiu como o pai da família. E por ser sempre muito distante e contido, eu nunca conseguia saber o que se passava em sua mente.

— Você é uma boa garota, Taynara. Fico muito feliz que meu irmão tenha se apaixonado por você e que seja correspondido. Henry é um cara incrível e dono de um coração gigantesco. – Conta Tony, esboçando um sorriso orgulhoso. – Confesso que me sentia bastante inseguro com o relacionamento de vocês, mas conforme venho observando a felicidade de meu irmão, eu não poderia me sentir mais aliviado.

Sinto meu rosto esquentar com a maneira como Tony me encarava. Era como se ele tivesse acabado de me dar a sua aprovação para me casar com o irmão mais novo. Ao mesmo tempo, eu me sentia feliz por ter o apoio da pessoa que meu namorado mais admira nesse mundo.

— Obrigada, Tony. Eu amo Henry. Mais do que eu imaginei ser capaz de amar. Ele é a pessoa mais doce, gentil, inteligente, divertida e linda que eu conheço. E você é a pessoa que ele mais admira e idolatra nesse mundo, por isso, ter o seu apoio significa muito para mim. – Confesso com sinceridade. Ele sorri e acaricia o topo da minha cabeça como sempre vi fazer com Manu.

— Acho que ganhei mais uma irmãzinha. – Afirma Tony, sorrindo largamente. – Bem-vinda a família, Tay.

— Obrigada, Tony. – Agradeço, experimentando pela primeira vez em minha vida o que é fazer parte de uma família. Sinto algumas lágrimas descerem, sem que eu pudesse controlar. A minha vida inteira eu desejei ter uma família. Amar e ser amada por pessoas que realmente se preocupam comigo. E agora que eu tenho a chance, não sei como reagir além de sorrir e chorar de alegria.

— Tay, você está bem? – Pergunta o rapaz, preocupado.

— Sim... – Respondo, rindo enquanto tento limpar as teimosas lágrimas. – É só que eu estou muito feliz por fazer parte da família de vocês. Obrigada por me acolher.

Tony ri e me abraça com carinho. Fico estática por um tempo, mas logo o correspondo, quando ele bate em minhas costas como um delicado conforto. Era tão estranho e, ao mesmo tempo, tão caloroso.

— Como minha mais nova irmãzinha, eu prometo que farei o meu melhor para te proteger e te fazer sentir como parte de nossa família. – Afirma Tony, afastando-se de mim. Seus olhos brilhavam com intensidade e transmitia tanta sinceridade. Assinto, sem conseguir conter um sorriso. Ele corresponde ao sorriso, acariciando o topo da minha cabeça de novo. – Muito bem. Quero que tenha sempre esse sorriso no rosto.

— Prometo tentar. – Respondo e ele ri, assentindo.

Tony então olha para a entrada da caverna e suspira. A chuva parecia ter parado de cair, ainda que fizesse muito frio. Ele sai da manta e me cobre, antes de se aproximar do local que encarava.

— Como descobriu essa caverna e o ponto exato onde pular no meio das pedras tão perigosas, ainda mais estando tão escuro? – Questiono com curiosidade.

O rapaz se vira e me encara por um tempo, antes de suspirar e se aproximar de mim. Ele se senta ao meu lado e encara a parede oposta a nós. Observo Tony, curiosa para saber sua resposta. Depois de bagunçar seu cabelo, ele suspira novamente e me encara com um sorriso nervoso.

— Eu vou te contar uma história que você não deve contar a ninguém. — Pede e eu assinto, concordando. — Tudo começou a quase cinco anos atrás. Durante uma das guerras contra soldados inimigos, eu me separei do restante do grupo e vim parar nessa floresta. Quando eu pensei que iria morrer nesse precipício, uma garota apareceu. O nome dela era Dandara. Ela pegou em minha mão e pediu que eu confiasse nela, assim como eu te pedi. Não tínhamos muita saída. O número de inimigos apenas aumentava e eu não daria conta de todos eles. Concordei e ela me orientou onde eu deveria pular com ela.

Ele para por um momento e suspira. A expressão indescritível em seu rosto me fazia questionar o que se passava em sua mente. Tony fecha os olhos por um momento e quando volta a abrir, ele me encara intensamente.

