Fire Scars
11 Apaixonada
Notas iniciais
Capítulo X – Apaixonada
“Eu fui destruído desde pequeno
Levando meu sofrimento pelas multidões
Escrevendo meus poemas para os poucos
Que me encaravam, me levavam, me sacudiram, me sentiram
Cantando com um coração partido pela dor
Captando a mensagem que está em minhas veias
Recitando minha lição de cérebro
Vendo a beleza através da dor!”
Believer – Imagine Dragons
Krósvia — 1995
Os cavalos galopavam intensamente pela grossa camada de neve que havia pela cidade. A lua cheia brilhava soberana acima de nós, iluminando nossos caminhos, enquanto a cidade se encontrava em meio a escuridão em respeito a cerimonia de despedida das famílias aos entes queridos que morreram durante o último combate.
Meu corpo inteiro doía. Apesar de estar bem melhor das queimaduras, minha pele ainda estava bem sensível e era difícil me movimentar com tantas roupas grossas sobre as ataduras que Henry havia feito antes de minha saída, ainda que totalmente contra a sua vontade.
Não havia sido fácil convencer a família que havia recentemente me acolhido de que eu deveria ir ao resgate de Prince ao lado de Manu e Tyler. Eu sabia que minhas condições não era uma das melhores, mas não tínhamos muitas opções, uma vez que todos haviam decidido que enfrentariam o rei.
Apesar dos protestos de Gavin, Henry verificou seu ferimento no abdome e constatou que o loiro já havia perdido muito sangue e precisava permanecer de repouso e de inúmeros medicamentos para tratar do profundo corte que havia sido feito. Com isso, Henry precisava ficar em casa e ainda havia Sean, que não poderia ficar sozinho e muito menos ir para o meio de um confronto que há tudo para não acabar bem.
Com isso restaram apenas Tyler, Manu e eu. Apenas os dois primos não seriam capazes de conter a fúria do rei Lester. E ainda havia o fato de que Gavin estava machucado e desesperado demais para conseguir nos explicar o que havia acontecido com clareza. Então seguíamos em direção ao castelo Cristal sem saber o que esperar e nem o que deveríamos fazer. Tudo que sabíamos é que Prince está em perigo e somos os únicos que podem salvá-lo.
— Tay, você tem certeza de que consegue continuar? – Questiona Manu, encarando-me preocupada, enquanto seu cavalo galopava ao meu lado. – Seus ferimentos ainda não estão totalmente curados. Henry disse diversas vezes que você precisa descansar ou pode acabar machucando ainda mais a sua pele.
— Eu estou bem. Não se preocupe.
— Não se esforce demais. – Pede Tyler em alerta, diminuindo a velocidade com a qual guiava seu cavalo. – Não queremos que seu estado de saúde piore.
— Tudo bem. Eu prometo que não irei extrapolar. – Garanto, tentando tranquilizar meus amigos. Observo a paisagem a nossa frente e noto que estávamos próximos do local que Gavin havia nos orientado. – Nós estamos nos aproximando. Fiquem atentos! Não sabemos o que devemos esperar.
Manu e Tyler assentem, visivelmente nervosos. Eu não estava muito diferente. Meu coração parecia a ponto de pular para fora de meu corpo. De todas as pessoas que eu menos desejo estar frente a frente, Lester Dawson com certeza vem em primeiro lugar. Eu conhecia muito bem o rei que foi responsável pela morte de meu pai e que deu as costas para que meu povo morresse de fome para saber que aquele homem consegue ser a própria encarnação do demônio.
Por outro lado, eu sabia que meus sentimentos pouco importavam nessa situação. Apesar de não ser tão próxima do príncipe, eu sei que ele é importante para a família que me acolheu, além de ser um dos responsáveis por eu ainda estar viva. Eu tenho uma dívida com ele e se posso ao menos o recompensar pelo que fez por mim, eu farei sem hesitar.
Por isso, assim que chegamos à floresta que fica ao lado do castelo, puxo as rédeas do cavalo para diminuir a velocidade de seu galope e passo a prestar atenção ao que ocorria ao meu redor. Eu temia que fôssemos surpreendidos por um dos guardas do rei e acabássemos falhando na missão de resgate do príncipe.
O silêncio e a escuridão que nos cercavam por entre as árvores eram aterrorizantes. Não havia garantia alguma de segurança e muito menos o que deveríamos fazer quando encontrássemos Prince. Quer dizer, precisamos salvá-lo, mas como podemos fazer isso sendo apenas três contra um número desconhecido de soldados e um rei sem qualquer piedade, que nesse momento pode estar torturando o próprio filho?
