Fire Scars
28 Nova Vida
Capítulo XXVII — Nova Vida
“Bem, o lamento estava completo
Havia lágrimas no volante pingando no banco
Várias horas ou várias semanas
Eu me atreveria a dizer que são igualmente desanimadoras
É o início do fim, o carro subiu a ladeira
E desapareceu na curva, pergunte a qualquer um e te dirão isso
São nesses tempos em que isso tende a começar a partir-se ao meio
A começar a desmoronar, oh, apegue-se ao seu coração”
Arctic Monkeys – Do Me a Favour
✻
Most – 1996
O submarino ancora no cais mais afastado do povoado de Most em Boise, finalmente finalizando a nossa longa viagem que havia sido muito mais proveitosa e emocionante do que eu havia imaginado.
Assim que recebemos o aviso de Johnny que poderíamos desembarcar, todos passam a se despedir de Olga e Prince, desejando sucesso em seu treinamento e pedindo que retornassem o mais breve possível.
Aos poucos, os tripulantes passam a deixar o submarino, ansiosos para subirem na van de viagem que aguardava por nós e que nos levaria até o quartel general da Resistência, onde provavelmente se encontrava os outros membros do grupo.
Permaneço com Tyler e Johnny para sermos os últimos a sair e se despedir de Olga e Prince. Eu ainda não estava preparada para dizer adeus, ainda que estivesse muito mais conformada e calma do que quando recebi a notícia.
— Boa sorte para vocês dois. Espero que o treinamento de vocês os ajude a melhorar ainda mais suas habilidades e torço para que retornem a sãs e salvos — deseja Tyler, abraçando Prince.
— Obrigado, Tyler — agradece o rapaz. — E vocês se cuide. Fique de olho na Manu por mim e não deixe que ela faça muitas loucuras.
— Missão impossível, mas vou tentar — brinca meu primo, afastando-se do amigo.
— Vocês dois são uns idiotas — resmungo.
Eles riem e Tyler se vira para Olga, que continuava a exibir sua expressão neutra. Ao contrário do que acontecia com Prince, a ruiva não era tão hostil conosco, mas também não parecia disposta a se tornar nossa amiga.
— Boa sorte, Olga. Sei que você não é a maior fã de Prince e que a coroa de Krósvia trouxe muita dor e sofrimento para você e sua família, mas ele é o meu melhor amigo. Então, talvez eu esteja pedindo muito, mas cuide dele e se cuide também. Esperaremos o retorno de vocês com ansiedade e pensamentos positivos — despede-se Tyler, estendendo a mão para Olga.
— Obrigada e não se preocupe. Apesar de nossas diferenças, eu tenho consciência da importância desse treinamento. Ele vai sobreviver — garante Olga, correspondendo ao aperto de mão. — E vocês também se cuidem. Mesmo que eu não esteja aqui, continuem treinando o que ensinei para vocês.
— Pode deixar — concorda Tyler.
Tyler se afasta e é a minha vez de me despedir dos dois. Propositalmente, decido me despedir de Olga primeiro. Ainda precisava de um pouco de controle emocional para falar com Prince.
— Obrigada pelo treinamento e boa sorte, Olga. Tomem cuidado e não exagerem. Espero que não demorem a voltar — desejo, estendendo minha mão para a garota.
Ela me cumprimenta e assente.
— Claro. Obrigada, Manu — responde Olga.
Respiro fundo e me viro para Prince, que me observava com atenção. Trocamos um fraco sorriso, mas era evidente que havia muito que gostaríamos de dizer.
No entanto, tudo o que ele faz é abrir os braços e eu imediatamente me jogo contra ele, ansiando por sentir mais do seu calor e gravar em meu coração aquele mísero momento. Eu não queria me afastar. Não queria dizer adeus. Tampouco deixá-lo partir, sem nem mesmo ter a certeza de quando voltaríamos a nos ver.
— Você precisa me prometer que vai se cuidar — murmuro, segurando as lágrimas. — Não faça nada idiota e não se machuque. Não fique doente e se alimente bem. Precisa estar inteiro quando voltar.
