Fire Scars
10 Ameaça
Notas iniciais
Capítulo IX – Ameaça
“E vou assumir o comando
Você está muito atrás de mim
Você sabe do que preciso
Não vou parar
Faça chuva ou faça sol
Ficaremos melhor juntos”
What About Us — The Saturdays
Krósvia — 1995
Medo pode ser definido como um estado emocional que surge em resposta a consciência perante uma situação de eventual perigo. A simples ideia de que algo ou alguma coisa possa ameaçar a segurança ou a vida de alguém que é importante para si, faz com que o corpo reaja de diversas formas como o aumento do batimento cardíaco, a aceleração da respiração e a contração muscular.
Meu irmão mais velho sempre dizia que o medo é essencial para a sobrevivência das espécies, inclusive dos seres humanos, portanto, não é vergonhoso admitir que se sente medo de algo, no entanto, é nesse momento em que devemos tomar uma decisão: ou confrontamos a causa de nossos medos, o superamos e nos tornamos mais fortes ou fugimos e nos tornamos reféns dele.
Eu sempre me considerei uma pessoa corajosa, que assim como meus irmãos mais velhos, jamais se deixaria se tornar refém de meus medos, mas agora, tudo que consigo sentir é o terror dentro de mim, consumindo-me lentamente. Um silêncio ensurdecedor se fazia entre nós, enquanto nos encarávamos sem saber como deveríamos agir após o ataque de fúria do rei. Prince se encontrava sentado em sua cama, como a cabeça baixa e a mão sobre o local onde havia recebido o último soco do pai. Tyler apertava o pulso e observava o príncipe com preocupação.
Gavin suspira e se aproxima do primo com a caixa de primeiros socorros. Prince levanta o rosto apenas para encarar o loiro e eu nunca imaginei que pudesse ver tanta dor em seus olhos como naquele momento. Ele havia sido completamente destruído pelo pai sem qualquer piedade. As palavras do governante de Krósvia haviam o quebrado muito mais do que qualquer ataque físico. Eu sabia disso.
E naquele momento, volto a sentar no chão, sentindo a culpa me consumir. Por minha causa, aquele homem havia morrido. Por minha causa, Tyler, Prince e Gavin haviam se machucado. Por minha causa, Prince sofrerá ainda mais nas mãos do pai. Se eu tivesse ouvido Tony, isso nunca teria acontecido. Eu não deveria ter desobedecido suas ordens, não deveria ter explorado o castelo e tampouco adentrado seus segredos.
— Não foi culpa sua.
A fala carregada de certeza quebra o silêncio do quarto. Levanto o olhar e encontro seus olhos azuis brilharem, calorosos. Engulo em seco e faço um grande esforço para segurar as lágrimas que ameaçavam descer. Ele suspira e tenta sorrir, mas acaba soltando um resmungo de dor, uma vez que o pai havia acertado seu rosto. E eu me sinto grata por ele tenta me animar mesmo estando machucado de diversas formas.
— Mas... por minha... por minha causa, você está encrencado. – Digo, sentindo um nó se formar em minha garganta. – Acho que Tyler tem razão. Eu sempre acabo fazendo as pessoas se encrencarem. Eu sinto muito, Prince. Eu... eu...
E antes que eu pudesse controlar, as lágrimas passam a descer com intensidade pelo meu rosto. As cenas do brutamontes atacando Tyler e como nós poderíamos ter morrido se Gavin não tivesse aparecido fazem meu choro se tornar ainda mais desesperado. Meu primo se aproxima de mim e me abraça, tentando me consolar.
— Calma, Manu. Está tudo bem. Ninguém aqui acha que é sua culpa. – Afirma Tyler, afagando meu cabelo.
— Mas...
— Tyler está certo, Manu. Você não tem culpa de nada. O que aconteceu com você, poderia ter acontecido com qualquer um de nós. – Interrompe Gavin, terminando de cuidar do ferimento de Prince. Ele se afasta e me encara com intensidade. – Além disso, ficar nos culpando não vai mudar em nada a situação. Precisamos pensar em algo para tirar Prince dessa situação. A forma como o rei o ameaçou me diz que ele não está planejando apenas em o colocar de castigo.