É então que ouço vozes à distância. Paro meu cavalo e faço sinal para que meus amigos fizessem os mesmo. Indicando que eles devem permanecer em silêncio, desço de meu cavalo com certa dificuldade. Meu ferimentos não ajudavam em nada a me fazer permanecer o mais silenciosa possível e para evitar que qualquer machucado piorasse, eu precisava ir com calma, o que fazia triplicar a dor.
Assim que consigo ficar de pé com estabilidade, amarro as rédeas de meu cavalo no tronco de uma das árvores e Manu e Tyler fazem o mesmo. Com cuidado, nós nos aproximamos do local onde era possível ouvir as vozes desconhecidas. E então três guardas aparecem em meu campo de vista. Por sorte, conseguimos nos esconder antes que notassem nossa presença.
Temendo que eles encontrassem nossos cavalos, pego uma pedra maior e jogo no sentido contrário ao nosso, chamando a atenção dos guardas. Como era de se esperar, dois deles vão verificar o que havia causado o barulho, enquanto o outro permanece vigiando o que parecia ser a entrada de um esconderijo. Eu não tinha dúvidas de que Prince estava escondido naquele local.
— Como faremos para entrar? – Sussurra Manu, olhando ao seu redor.
Penso por um momento, mas não temos muitas opções. Enquanto portávamos apenas espadas, aqueles guardas provavelmente tinham armas de fogo em sua posse. E ainda tinha o risco dos guardas voltarem ou um reforço aparecer. Precisávamos agir de forma ágil e discreta.
— Eu vou chamar a atenção daquele guarda, enquanto vocês entram escondidos. – Respondo e eles me encaram assustados.
— Você não vai fazer isso. Ficou louca? E se eles te machucarem? – Questiona minha atual melhor amiga, encarando-me com desespero.
— Eu vou ficar bem. – Garanto, mas isso não parece convencer aos dois. – E por mais que eu odeie essa situação, eu estou machucada. Não vou conseguir ir muito rápido. Por isso, vocês precisam me deixar ser a isca.
— Isso é loucura! – Exclama Tyler, inconformado.
— Não temos outra opção. – Respondo, sorrindo para o garoto, tentando transmitir alguma confiança. Ele suspira. Pego em sua mão e na de Manu, que parecia cada vez mais contrariada com minha decisão. Eles me encaram. – Eu prometo que ficarei bem. Quando eu der o sinal, vocês devem correr o mais rápido que puderem, sem olhar para trás e sem fazer qualquer barulho. Precisam ser discretos. Não sabemos o que tem dentro desse local que está sendo tão bem vigiado.
— Tome cuidado, por favor. – Pede Manu, abraçando-me com cuidado.
Assinto e me afasto dos dois, cautelosamente. Indo para o lado contrário em que eles estavam, bagunço mais minhas roupas e as sujo um pouco. Respiro fundo, tentando me acalmar. Eu precisava atuar muito bem se quisesse ter a atenção daquele guarda. E assim, passo a caminhar me arrastando em direção ao guarda.
Quando nota a minha presença, ele saca sua espada e se coloca em posição de ataque. Tiro a touca que cobria boa parte do meu rosto e forço uma tosse. Ergo meu braço, como se pedisse por ajuda. Desconfiado, o guarda se aproxima, sem abaixar sua espada. E assim que noto que ele tinha sua total atenção em mim, balanço a cabeça apenas para que meus amigos vissem.
Como eu havia orientado, eles seguem em direção a entrada do esconderijo com cautela. Volto minha atenção para o guarda e choramingo. Por sorte ou azar, eu nem precisava forçar muito a minha expressão de sofrimento, uma vez que a posição em que eu estava só piorava as dores que eu sentia.
— O que você está fazendo aqui, garota? – Questiona o guarda com severidade.
— Por...por favor... não me machuque. Eu... eu me perdi. Por favor, me ajude. – Imploro, começando a me levantar, mas logo finjo perder o equilíbrio. O homem abaixa a espada e me ampara. – Como... como faço para voltar para... para o centro da... cidade?
Ele suspira e guarda sua espada. Não consigo evitar soltar um ar de alívio ao ver que havia conquistado sua confiança. Ao longe, vejo Manu e Tyler próximos da entrada e isso me anima ainda mais. Abraço o guarda como se buscasse apoio, enquanto continuo a choramingar de dor.
— O que houve com você? – Pergunta o guarda, encarando-me com curiosidade.
