Fire Scars
9 Segredos
Notas iniciais
Capítulo VIII – Segredos
“Não conseguiu se livrar da culpa
Que vergonhoso
Deve ser exaustivo perder seu próprio jogo
Por si mesmo odiado
Não é de se espantar que esteja esgotado
Você não pode bancar a vítima desta vez
E você está muito atrasado”
Call Me When You're Sober — Evanescence
Krósvia — 1995
A lenha se queimava lentamente com o fogo em nossa lareira. O estralo da madeira se desfazendo era como uma hipnose que capturava minha total atenção naquele momento. Ao meu lado, Henry continuava a cuidar dos ferimentos de Taynara de maneira paciente, cauteloso. A garota continuava a ter febre e os machucados pareciam provocar muita dor.
O dia amanheceria em algumas horas, mas ninguém, além de Sean, havia conseguido pegar no sono. Além dos gemidos de dores de Taynara, o som das explosões e das lutas ocorrendo no centro da cidade nos causava grandes incertezas. Pela janela da sala de nossa pequena casa, Tony observava as chamas consumirem uma parte da cidade, enquanto a neve continuava a cair constantemente por toda Krósvia.
Ele bebericava um pouco de café, com um olhar indecifrável. Com sua postura majestosa, meu irmão apenas meditava em seu próprio mundo desconhecido por todos. Nesses momentos, eu preferia apenas o observar, imaginar o que tanto se passa em sua mente, supor quais tipos de pensamento eram capazes de tornar meu irmão tão distante, quase como um jogo onde apenas eu participo.
— Você deveria ir descansar. – Comenta Henry, terminando de colocar a última folha de uma erva sobre a queimadura na perna de Taynara. Tony desvia o olhar da janela e encara Henry. – Depois de tantos confrontos, você precisa de um descanso.
— Eu vou ficar bem. Você sabe disso. – Responde Tony, sorrindo discretamente. – Agora que terminou de cuidar dos ferimentos de Taynara, vá se deitar. Você também, Tyler.
— Eu não sei se conseguirei dormir. – Confessa Tyler, encarando meu irmão mais velho com intensidade.
Tony sorri compreensivo e se aproxima de nosso primo. Ele dá dois tapinhas nas costas de Tyler e depois afaga o topo de sua cabeça, em um carinho paternal. De todos nós, Tony foi o que enfrentou mais vezes a guerra. Ele conseguia entender como estávamos nos sentindo e sabia que nada do que dissesse poderia nos consolar.
— Apenas tente dormir um pouco. – Pede Tony, olhando nos olhos de Tyler, em uma tentativa de transmitir um pouco de confiança para o rapaz.
— Tudo bem. – Concorda Tyler, suspirando em seguida. – Boa noite.
Tyler estava cansado. Era evidente pela forma como se movia para o quarto que divide com meus irmãos. Agora que o sangue havia esfriado, a realidade nos atingiu de forma violenta. Não somente as dores físicas começaram a aparecer, como a culpa começou a se tornar mais presente do que gostaríamos.
— Vá dormir também, Manu. – Fala Henry, fazendo um leve afago em minha cabeça. – Já está tarde.
— Mas e se a Taynara piorar? – Pergunto, levantando-me do tapete de frente para a lareira onde eu estava sentada.
— Então eu virei e irei cuidar dela. Não há nada que você possa fazer, irmãzinha. – Responde Henry, sorrindo fraco. – Vá se deitar. Tony e eu cuidaremos de tudo.
— Mas... – Tento argumentar, mas sou interrompida por Tony.
— Henry e eu sairemos pela manhã, então você precisa estar bem para cuidar de Taynara. Se ficar com sono ou cansada, jamais conseguirá ajuda-la caso ela precise de você. – Meu irmão mais velho sempre teve o poder de saber exatamente o que dizer para nos convencer a fazer o que ele manda.
Talvez por ter tido que criar três crianças praticamente sozinho, Anthony nos conhecia melhor do que ninguém. Meu pai sempre dizia que meu irmão era exatamente como a minha mãe. Gentil, paciente e extremamente convincente. Não havia ninguém que conseguisse dizer não a ela. Suspiro, pensando que meu pai realmente tem razão. Não há como ir contra Tony.
— Boa noite. – Digo a meus irmãos e abraço cada um deles antes de começar a fazer o caminho para meu quarto.
Assim que entro no corredor que levava aos quartos, ouço meus irmãos começarem a conversar. Sem resistir a minha curiosidade, aproximo-me da sala mais uma vez e fico em silêncio, atenta ao que eles diziam. Eu sabia que era errado espionar, mas eu também tenho ciência que Tony e Henry escondiam diversas coisas importantes de mim apenas por acharem que eu não sou capaz de entender.
— Qual a real situação dela? – Pergunta Tony, pegando mais um pouco de café da garrafa que estava em cima da mesa de centro.
— Você vai acabar adoecendo de tanto tomar café. – Henry repreende Tony, que ri e dá de ombros. – Não muito boa. Ainda que ela tenha se recuperado bastante, as ervas que eu realmente preciso para curá-la se acabaram. O corpo dela está coberto por queimaduras de segundo e terceiro grau. A dor que ela está sentindo é muito forte. Taynara é uma garota forte por estar resistindo a essa tortura por tanto tempo.
