Fire Scars
27 Separação
Capítulo XXVI — Separação
“Poxa vida, você é o meu melhor amigo
Eu grito para o vazio
Não há nada que eu necessite
Bem, torta de abóbora quente e pesada
Doce de chocolate, Jesus Cristo
Não há nada que me dê mais prazer do que você
Oh, casa, me deixe ir para casa
Casa é qualquer lugar que eu esteja com você
Oh, casa, me deixe ir para casa
Casa é qualquer lugar que eu esteja com você”
Edith Whiskers – Home
✻
Most – 1996
Prince estava estranho. Muito estranho.
Desde que ele voltou da reunião dele com Olga e Johnny, o rapaz parecia inseguro e ansioso. Eu havia o perguntado qual era o problema, mas tudo o que eu recebi em resposta era um sorriso forçado e uma desculpa esfarrapada, antes dele fugir para conversar com Bóris.
Olga também trocava olhares suspeitos com Prince e parecia bastante desconfortável. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas algo me dizia que o fato de Johnny ter ordenado que todos os tripulantes do submarino se reunisse deveria significar que alguma notícia importante seria dada e que era justamente isso o motivo do desconforto de meu melhor amigo e da ruiva esquentadinha.
— Se você tivesse o superpoder de raio laser, você já teria aberto um buraco na testa da Olga — comenta Tyler. — Será que dá para você disfarçar?
Bufo.
— Prince e Olga estão muito estranho desde que voltaram da reunião. Alguma coisa aconteceu. Eu tenho certeza — resmungo. — O pior é que quando eu perguntei para Prince o motivo dele estar tão estranho e o que aconteceu na conversa deles, tudo o que ele fez foi dizer que não aconteceu nada e que estava tudo bem.
— Relaxa, Manu. Eu tenho certeza de que logo vamos descobrir o que aconteceu. Não adianta nada você ficar encarando os dois como se fosse matá-los. Isso não vai adiantar em nada — aconselha Tyler. — E você conhece Johnny. No mínimo, ele pediu que os dois ficassem calados.
— Ainda assim... — murmuro, inconformada.
Tyler suspira e me dá uma cotovelada de leve, em um aviso de que Johnny estava chegando e que logo descobriríamos o porquê de tanto mistério.
Como de costume, assim que Johnny adentra a sala de reuniões improvisada do submarino acompanhado de Dimitri e Hugo, todos se calam e passam a prestar atenção no líder, ansiosos para saber o que ele tinha a dizer.
Prince estava ao lado de Bóris e era evidente que continuava a evitar o meu olhar, por mais que estivesse ciente que eu o observava.
Suspiro e decido voltar minha atenção para o loiro que continuava ser um grande mistério para mim mesmo depois de passarmos meses morando junto em uma casa afastada da cidade. Ainda assim, Johnny parecia guardar um universo dentro de si e não parecia disposto a compartilhar com ninguém.
— Olá. Desculpa a demora — lamenta Johnny.
Ele se posiciona no ponto mais alto e principal da sala para que todos conseguissem vê-lo e ouvi-lo sem grandes problemas. Cam e Tyler se aproximam mais de mim e posso ver finalmente o olhar de Prince de volta.
No entanto, antes que eu conseguisse correspondê-lo, o rapaz desvia o olhar novamente, como se eu fosse a Medusa, a figura mitológica grega que transformava as pessoas que olhavam para ela em pedra, e isso me frustra ainda mais.
— Como vocês sabem, eu não gosto de enrolação, então irei direto ao ponto — alerta o líder. — O motivo de tê-los reunido aqui foi para dar dois avisos importantes. O primeiro é que chegaremos em Most daqui uma hora, por isso, eu preciso que vocês arrumem todas as suas bagagens e se preparem para desembarcar no cais.
— Até que fim — murmura Cam, controlando sua animação. — Eu não vejo a hora de finalmente estar em terra firme.
— Eu também — concorda Tyler, sorrindo. — Sinto que se eu ficar mais um dia vendo essa imensidão azul, vou acabar me transformando em um peixe.
— Você só está se esquecendo que nossa cabeça está sendo caçada e que quando colocarmos nossos pés em terra firme, corremos risco de sermos encontrados por Krósvia — relembro, desanimada.
— Não seja tão pessimista! — repreende Cam. — Não vai acontecer nada com vocês. Eu garanto. Johnny não nos deixaria descer no cais de Most se não tivesse certeza de que é seguro para todos nós, inclusive para vocês.