— E o que tem em mente? – Pergunta Tyler, esperançoso.
— Eu ainda não sei. – Admite o loiro, suspirando.
Nossa conversa é interrompida por batidas intensas na porta. Temendo que o rei tivesse voltado mais uma vez, encolho-me contra o corpo de meu primo, enquanto os outros dois garotos se colocam de pé em alerta. Sem obter nenhuma resposta, a porta é aberta e vejo o rosto de meu irmão mais velho.
Ao reconhecer seus olhos preocupados nos encarando, afasto-me de Tyler e corro até Tony, que me abraça com força e sem perceber, volto a chorar. Os braços calorosos de meu irmão se tornam ainda mais quentes e protetores. Ele me pega no colo com destreza e balança o corpo lentamente, enquanto sussurra um chiado acolhedor, como se eu fosse um bebê. Em outra situação, eu reclamaria de seu tratamento, mas naquele momento, aquilo era tudo que eu precisava para me sentir segura.
— Calma, Emma. Eu estou aqui. Está tudo bem. – Sussurra Tony com suavidade.
— Eu sinto...sinto muito, Tony. Me perdoa. – Digo entre soluços, enquanto eu o abraço ainda mais apertado. – Eu não queria... que ele morresse. Eu... eu não queria que o rei ficasse furioso.
— Eu sei, pequena. Eu sei. – Responde Tony, acariciando meu cabelo. – Não se preocupe. Eu vou cuidar de tudo. Vai ficar tudo bem.
— Você promete? – Pergunto, afastando-me apenas para encarar seus olhos tão semelhantes ao meu. Com uma mão, ele limpa as lágrimas que desciam pelo meu rosto e dá um sorriso caloroso.
— Eu prometo. – Ele afirma, colocando-me no chão. E suas palavras eram o suficiente para eu saber que tudo ficaria bem. Meu irmão jamais descumpriu uma promessa. – E você sabe que eu sempre cumpro com as minhas promessas.
— Sim. – Concordo, limpando meu rosto e engolindo o choro. Tony pega em minha mão e se aproxima dos três rapazes que o encaravam com certo alívio. Talvez, assim como eu, eles confiavam o bastante em meu irmão mais velho para saber que ele daria um jeito nessa situação.
— O que faremos, Tony? – Pergunta Tyler, preocupado.
— Primeiro, preciso que me contem o que aconteceu. A única informação que tive foi que Prince matou uma das sombras do rei Lester para proteger Emma e Tyler, mas olhando para vocês, eu tenho certeza de que isso não é verdade. – Meu irmão encara Gavin em uma análise silenciosa. – O que aconteceu, Gavin? Por que você matou a sombra do rei?
— Como... como sabe que fui eu quem matou a sombra? – Questiona Gavin, surpreso. Meu irmão suspira e se aproxima do loiro. Com delicadeza, Tony ergue o braço direito do rapaz e mostra a manga da camisa branca dele com algumas manchas.
— Resquício de pólvora. Além disso, um dos meus subordinados me informou que viu você, Emma e Tyler correndo em direção ao quarto de Prince. Eu conheço minha irmã e meu primo para saber que eles provavelmente entraram em um lugar em que não deviam. – Conta o outro, soltando o braço de Gavin. Ele se vira para nós e nos lança um olhar repreendedor. Como de costume, Tyler e eu nos encolhemos, envergonhados.
— Incrível. – Sussurra Gavin, ainda encarando meu irmão com admiração. – Você é muito mais atento aos detalhes do que eu imaginava.
— E então? O que foi que aconteceu do momento em que pedi para que não se metessem em problemas até chegarmos a um assassinato? – Insiste Tony, encarando-nos um por um.
Tyler então começa a narrar cada detalhe do que havia acontecido com alguns complementos de Gavin, enquanto Tony os escuta com atenção e uma expressão indecifrável. Prince permanece quieto e cabisbaixo enquanto isso. E eu, continuava a encará-lo, tentando decifrar o que se passava em sua mente. Apesar de estar em uma situação preocupante, o príncipe permanecia quieto e pensativo.