— Quando a cidade... foi atacada, meus pais... meus pais me disseram para correr para... para a floresta. – Forço o choro, escondendo o rosto no peito do guarda. – Eu... eu acabei me perdendo e cair diversas vezes.
— Onde...
— Ei! O que vocês estão fazendo? – O grito de longe chama a atenção do guarda que me segurava.
Sem saída, no instante que o guarda ia pegar sua arma, puxo-a para mim e dou uma forte coronhada em sua cabeça. Ele vai ao chão no mesmo instante. Temendo que meus amigos fossem atingidos, miro nos dois guardas que estavam prontos para atirar em Manu e Tyler, e atiro contra eles até que caíssem.
Com a adrenalina correndo em meu sangue e as fortes emoções mexendo com meu corpo, caio de joelhos e sou abraçada por Manu, enquanto seu primo vai verificar se os dois guardas estavam mortos. Ele então pega as armas que estavam em suas mãos e corre em nossa direção.
— Vocês estão bem? – Questiona Tyler, aproximando-se de nós.
— Sim. – Respondo, levantando-me com Manu.
— Você foi incrível! – Sussurra a garota, demonstrando sua surpresa com minha ação. – Em questão de segundos você conseguiu derrotar três homens muito mais rápida que qualquer soldado do rei Lester. Onde aprendeu a fazer isso?
— Meu pai me ensinou a atirar e técnicas de defesa pessoal. – Explico, suspirando. – Mas isso não importa agora. Precisamos correr. Tenho certeza de que não vai demorar muito para que mais guardas apareçam.
— Tudo bem. – Concorda Tyler, entregando uma das armas para Manu, que a pega à contragosto. – É melhor estamos preparados para qualquer situação.
Assinto e pego a arma que havia usado para atirar nos soldados. Confiro a munição e a recarrego, antes de seguirmos para dentro do esconderijo onde Prince provavelmente estava sendo mantido preso pelo pai.
O local era escuro e apertado. Mesmo no inverno intenso que Füssen estava enfrentando, o caminho era abafado e sufocante. Meu coração batia cada vez mais rápido, minha respiração estava pesada e minhas mãos suavam como nunca. A incerteza do estado do príncipe também causava ansiedade e medo. E se chegássemos tarde demais para salvá-lo? E o que faríamos se encontrássemos com o rei?
Tentando não pensar demais na situação, sigo em frente com a arma pronta para disparar, caso fosse necessário. Preciso respirar fundo algumas vezes para ignorar as dores que eu sentia. Minha pele realmente parecia a ponto de se descolar da carne de meus músculos conforme eu me esforçava para me esgueirar pelo corredor irregular e pequeno em que estávamos.
E aos poucos, o corredor vai ficando mais claro e não demora para que ouvíssemos alguns gritos. Paro de andar no mesmo instante e olho para meus amigos, que pareciam realmente assustados. Não preciso de mais informações para saber que aqueles gritos vinham de Phillip Dawson. Manu ameaça avançar, mas é detida pelo primo, que balança a cabeça em negação. Suspiro e me aproximo um pouco mais do fim do corredor, tomando cuidado para não ser vista.
A primeira coisa que vejo ao observar a sala de tortura onde Prince estava sendo mantido preso foi a estante com ferramentas macabras de diversos formatos, tamanhos e finalidades. No meio da sala, Prince estava deitado em uma maca com o corpo preso por tiras de couro semelhantes a cintos. Ele se debatia, mas isso parecia apenas machucar ainda mais seu corpo já ferido. Prendo minha respiração ao notar que Tony estava estirado ao chão sem se mexer. Eu não sabia dizer se ele estava apenas inconsciente ou se o rei havia sido capaz de matar um dos seus melhores soldados.
Meu coração se aperta e o desespero começa a tomar conta de mim. Havia cerca de cinco soldados na sala além do rei, que observava a tudo com sua típica pose aristocrática com os braços cruzados e olhos severos sobre o filho. Uma de suas sombras estava ao seu lado com as mãos ensanguentadas. Observo melhor a cena e vejo que Prince estava sem camisa e cheio de cortes pelo corpo. Ele estava quase irreconhecível, com seus olhos inchados e roxos, a boca cortada e nariz ensanguentado e provavelmente quebrado.
O homem robusto que aparentava ter mais de dois metros de altura pega um pano e limpa as mãos. Seu rosto estava coberto com uma máscara, impossibilitando que eu enxergasse seu rosto. Escondo-me rapidamente ao ver que ele olharia em minha direção. Respiro fundo, buscando a calma que eu não tinha no momento.