— Espero que esteja certo — comento, sem muita confiança.
Não é que eu não confiasse em Johnny ou nas palavras de Cam. Na verdade, eu sou muito grata aos dois pela chance de estar viva e por nos auxiliar na adaptação nessa nova vida maluca que seria muito mais difícil se não fosse pelo apoio deles.
O problema é que enquanto estávamos dentro do submarino, apesar de ser bem desconfortável e caótico em alguns momentos, eu ainda me sentia protegida, escondida pela água do mar e pela certeza de que dificilmente Krósvia teria um submarino para nos encontrar no meio do oceano no fundo do mar.
Agora que estaremos diante de um novo país, lidando com uma nova cultura e pessoas em quem não sabemos se nós podemos confiar, eu me sentia insegura de novo, apavorada com a ideia de que podemos ser encontrados por algum membro da sombras do rei de Krósvia.
— Certo, pessoal! Eu sei que estão animados com a ideia de voltarmos para terra firme e mais próximos de nossas casas, mas acalmem-se, por favor. Eu ainda preciso dar mais um aviso — pede Johnny, dando um leve sorriso.
As vozes dos tripulantes passa a se misturar em comentários animados depois da notícia dada pelo rapaz. Todos estavam ansiosos para deixar o submarino e reencontrar seus entes queridos que ficaram para trás, depois de saírem na missão de resgate de Johnny.
No entanto, apesar de todas as comemorações, não passou despercebido por mim a troca de olhares entre Olga e Prince, quase como se compartilhassem um segredo bastante importante. Eu não sabia o que se passava entre eles, mas eu sentia que eles estavam escondendo algo grande.
— A segunda notícia que eu queria passar para vocês é que teremos que nos despedir temporariamente de Olga e Prince — informa Johnny.
— O quê?! — exclamo, preocupada.
— Como assim, Johnny? O que você quer dizer com nos “despedirmos temporariamente” deles? — indaga Tyler, tão ansioso quanto eu.
— Assim que ancorarmos no cais de Most, com exceção de Olga e Prince, todos nós seguiremos viagem para o QG. Os dois permanecerão no submarino e serão conduzidos por Reggie, um dos nossos companheiros que está esperando no cais, até o local onde eles serão treinados por um colega meu — explica Johnny. — Como eu disse, será algo temporário, mas ainda pode ser que demore um tempinho até que eles se juntem a nós.
— E por que será somente Prince e Olga? Por que eu e Tyler não podemos ir também? — questiono, indignada. — Somos são novatos quanto Prince!
— Você está enganada, Manu. Vocês não estão no mesmo nível — retruca Johnny. — Antes de se unir a nós e desistir de sua posição como príncipe herdeiro, Prince foi treinado para liderar um campo de batalha em casos de guerra. Além disso, ele se tornou fluente em bonês após algumas aulas com Mel. Ele e Olga estão no mesmo nível de domínio de luta e conhecimento cultural, portanto, posso passá-los para a nova fase do treinamento.
Eu não podia retrucar contra esse argumento. Mesmo odiando admitir, Prince é muito melhor em lutas e em poucas aulas, ele se tornou fluente no idioma de Boise. Por outro lado, Tyler e eu ainda temos dificuldades no idioma e o máximo que conseguimos é falar os comandos essenciais.
Prince sempre teve aulas de línguas estrangeiras quando ainda era o príncipe herdeiro, então é claro que ele possui um nível muito mais elevado. E era nítido como ele se sai muito melhor nos treinamentos de combate corporal do que eu e meu primo.
— Você e Tyler ainda precisam avançar um pouco mais e receber mais aulas antes de subir o nível do treinamento de vocês — reforça Johnny. — Eu também quero preparar os dois para serem líderes de equipes no futuro. Portanto, o treinamento deles será mais intenso e pode durar meses ou, até mesmo, anos.
Arfo diante da informação.
Desde que meus irmãos e meu pai foram mortos, Prince e Tyler se tornaram minha única família. Mesmo com todas as dificuldades, nós não nos separamos mais. E eu achava que seria assim até conseguirmos conquistar nossa vingança contra Taynara e Gavin, no entanto, diante do olhar firme de Johnny sobre sua decisão, eu sabia que não havia qualquer possibilidade de impedir nossa dolorosa separação.