Tony suspira e massageia as têmporas, tentando aliviar a dor de cabeça que provavelmente estava sentindo. Mais duas explosões ocorrem no centro de Krósvia, lembrando-nos do caos que estava Füssen. Mesmo com a destruição do quartel general de nossos inimigos, muitas pessoas continuavam a lutar. Talvez, morrer lutando fosse mais digno para eles do que voltar para casa com a derrota.
Eu me sentia cada vez pior. Taynara não merecia estar sofrendo tanta dor assim. E o pior de tudo é que nem mesmo meu irmão estava conseguindo controlar a situação como eu imaginei que faria. Henry é o melhor especialista de ervas medicinais do país, então, se até mesmo ele não tinha certeza do que fazer, como conseguiremos salvar a garota?
— Tony? – Meu irmão do meio chama o mais velho, parecendo preocupado.
— As lutas devem cessar pela manhã. Sem armamento e mantimentos, o exército de Edgar não será capaz de se manter resistentes por muito tempo. Querendo ou não, nós estamos em nosso território e possuímos maior controle da situação. – Relembra Tony, parecendo apenas tentar organizar as suas ideias. – As ervas que você precisa podem ser encontradas aonde? Qual é o lugar mais próximo que nós provavelmente conseguiríamos?
— Nas montanhas de Corona. Mas, com esse inverno rigoroso, não há nenhuma garantia de que elas realmente estão por lá. São ervas extremamente sensíveis, pouco resistentes ao frio, por isso são colhidas na primavera e verão. – Responde o outro, pensativo. – O que tem em mente?
— As montanhas de Corona ficam a mais ou menos cem quilômetros de onde nós estamos. Seria metade do dia se for a cavalo ou mais, se considerar a espessa camada de neve que temos pelo caminho. – Tony continua a meditar, enquanto Henry e eu encarávamos nosso irmão mais velho em descrença. Ele estava mesmo cogitando ir atrás das ervas ainda que não tivesse nenhuma certeza de que as conseguiriam? Isso não combina muito com Anthony. – Ainda preciso encontrar os pais de Sean e assumir a liderança da segunda tropa dos guardas em doze horas. Não dá tempo de ir a Corona, mas talvez...
— Irmão, você está mesmo pensando em ir? – Henry expõe o meu maior questionamento naquele momento. – Nosso pai nunca permitiria isso. Além disso, eu estou falando sobre suposições. Não há certeza alguma de que as raízes de cinoglossa resistiram a esse rigoroso inverno.
— Eu sei. – Tony concorda, sorrindo cansado. Ele suspira e coloca sua caneca de café sobre a mesa. Cauteloso, meu irmão se aproxima de Taynara e observa a garota com atenção. – Mas essa menina salvou a vida de minha família. Ela teve a coragem que nenhum outro homem ou mulher de Krósvia teve para enfrentar o perigo e impedir que essa guerra se prorrogasse ainda mais. Simplesmente não é justo ver essa garota tão corajosa perder a vida tão jovem.
— Olha, eu entendo. Eu também não suporto o fato de que não estou sendo bom o bastante para curá-la. Mas nós precisamos de você, Tony. Não posso deixar que você se arrisque indo para Corona dessa forma. Talvez, eu possa...
— Você não irá a Corona. – Decreta Tony de maneira firme, interrompendo a fala de Henry. Aquele tom raramente era usado pelo meu irmão, no entanto, tanto meu irmão do meio quanto Tyler e eu sabíamos bem que aquele tom de voz significava “Não me questione”. Não era um pedido. Tony havia dado uma ordem clara que nenhum de nós ousaríamos ir contra. Henry suspira e balança a cabeça, concordando. Ele olha para baixo, chateado, mas não diz nada. – Não se preocupe. Eu também não irei a Corona.
— Não? – Questiona Henry, confuso. – Mas você não disse que...
— Existe uma segunda forma de conseguir essas ervas sem sair de Füssen. – Responde o mais velho, assumindo sua expressão indecifrável. – Ainda que ir para Corona fosse a opção que mais me agrade.
— E qual seria essa segunda forma? – Pergunta Henry, conferindo a temperatura de Taynara. Ao ver que a garota continuava com febre, ele suspira e volta a aconchegar a garota no sofá e volta a encarar o moreno mais velho.
— Eu tenho meus contatos. – Fala Tony de maneira misteriosa. – Por hora, vá se deitar e durma um pouco. Eu vou ir atrás das raízes de cinoglossa que você precisa. Volto em uma hora.
Ao ver que meu irmão vinha em minha direção, corro o mais silenciosamente possível para meu quarto e fecho a porta o suficiente apenas para ver o que acontecia no corredor. Tony entra no quarto e não demora muito para que Henry faça o mesmo. Instantes depois, meu irmão mais velho aparece vestido com seu uniforme de soldado da guarda real – colete a prova de balas, jaqueta e calça vermelhos e coturnos pretos — e um grosso sobretudo preto por cima.