Não conseguiríamos sair daquele lugar sozinhos. Com a quantidade de homens naquela sala, jamais venceríamos um combate direto. Nós não conseguiríamos nos esconder também, visto que o local era composto apenas por aquela sala, que parecia ser um anexo do castelo, e o corredor onde nós estávamos.
— Sabe, Phillip, você merecia uma lição ou continuaria me desafiando. – Começa o rei, aproximando-se do filho. – Agora repita comigo: perdão, Majestade. Eu prometo nunca mais te desafiar.
— Não importa o que você faça comigo, eu jamais pedirei perdão quando você é o monstro aqui! O nosso povo não aguenta mais guerras. Por sua culpa, pessoas estão morrendo e passando fome. Não há alimentos para todos, nosso país foi completamente destruído e não há remédios para tratar dos enfermos. Ainda assim, tudo o que você pensa é em matar Edgar, em se mostrar superior. Isso não trará benefício algum a nós! – Grita Prince, furioso. Suspiro aliviada por saber que ao menos o futuro rei de Krósvia parecia ter alguma consciência da situação em que estávamos vivendo.
— Você não me deixa outra escolha, Phillip.
— O que quer dizer com isso? – Questiona Prince ao pai, que vira de costas para o filho e se aproxima de sua brutal sombra. Ele sussurra alguma coisa para o homem, que sorri satisfeito e concorda. – O que você vai fazer?
Analiso a sala mais uma vez, buscando algum detalhe que eu teria deixado escapar, mas não havia nada naquele lugar. A sombra se aproxima de Prince com uma máquina estranha ao seu lado. O príncipe volta a se debater, enquanto a sombra colocava dois fios em cada lado da testa do garoto. Vejo debaixo da mão da sombra um mostrador com uma alavanca e números ao redor de sua circunferência.
[Início da Cena de Tortura]
Sem dizer nada, o homem faz um pequeno movimento na alavanca que faz Prince urrar de dor. Manu se encolhe atrás de mim e é possível ouvir seu choro baixo de desespero, enquanto Tyler coloca a mão sobre a boca da garota para impedir que o rei ou algum de seus guardas nos escutassem.
Era aterrorizante ouvir a agonia do príncipe, enquanto o choque era produzido em seu corpo. Eu sabia bem que aparelho era aquele. Um dos inúmeros usados pelas sombras do rei para torturar e manipular a mente da vítima. Meu pai havia me contado uma vez que um de seus amigos sofreu uma espécie de lavagem cerebral por causa de um experimento como esse. Enquanto utilizam a carga elétrica para embaralhar o cérebro, quem controla o aparelho vai utilizando palavras para manipular as ideias e a sanidade de quem sofre a tortura.
— É uma dor apavorante, não é mesmo? Você não consegue ver o que está acontecendo e tem a sensação de estar sofrendo algum tipo de lesão fatal. É como se seu corpo estivesse sob efeito de uma força aniquiladora, que manipula as células de seu corpo. Como se sua coluna estivesse prestes a se partir e trincar em inúmeros pedaços. – Narra o rei, aproximando-se do filho que ainda agonizava de dor. Ele fica a poucos centímetros de seu ouvido e seus olhos parecem brilhar em satisfação. – Você está com medo. Eu tenho certeza de que tem a imagem bem nítida em sua mente de suas vértebras se rompendo e do fluido espinhal escorrendo delas, não é mesmo? Eu posso ver através de você, Phillip.
Prince apenas continua a gritar de dor. Era sufocante observar a cena. Eu queria entrar e acabar com tudo, mas sabia que qualquer movimento meu nesse momento poderia ser fatal para o príncipe. E então, a sombra do rei puxa a alavanca para a sua posição original, acabando com o sofrimento do garoto, que respirava ofegante.
— Como você pode ver, os números desse mostrador vão até cem. Eu usei apenas vinte por cento da sua força total. Isso significa que a qualquer momento, eu posso fazer você sentir uma dor tão mortal que é capaz de você se excretar. Então, repita comigo: perdão, Majestade. Eu prometo nunca mais te desafiar. – Fala o homem, puxando o rosto de Prince para que ele o encarasse.
— Nunca. – Responde Prince entredentes. Havia uma força sobrehumana em seus olhos que realmente era admirável.
— Quarenta, agora! – Grita o rei para sua sombra, que assim como mandado, volta a ligar o aparelho.
Os gritos de Prince retornam com força maior. Ele se debatia e trincava os dentes, como se tentasse conter a dor. Manu ficava ainda mais desesperada e eu continuava sem saber o que fazer. Tyler segurava a prima com força, enquanto apertava sua boca firmemente. Ambos choravam, cientes do quanto aquele castigo era cruel, ainda que não conseguissem ver o estado físico do garoto por estarem atrás de mim.