Eu não quero perder mais ninguém. Não quero ficar longe de Prince e menos ainda sem contato com ele. Como poderia? Nós passamos por tantas coisas juntos e ele foi a pessoa que mais me deu aponho e me protegeu. É mais do que natural que eu me tornasse próxima dele.
Encaro Prince, esperando que ele me dissesse que tudo não passava de uma grande mentira e que ele na verdade tinha combinado tudo com Johnny para me surpreender. No entanto, assim como Olga, ele exibia um olhar determinado e intenso, indicando que estava pronto para seu treinamento.
E isso me destrói de uma forma que eu jamais imaginei que seria possível.
Penso em retrucar as palavras de Johnny, mas sinto Tyler apertar minha mão em um sinal de que eu deveria me calar e aceitar a situação. Meu primo possuía um olhar sério e ao ver que eu o encarava ele dá um fraco sorriso.
— Prince quer isso. Veja.
Tyler aponta discretamente para Prince, que sorria com orgulho ao ser parabenizado por Mel, Bóris, Cat, Rose e Hugo pela possibilidade de se tornar o líder de uma das equipes da Resistência, enquanto Olga recebia abraços e sorrisos de Irina, Maria, Paul e Jay, igualmente feliz pelos elogios.
— Não podemos atrapalhar. Nós somos seus amigos e devemos apoiá-lo, por mais doloroso que seja — afirma meu primo.
— Sei que não tenho direito de me intrometer, mas Prince é muito inteligente e habilidoso, assim como Olga. Eu tenho certeza de que eles terminarão rápido esse treinamento e logo estarão de volta — afirma Cam, notando o meu estado.
Seus olhos exibiam tanta confiança que eu acabo me sentindo um pouco mais segura de que não ficaríamos longe tanto tempo. Ainda assim, eu não podia evitar me sentir frustrada por saber que a minha falta de habilidades me impedia de ir com ele.
Assim como ocorria quando estávamos em Krósvia, eu me sentia tão patética e inferior ao ver como eu não conseguia chegar nem perto das habilidades de Prince em uma luta corporal. E por mais que eu tentasse, ainda era tão difícil aprender um novo idioma.
— Tudo bem.
Isso é tudo o que posso dizer diante das expectativas presentes nos olhos de Prince, que fazia de tudo para disfarçar a sua animação, mas que não passava despercebido por mim. Eu o conhecia bem o bastante para saber que apesar do medo que ele sentia, ainda havia uma pitada de emoção que o movia para ir além, algo que ele deseja desde que desistiu de se tornar rei de Krósvia.
— Certo, pessoal! Agora que todos os avisos foram dados, arrumem suas coisas — orienta Johnny. — Em uma hora, colocaremos em prática tudo o que treinamos durante esses dez dias de viagem.
Todos passam a andar para arrumar suas coisas, conforme o comando de nosso líder. No entanto, eu ainda me sentia bastante agitada com as notícias e, ao invés de seguir para a área do dormitório, corro até alcançar Prince, puxando-o pelo pulso.
— Espera, Prince!
Ele para de andar e me encara surpreso. Posso ver a culpa presente em seus olhos. Provavelmente, esperava que eu o acusasse por ter escondido de mim algo tão importante. E apesar de estar um pouco magoada por isso, o meu desespero por me afastar dele por tempo indeterminado parecia falar muito mais alto do que meu orgulho naquele momento.
— Você realmente precisa ir? — murmuro, chateada.
— Eu sinto muito, Manu, mas essa é uma oportunidade única — informa o rapaz, dando um fraco sorriso. — Por mais que eu tenha abandonado a posição de príncipe herdeiro, eu ainda quero ajudar Krósvia e Ally. Esse treinamento pode me dar a chance de me tornar mais forte. Eu preciso ser mais forte se quiser ajudar minha irmã a mudar esse mundo. Não posso deixar todas as responsabilidades sobre os ombros de Ally. Isso não é justo.
Crispo os lábios, controlando a vontade de gritar que também não era justo que ele fosse embora sem nem pensar duas vezes em me abandonar, mas eu sabia que estaria sendo infantil e egoísta demais se o prendesse aqui dessa forma.
— Tudo bem, mas precisa me prometer que não vai se esquecer de mim e que vai se esforçar para voltar logo — exijo.
Ainda que soubesse que novamente estava agindo de forma tola, ergo meu dedo mindinho para obrigá-lo a selar sua promessa.