Após narrar tudo que havia acontecido para Tony, Tyler se senta no chão e suspira frustrado. Meu irmão, por outro lado, se aproxima da grandiosa porta de vidro que dava acesso a varanda do quarto do príncipe e permanece algum tempo encarando a paisagem da capital de Krósvia com a mente viajando em busca de uma solução. Nós sabíamos que nossa situação não era uma das melhores, mas a reação de meu irmão me deixava ainda mais preocupada.
— Por hora, Manu e Tyler voltarão para casa. O castelo não é mais seguro para vocês. O rei decidiu viajar de última hora, então Gavin e Prince, por enquanto, não correm perigo. No entanto, devemos nos preparar para o pior. O rei Lester está furioso pelas perdas que tivemos durante a última batalha e perder uma de suas sombras não contribuiu muito para melhorar seu humor. – Fala Tony, voltando para perto de nós.
— O que vai acontecer com o Prince? – Pergunto, preocupada.
Meu irmão não me encara. Há um peso sobre seus ombros e a melancolia presente em seu silêncio era o bastante para me apavorar. Eu já havia visto um pouco da fúria do rei Lester para saber que o homem está longe de possuir algum tipo de empatia pelas pessoas e isso incluía o próprio filho, que havia diversas vezes sofrido agressões tanto físicas quanto verbais do pai.
— Sendo sincero, eu não sei. – Admite o mais velho. – Nós estamos falando de uma pessoa instável e cruel. Ao longo desses anos que nossa família vem servindo ao rei Lester, eu já vi e presenciei algumas de suas ações corretivas e todas elas envolvem algum tipo de tortura, sejam elas físicas ou psicológicas. – Ao ver o terror em nossos olhos, meu irmão suspira e força um sorriso. – Eu farei de tudo para protegê-lo, Prince, mas temo não ter forças o bastante para enfrentar o rei de Krósvia sozinho. Infelizmente, nesse momento, não podemos contar com muitas pessoas. Apesar de não concordarem com as ações do rei, meus homens jamais ousariam desafiar as ordens de seu governante.
— Eu sei. – Sussurra Prince, melancólico. – E sou grato por você permanecer ao meu lado depois de tudo, Tony.
— Eu sou eternamente grato a você e a Gavin por terem salvo a vida da minha família, Prince. E é por isso que não pouparei esforços para impedir que seja alvo das maldades de seu pai. Sei que acredita que está sozinho, mas existem pessoas que estão ao seu lado. O seu povo não vê a hora em que você trará a tão sonhada liberdade aos krosvianos. – Afirma Tony com determinação.
— Eu não sei se serei capaz. – Confessa Prince, quase como um segredo. Vejo o medo e a angústia presente em seus olhos. O peso de ser a esperança de uma nação não poderia ser maior. – Eu sei qual é o meu papel nessa história. Como príncipe herdeiro e o primeiro na linhagem de sucessão ao trono, é meu dever me tornar o rei que Krósvia precisa, mas eu sinto que eu jamais serei quem eles precisam, Tony.
— Você precisa ser corajoso, Prince. Infelizmente, o único capaz de mudar essa situação é você. Entendo que esteja com medo, mas essa é a hora em que você deve confrontar seus anseios e inseguranças. – Afirma meu irmão, aproximando-se de Prince. Ele se ajoelha de frente ao príncipe e o encara com um olhar compreensivo. O gesto paternal de Tony parece surtir efeito no rapaz de brilhantes olhos azuis, que demonstrar ficar um pouco mais calmo. – Você é muito mais capaz do que imagina, Prince. Eu perdi as contas de quantas vezes eu vi você enfrentar seu pai para defender seus valores. Um dia você será capaz de lutar contra as injustiças que existem nesses reinos corruptos. Você terá a força e o poder para mudar essa realidade tão suja e covarde que vivemos. Eu acredito em você e tenho certeza de que todos nesse quarto pensam o mesmo que eu.
O príncipe desvia o olhar de meu irmão e passa a encarar um por um, como se quisesse comprovar a fala de Tony. Inconscientemente, balançamos nossas cabeças, concordando e sorrimos com sinceridade. Assim como meu irmão havia dito, nós acreditamos em Prince e sentimos que ele é capaz de ser um grande líder. Há algo em seus olhos e postura que me faz confiar no rapaz tão intensamente.