Sozinhos não conseguiríamos lidar com os guardas, a sombra e o rei, enquanto tiramos Prince e Tony daquele lugar. Se saíssemos, não conseguiríamos trazer ajuda a tempo, pois as únicas pessoas que seriam capazes de ir contra o rei é a família de Manu. Mas eu também não podia continuar vendo Prince ser vítima de seu pai de braços cruzados. Em algum momento, ele acabaria não aguentando as ondas elétricas e sua mente começaria a derreter.
[Fim da Cena de Tortura]
E é então que vejo Tony se mexer discretamente. Suspiro aliviada por constatar que ele estava vivo e começava a voltar a consciência. Por outro lado, temia que os guardas notassem e o fizessem desmaiar mais uma vez. Nesse mesmo instante, a sombra puxa a alavanca para cima mais uma vez, encerrando aquele momento de horror.
— Vamos tentar mais uma vez, Phillip. Você sabe que sua situação só irá piorar se continuar resistindo. Lutar contra mim é inútil. Eu sou o rei! Sou a autoridade maior desse país. Ninguém jamais iria contra as minhas ordens. Por isso, resistir é apenas um gasto de energia desnecessário. – Afirma Lester, sorrindo maldoso. – Repita comigo obedientemente: perdão, Majestade. Eu prometo nunca mais te desafiar.
— Eu prefiro morrer! – Sussurra Prince, ainda atordoado pelo choque.
Os olhos de Tony se encontram com os meus. Observo-o se mexer lentamente até alcançar sua arma. Ele então encara a única lâmpada que havia no local. E não demoro a entender o que ele queria. Mas nesse caso, eu precisaria contar com a sorte. Se ele realmente estiver planejando fazer o que eu imagino, precisaríamos ser rápidos e certeiros, algo difícil de se fazer quando se está no escuro.
— Sessenta por certo! – Ruge o rei a sua sombra, completamente furioso.
— Tyler, prepare-se para atirar. – Sussurro para o garoto, que me encara assustado, mas não demora a se colocar ao meu lado e sacar a arma que carregava.
E assim, após a última olhada ao cenário, atiro na cabeça da sombra e logo em seguida na lâmpada, escurecendo tudo. Uma série de tiros começa a ser ouvida e não sabíamos bem quem estávamos acertando. Tendo apenas uma fresta de luz vinda do que imaginei ser a porta da sala que dava acesso ao castelo para iluminar o lugar, corro até Phillip para resgatá-lo.
O rei ainda tenta atirar em mim, mas é atingindo com uma barra de ferro na cabeça vinda de Manu. Em seguida, a garota dá um soco no rosto de Lester Dawson, que cai desacordado no chão. Uma forte claridade invade a sala quando mais guardas aparecem na porta e acabam sendo surpreendidos por tiros vindos de Tyler. E somente nesse momento noto a quantidade de pessoas mortas no chão.
Respiro fundo e retiro os fios que estavam no rosto de Prince antes de soltá-lo. Ainda muito atordoado, ajudo-o a se sentar e percebo que seu estado era ainda pior do que eu havia visto de longe. Manu se aproxima e se joga sobre o garoto, o abraçando apertado. Apesar de confuso e ainda se tremendo muito por causa da quantidade de choque que havia levado, ele corresponde ao gesto, parecendo aliviado por finalmente a tortura ter terminado. Deixando os dois terem um pouco de privacidade, corro até Tony, preocupada que o rapaz pudesse ter se ferido durante as trocas de tiro.
— Você está bem? – Questiono, aproximando-me do mais velho, que suspira, mas assente com um sorriso cansado.
— Sim. Eu estou bem. Não se preocupe. – Afirma, observando a irmã mais nova com Prince. Coloco o braço dele para se apoiar em meu ombro e o ajudo a levantar. – E você? Não deveria estar em casa se recuperando?
— Quando Gavin chegou ferido em casa, desesperado porque Prince estava correndo perigo, eu não poderia simplesmente ficar de braços cruzados. E entre nós três, eu sou a que mais tem experiência em combates e em fugir nos soldados de Krósvia. – Digo e Tony suspira mais uma vez, contrariado.
— Nós estamos bastante encrencados. – Sussurra o rapaz, voltando a encarar a irmã, que continuava a abraçar Prince. – Talvez quando o rei acordar, a situação de Prince pode se tornar ainda pior.