Prince sorri e enlaça seu dedo no meu. No entanto, sou surpreendida quando ele me puxa para um abraço apertado.
Arfo pela surpresa do movimento repentino do rapaz. Demora alguns instantes para entender o que estava acontecendo e finalmente correspondo ao abraço, sentindo-me acolhida por aquele aperto quente e confortável.
— Eu jamais esqueceria você — garante Prince. — Você é minha melhor amiga. A minha família. Como eu poderia me esquecer?
A declaração que deveria me deixar feliz, por algum motivo, faz meu coração se apertar. Eu não sabia dizer se era por sentir que ele realmente partiria ou se havia um motivo oculto. O fato é que eu não consigo evitar apertar ainda mais os meus braços ao redor da cintura de Prince e afundar meu rosto em seu peito, sentindo as lágrimas se formarem.
— Prince, você vai... Ah, desculpa. Eu não queria atrapalhar vocês.
Irina lamenta, exibindo uma expressão de culpa ao ver que nos afastamos de forma brusca devido ao susto que sofremos com a aparição repentina da garota.
— Está tudo bem, Irina — garante Prince. — Qual é o problema?
— Ah, certo. Eu apenas queria saber se você vai querer ficar com aquela adaga que eu queria me desfazer e você ficou interessado — comenta a garota. — Eu estou querendo aumentar o meu arsenal de armas e preciso de espaço na minha mochila, então pensei em te dar, já que ela poderia ser de ajuda para você em seu treinamento.
— Claro, Irina. Seria ótimo — afirma Prince, animado com a oferta da garota.
— Ok! Só vou pegá-la em minha mochila e já te entrego — responde Irina.
Ela se despede com um aceno e nos deixa sozinhos em um clima relativamente desconfortável devido a nossa timidez, após sermos pegos em um momento tão íntimo e vulnerável como nós estávamos.
— Eu vou arrumar minhas coisas. Falo com você depois — avisa Prince.
No entanto, posso ver que ele encarava Olga, que parecia querer conversar com o rapaz.
Suspiro e assinto.
Ele se afasta e o observo ir discretamente ao encontro da ruiva, que não parecia nada feliz. Entretanto, eu ainda conseguia ver que mesmo se fazendo de forte e provocando Prince a todo oportunidade existente, Olga se sente atraída pelo príncipe.
Provavelmente, a garota ainda não se deu conta, mas era evidente que quando juntos, eles acabavam entrando em um mundo somente deles, onde nada parece ser mais importante do que as implicâncias e insultos do outro.
Então, tomada pela frustração, sigo para o dormitório onde passo a arrumar minhas coisas, que felizmente, não eram muitas. Posso ouvir as conversas aleatórias dos membros da Resistência, que faziam planos de como reagiriam quando reencontrassem seus entes queridos que estava esperando por eles em Boise.
Até mesmo Tyler parecia animado com as conversas, curioso para saber mais sobre o quartel general do grupo e o que ele deveria esperar no local. Eu me mantenho calada, sem realmente prestar atenção ao que acontecia ao meu redor.
— Você está bem, Manu? — indaga Cameron.
Desvio o olhar da blusa que eu segurava e encaro o rapaz, que me encarava com genuína preocupação. Ele realmente parecia querer saber como eu me sentia e isso quase me faz chorar.
Eu me sentia tão sobrecarregada de sentimentos negativos que mais um pouco e eu mostraria um lado meu que eu não queria mostrar. Eu não queria chorar e nem estava disposta a ouvir os julgamentos das outras pessoas por não ser capaz de lidar com o fato de que meu melhor amigo vai embora e eu ainda não fui capaz de aceitar o que eu realmente sinto por ele.
Cam parece perceber que mesmo eu assentindo, em uma tentativa vã de dar uma resposta confiante, eu estava longe de estar bem, pois imediatamente ele me puxa para os fundos do submarino, em uma parte isolada e que ninguém poderia nos ver.
— Está tudo bem ficar triste com a partida do Prince. Se você quiser chorar, está tudo bem. Não guarde esses sentimentos negativos para você — aconselha Cam. — Confie em mim. Fica muito mais difícil de seguir em frente quando ficamos presos naquilo que nos puxa para trás.