— Tony, espere! – Pede Henry, antes que o mais velho saísse. Tony se vira para Henry e o encara. – Eu não sei aonde você vai, mas tome cuidado.
— Eu vou ficar bem, irmãozinho. Você sabe que eu jamais deixaria vocês. – Afirma o mais velho, sorrindo amável. Ele abraça Henry e afaga sua cabeça com carinho, gesto que é correspondido com um abraço ainda mais intenso por parte do mais novo. Raramente Henry mostrava suas reais emoções. Sendo o filho do meio, ele tendia a ser mais reservado e quieto. Mas era evidente o seu amor e admiração por Tony. – Durma um pouco. Quando você acordar, eu já terei voltado.
Então Tony se afasta e vai para o fundo da casa para buscar seu cavalo. Henry suspira e volta para o quarto, provavelmente indo fazer o que Tony havia dito. Vou para a janela do meu quarto e observo a neve cair, até ver meu irmão indo em direção a cidade. Eu não sabia para onde ele estava indo, mas a forma como cavalgava apressado me indicava que ele não estava muito feliz com a decisão que havia tomado.
Sentindo meu corpo aclamar por um descanso, deito em minha cama e instantes depois de fechar meus olhos, caio em um sono profundo. Não tenho certeza por quanto tempo dormi, mas como havia dito, quando todos da casa acordaram, Tony já havia retornado com as raízes da planta que Henry precisava para usar nos ferimentos de Taynara.
— Quando você voltou? – Pergunta Henry, amassando as raízes com outras ervas que eu não conhecia.
— Um pouco mais de duas horas atrás. – Responde, tomando o que imaginei ser sua quinta ou sexta caneca de café. Ela dá de ombros e suspira, cansado. – Aproveitei para saber mais sobre as famílias de Taynara e Sean.
— E então? – Questiona Tyler, ansioso.
— Assim como ela disse, a mãe dela mora em Ahren e a avó nos Estados Unidos. O pai foi morto por um dos soldados de Krósvia que o confundiram com um soldado inimigo. Ele era quem sustentava a família e depois de sua morte, quem assumiu o controle da casa foi Taynara. A mãe dela é uma boa enfermeira, mas é fisicamente fraca e, pelo que soube, não é um exemplo de mãe carinhosa. – Conta Tony, observando-nos encostado na pia da cozinha. – Uma mulher fria e marcada pelas cicatrizes de uma vida de guerras e sofrimento, é como descrevem a mãe dela.
— E quanto a Sean? – Pergunta Henry, que termina de preparar o medicamento e se senta para comer o café da manhã preparado por Tony.
— A família dele morreu ontem no campo de batalha por alguns dos homens de Edgar. Ele não tem ninguém. Ao menos, é isso que as pessoas que sobreviveram ao ataque responderam. – Responde o mais velho, suspirando tristemente.
— Pobre Sean. – Sussurro, sensibilizada pela história do pequeno garoto. – Nós ficaremos com ele, certo?
— Ele não é um cachorro para a gente ficar com ele, Manu. – Retruca Tyler, revirando os olhos.
— Você entendeu o que eu quis dizer. – Retruco, dando língua para meu primo, que ri e dá de ombros.
— Até encontrarmos algum lar para ele, Sean ficará conosco. – Afirma Tony, sorrindo levemente. – Por enquanto, terminem de tomar o café da manhã de vocês. Hoje o dia será cheio e eu vou precisar de Tyler e Emma hoje.
— De mim? Por quê? Pensei que eu ia ficar em casa cuidando de Taynara. – Pergunto, estranhando a mudança de planos de meu irmão mais velho. Ele dar de ombros e força um sorriso.
— Por mim, você com certeza ficaria, mas o rei soube dos feitos de vocês dois e quer conversar com vocês. Henry, por hoje, fique em casa e tome conta de tudo. Daqui a pouco nosso pai deve aparecer para te ajudar com Taynara e Sean. – Pede Tony e Henry balança a cabeça, concordando.
— Irei aproveitar para cuidar dos ferimentos de Taynara e aprofundar meus estudos sobre os efeitos das raízes de cinoglossa. Se eu estiver correto, esse medicamento pode cicatrizar por completo os ferimentos e não deixarão marcas. – Responde o garoto de forma animada.
— Você sempre está correto. – Afirma o mais velho de meus irmãos, sorrindo orgulhoso do mais novo. Ele então se vira para Tyler e para mim. – Apressem-se.
Meu primo e eu começamos a comer ainda mais rápido. Enquanto isso, Tony começa a preparar uma bolsa com mantimentos, um hábito que adquiriu desde que eu era recém-nascida, segundo Henry. Por ter que cuidar de três crianças, ele preferia estar preparado para qualquer situação e eu tinha que confessar que isso já nos salvou diversas vezes.
Assim que todos estão prontos, meu irmão mais velho estende a sua espada preferida a mim. Olho aquele objeto, deslumbrada. Ele sorri, parecendo achar graça de meu encanto.