— Depois de me salvar, ela me levou para o esconderijo dela para cuidar de meus ferimentos. Ao chegar lá, eu descobri que na verdade ela fazia parte de um grupo rebelde que lutava contra o reinado de Lester Dawson. Mesmo tenho apenas dezoito anos, ela já era a líder do grupo e comandava mais de cem rebeldes. Dandara era inteligente e, assim como o significado do seu nome, uma princesa guerreira. Ela sabia comandar e era uma exímia lutadora. Fosse com armas ou por luta corporal, dificilmente alguém venceria uma batalha contra ela. E foi assim que eu me apaixonei. Dandara é bonita e sedutora também. Nós vivemos um romance proibido até que ela resolveu atacar o reino e eu não concordei. — Conta Tony, visivelmente afetado por relembrar de seu passado. — Nós temos os mesmos objetivos, mas visões diferentes para alcançá-los. Para Dandara, os fins justificam os meios. Ela não se importa com o que tem que fazer e nem como fará se no fim, ela conseguir a liberdade de nosso povo. Apesar de desejar o fim do reinado de Lester, eu não acho que mais derramamento de sangue seja a solução. Isso só nos fará iguais a ele. Nós precisamos ser diferentes.

— Violência só gera mais violência. — Comento e ele assente.

— Exatamente. Mas Dandara não vê assim. Por causa de nossas diferenças ideológicas, eu resolvi não voltar a vê-la novamente. Imaginei que se eu não a visse, o amor que eu sentia por ela acabaria, no entanto, não foi bem assim. Quando você precisou das raízes de cinoglossa, eu precisei recorrer a ela. Assim como Henry, Dandara estuda muito as plantas e formas eficientes de medicamentos que possa atender ao máximo de pessoas possíveis, então eu sabia que ela era a única pessoa em Füssen que poderia ter essas ervas. — O rapaz dá um sorriso fraco e suspira. — Encontrá-la depois de quase dois anos foi arreatador. Ela está ainda mais bonita e perigosa. Eu não queria me envolver com ela, porque não sei se meu coração será capaz de resistir a ela, mas não temos outra opção.

— Está querendo me dizer que o esconderijo seguro que você disse que me levaria é o esconderijo do grupo rebelde de Dandara? — Pergunto, surpresa.

— Sim. Apesar de tudo, Dandara é a única capaz de te manter viva. — Responde, desanimado.

— Sinto muito por te colocar em uma situação como essa. — Lamento, sentindo-me culpada por estar obrigando Tony a rever a pessoa que menos queria no momento.

— Não se preocupe com isso. Eu disse que vou te proteger como se fosse minha irmã mais nova e é isso que irei fazer. — Afirma Tony, determinado. — Agora é melhor nós irmos. Quanto mais rápido chegarmos ao esconderijo, mais segura você estará.

— Tudo bem. — Concordo, levantando.

Surpreendentemente, havia algumas roupas escondidas na caverna, então conseguimos trocar nossas roupas molhadas por outras secas e quentes. Colocamos as mochilas de volta as nossas costas e, Com a ajuda de Tony, seguimos a fundo na caverna até que ele retira uma grande pedra que tampava uma pequena passagem que dava acesso a floresta. Assim que deixamos a caverna, noto que estamos em um lugar que era ainda mais difícil o acesso. As árvores eram ainda mais próximas umas das outras, o que tornava o ambiente ainda mais escuro. O terreno era bastante irregular e muitos animais peçonhentos espreitavam entre as folhas secas caídas no chão e a lama que havia se formado pela neve derretida e a chuva que havia caído.

Tony andava com uma afiada adaga, pronto para atacar qualquer animal que se aproximasse demais, e segurava minha mão com firmeza para que eu não me perdesse. Temendo chamar atenção de perigosos animais, permaneço em silêncio e tento me mexer somente o necessário para andar pelo local. A dura caminhada durou aproximadamente uma hora, até que começamos a ver casas feitas de madeira mais a frente.

— Chegamos. — Responde Tony, apertando mais a minha mão. — Se prepare.

Respiro fundo e me aproximo mais. No entanto, antes que pudéssemos dar mais algum passo, uma sirene ecoa pelo lugar e não demora mais que alguns segundos para diversas pessoas com armaduras, máscaras e armas aparecessem. Tony solta a minha mão e levanta os braços em sinal de redenção. Faço o mesmo que ele, preocupada com o que poderia acontecer.