— Não se preocupe. Eu vou me cuidar. Eu prometo — garante Prince, abraçando-me com ainda mais intensidade. — E você também precisa se cuidar. Não faça nenhuma loucura e tente se dar bem com o pessoal. Não deixe que o que eles sentem por mim interfira na sua vida. Sei que você tem dificuldade para confiar nas pessoas, mas faça muitos amigos e se divirta também.
— Eu não sou boa em fazer amigos. Você sabe disso — resmungo. — E como eu poderia me divertir quando tanta coisa está acontecendo?
— Ficar presa em um quarto ou se matar de treinar não vai mudar as tragédias do mundo. É claro que é importante melhorar nossas forças e relembrar dos nossos entes queridos para nos impulsionar a melhorar, mas também é importante descansar. Você tem tendência a exagerar — relembra Prince, afastando-se o suficiente para me encarar. — Você é uma garota incrível, então vai com calma. E cuide do Tyler também. Ele é meio lerdo e um alvo fácil para ferimentos.
— Eu vou cuidar dele — respondo, voltando a abraçá-lo.
— Manu e Tyler, está na hora de irmos. Olga e Prince ainda precisam continuar a viagem — alerta Johnny, despertando-nos de nosso momento.
À contragosto, afasto-me de Prince e suspiro, sentindo-me um pouco patética por não conseguir controlar as lágrimas que desciam timidamente pelo meu rosto. Meu melhor amigo sorri e limpa meu rosto, deixando um beijo em minha testa.
— Olga e Prince, esse é Leon Gibson. Ele será o responsável por acompanhá-los até o local do treinamento e orientá-los. Qualquer dúvida, pode falar com ele. Leon é alguém de confiança e a pessoa mais preparada que eu conheço. Não há problema que ele não consiga resolver.
Nesse momento, eu noto a presença de um homem um pouco mais baixo que Johnny. Ele tinha olhos cor de mel calorosos e o cabelo curto castanho. Sua pele era levemente bronzeada, mostrando que ele pegava muito Sol e seu sorriso era muito gentil.
— Não exagere, Johnny. Desse jeito, eles vão achar realmente que eu sou tão habilidoso quanto você — comenta Leon, bem-humorado.
— Tem razão. Você é bem melhor do que eu — retruca Johnny, sorrindo, e isso me surpreende.
Era como se eu estivesse diante de uma versão mais divertida e animada de Johnny, algo que nunca tinha visto em todos esses meses que passei ao seu lado. Talvez, algo próximo a isso foi quando Ally nasceu, mas ele estava bastante emocionado.
Diante de Leon, ele parecia genuinamente feliz por reencontrar o amigo. Havia um brilho em seus olhos de admiração e respeito que me fazia questionar o quanto esse homem deveria ser importante para Johnny.
— Até parece — responde Leon, rindo. — De qualquer forma, é um prazer conhecê-los, crianças. Como Johnny disse, meu nome é Leon e eu serei o guia de vocês. Qualquer dúvida que vocês tiverem, podem me consultar. Quanto a Tyler e Manu, minha esposa será responsável por vocês. O nome dela é Nina Gibson. Espero que possam confiar e cuidar dela enquanto eu estiver longe.
— Pode deixar — concorda Tyler, sorrindo. — E você, cuide bem do Prince e da Olga.
Leon sorri e assente.
— Bom, está na hora de irmos.
O homem sorri para Johnny e o abraça. Eles trocam algumas palavras em algum idioma que eu não fazia ideia de qual era e se afastam. O líder da Resistência acena para que Tyler e eu o seguíssemos.
Despeço-me de Prince e Olga com acenos e, ainda relutante, sigo com meu primo até a superfície. Subimos no deck de madeira com a ajuda de Johnny e logo sinto o vento gélido atingir o meu rosto.
Apesar disso, o Sol brilhava intensamente e a paisagem era de tirar o fôlego. O céu estava azul intenso e, mesmo com o frio que fazia, havia algo naquele lugar que transmitia uma sensação de liberdade e paz.