— Não tivemos escolha. Se Prince continuasse a receber os choques elétricos, ele nunca mais seria o mesmo. Se seu cérebro não fritasse, ele acabaria se tornando uma versão ainda mais cruel do rei Lester. – Respondo, ajudando Tony a andar para perto de Tyler, que conferia a situação do rei, com a pouca iluminação que entrava pela porta de acesso ao castelo.
— Então você sabe o que aquela máquina faz. – Supõe Tony, pensativo.
— Sim. Meu pai me contou sobre ela e o que acontece com quem sofre a lavagem cerebral. – Conto, suspirando. – Nós realmente não podíamos deixar que o rei prosseguisse com essa loucura.
— Eu sei. Mas isso não melhora o fato de que quando ele acordar, estará furioso. – Responde, encarando-me com seriedade.
— Ele não deve demorar a acordar. – Alerta Tyler, após verificar o ferimento na cabeça do rei. – É melhor nós irmos embora e depois pensamos sobre o que devemos fazer quando ele acordar.
— De qualquer maneira, não adianta ficar sofrendo por antecipação. E pensando pelo lado positivo, o rei não viu nossas identidades e todos os outros que poderiam ter visto, foram mortos. – Relembro aos rapazes, olhando em volta de nós.
— Vamos embora! – Pede Manu, ajudando Prince a descer da maca. – Ele está muito ferido e não é seguro no castelo.
— Tudo bem. – Concorda Tony, tentando ficar de pé sozinho, mas vejo que ele ainda sente forte dores no corpo. – Vamos.
— É melhor você ajudar Tony, Tyler. – Oriento, preocupada. Tony ameaça me contrariar, mas levanto minha mão e o encaro firme. – Não adianta argumentar. Você ainda está sentindo dores, passou muito tempo inconsciente e não sabemos a gravidade de seus ferimentos. Por isso, se você tentar andar sozinho só vai nos atrasar. Eu ajudo Manu a levar Prince, já que ele é mais leve.
— Certo. – Responde o outro, dando-se por vencido. Tyler ri, enquanto aproxima-se do primo para que ele se apoiasse em seu ombro. – O quê?
— Quem diria que eu estaria vivo para ver o grande Tony obedecer as ordens de uma garota de treze anos. – Explica Tyler, rindo ainda mais.
— Cala a boca. – Responde Tony, rindo brevemente. – Diferente de vocês, ela tem bom argumentos. Não posso ir contra isso.
— Vamos. – Digo e, assim como Manu e Prince, Tony e Tyler seguem em direção ao corredor por onde nós havíamos entrado.
No momento em que os seguiria, sinto alguém puxar minha perna. Olho para baixo e vejo o rei me encarando com o rosto ensanguentado. Prendo minha respiração e sinto o medo me consumir. Seus olhos tinham um brilho perigoso e sinto um frio intenso em minha espinha.
— Isso... não vai... fica assim. Você... sofrerá como jamais... imaginou. – Ameaça Lester e algo dentro de mim me diz que ele faria de tudo para cumprir com suas palavras.
Assustada, me livro do aperto do homem e chuto seu rosto, fazendo com que ele voltasse a desmaiar. Sentindo meu coração palpitar fortemente e minha respiração pesada, corro para fora daquele lugar. Eu apenas esperava que o rei não tivesse gravado minha fisionomia e que eu tivesse sido a única a ser vista por ele.
— Você demorou. – Comenta Tony, preocupado, assim que eu os alcanço para fora daquele esconderijo macabro. – Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
Encaro o irmão mais velho de minha melhor amiga e penso sobre o que aconteceu instantes antes. Observo Prince e Manu, que me encaravam confusos. Muita coisa havia ocorrido em uma noite só. Eles não precisavam ter mais uma preocupação para ocupar suas mentes. Então, apenas sorrio e balanço a cabeça, negando.
— Está tudo bem. Vamos embora. – Respondo, indo em direção a Manu, que agora tinha o trabalho complicado de colocar Prince, que estava bastante ferido, sobre o cavalo para voltarmos para casa. – Você vai ficar bem, Prince.
— Obrigado. – Ele sussurra, física e mentalmente fragilizado.
Tiro um dos meus grossos casacos – que Henry havia exageradamente colocado em mim antes de sairmos -, e cubro o garoto que usava apenas uma fina calça. Ele se agasalha e vejo Manu o encarar com preocupação. Coloco minha mão sobre seu ombro e sorrio compreensiva, tentando transmitir um pouco de segurança a garota, que coloca sua mão sobre a minha e respira fundo antes de voltar a ajudar Prince a subir em seu cavalo.