— Identifiquem-se! — Exige um dos mascarados, apontando uma espingarda Taurus Circuit Judge calibre 36 para nós.

— Eu me chamo Anthony Santos e ela se chama Taynara Miller. Nós estamos aqui para ver a Dandara. — Grita Tony em resposta. Ao ouvir o nome do rapaz, o grupo abaixa as armas, provavelmente reconhecendo o antigo companheiro de sua líder.

— Não demorou para que você aparecesse, Tony. Fico feliz que sentiu saudades e voltou. Eu apenas estou curiosa para saber quem é essa jovem ao seu lado. Parece ser muito nova para ser sua companheira. — Uma mulher negra de olhos verdes e sorriso amável aparece. Ela usava botas militares e um sobretudo preto felpudo. O cabelo cacheado ia até o meio das costas e os lábios carnudos estavam pintados em um vermelho intenso.

— Dandara. — Sussurra Tony, observando a mulher se aproximar. Assim que ela fica de frente para nós, ele suspira e a encara com seriedade. — Eu preciso de um favor.

— Mais um? Achei que nunca mais fosse me ver. — Comenta, rindo divertida. Ela me encara por alguns instantes e sorri gentil. — Vocês devem ter passado por grandes apuros. Venham, eu vou servir algo quente para vocês beberem e você me conta do que precisa.

Seguimos Dandara até a última e mais protegida casa do local. As pessoas ainda seguravam armas, mas já não usavam mais as máscaras. Eles cumprimentavam Tony e acenavam amigável, como se estivessem nos dando as boas vindas. O lugar parecia uma pequena vila escondida no lugar mais oculto e de difícil localização da floresta. As crianças corriam e brincavam com brinquedos feitos de materiais como caixas, espigas de milho e pedaços de madeira. Apesar de simples, as casas eram muito bem feitas e adoráveis.

— Não deixem que ninguém entre, nem mesmo Cora. Eu estou em reunião com Tony. — Pede Dandara para os dois homens que vigiavam a entrada de sua casa.

— Sim, Dandara. — Respondem uníssonos.

Assim que entramos na casa, respiro aliviada ao sentir o calor da lareira que chamuscava a lenha lentamente. Dandara retira o grande casaco que usava e coloca no cabideiro que havia ao lado da entrada. O lugar não era muito grande, mas era bastante aconchegante com as janelas fechadas com cortinas brancas, sofá preto e o tapete felpudo branco que havia de frente a lareira parecia bastante confortável.

— Fiquem a vontade. Eu vou pegar algumas roupas limpas para vocês. — Avisa Dandara, desaparecendo no corredor. Enquanto ela não voltava, Tony se senta no sofá e faz sinal para que eu fizesse o mesmo. Observo a tudo, completamente encantada com a beleza do lugar. — Eu não tenho muitas roupas pequenas, mas acho que essas devem dar na garota. E essas aqui são as roupas que você deixou para trás, Tony.

— Obrigado. — Ele agradece, pegando as roupas que Dandara estendia. Tony me entrega a calça e a blusa manga cumprida que linda mulher havia separado para mim.

— Você sabe onde fica o banheiro. E você, garota, pode usar o meu quarto. É a segunda porta à esquerda. — Orienta Dandara, sorrindo simpática. — Eu vou preparar um pouco de chocolate quente para a garota e para mim e é claro, o seu viciante café enquanto isso.

Assim que terminamos de nos trocar, Tony e eu voltamos para a sala. O rapaz parecia tenso. Provavelmente era difícil conseguir lidar com todos os sentimentos que haviam dentro de si. Olhando para Dandara, eu conseguia entender o porquê dele amar a mulher. Ela é linda, gentil e bastante educada. Ela é quase como uma dama da alta sociedade. E o chocolate quente dela era o melhor que eu já havia provado.

— Isso é realmente uma delícia. — Comento, depois de beber metade da caneca. Dandara sorri e pega um guardanapo para limpar minha boca. Coro diante da gentileza. — Obrigada.

— Você é realmente uma graça. — Responde Dandara, voltando a tomar um pouco de chocolate quente. — E então? Vai me explicar o que veio fazer aqui e quem é a garota?