— Você está mesmo me dando ela? – Questiono, sorrindo animada. Aquela espada havia sido a primeira espada que Tony havia forjado. Eu sabia bem do significado dela e o porquê dele cuidar tão bem daquela espada. Minha mãe havia o ajudado e aquele fora seu último presente antes de falecer tão tragicamente.
— Todo guerreiro precisa de sua espada. – Justifica, bagunçando meus cabelos. Eu estava tão encantada com aquela espada que nem mesmo me importei com seu gesto irritante. – Cuide bem dessa espada e tenha cuidado. A use somente quando necessário. Nunca se esqueça que nem toda guerra se vence com violência.
— Obrigada! – Agradeço, pulando de felicidades. Guardo a espada em sua bainha e a coloco em minhas costas. Sem me conter, abraço meu irmão com força, que ri de meu comportamento. – Obrigada, Tony! Você é o melhor irmão do mundo!
— Eu não sei o que é mais injusto. Manu ganhar a sua espada ou você receber o título de melhor irmão do mundo. Está mais do que óbvio que eu sou o melhor. – Brinca Henry, pegando a mistura que usaria para cuidar dos ferimentos de Taynara.
— O melhor em ser o segundo lugar. – Provoca Tyler, rindo.
— Você fala como se tivesse alguma moral, terceiro lugar! – Retruca Henry e dessa vez, sou eu que tenho que ri da careta de meu primo.
— Vamos deixar as colocações para outra hora. Nós realmente precisamos ir ou chegaremos tarde ao castelo. – Relembra Tony, interrompendo nossas provocações diárias.
Apesar de tudo, eu estava aliviada por todos estarem com o humor melhor. Agora que estava com as ervas que precisava e a febre de Taynara havia diminuído, a garota finalmente poderia ter uma recuperação mais rápida. Por outro lado, eu sabia que a realidade me atingiria de maneira impiedosa assim que chegássemos ao centro de Füssen.
Não demoramos muito a sair de casa. O caminho até o castelo foi realizado em silêncio. Como a grossa camada de neve havia se tornado ainda mais espessa com a tempestade que havia dado na noite anterior, nós acabamos indo de cavalo. Para qualquer lado que olhássemos, os sinais de destruição se destacavam e nos machucavam. Füssen estava quase que destruída por completo.
As casas destruídas pelas chamas das explosões deixavam a cidade com um aspecto de filme de terror. Nenhum veículo havia escapado de ser atingido pelos ataques dos soldados inimigos. Ainda havia muito sangue manchando o solo krosviano. A dor estava presente em todos os lugares que encarávamos.
Aos poucos, os corpos que ainda estavam espalhados pela cidade eram levados para um campo de concentração que havia próximo ao castelo, onde eram identificados os corpos e contabilizado a quantidade de pessoas mortas. Aquele era o pior momento, na minha opinião. Era nessa hora que entendíamos que as pessoas que amamos jamais voltariam.
Assim que cruzamos a entrada do castelo e seguimos para o estabulo onde guardávamos os cavalos, vejo alguns poucos soldados inimigos presos em correntes grossas formarem uma linha horizontal de frente para uma parede. Alguns deles choravam, desesperados. Imploravam por suas vidas. Outros permaneciam de cabeça erguida, parecendo ter aceitado seu destino. Os guardas reais os derrubam para que ficassem de joelhos e se afastam com suas armas em mãos.
— Não olhe, Emma! – Exige meu irmão mais velho, fazendo com que eu o encarasse. Instantes depois, o som de tiros ecoa e não preciso me virar para saber o que havia acontecido. – Você não precisa ver isso.
— Por que estão fazendo isso? – Pergunto a Tony, que segue em frente com evidente desgosto do que estava acontecendo.
— Traição ao rei. – Responde Tyler ao ver que meu irmão não queria conversar sobre aquele assunto. – Todos os soldados inimigos que são capturados são executados por traição a coroa krosviana. Para o rei, isso servirá como aprendizado para todos aqueles que desafiarem seu poder.
— Se tiver que escolher entre ser temido ou amado, escolha ser temido. – Fala Tony de forma irônica com um olhar distante. – Maquiavel era realmente um homem interessante.
— O que isso quer dizer? – Pergunto com curiosidade.
— Não pense muito nisso. Eu apenas estou dizendo bobagens. – Responde, descendo de seu cavalo. Nós havíamos chegado aos estábulos e aquela conversa havia se dado por encerrada.
Tyler e eu descemos de nossos cavalos e os colocamos em seus lugares. Assim que garantimos que estão presos, Tony nos guia por entre o vai e vem de pessoas que saiam e entravam no castelo. Ao reconhecerem meu irmão, os guardas o saudavam com respeito e lamentavam pela perda de Matt. Meu irmão nada dizia, apenas assentia e continuava a caminhar com sua expressão ilegível.
O castelo estava em luto. Não havia sorrisos. Não havia o bom humor característico de Rachel e Vincent. Era uma manhã fria e sombria, carregada de lembranças e dor. Havia sido apenas um dia, mas foi o suficiente para que toda a pouco felicidade que ainda existia naquele castelo fosse embora. Eu ainda não havia encontrado Lianna ou seus pais, mas eu sabia que eles estavam longe de estarem bem.