Com muito esforço, quando o garoto finalmente consegue montar no lombo do animal, Manu se coloca atrás dele para guiar o cavalo. Com Tyler e Tony já prontos para partimos, subo no meu e galopamos o mais rápido possível para longe daquele pesadelo. Tudo o que precisávamos no momento é de um lugar quente e seguro para que pudéssemos nos acalmar e colocar nossas cabeças no lugar.
Durante todo o percurso, minha mente continuava a recriar a cena de Lester me encarando perigosamente. Eu ainda conseguia sentir o peso de suas palavras atingindo meu coração. O medo tão intenso que eu nem mesmo conseguia ter uma reação. Aquele homem havia sido a causa da morte de meu pai e de inúmeras pessoas inocentes. Eu tenho todos os motivos para odiá-lo – e eu realmente odeio -, mas ver suas atitudes com o próprio filho me fez ter ainda mais medo do que esse homem é capaz de fazer.
— Henry! – Grita Tyler assim que chegamos em casa, despertando-me de meus pensamentos. – Precisamos de sua ajuda!
Não demora muito para que Henry saia da casa acompanhado por Sean. Desço de meu cavalo e sou recepcionada por um forte abraço em minhas pernas. Sorrio e abaixo-me para ficar na altura de Sean. E mais uma vez, seus braços delgados contornam meu pescoço, em nítido alívio. Correspondo ao abraço, sentindo-me acolhida e amada. Aquilo com certeza era o que eu mais precisava naquele momento.
Vejo os olhos de Henry sobre mim e sorrio, apenas porque eu queria que ele soubesse que estava tudo bem. Ele sorri um pouco mais aliviado, mas logo volta a ajudar Manu a descer Prince do cavalo.
— Tay! – Exclama Sean, apertando ainda mais o abraço.
— Oi Sean. Desculpa pela demora. – Lamento, enquanto levanto-me com o garoto no colo. Sinto meu corpo inteiro doer, mas naquele momento, eu não me importava.
— Tay, você não pode pegar peso! – Repreende Henry, encarando-me com seriedade e preocupação. Suspiro, cansada. – É sério. Coloca o Sean no chão e vai descansar. Você já se movimentou muito mais do que deveria.
— Eu estou bem, Henry. Eu juro. – Afirmo, contrariada, mas acabo colocando a criança no chão. Não queria deixá-lo ainda mais preocupado. Viro-me para Sean, que pega em minha mão e me encara preocupado. – Não se preocupe, pequeno. Você não fez nada de errado. Está tudo bem.
Sean sorri e balança a cabeça, concordando. Sigo para dentro da casa e suspiro aliviada ao sentir o calor agradável do lugar. Gavin estava no sofá, apenas com sua calça, enquanto seu tórax estava enfaixado. Ele me encara esperançoso. Sorrio, afirmando silenciosamente que tudo havia acabado bem. O loiro sorri e suspira aliviado, mas logo sua expressão muda ao encarar o primo que estava praticamente irreconhecível.
— O quê...? – Sussurra, surpreso.
— Manu, vamos colocar Prince no sofá. Tyler, leve Tony para o quarto para que ele possa descansar. – Orienta Henry, ajudando a irmã a carregar o príncipe.
— Eu irei pegar mais gazes, água, algodão e toalhas limpas. – Digo, ciente do que o fitoterapeuta precisaria para limpar os ferimentos de Prince.
— Obrigado. – Ele agradece, sorrindo cansado.
— Sean, venha me ajudar. – Peço, seguindo com a criança para a cozinha.
— Ele está dodói. — Comenta Sean, entristecido.
— Sim. Mas o Henry vai fazê-lo ficar bom logo, logo, igual fez comigo. – Afirmo, enquanto procuro pelas gazes e algodão no armário de Henry. Pego um pouco de cada e estendo para Sean. – Leve para Henry. Eu vou pegar a água e as toalhas.
Assim como eu havia pedido, o garoto corre para a sala para entregar a Henry os materiais que ele precisaria. Pego três toalhas limpas, encho uma bacia com água e sigo para a sala. Coloco as coisas em uma mesa que havia próxima de Henry e vou para o lado de Manu, para consolar a garota que chorava silenciosamente, enquanto observava o estado desumano de Prince.
Eu a abraço com carinho e ela chora mais ainda agarrada a mim quando ouve os gritos de dor do príncipe ao ter as feridas profundas lavadas com água e algum outro produto para desinfectar os cortes. Era doloroso a forma como o rapaz mordia o pano em sua boca, implorando para que a dor acabasse. E Manu me apertava ainda mais, escondendo seu rosto na curvatura de meu pescoço, como se tentasse ao máximo se controlar e não demonstrar seu desespero.