— Ela se chama Taynara Miller. É uma amiga de Emma e namorada de Henry. Foi nela que ele usou as raízes de cinoglossa da última vez em que estive aqui. — Conta Tony e ela balança a cabeça lentamente, como se estivesse entendendo. — A Tay está correndo um grande perigo. Ela atacou o rei Lester para salvar o príncipe Phillip que estava sendo torturado pelo próprio pai. O grande problema é que o rei a viu e meu pai descobriu que ela foi responsável por matar os homens dele e impedir que a lavagem cerebral que ele fazia em Phillip desse certo.

— Impressionante. Você é jovem, mas parece ter uma grande força. — Comenta a líder dos rebeldes, sorrindo satisfeita. — Então, basicamente, você quer que eu a mantenha aqui em segurança para impedir que ela seja pega pelo rei.

— Exato. — Responde Tony com seriedade. — Você é a única pessoa em quem eu confio que pode garantir a segurança dela.

— Você sabe que isso significa que ela vai viver comigo, certo? — Pergunta Dandara, encarando Tony com intensidade.

— Essa garota já fez muito pela minha família. Eu tenho uma grande dívida com ela. Então, mesmo que eu tenha que engolir meu orgulho, eu estou aqui implorando para que não permita que nada aconteça a ela. — Afirma o rapaz e Dandara suspira.

— Tudo bem. Ela pode ficar. Mas você terá que fazer tudo o que eu disser, mocinha. — Ela me lança um olhar sério.

— Eu prometo me comportar. — Digo e ela abre um grande sorriso.

— Eu gostei de você. Quantos anos você em, Taynara?

— Catorze anos. — Respondo e ela parece surpresa.

— Tony me contou quando esteve aqui pedindo as raízes de cinoglossa que você tinha comandado um ataque a base inimiga de Krósvia na Floresta Negra e acabou se queimando enquanto salvava uma criança. Agora ele me disse que você atacou o rei para salvar o príncipe e permanece viva. Como isso é possível? — Dandara parecia pensativa.

— Ela é uma estrategista nata assim como você. — Explica Tony, dando um fraco sorriso. — Ela é excelente com armas e é extremamente inteligente. Sozinha, ela conseguiu elaborar planos complexos como o ataque a base dos soldados de Edgar e invadiu o esconderijo de Lester, matou uma sombra e cinco soldados e conseguiu nos tirar de lá com o príncipe.

— Entendo. Então você é uma superdotada. Isso explica algumas coisas. — Sussurra Dandara, encarando-me por alguns instantes. — E você por acaso sabe ler e escrever, Taynara? Tem algum estudo sobre estratégias ou algo assim?

— Apesar da escola ser proibida para mulheres em Krósvia, eu aprendi a ler e escrever sozinha. Eu treino a leitura todos os dias, lendo o livro de histórias infantis para Sean. E na escrita, eu consigo me virar. Não sou tão boa quanto gostaria, mas é legível. — Respondo e ela se surpreende mais uma vez.

A regra estúpida do rei de que apenas homens devem receber alfabetização é uma das inúmeras coisas em seu reinado que eu mais odeio. Por que temos que viver como ignorantes apenas por sermos mulheres? Somos tão capazes quanto qualquer homem de lutar na guerra, de assumir posições importantes no governo e qualquer outras funções que são dadas somente aos homens em Krósvia.

— E sobre as estratégias de batalha, eu nunca tive acesso. Eu apenas tento imaginar qual seria a melhor solução para o problema. É algo... natural, eu acho. — Respondo e ela sorri.

— Você tem razão, Tony. Essa garota se parece comigo. — Comenta Dandara, levantando-se. Tony a encara com seriedade, enquanto ela se aproxima de mim. — Muito bem. Além de te dar um abrigo, eu vou torná-la minha pupila. Vou te ensinar tudo o que eu sei. Desde estratégias econômicas e políticas a etiqueta e a arte da sedução. Você tem potencial. Com o preparo certo pode se torna melhor do que eu e liderar os rebeldes.

— Dandara! — Tony a repreende. — Eu apenas quero que a proteja e não que a torne a sua sucessora. Não quero Taynara envolvida nas batalhas pela queda do rei.