— Nina!
O chamado animado de Johnny desperta-me de meus devaneios e me surpreendo mais uma vez ao ver a animação do rapaz ao abraçar a linda mulher de cabelos castanho e olhos azuis. Ela sorria feliz e acariciava as costas de Johnny quase como uma mãe, que ansiava para matar a saudade que sentia do filho depois de ficar tanto tempo longe.
— O que está acontecendo aqui? — murmuro para Tyler, que parecia tão surpreso quanto eu.
— Eu não sei, mas estou começando a achar que o Johnny foi substituído por alguém feliz e que é capaz de sorrir sem ser com ironia e deboche — comenta meu primo.
Rio, ainda chocada com a reação de Johnny.
O submarino não demora a se mover e em poucos segundos, ele desaparece nas águas do mar, indo em direção a um lugar que eu não faço ideia de onde poderia ser.
Sinto meu coração se apertar diante da confirmação de que Tyler e eu estamos em um ambiente completamente estranho para nós e por conta própria. Mesmo confiando em Johnny, eu ainda me sentia um pouco insegura com essa nova vida.
Tyler pega em minha mão e me puxa para nos aproximarmos de Nina, que conversava com Johnny, exibindo um bonito sorriso.
Ao longe, posso ver a van que nos levaria ao QG da Resistência, onde os outros membros que viajaram conosco já deveriam estar nos esperando.
— Então esses são Tyler e Manu? — questiona Nina, encarando-nos com um sorriso doce. — Sejam bem-vindos a Boise. Eu me chamo Nina Gibson. Eu serei a responsável por treiná-los e cuidar de vocês. Espero que possamos nos dar bem.
E sem que tivéssemos a chance de responder, Nina abraça a mim e a meu primo com um carinho que eu jamais esperaria de uma desconhecida. Mas, o mais estranho nisso tudo, é que eu me senti confortável o bastante para corresponder ao gesto e me sentir realmente acolhida.
— Obrigada, Nina — murmuro, ainda atordoada.
— Bem, está fazendo frio aqui e vocês devem estar cansados da longa jornada. Vamos para o QG apenas para nos encontrarmos com Mia e os outros. Em seguida, vocês dois virão para a minha casa — explica Nina, afastando-se de nós.
— Por que ficaremos na sua casa e não com os outros? — questiona Tyler.
— Porque vocês estarão mais seguros com a Nina e o Leon — responde Johnny, fazendo um gesto para que o seguíssemos para a van. — Apesar de saber que os membros da Resistência são fiéis ao nosso objetivo, infelizmente ainda não posso garantir a segurança de vocês.
— Muitos membros ainda guardam muito rancor de Prince e, consequentemente, de vocês, que são seus companheiros. Até que vocês estejam fortes o bastante para se defenderem sozinhos e os membros da Resistência passem a confiar em vocês, é melhor que vivam comigo e com o meu marido — responde Nina.
— Tudo bem — concordo, sentindo-me um pouco frustrada. — Então, quando Prince voltar, ele vai morar com a gente?
— Sim. Esse é o plano — responde Johnny. — Então sejam pacientes e obedientes. Nina e Leon têm muito a ensinar a vocês. Sei que estão frustrados por se separarem de Prince, mas aproveitem essa oportunidade para se adaptar a nova vida de vocês.
Tyler me encara e eu assinto.
Eu sabia bem o que o olhar intenso de meu primo queria dizer.
Por mais que seja dolorosa a separação, eu sabia que seria bom me afastar um pouco do Prince para entender meus sentimentos e melhorar as minhas habilidades.
Querendo ou não, ao lado de Prince, eu acabo sempre dependendo dele. Então, assim como Johnny havia dito, essa é a chance que eu precisava para crescer e me tornar mais independente. Eu não posso continuar contando com Prince para sempre.
— Prometo que nós iremos nos esforçar — garanto.