— Você está bem? – Ouço Tyler sussurrar. Viro-me para meu primo e suspiro, entristecida. – A culpa não foi sua.
— Matt está morto, porque me salvou. Sim, a culpa é minha. – Afirmo, sentindo um nó se formar em minha garganta.
Tony para de andar e Tyler e eu fazemos o mesmo. Nós estávamos de frente a porta da sala do trono do rei. Meu irmão cumprimenta os guardas que vigiavam a entrada e não demora muito para que as portas da sala se abrissem para nós. Meu coração bate acelerado e somente nesse momento eu me lembro que jamais havia estado naquele lugar.
— Majestade. – Tony se ajoelha diante do rei e abaixa sua cabeça em respeito. Tyler e eu nos colocamos ao lado de meu irmão e apenas repetimos os seus gestos. Não sabíamos como reagir a essa situação. – Como ordenado, trouxe minha irmã mais nova e meu primo para que Vossa Majestade os conhecesse.
— Levante-se, Anthony. – Pede o rei, sorrindo discretamente. Meu irmão se levanta e faz sinal para que Tyler e eu permanecêssemos como estávamos. – Soube de seus grandes feitos durante a última batalha. Você realmente herdou os dons de seu pai. Eu gostaria de dizer o mesmo de Phillip.
— O príncipe Phillip está se tornando um guerreiro formidável, Vossa Majestade. Com os treinos, ele se tornará um dos melhores muito em breve. – Responde Tony, fazendo o rei suspirar, insatisfeito.
— Ele precisa ser o melhor. – Retruca o rei Lester, revirando os olhos.
— Lester, pare com isso. – A rainha sussurra, repreendendo o marido, que a encara com frieza. Ela suspira e volta a nos encarar, interessada em especial por Tyler.
— De qualquer forma, apresente-me sua irmã mais nova. Gavin me contou que ela, Tyler e uma garota de nome Taynara foram de grande ajuda para o massacre de nossos inimigos.
— Levantem-se. – Sussurra Tony e nós o obedecemos. – Como já sabe, Majestade, esse é Tyler Klin. Essa é minha irmã, Emanuelle.
— Tyler Klin. – O rei sussurra o nome de meu primo de maneira intrigante, como se ele o recordasse de algo desagradável. Olho para Tyler que observava o rei com atenção, provavelmente curioso para saber o que se passava na mente do rei. – Muito bem. Eu os chamei aqui apenas para conhecer os nossos jovens heróis. Como recompensa pelos feitos heroicos, ganharão armaduras de cavaleiros para que jamais se esqueçam de lutar em nome de Krósvia.
— Obrigado, Majestade. – Agradece Tony, fazendo uma leve reverência. Logo em seguida, meu irmão nos lança um olhar mais severo e acabamos repetindo suas ações.
Assim que deixamos a sala do trono, Tyler e eu finalmente conseguimos soltar o ar que estava preso em nossos pulmões sem que houvéssemos notado. Havia algo de pesado naquele ambiente que nos deixou tensos e paralisados. Ao perceber quão abalados nós estávamos, Tony ri baixo e afaga nossas cabeças.
— Animem-se. Vocês ganharam armaduras oficiais de Krósvia. – Relembra meu irmão e ao ver que não havíamos ficado tão animados assim, ele ri ainda mais. – Sei que não parece, a primeiro momento, o melhor dos presentes, mas as armaduras poderão ser de grande ajuda para vocês no futuro.
— E o que nós vamos fazer agora? – Pergunto com curiosidade.
— Eu preciso assumir o meu posto, então vocês podem ficar pelo castelo até a hora de irmos embora. A senhora Rachel e o senhor Vincent estão cuidando do velório de Matt, então não estão por aqui. Procurem não causar confusões e tomem cuidado por onde andam. Esse castelo possui diversos segredos e assuntos que devem ser deixados onde estão. – Orienta Tony. – E não saiam do castelo. Não quero ter que passar pelo mesmo susto que eu passei ontem, Emma.
— Nós não vamos sair. – Garanto a meu irmão, que suspira e balança a cabeça, concordando.
Ele beija minha testa e afaga a cabeça de Tyler, em sua típica despedida. Em seguida, Tony assume sua postura autoritária usada somente quando se tornava o tão temido Anthony Santos e segue em direção ao local onde provavelmente ainda estava ocorrendo o massacre dos soldados do exército inimigo.
— Por que não vamos procurar por Prince? – Sugere Tyler, vendo quão entediada eu estava me sentindo ao observar o vai e vem das pessoas nos corredores do castelo.
— Não acho que seja uma boa ideia. – Digo, enquanto continuávamos indo em direção a escada que levava ao andar inferior. – Todas as vezes que eu me encontro com Prince, alguma coisa de ruim acontece.
— Tem certeza de que a culpa é dele e não sua? – Provoca o outro, rindo da careta que faço ao ouvir sua resposta. – E o que nós deveríamos fazer agora, já que não podemos sair do castelo?
— Por que não aproveitamos a oportunidade para explorar o castelo? – Sugiro e essa é a vez de meu primo fazer uma careta diante da ideia.