— Tarde demais. Talvez ela não batalhe para tomar o poder de Lester, mas ela declarou guerra ao rei no momento em que ele descobriu o ataque. Eu posso protegê-la, mas até certo ponto. Você sabe que Lester não poupa esforços para destruir seus inimigos. Ela precisa ter conhecimentos e habilidades necessárias para lutar contra ele. Então, mesmo que você não queira, se quiser que ela sobreviva ou que ela consiga proteger as pessoas que ela ama, Taynara precisa de mim.

— Por favor, me ensine. — Peço, surpreendendo Tony. — Eu não quero que mais ninguém que eu ame fique em perigo, por isso, eu imploro, me faça ter o que é necessário para lutar contra Lester e garantir a segurança de minha família.

— Taynara... — Tony tenta me impedir, mas eu o interrompo.

— Não se preocupe. Eu também não acho que os meios justificam os fins. Enquanto eu tiver Henry, Sean e toda a minha nova família, eu não vou agir contra os meus princípios. — Prometo a Tony, que suspira, dando-se por vencido.

— Parece que já temos uma resposta. — Dandara sorri animada. — Prepare-se, Taynara. O seu árduo treinamento começa hoje.

[...]

Três meses se passaram e eu sentia que poderia morrer de saudade de Henry, Sean, Gavin e os outros. Mesmo tendo o apoio de todos da Fire Scars, o movimento rebelde criado pela Dandara, meu treinamento tem sido realmente pesado. Diferente dos outros adolescentes e crianças que recebiam aulas de alguns professores do movimento, Dandara me treinava pessoalmente, quase como se estivesse me preparando para o pior.

Durante esse tempo, eu não tive nenhuma notícia do que ocorria em Füssen. Tony também não havia voltado a visitar o esconderijo dos Fire Scars, então eu também não sabia dizer se Sean está bem, se Prince se recuperou ou voltou ao castelo de sua família e se Gavin está conseguindo manter a sua promessa de proteger Sean. Eu também não parava de me questionar como Henry está e se ele sente esse vazio tão grande dentro de si quanto eu sinto apenas por estar a tanto tempo longe dele.

— Muito bem, Tay. É incrível como você pega as coisas rápido. — Comenta Dandara, assim que terminamos nosso treinamento com espadas.

— Obrigada. — Agradeço, tentando controlar o fôlego.

Dandara joga uma garrafa de água e a agarro, aliviada. Bebo a garrafa quase toda em um gole só e respiro fundo. O treino de hoje, em especial, havia sido bastante pesado. Dandara se senta no banco próximo de nós e faz sinal para que eu fizesse o mesmo. Assim que me sento ao seu lado, observo a vila. Finalmente o inverno tinha acabado e estávamos na primavera. Todos aproveitavam o bom tempo para cuidar das colheitas e outras atividades que eram impossíveis com o frio intenso que fazia em Krósvia.

— Eu temo que não demore mais do que alguns dias até que você precise retornar para sua família. — Revela Dandara de repente. Encaro-a surpresa. — Acho que você percebeu que desde que você chegou eu sempre fui muito mais exigente no seu treinamento do que com qualquer outra pessoa do Fire Scars. E eu tinha motivos para isso. Quando você me contou toda sua história, eu sabia que você não ficaria aqui por muito tempo.

— O que você está tentando me dizer? — Pergunto, começando a ficar nervosa com aquela atípica enrolação de Dandara.

— As coisas em Füssen estão começando a ficar preocupantes. A rainha anunciou a gravidez então isso foi uma boa forma de desviar a atenção das atividades suspeitas que andam ocorrendo na cidade. — Ao ver a minha confusão, ela continua. — Assim como pensei que o pai de Tony faria, ele te entregou para o rei, mas mais do que isso, colocou uma recompensa para quem a encontrasse. As pessoas começaram a te procurar como uns loucos e não se importam com o que precisam fazer para te encontrar, então...

A sirene anunciando a chegada de um intruso interrompe a explicação de Dandara. Nós nos levantamos imediatamente e corremos para a entrada da vila. Assim que chegamos ao local, reconheço Gavin imediatamente e sem esperar, corro para abraçar meu grande amigo. Ele sorri aliviado e me recebe com carinho. Ao seu lado estava Sean, que assim que me reconhece, abraça minha perna com força. Ouço Dandara ordenando para que abaixassem as armas.

— Tay! Tay! É a Tay, Gavy! — Sean continuava a apertar minha perna, mostrando toda a saudade que havia sentido de mim.