— Excelente! — exclama Nina. — Então vamos. Aqui estamos muito expostos e quanto mais rápido chegarmos ao QG, mais rápido vocês poderão comer e descansar.
Assim que alcançamos a van que esperava por nós, todo o grupo seguiu viagem por Most, em direção ao quartel general da Resistência. Como esperando, o percurso foi feito com muita ansiedade e expectativa dos membros mais antigos do grupo, que não viam a hora de encontrar amigos e familiares que se encontrava no lugar.
Tyler e eu permanecemos em silêncio, apenas observando a paisagem pela janela do veículo. Estávamos divididos entre a curiosidade de saber mais sobre a cidade que será nosso lar por tempo indeterminado e pensativos em relação ao nosso futuro.
Nada estava saindo como eu esperava, mas tirando o fato de estar longe de Prince, não era necessariamente ruim a mudança.
Eu me sentia um pouco mais confiante e ver a beleza de Most me trazia um pouco de esperança. Tudo era tão calmo e bonito. Mesmo estando um pouco frio, o Sol ainda brilhava intensamente e mesmo sendo tão cedo, as pessoas andavam pelas ruas com sorrisos calorosos no rosto.
Havia tantas árvores e construções grandiosas. Tudo era muito diferente de Krósvia e eu não conseguia deixar de sentir aquele frio na barriga, sedenta por entender e descobrir mais daquele lugar tão único para mim.
Felizmente, nós não demoramos a chegar no quartel general da Resistência – ou eu estava tão concentrava em observar a paisagem, que nem mesmo vi o tempo passar. O fato é que o lugar era muito diferente do que eu havia pensado.
Não que eu esperasse que o QG tivesse uma placa gigante neon apontando para o local, informando que era o nosso esconderijo e local de treinamento. Mas, levando em consideração a nossa necessidade de nos mantermos escondidos, pensei que seríamos levados para um casarão abandonado, com diversas placas informando perigo ou proibindo a entrada.
No entanto, a van estacionou nos fundos de uma espécie de supermercado. Em seguida, ao adentrarmos o local, surpreendo-me ao ver que de fato era um supermercado. Havia diversas mercadorias em prateleiras e funcionários trabalhando para repor o estoque.
Com as orientações de Johnny, seguimos para o que parecia ser a entrada do local onde realizam o armazenamento dos produtos do estoque. Eu ainda me preocupei que pudéssemos ser notados pelas pessoas, mas os poucos clientes que havia no local pareciam muito mais preocupados em escolher seus produtos do que no grupo que mais se assemelhavam a novos funcionários.
Assim que alcançamos o deposito, Johnny pega uma espécie de cartão e encosta em uma pequena caixinha preta escondida ao lado de uma prateleira cheia de caixas.
Novamente sou surpreendida ao ver a prateleira se movendo, revelando se tratar de uma porta escondida.
Arfo e encaro Tyler, que parecia tão em choque quanto eu. Mas, surpreendo-me ao ver que não éramos os únicos encantados com a tecnologia. Na verdade, com a exceção de Nina e Johnny, parecia que era a primeira vez de todos naquele local.
— Isso é incrível! — murmura Cam, embasbacado com a porta.
— Venham. Vocês finalmente vão conhecer o nosso oficial QG — responde Johnny, dando um sorriso discreto.
Nesse momento, noto que ele também estava muito animado com a ideia de se encontrar com os membros da Resistência, que deveriam estar do outro lado da porta. E é então que me lembro que Johnny é casado e que está há pelo menos um ano longe de casa, então não é tão surpreendente assim que ele esteja ansioso para retornar ao seu lar.
Por isso, não consigo evitar o sorriso ao vê-lo adentrar o local escondido com um pequeno sorriso ansioso no rosto. Todos o segue com iguais expectativas, inclusive eu, que mesmo sem conhecer as pessoas, ainda me sentia animada por conhecer a famosa Mia e os outros membros da Resistência.
No entanto, a animação logo dá lugar ao choque e espanto ao ver o tamanho do esconderijo que ficava no subsolo do supermercado.
Era simplesmente surreal o tamanho do esconderijo.