— Nós prometemos a Tony que não iriamos ficar entrando em lugares proibidos no castelo. Se ele descobrir, nós estaremos bem encrencados. – Afirma Tyler, parando de andar para me encarar com os braços cruzados.
— Errado. Nós prometemos que não iremos sair do castelo. Eu nunca disse que não ia andar pelo castelo. Além disso, não iremos fazer nada demais, Tyler. Eu apenas quero saber o porquê que eu tenho a sensação de que esse castelo guarda mais segredos do que deveria. – Respondo a meu primo, cruzando os braços da mesma forma que ele.
— Não, Manu. Sempre que eu vou pela sua cabeça, eu acabo encrencado. Nós não vamos desobedecer ao Tony. – Dita Tyler, olhando-me com seriedade.
Eu sabia que era apenas questão de tempo até que ele cedesse. Desde que nasci, Tyler e eu sempre estávamos juntos e era graças as minhas ideias que acabávamos nos divertindo. Nada que um olhar pidão e implorar “por favor” durante alguns minutos para que ele acabasse aceitando as minhas sugestões.
E como era de se esperar, algum tempo depois, estávamos andando pelo castelo, observando a decoração medieval daquele grandioso lugar, nós acabamos indo para uma área deserta nos corredores do terceiro andar subterrâneo. Eu não sabia como, mas conseguimos chegar a uma das zonas proibidas do castelo sem que fossemos pegos. Aparentemente todos estavam mais preocupados em colocar Füssen no lugar depois do caos dos dias anteriores do que com crianças andando pelos lugares ditados proibidos pela monarquia.
Haviam diversos quartos espalhados pelo corredor e todas as portas que tentávamos abrir estavam trancadas. De algum modo, aquele fato me deixou ainda mais intrigada com os segredos guardados pela família de Prince. E quando chegamos a última porta, foi inevitável não comemorar ao descobrir que ela era a exceção. Tyler parecia dividido entre me impedir e conferir o que havia naquela sala misteriosa.
— Não deveríamos entrar. – Relembra Tyler, enquanto eu abria a porta cautelosamente.
— Eu sei. Mas você não quer ver o que tem lá dentro? – Pergunto, ansiosa para descobrir mais. Eu sentia meu coração acelerado e minhas mãos suavam.
O corredor se assemelhava a um filme de terror. As luzes eram fracas e esquentavam o ambiente já abafado. As paredes antigas em cores escuras completavam o cenário macabro em que nos encontrávamos. Eu arriscaria dizer facilmente que aquele lugar já havia sido usado para prender os rebeldes e todos aqueles que se opunham ao rei Lester.
Tyler me observava curioso, ansiando para ver o que havia de tão especial para que aquele quarto fosse o único a estar com a porta aberta. Talvez alguém tivesse esquecido de trancar ou apenas não tivesse nada de importante para se mostrar, mas a minha imaginação trabalhava em diversas possibilidades para o conteúdo que havia atrás daquele objeto pesado de madeira que nos separava.
Depois de respirar profundamente, eu finalmente crio coragem para empurrar a porta por completo. O forte cheiro de enxofre é o primeiro sinal de que algo de muito errado estava acontecendo naquele lugar. E então eu vejo a pior cena que eu poderia presenciar. Levo minhas mãos a boca e faço um grande esforço para não vomitar.
Ele nos encara com um sorriso maligno no rosto. Um homem de longa barba preta e de um olhar perigoso. Em suas mãos, a cabeça de um segundo homem que parecia ter sido arrancada a poucos instantes. O corpo ainda estava amarrado a grossas correntes e perfurado por inúmeras espadas.
— O que vocês estão fazendo aqui? – Pergunta o homem, com a voz suave. Ele joga a cabeça que segurava no outro lado da sala e caminha calmamente até uma mesa onde pega um pano e limpa sua mão suja de sangue. Seus ombros eram grandes e musculosos. Ele deveria ter mais de dois metros de altura. O cabelo era raspado dos lados e havia somente um moicano no meio. O homem usava uma blusa regata, calças e botas pretas. – Vocês não deveriam estar aqui.
Tyler me puxa para trás dele e eu paraliso ao ver o homem pegar uma adaga afiada e a limpar. Eu sentia o perigo se aproximar de mim lentamente e eu sabia que aquele homem não pensaria duas vezes antes de nos matar. Eu não o conhecia, mas a tatuagem com o emblema da coroa de Krósvia em seu braço esquerdo me dizia que ele era um dos homens que o rei usava para silenciar as pessoas que poderiam o prejudicar.
— O rei não vai ficar feliz se souber que duas crianças tão adoráveis como vocês estiveram na salinha de jogos dele. Nós não gostaríamos de ver o rei zangado. – Comenta o homem, desviando o olhar de sua adaga para nós. Ele então abre um grande sorriso e começa a se aproximar de nós com sua adaga em mãos. – Felizmente, eu estou aqui para cuidar disso.
Tyler então começa a me empurrar para trás, tentando ao máximo nos afastar daquele homem. Assim que chegamos ao corredor, Tyler me empurra para o lado me encara assustado. De repente a adaga pé jogada em nossa direção e por muito pouco ela não atinge a cabeça de Tyler.