Nossos olhos se encontram. A fragilidade presente na expressão do rapaz que sempre parece tão confiante fazem meu coração se apertar. Eu não entendia bem esse sentimento complexo dentro de mim desde que nos conhecemos, mas, mesmo sentindo meu coração batendo tão descompassado e estando intimidada pela forma intensa com a qual era encarada pelas íris cerúleas, mantenho-me firme, tentando transmitir algum tipo de consolo e confiança a Prince.
— Obrigado. – Agradece o príncipe herdeiro, sem desviar o olhar.
[...]
A volta para casa havia sido silenciosa. O clima tenso ainda nos cercava, enquanto Tyler e eu seguíamos pelas ruas de Füssen. Tony havia ficado para planejar uma forma de ajudar Prince junto a Gavin. A neve havia diminuído consideravelmente, ainda que o frio continuasse intenso pelo país. Ainda faltava alguns dias até que o inverno fosse embora por completo.
No alto da colina que nos levava em direção a nossa casa, vejo bandeiras pretas sendo erguidas em frente as casas espalhadas pela cidade, ou pelo menos ao que havia restado delas. O luto era quase palpável. Todos haviam perdido algo de valioso nas sangrentas batalhas que ocorreram nos últimos dias.
Ainda que as construções fossem reerguidas, que a rotina voltasse a guiar as pessoas e que desaparecessem todos os resquícios da guerra, a dor continuaria, os entes queridos jamais voltariam, a saudade ficaria dentro de cada coração para sempre. Não há nobreza em uma guerra. Quando ela acontece, tudo que ela é capaz de trazer é destruição, medo e desespero.
Os primeiros sinais do anoitecer havia chegado e não demora muito para que o som melancólico de trompetes ecoasse pela cidade no ritual tradicional de Krósvia, conduzindo os cidadãos em direção ao antigo Altar de Hel, que foi destruído ao longo dos anos e que fica no precipício mais alto da capital do país. Tony dizia que era uma cerimonia que nossos ancestrais realizavam para que as vidas perdidas no campo de batalha pudessem encontrar a deusa Hel da mitologia nórdica que os conduziria a Valhalla, o destino dos guerreiros.
Hoje em dia, o ritual perdeu o sentido inicial e a comunidade faz a marcha fúnebre em direção ao precipício apenas como uma homenagem aos mortos. Aparentemente, a família real parecia não se importar muito com as perdas que havia sofrido, contanto que seu reino conquistasse a vitória. Sendo assim, restava ao povo rezar pela alma dos que se foram e lutar para sobreviverem a dura realidade pós-guerra, que vinha recheada pela fome, doenças e miséria.
— Manu? – Chama Tyler, despertando-me de meus pensamentos. – Vamos? Já estamos quase chegando.
Balanço a cabeça, concordando, enquanto desvio o olhar das multidão que seguia com fotos e velas pelas ruas de Füssen. Suspiro, sentindo a tristeza por saber que Lianna e o restante da família estaria participando do ritual para homenagear Matthew. E novamente a culpa faz meu coração se apertar, mas sei que não há mais nada que eu possa fazer. O que aconteceu não pode ser mudado e tudo o que me resta a fazer é seguir em frente e lutar para que sua morte não tenha sido em vão.
Assim que Tyler e eu chegamos em casa, a primeira cena que vemos é Taynara lendo uma história para Sean. Ele estava sentado entre as pernas dela, próximos a lareira, e prestava atenção em cada palavra dita pela garota. Henry se estava no sofá e observava os dois com carinho e um sorriso nostálgico no rosto, provavelmente, lembrando de quando Tony fazia o mesmo comigo.
— Chegamos. – Anuncia Tyler, chamando a atenção dos três. Sean se encolhe mais contra Taynara que abre um largo sorriso ao nos ver.
— Tay! – Exclamo, aliviada por ver a melhora considerável da garota.
Ela sorri e sussurra algo para Sean que a olha desconfiado, mas se afasta. Instintivamente, Henry a ajuda a levantar. Apesar de bem melhor, ainda era nítido que ela sentia dores e sua pele ainda estava bastante sensível. Com cuidado, ela se aproxima de mim e me abraça. Preocupada em machucá-la, correspondo com cautela.