De cima da escada que nos levaria até o andar inferior da construção, podemos ver vários ringues de boxe e equipamentos para treinar espadas. Também era possível ver diversas portas que imaginei serem entradas para outros cômodos do esconderijo.
Em um dos ringues, havia algumas pessoas ao redor, assistindo a luta de uma mulher baixa e magra, com longos cabelos loiros presos em um rabo de cavalo contra uma mulher mais alta e robusta com cabelos bem curtos e expressão assustadora.
— Uau... — sussurro, abismada.
— Como...? Quer dizer, isso é... real? — balbucia Tyler.
— Sejam bem-vindos! Esse é o QG oficial da Resistência. Tudo aqui foi desenvolvido por Leon e Nina para abrigar todos os membros com conforto e garantir que todos possam treinar com excelência — informa Johnny, virando-se para sua equipe. — Aqui será o nosso lar pelos próximos anos. Espero que possam cuidar e criar boas memórias daqui para frente.
Sorrisos esperançosos se fazem presentes nos lábios dos membros da Resistência e isso acaba sendo uma influência para mim e para Tyler também.
De repente, a luta que ocorria no ringue se encerra, tendo a garota baixinha e loira como vitoriosa. Os gritos daqueles que assistiam chamam a nossa atenção e faz surgir um sorriso orgulhoso nos lábios de Johnny.
— Aquela é a Mia — comenta Cam, notando minha confusão. — É a esposa do Johnny.
— Entendi — murmuro, vendo a mulher dar um grande sorriso, antes de deixar o ringue e correr em nossa direção.
Como em um filme de romance água com açúcar, Mia corre apressadamente e, assim que nos alcança, ela se joga nos braços de Johnny. Ele a abraça com tanta intensidade e amor, que nem mesmo se parecia com o mesmo mal-humorado que tenho convivido há quase um ano.
Eles se separam brevemente e trocam um beijo apaixonado, buscando matar a saudade que sentiam um do outro. Era inevitável não admirar e sentir a paixão que eles compartilhavam. Então, relembro das palavras do Cam ao descrever como Johnny se tornava uma pessoa diferente ao lado da esposa.
— Eu senti tanto a sua falta — confessa Mia, voltando a abraçar o marido. — Obrigada por ter voltado. Eu fiquei tão preocupada.
— É bom estar de volta — responde Johnny, acariciando a cabeça da esposa. — Você não imagina o quanto desejei estar aqui. Eu senti muito a sua falta. Eu te amo.
— Eu também te amo — declara Mia.
Eles se beijam mais uma vez com doçura.
— Eu amo vê-los juntos mais uma vez, mas estou quase vomitando de tanta dose de açúcar — brinca Cat, acariciando a barriga. — Será que poderia compartilhar a Mia com a gente, Johnny?
O casal se separa e Mia abre um enorme sorriso ao encarar a gestante que a observava com tanto carinho. Os olhos da esposa de Johnny parecem dobrar de tamanho ao encarar a barriga de Cat.
— Ai meu Deus! Cat! Eu não acredito! Por que não me contou que estava grávida? Jay! Que notícia incrível! — comemora Mia, abraçando Cat e Jay com animação. — Parabéns! Eu estou tão feliz por vocês! Brava por não terem me contado, mas muito feliz por vocês!
— Desculpa, Mia. Cat queria fazer uma surpresa — explica Jay, dando um sorriso animado. — Mas juro que eu precisei fazer um grande esforço para não te contar na última vez que nós conversamos.
— Eu queria te dar a notícia pessoalmente — explica Cat. — Eu não podia fazer como você fez e te contar por telefone.
— Certo, certo. Eu não posso contra esse argumento — resmunga Mia, quase como uma criança.
— O que ela quer dizer com: “como você fez”? — indaga Johnny, desconfiado.
Mia lança um olhar repreendedor para Cat, que ergue os braços em sinal de rendição. Todos encaram a loira, que dava um sorriso sem graça para o marido.