O rapaz coloca as mãos sobre os meus ombros e sorri com uma compreensão tão genuína que quando dou por mim, as lágrimas estão simplesmente descendo pelo meu rosto. E, para minha surpresa, eu ainda abraço Cam, que acaricia meus cabelos, dando-me confiança para colocar para fora tudo o que eu sentia e que não era capaz de expor em palavras.
Não sei quanto tempo permaneço naquele estado lamentável, chorando copiosamente nos braços de Cam, apenas desejando que tudo o que eu sentia sumisse de meu coração, mas quando finalmente consigo me acalmar, afasto-me do rapaz, que me dá aquele sorriso gentil e limpa meu rosto com delicadeza.
— Está se sentindo melhor?
— Sim. Obrigada e desculpa por... isso — comento, envergonhada pelo modo como eu havia agido.
— Não se preocupe. Eu entendo bem como se sente — afirma Cam, afagando minha cabeça. — Nós somos amigos que fazem aniversário no mesmo dia, certo? Pode confiar em mim para conversar sobre o que sente. Eu prometo que não contarei a ninguém e, tampouco, eu julgarei o que você estiver sentindo.
Sorrio e abraço o rapaz mais uma vez, sentindo-me grata por saber que havia alguém além de Tyler e Prince que parecia disposto a estar ao meu lado.
— Obrigada, Cam. Eu ainda não sou capaz de descrever o que estou sentindo, porque nem mesmo eu sei definir, mas chorar me ajudou a diminuir o peso que eu sentia em meu coração. Eu me sinto muito melhor. Obrigada — agradeço.
— Fico feliz em ouvir isso — garante o rapaz.
Suspiro e me afasto.
— Bom, está na hora de voltar a realidade. É melhor terminar de arrumar nossas coisas. Hoje o dia será bem longo — comento, desanimada.
Cam sorri com condolência, mas passa o braço por cima do meu ombro e me conduz pelo submarino.
— Relaxa! Eu tenho certeza de que você vai tirar de letra. Você é Manu Santos. A garota que superou o inferno que é ser treinada por Johnny Relish e conseguiu entrar para a Resistência. Isso não é para qualquer um não — garante Cam.
Bufo.
— Mas que ainda não é boa o bastante para participar de um treinamento especial como Prince e Olga — resmungo, chateada.
— Mas essa comparação nem é justa. Você quer comparar um príncipe que foi treinado desde que aprendeu a andar e uma garota que nasceu na Fire Scars, onde desde nova precisou aprender a lutar para sobreviver com uma pessoa que teve uma infância normal? Na verdade, eu até acho que você é brilhante para ter aprendido tanto em tão pouco tempo.
— Você acha? — questiono, surpresa.
— Claro que sim!
O jovem de olhos puxados sorri largamente e assente. Ele se afasta de mim e me encara com determinação.
— Aqueles dois apenas foram treinados precocemente. Se você tivesse passado pelo mesmo, aposto que seria ainda mais perigosa do que eles. Acha mesmo que alguém consegue se tornar fluente em um idioma em dez dias e aprender a combater em apenas alguns meses? Você já avançou bastante. É apenas uma questão de tempo até que você os alcance e até mesmo os ultrapasse em termo de habilidades — afirma Cam. — De todos aqui, você é a que menos tem tempo de experiência, Manu, mas ainda assim, você consegue nos acompanhar com maestria. Deveria pegar mais leve com você.
— Até que faz sentido o que você está falando — murmuro.
— É claro que faz sentido. Então, pare de se rebaixar. Aproveite esse tempo em que Prince e Olga estarão em treinamento para aumentar suas habilidades e mostrar para Johnny que você também pode liderar uma equipe e participar de um treinamento especial.
As palavras cheias de confiança de Cameron servem como o combustível que eu precisava para retornar minha confiança. Claro que eu ainda me sentia um pouco chateada com a situação, mas Cam estava certo sobre estar me cobrando demais.
Analisando a situação, nesse momento, eu realmente não posso competir com a experiência que Prince, Olga, Tyler e todos os outros membros da Resistência possuem. Tem menos de um ano que eu comecei a treinar e não foi da melhor maneira possível, já que Johnny sempre focou bastante em Prince e meu primo é péssimo em explicar.
Eu ainda tenho muito o que melhorar, mas eu não vou desistir. Mesmo que demore anos, eu vou me vingar de Taynara e Lester Dawson e garantir a liberdade de Krósvia. Não importa o quanto eu tenha que treinar e sacrificar, eu me tornarei forte o bastante para nunca mais ser subestimada.
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