— Você voltou! – Fala Taynara com doçura. Ela se afasta e olha para Tyler. – Oi Tyler. Que bom que vocês chegaram. Eu já estava preocupada.
— Oi Taynara. Vejo que está bem melhor. – Responde Tyler sorrindo tão aliviado quanto eu. A velocidade de sua recuperação era surpreendente.
— Sim. Tudo graças ao Henry, que é um fitoterapeuta brilhante. Ele salvou a minha vida. Serei eternamente grata por ter sido meu herói. – Afirma com convicção, deixando meu irmão envergonhado. – Eu realmente não sei como agradecer.
— Ver que está bem é o suficiente para mim. – Responde Henry, sorrindo com sinceridade. Ele realmente estava feliz por seus estudos terem dado certo. – E onde está Tony? Pensei que ele fosse vir com vocês.
— Aconteceu... uma coisa e ele... ele teve que resolver. – Conto com cautela e apreensão. Henry nos encara desconfiado, enquanto Taynara demonstra preocupação. Provavelmente eu havia deixado claro que algo de ruim havia acontecido.
— O que houve com seu braço, Tyler? – Pergunta Taynara, aproximando-se de meu primo. Ela pega o braço dele com gentileza e analisa o curativo.
— O que aconteceu, Manu? – Questiona Henry com seriedade.
— Eu... – Começo, mas as palavras morrem em minha garganta. Desvio o olhar para as minhas mãos. Não conseguia encarar Henry. Não quando a culpa ainda me consumia violentamente.
— Por que vocês não tomam um banho e trocam essas roupas molhadas primeiro? – Sugere Taynara, vendo que tanto Tyler quanto eu não tínhamos forças para contar tudo o que tinha acontecido. – Vocês também devem estar com fome. Eu vou...
— Você vai ficar aqui quietinha com o Sean, enquanto eu esquento a comida para eles. – Interrompe Henry, provavelmente, prevendo que a garota inventaria de ir para a cozinha para fazer alguma coisa.
— Mas...
— Descanse, Tay. Você ainda não está totalmente curada. – Insiste meu irmão com gentileza, interrompendo a garota mais uma vez.
— Tay... – Chama Sean, pegando na mão de Taynara, que o olha com um sorriso carinhoso. – Lê a história? – Pede timidamente.
— Claro, pequeno. – Concorda a garota, lançando um olhar agradecido para Henry, que sorri satisfeito e vai em direção a cozinha. – Vão se trocar. Pela forma que estão agindo, tenho certeza que a noite será longa mais uma vez.
— Você nem imagina. – Concorda Tyler, suspirando. – Obrigado.
— Não precisam agradecer. Apenas tentem descansar um pouco. – Afirma a garota, dando um fraco sorriso antes de voltar para a posição em que estava para ler a história que Sean havia pedido.
Após encarar meu primo por alguns instantes, resolvo que o melhor a fazer no momento é tomar um banho e tentar colocar minha cabeça no lugar. Dou uma última olhada em Sean e Taynara antes de seguir para o meu quarto. E é somente debaixo do chuveiro que noto o meu cansaço tanto físico quanto mental. Observo os hematomas em meu corpo causados por tentar lutar contra a sombra do rei e todos as situações perigosas pelas quais passei nesses últimos dias.
E é então que os olhos azuis de Prince retornam a minha mente, magoados, medrosos e repletos de incertezas. Ele havia se arriscado para proteger a Gavin e a mim, ainda que soubesse que enfrentar o pai era uma péssima ideia. Sinto meu coração se apertar mais uma vez ao pensar nas graves consequências que sua atitude poderia gerar a ele. Angustiada, ergo meu rosto e deixo que a água caia, na tentativa de me livrar de todos os pensamentos e sentimentos ruins.
No fim, após termos tomado banho e vestido roupas quentes, Tyler e eu seguimos para a cozinha, onde jantamos em silêncio com Henry e Taynara, que também dava comida para Sean. O garoto estava mais à vontade desde que havia chegado em nossa casa e parecia ter criado uma espécie de amor maternal com Taynara. Ele não desgrudava nem por um segundo dela e constantemente a observava com atenção e segurava sua mão, como se tivesse medo que ela fosse embora. Mesmo com a pouca idade, ele já havia aprendido que a vida podia ser muito cruel.