— Gavy! Sean! — Digo, aliviada. Afasto-me de Gavin e pego Sean no colo. O garoto me abraça apertado e eu encaro Gavin preocupada. — O que está fazendo aqui com Sean?

— Nós precisamos de ajuda. Algo terrível aconteceu. — Avisa Gavin com seriedade.

— Gavin Darius? Você não deveria estar aqui. — Afirma Dandara com seriedade.

— Eu sei que não, mas é realmente importante. — Responde Gavin e posso notar a urgência em seu tom de voz. — Stefan informou sobre a sua ligação com Sean e os homens do rei tentaram levá-lo para o castelo. Para impedir que isso acontecesse, eu fugi para a floresta com ele. O grande problema é que para conseguir chegar até aqui, Henry se colocou como isca. Os homens do rei o levaram para o castelo. Stefan ameaçou contar sobre a localização de Prince se você não se entregar para que possam soltar Henry.

— O quê...? — Balbucio e meu coração se aperta.

— Tony tentou tirá-lo de lá, mas ele também foi pego como refém. O rei Lester nos deu até as doze horas de amanhã para você se entregar ou vai condenar Henry e Tony por traição ao trono e decretar a sentença de morte a eles. — Revela o loiro e é como se uma bomba tivesse caído sobre a minha cabeça.

— Esse maldito... — Sussurra Dandara, inconformada. — Ele realmente não tem escrúpulos.

— Tay, não chora.... — Pede Sean e somente nesse momento noto as lágrimas que desciam pelo meu rosto. O pequeno limpa meu rosto e me abraça novamente.

— Ah, Sean. Eu senti tanto a sua falta, meu amor. — Sussurro, apertando ainda mais a criança em meu abraço.

— O que pretende fazer, Tay? — Questiona Gavin, preocupado.

— Eu vou atrás deles. — Respondo sem hesitar.

— Taynara! Você não pode fazer isso! — Dandara me repreende. — Você não pode se entregar tão facilmente a esse maldito.

— E quem disse que eu vou me entregar tão facilmente? — Pergunto, sentindo a fúria dentro de mim. Acomodo Sean da melhor forma que consigo e encaro Dandara e Gavin. — Isso já foi longe demais.

— Tudo bem. Então antes de você ir, nós precisamos... — Dandara começa a falar, mas para ao notar algo de estranho, para e encara Sean.

E tudo aconteceu em questão de segundos. Em um momento, Sean me abraçava apertado e no outro, eu via a criança estar sobre a mira laser de uma arma. Vejo Stefan com um olhar perigoso nos olhos. Tento me mexer, mas é tarde demais. Sem qualquer piedade, Stefan atira contra meu pequeno Sean.

— Sean! — Grito, abaixando com o garoto.

— Alerta vermelho! Estamos sendo atacados! — Anuncia Dandara e uma troca de tiros se inicia. A líder dos Fire Scars saca a sua arma e se coloca na minha frente. Ela atira freneticamente e vai me empurrando com Sean para trás. — Taynara! Aja imediatamente!

— Merda! Maldito Stefan! — Grita Gavin, atirando contra o exército que se aproximava de nós. — Tay!

Encaro a criança sem vida em meu colo. Sean estava com os olhos abertos e havia apenas um furo em sua testa. Minhas mãos estava completamente molhadas com sangue do garoto. Balanço o corpo de Sean, esperando que ele acordasse e tudo não passasse de um sonho. Ele não podia ter morrido. Não agora. Não depois de ficar tanto tempo longe de meu menino e tê-lo em meus braços.

— Não! Não! Não! Por favor, não! Não, Sean. Fica comigo... eu te imploro... — Choro desesperada, agarrada ao corpo daquele menininho que eu tanto amava. — Não faz isso comigo, Sean. Eu preciso de você!

— Ele está morto. — Avisa Stefan com o seu tom sombrio.

— Eu te odeio, desgraçado! — Grito, chorando. A vila inteira lutava contra o exército, inclusive Gavin e Dandara. Stefan apontava a arma para mim com fúria.

— E a próxima a ir vai ser você.

E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, recebo uma coronhada na cabeça e aos poucos minhas vistas vão escurecendo até que perco completamente a consciência, sem imaginar que aquele era apenas o início do inferno que me marcaria para sempre.

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Notas finais
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