— Corre, Manu! – Grita meu primo e antes que ele tivesse a chance de escapar, o homem o agarra pelo pulso sem piedade alguma e o joga contra a parede. Com uma mão só, o homem o pega pelo pescoço e o sufoca contra o chão.
— Tyler! Não! – Grito assustada, parando no mesmo instante de correr. Desesperada, corro até o homem e começo a bater nele, mas sou atingida com um forte tapa no rosto, que me leva ao chão facilmente. – Tyler!
— Co...corre... – Tyler tenta balbuciar, enquanto lutava com todas as forças para se soltar, mas nada parecia fazer efeito.
— Solta ele! – Avanço novamente em direção ao homem e mais uma vez sou jogada brutalmente contra a parede do corredor.
— O que pensa que está fazendo? – A voz masculina ecoa pelo corredor chamando nossa atenção. Tento ver quem era a pessoa que tinha tido coragem de desafiar aquele brutamontes, mas minhas vistas estavam embaçadas. – Solte-o agora ou pagará caro por isso.
— Ou o quê? – Pergunta o homem, divertindo-se. Finalmente minha visão volta ao normal e consigo encarar o nosso herói com clareza.
— Gavin. – Sussurro, surpresa.
— Eu avisei! – Gavin então saca sua arma e atira na cabeça daquele homem sem qualquer hesitação.
Prendo minha respiração ao sentir o sangue do homem me atingir. Ao ver que eu não teria reação alguma, Gavin corre até Tyler e com dificuldade tira o corpo do homem de cima do meu primo. Eu encarava tudo impressionada demais para reagir, então a única coisa que consigo fazer é me deixar ser guiada pelos dois garotos. Nós precisávamos sair daquele lugar imediatamente ou estaríamos em maus lençóis.
Nós corríamos desesperados, procurando a saída daquele lugar. Meu corpo todo parecia pesado e minhas pernas tremiam intensamente, mas o medo me fazia continuar a seguir meu primo e Gavin por entre as escadas e as diversas portas que haviam naquele lugar. E de modo impressionante, conseguimos chegar ao quarto de Prince em segurança.
Gavin bate na porta do quarto do príncipe diversas vezes e não demora muito para que o primo o atendesse. O olhar confuso de Prince é substituído por um alarmado ao ver o nosso estado, então sem questionar, ele abre a porta por completo para que entrássemos em seu quarto e a fecha.
— O que aconteceu? – Pergunta Prince, assim que Tyler e eu desabamos no chão de seu quarto. O sangue daquele monstruoso homem estava impregnado em mim. Eu respirava com dificuldade e sentia que meu coração poderia sair pela boca a qualquer momento. Meu corpo inteiro tremia e minha visão estava embaçada. Eu já não tinha mais controle algum sobre mim. – O que houve com ela?
— Ela está tendo uma crise nervosa. – Responde Gavin, olhando preocupado para mim. – Manu, olha para mim. – Pede o loiro, enquanto pegava em meu rosto para que eu o encarasse. Com muita dificuldade, faço o que ele me pede. – Agora tenta respirar junto comigo.
Gavin inspira o ar e o solta lentamente pela boca diversas vezes, mas eu não conseguia. Por mais que eu tentasse repetir seus movimentos, meu corpo estava paralisado. Ele continua a fazer aqueles gestos por um longo tempo até que eu finalmente conseguia o acompanhar. Eu agarrava nas mãos de Gavin que estavam em meu rosto e inspirava e expirava profundamente.
— Ela está bem? – Pergunta Prince, depois de um tempo, encarando-me com preocupação.
— Está sim. – Responde Gavin, assim que sou capaz de soltar suas mãos. Prince então se aproxima de mim e se agacha para ficar a minha altura. – Cuide dela, enquanto eu vou ver como está Tyler.
— O que aconteceu para que eles ficassem assim? – Pergunta Prince, acariciando as minhas costas delicadamente, tentando me consolar.
— Eles foram atacados pela sombra do seu pai. – Revela Gavin por fim, analisando o pescoço marcado de meu primo. Tyler também estava assustado e ainda respirava com dificuldade, tossindo algumas vezes.
— O quê? – Finalmente Prince parecia ter entendido o que havia nos deixado tão abalados. – Eu achei que eles fossem apenas uma lenda. E como eles acabaram encontrando com uma sombra?
— Nós visitamos o terceiro andar no subsolo. – Conta Tyler, arfando um pouco. Gavin examina o pulso de meu primo e ele se encolhe de dor quando o garoto aperta um ponto em especial. – Ai!
— Mas aquele lugar é proibido. Não deveriam ter ido até lá. – Prince nos repreende. Suspiro e tento me levantar, mas minhas pernas ainda estavam bambas. O príncipe acaba tendo que me apoiar para que eu não caísse. – Ei, vai com calma.
— Prince, onde tem uma caixa de primeiros socorros por aqui? – Questiona Gavin ao moreno. – Tyler machucou o pulso.