— Vamos dizer que algo muito bom aconteceu enquanto você esteve fora, mas que eu não te contei, porque não queria deixá-lo preocupado ou atrapalhar a sua missão — responde Mia.
— O que aconteceu, Mia? Não me diga que...
Johnny se interrompe e encara a esposa com incredulidade. Instantes depois, o choro alto de um bebê chama a atenção de todos, confirmando as suspeitas de Johnny de que a esposa havia mesmo tido o bebê e que não o contou, temendo atrapalhar a missão dele.
— Desculpa, Mia. Dara não para de chorar. Já dei a mamadeira e troquei a fralda, mas... ah, Johnny! Oi! Eu... eu não sabia que você tinha chegado. É... seja bem-vindo de volta!
— Oi, Tori.
Essa é a única coisa que Johnny parece conseguir dizer.
A jovem garota que segurava a garotinha com certa dificuldade, encara o líder da Resistência com um sorriso meio desesperado, como se soubesse que tinha feito besteira e que poderia se encrencar. Por outro lado, Johnny parecia ter entrado em estado de choque enquanto encarava a criança, que chorava intensamente em busca do colo da mãe.
— Está tudo bem, Tori — responde Mia, indo em direção a garota.
Ela pega a bebê no colo e passa a niná-la, sorrindo com doçura, enquanto canta uma canção em murmúrios. Ao lado dela, com exceção de Cat todos nós permanecíamos em silêncio, completamente extasiados com a informação de que Johnny havia se tornado pai e só descobrira a notícia nesse momento. Parecia surreal demais.
— Pronto, meu amor. A mamãe está aqui. Desculpa a demora. Você deve ter sentido saudades — murmura Mia, acalmando a filha. — Que tal você dá o seu lindo sorriso para o papai? Talvez assim ele não fique tão zangado com a mamãe e não queira esganá-la.
Mia se aproxima de Johnny, erguendo o tronco da filha para que ele conseguisse a vê-la. A pequena para de chorar e encara o pai com curiosidade, como se tentasse descobrir quem era aquele homem que parecia prestes a chorar diante de algo tão delicado quanto a bebê.
— Desculpa ter escondido algo tão importante quanto a nossa filha de você, mas eu sabia que no instante que eu te contasse que estava grávida, você desistiria da loucura de voltar para Krósvia para ajudar seus amigos. Mas, agora que está de volta, eu quero que você conheça nossa pequena Dandara, assim como o nome da mulher que lhe salvou. Dara, como nós a chamamos, tem oito meses e é uma linda, inteligente e forte garotinha, que estava ansiosa para conhecer o papai que ela tem ouvido com tanto afinco desde que estava na minha barriga.
Mia estende a filha a Johnny, que a pega como se aquela pequena garotinha de cabelos loiros e olhos azuis fosse uma boneca de porcelana delicada. De repente, as lágrimas descem dos olhos de Johnny e nesse momento noto que Dara tinha pegado no dedo do pai e sorria alegre.
— Fala oi para o papai, filha — pede Mia, aproximando-se do marido.
Dandara balbucia algo e isso é o bastante para fazer Johnny se entregar ainda mais as lágrimas. Eu me sentia completamente emocionada e surpresa com a forma como o homem que sempre se mostrava tão forte e inabalável, estava em lágrimas apenas por segurar a filha.
— Oi, filha. O papai voltou — murmura Johnny, abraçando Dandara com intensidade.
A bebê se remexe nos braços do pai e resmunga pela ação repentina de Johnny, mas não parece realmente incomodada com a posição em que estava. Mia abraça o marido e a filha, sorrindo e chorando em silêncio.
Ela também parecia aliviada por ter Johnny de volta e finalmente revelar o que estava escondendo do marido há tanto tempo.
E observando o amor e carinho que aquela família compartilhava, eu só conseguia pensar em meu pai, irmãos e em Prince. Mesmo sendo loucura, eu sabia que no fundo do meu coração, eu desejava ser capaz de construir algum dia um lar terno e reconfortante como aquele que via diante de mim.
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