— E então? Quando vão me contar sobre o que aconteceu para fazer Tony continuar no castelo? – Questiona Henry, enquanto nos encara com intensidade.
— Eu fiz algo que não deveria ter feito. – Começo, ainda sem conseguir encarar meu irmão. Respiro fundo, tentando criar coragem e buscando a melhor forma para contar para Henry o que havia acontecido. Sinto a mão de Taynara apertar a minha. Encaro a garota e ela sorri, transmitindo um pouco de segurança.
— O que você fez? – Insiste Henry, mantendo a expressão neutra.
— Não foi por querer, Henry. Aconteceu tão rápido e... – Tyler tenta se justificar, mas é interrompido por meu irmão.
— O que vocês fizeram? – Apesar da fala baixa, é nítido que a falta de resposta estava o incomodando.
— Eu convenci Tyler a explorar o castelo e acabamos indo para uma parte proibida. Nós encontramos uma sombra que nos atacou. Se não fosse por Gavin ter atirado na cabeça daquele brutamontes, nós estaríamos mortos. – Conto, reunindo toda a coragem que havia dentro de mim, enquanto continuava a buscar apoio no aperto de Taynara.
— Então Gavin matou uma sombra do rei. – Sussurra Henry, embasbacado. – O rei deve ter ficado furioso com vocês. Por Deus, por que vocês tinham que ir para lugares proibidos no castelo?
— Não é apenas isso que está nos preocupando. – Complementa Tyler, encarando o primo com seriedade. O clima que já estava tenso se torna ainda mais pesado com a melancolia presente nas palavras do rapaz.
— Prince assumiu a culpa pela morte da sombra e o rei ficou furioso. Se os garotos não tivessem o segurado, era capaz dele matar o próprio filho. – Revelo, suspirando em seguida. – A situação piorou ainda mais quando Prince disse algumas coisas que não deveria sobre as ações do pai. O rei Lester então decidiu que Prince sofreria com as consequências e que Prince vai experimentar um pouco do inferno que ele experimentou na idade do filho. Nós estamos preocupados com o que vai acontecer. Pelo pouco que vimos do rei Lester, ele é o tipo de pai que poderia facilmente torturar o filho.
— Droga! – Exclama Henry, insatisfeito.
— Não há nada que podemos fazer para impedir que o rei de machucar o Prince? – Questiona Taynara, nitidamente preocupada.
— É difícil. Qualquer ação que apresente estarmos indo contra o rei pode nos levar a sentença de morte por traição a nação. O rei Lester odeia ser contrariado e muitas pessoas já perderam suas vidas por coisas menores. Se tentarmos interferir nas decisões dele, podemos sofrer graves consequências. – Explica meu irmão, pensativo. – Confesso que não vejo muitas opções para Prince.
— Talvez Tony pense em alguma coisa. – Fala Tyler, tentando soar positivo, mas ainda havia um resquício de incerteza em sua voz.
— Ele é o único que conseguiria. – Concorda Henry, suspirando. – Mas isso também pode colocá-lo em perigo. Tony é um dos guerreiros mais promissores do exército de Krósvia. O rei o considera mais filho do que o próprio Prince, ou seja, ele ainda pode conseguir fazer o rei Lester mudar de ideia. Por outro lado, se ele insistir demais em proteger Prince, existe um grande risco de Tony se prejudicar.
— Segundo Tony, nós temos algum tempo para pensar em uma solução. O rei saiu de Krósvia logo após a discussão com Prince. Não sabemos para onde foi e nem quando vai voltar, mas ao menos ganhamos algum tempo. – Comento, relembrando as palavras de meu irmão, um pouco antes de nos mandar de volta para casa.
— Por mais que eu odeie o rei, ele ainda é o pai de Prince. Talvez de cabeça fria, o amor dele pelo filho fale mais alto e ele desista dessa decisão extremista. – Supõe Taynara, com leve amargura em seu tom de voz ao falar sobre o rei do país. Sean puxa a mão da garota, chamando sua atenção, e abre a boca, exigindo silenciosamente por mais comida. A morena sorri e volta a dar a sopa ao garoto.