— No banheiro. – Responde Prince, apontando para a porta ao lado de nós. Gavin assente e vai para o lugar indicado. Com cuidado, Prince me direciona a sua cama para que eu me sentasse. – E como vocês conseguiram sair a salvo dessa?
— Gavin nos salvou. – Responde Tyler, encarando o pulso machucado de maneira frustrada.
— E como você fez isso? – Pergunta o príncipe, assim que Gavin retorna para o quarto com uma caixa branca. O garoto o encara sério e levanta a blusa, mostrando o revólver que tinha em seu cós.
— Da única forma que dá para fazer quando nos encontramos com uma das sombras do rei. – Responde Gavin, começando a enfaixar o pulso de Tyler, depois de passar algum medicamento no lugar. – Um tiro na cabeça, obviamente.
— Droga! – Pragueja Prince e Gavin parece entender o que se passava na mente do primo que ri irônico e balança a cabeça, concordando. – Nós estamos encrencados. Muito encrencados.
De repente, a porta do quarto de Prince é aberta de uma vez e um rei furioso aparece na entrada. E mais uma vez eu sentia aquela vozinha em meu interior implorando para que eu fugisse. O homem nos encara tomado pelo ódio e foca o seu olhar em mim. Ele havia notado o sangue.
— Garotinha maldita! Eu vou acabar com você! – Rosna o rei, completamente alterado.
Em passos pesados, o rei se aproxima de mim como um touro enfurecido e descontrolado. Prince se coloca a minha frente, tentando me proteger, mas empurrado pelo pai. Gavin e Tyler se levantam no mesmo instante e precisam segurar Lester para que ele não me matasse de fato.
— Me soltem! – Exige o homem. Prince mais uma vez corre em minha direção e os três garotos conseguem conter o rei. – É uma ordem! Me soltem agora. Essa garota vai pagar por ter matado o meu melhor homem!
— Não foi ela que o matou. Fui eu! – Prince então assume a culpa, surpreendendo a todos naquele instante. O rei para de se mover e encara o filho de maneira perplexa. – Eu apareci quando Tyler e Manu estavam lutando com ele e eu o matei com um tiro. Manu está suja de sangue porque estava ao lado dele.
— O que você disse? – Questiona o rei com um tom assustador.
— O quê? Seus espiões não te disseram que viram um terceiro garoto correndo com eles? Eu estava lá. – Afirma Prince com tanta confiança e convicção que era difícil duvidar de suas palavras. – Eu atirei na cabeça dele!
— Como você ousa me desafiar, moleque insolente?! – Prince é atingindo por um soco do pai. Novamente, Lester estava fora de controle e nem mesmo se importava que estava agredindo seu filho. Ele chuta a barriga de Prince e o soca mais uma vez.
— Para com isso! – Imploro, tentando ajudar os meninos a pararem o rei.
— Isso, pai! Continue a mostrar o poderoso rei de Krósvia para seu povo! – Grita Prince, assim que conseguimos distanciar o rei dele. – Você é tão covarde que nem mesmo é capaz de matar seus inimigos sozinho.
O rei nos afasta dele e respira fundo, passando a mão pelos cabelos brancos. A frieza do homem retorna aos seus olhos. Corro até Prince e o ajudo a levantar. A boca dele sangrava e seu rosto estava inchado. Eu o observo preocupada e ele força um sorriso, tentando me acalmar.
— Você é um fracasso, Phillip. O meu maior fracasso. – Declara o homem, olhando com desprezo para o filho. – E a sua maior fraqueza é essa sensibilidade tola pelos nossos inimigos. Acha mesmo que eles terão piedade de nós? Para se ter o poder, é preciso demonstrar que se tem o poder.
— O mundo está evoluindo, pai. Você é o único que não enxergar que seus métodos sujos e arcaicos serão os responsáveis pela sua ruína. Você não se torna melhor do que aquele rei que você torturou e assassinou no calabouço do nosso castelo. – Responde Prince e o pai o encara de maneira ainda mais cruel. – O quê? Acredita mesmo que eu não sei o que você faz?
— Talvez o meu erro tenha sido ser bonzinho demais com você. – Lester se aproxima de Prince com passos lentos e um olhar pensativo. – Talvez, o que você precisa seja conhecer o inferno de verdade para aprender a ser um homem de verdade.
— O que quer dizer com isso? – Pergunta Prince, olhando o pai com hesitação.
— Espere e verá. – O rei pega no rosto do filho e aperta com força, fazendo Prince gemer de dor pelos machucados causados anteriormente pelo pai. – Você vai experimentar um pouco do inferno que eu experimentei na sua idade.
— Não é como se eu já não vivesse no inferno. — Sussurra Prince, abaixando a cabeça para não mostrar seu rosto.
E sem dizer mais nada, o rei deixa o quarto. Tyler, Gavin e eu encaramos Prince apreensivos. Não sabíamos o que dizer e nem como reagir. Para falar a verdade, eu não havia entendido a fúria do rei Lester pela morte daquele homem e nem o motivo dele querer tanto torturar o próprio filho. Talvez Tony tivesse razão. Haviam muitos segredos que envolviam aquela família que era melhor não sabermos.
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