— Eu não teria tanta certeza. – Comenta Henry, pensativo. – Claro que Tony tem muito mais contato com o rei do que eu, mas pelo pouco que o conheço, ele não é o tipo de homem que volta atrás de suas palavras, por mais cruéis e absurdas que elas sejam. Além disso, o rei Lester parece rejeitar Prince desde que ele nasceu.
— Por quê? Por que ele trata Prince tão mal? – Pergunto, tentando entender como alguém é capaz de odiar o próprio filho.
— Infelizmente, nosso pai e a rainha são os únicos que parecem saber o motivo. Eu já fiz essa mesma pergunta várias vezes, mas nunca fui capaz de ter uma resposta. Algo me diz que tem a ver com o antigo envolvimento da rainha com o maior inimigo do rei Lester há muitos anos, mas claro, isso são apenas especulações. – Comenta Henry, apoiando os cotovelos sobre a mesa. – A família real sempre foi conhecida por seus mistérios e segredos perigosos, então, duvido muito que um dia nós tenhamos a resposta para perguntas como essa.
— De qualquer forma, é melhor nos prepararmos para o pior. – Comenta Taynara, limpando a boca de Sean. Ela então nos encara com os olhos brilhando em uma dor quase palpável. As marcas nítidas presentes em sua alma mostravam a raiva que somente quem foi vítima do cruel reinado do atual governante do país poderia ter. – Lester Dawson está longe de ser uma alma caridosa. Ele não vai deixar passar a morte de uma de suas sombras. Se ele sabe que vocês estão envolvidos de alguma forma nesse ataque, eu tenho certeza de que uma hora ou outra, ele virá atrás de vocês e nesse momento vocês terão duas opções.
— E quais seriam elas? – Pergunta Tyler, expondo a dúvidas que todos pareciam ter naquele momento.
— Fugir para um lugar onde ele jamais poderia os encontrar ou encará-lo de frente. Mas, estejam cientes de que caso vocês escolham a segunda opção, estejam preparados para perder as pessoas que vocês amam. Lester nunca teve problemas para descartar as pessoas e no controle no país, ele possui poder suficiente para nos destruir sem piedade. – Afirma Taynara, desviando o olhar para observar Sean, que a olhava sem entender realmente sobre o que ela falava. – Foi assim que eu e outras milhares de pessoas perderam membros de suas famílias e o direito de viver como um ser humano. Para Krósvia, minha cidade se tornou um aterro sanitário, onde estão apenas lixo e restos descartáveis. A miséria, a fome e a dor dão lugar ao que um dia já foi um povoado alegre, festivo e de farturas.
— Taynara, eu... – Tento dizer algo, mas ela apenas sorri e balança a cabeça negando, como se soubesse meus sentimentos.
Ela então suspira e quando continuaria a falar sobre seu passado, a porta de nossa casa é aberta bruscamente. Assustados, nós nos levantamos, prontos para lutar, caso fosse a invasão de algum inimigo. Taynara coloca Sean atrás de si, enquanto Henry, Tyler e eu pegamos as espadas que estavam escondidas pela cozinha. Permanecemos em silêncio, apenas esperando que o invasor chegasse ao cômodo. E quando eu iria atacar, reconheço os fios loiros do suposto inimigo e me afasto no mesmo instante, assustada pela queda do garoto que veio a seguir.
— Gavin? — Chamo, correndo na direção do loiro, que parecia respirar com dificuldade. Vejo então sangue em suas mãos e em seu abdome. – O que aconteceu?
— Não se preocupem... eu... eu estou bem. – Afirma Gavin, ainda tentando recuperar o folego. Henry e Tyler correm até o loiro e o levam para o sofá da sala.
— O que aconteceu? Como você se machucou? Você está sozinho? – Questiona Tyler, desesperado.
— Não temos tempo para explicações. – Conta o rapaz com tom de urgência. – O rei Lester voltou a Füssen com alguns homens perigosos e saiu novamente levando Prince. Tony, meu pai e eu tentamos o impedir, mas a rainha começou a passar mal. Eu fui atrás do rei junto com meu pai e acabamos lutando com eles, mas os perdemos de vista. Tony pediu para que eu os chamasse. A vida de Prince corre perigo e acho que somos os únicos que podemos salvá-lo.
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