Gavin me encara com tristeza. Nós compartilhávamos da mesma preocupação. Manu estava se culpando pelo que aconteceu com Prince, algo que ela já vinha fazendo desde o ataque de fúria do rei quanto ele invadiu o quarto de Prince após descobrir sobre a morte de sua sombra, e seu choro doloroso só mostrava o quanto ela estava fragilizada com toda a situação.
— Não foi sua culpa. – Sussurro no ouvido da garota, enquanto acaricio as cascatas negras que eram seus cabelos ondulados. Ela balança a cabeça, negando, e seu choro se intensifica. – Você não tem culpa de nada, Manu.
— Mas ele... – Ela soluça, incapaz de completar sua sentença.
— Ele vai ficar bem. Prince é muito forte e seu irmão é um fitoterapeuta incrível. Eu não tenho dúvidas que logo ele vai estar andando por aí, pensando em uma forma de parar aquele maldito rei. – Afirmo, apertando a garota ainda mais. Ela realmente precisava daquele apoio. – Por que não vai tomar um banho e descansar? Eu ajudo Henry a cuidar de Prince enquanto isso.
— Mas eu...
— No estado que você está só vai deixar Prince ainda mais preocupado. Você precisa se acalmar. – Oriento e ela suspira, concordando.
— Eu queria ajudar de alguma forma. – Resmunga, entristecida.
— Por que não vai ajudar Tyler com Tony? Seu irmão parecia estar machucado também e acho que a presença da irmãzinha dele vai ajudar e muito. – Sugiro e ela sorri fracamente.
— Tudo bem. – Ela concorda, afastando-se de mim. Manu encara Prince por mais um tempo e suspira. – Eu vou indo. Me avise se ele precisar de alguma coisa.
— Claro. – Concordo, aliviada por ver que ela parecia um pouco melhor.
Manu segue para o quarto dos irmãos, enquanto eu me aproximo de Henry para ajudar a segurar Prince, que continuava a complicar o trabalho do fitoterapeuta por não conseguir se manter parado. Sean fica ao meu lado, assustado com os urros de dor do jovem príncipe contra o pano que estava em sua boca para ele morder quando a dor estivesse insuportável.
— Você deveria descansar. Eu posso cuidar dele. – Insiste Henry, visivelmente contrariado com a minha teimosia.
— Henry, você está cuidando de feridos desde cedo. A situação de Prince não é uma das melhores e com ele se mexendo assim, não conseguirá terminar tão cedo. Então para de se preocupar comigo e me deixa te ajudar. – Respondo e ele suspira frustrado.
— Tudo bem. Mas deixa que eu o seguro, enquanto você limpa os ferimentos. Eu já dei medicamentos para amenizar a dor, então não deve demorar muito para que ele durma e seja mais fácil de fazer os curativos. – Explica Henry, parando de limpar um dos ferimentos do príncipe.
— Vocês deveriam parar de... falar de mim como se eu não estivesse aqui. – Resmunga Prince, tirando o pano que estava em sua boca.
— Como você está, Prince? – Questiona Gavin, aproximando-se com cautela do primo, visivelmente preocupado. O loiro havia perdido muito sangue e estava incrivelmente pálido. Henry lança um olhar repreendedor e o rapaz volta a se deitar no sofá onde estava antes.
— Eu nunca sentir tanta dor... em toda a minha vida. – Responde o príncipe fracamente. – E sinceramente, nunca tive... tanto medo de morrer.
— Eu sinto muito. – Sussurro, sentindo o peso que aquelas palavras tinham. – Desculpa termos demorado tanto.
Prince nega, balançando a cabeça lentamente, exausto. Ele me encara com seus olhos espelhando a dor emocional que sentia, que com certeza superava a física. A pessoa que deveria o proteger havia o torturado brutalmente. Ainda que pensassem diferentes e tivessem personalidades distintas, Lester ainda é o pai de Prince.
— Obrigado por me salvar. Se não fosse por você, eu... eu... – Agradece em um sussurro, como se aquele fosse seu maior segredo. E uma imensa vontade de chorar me atinge. – Obrigado, Taynara. E obrigado a você também, Gavin, que se arriscou tanto apenas para me salvar. Eu realmente tenho uma enorme dívida com todos vocês.
— Não se preocupe com isso, Prince. Nós somos uma família. É isso que famílias fazem. Elas cuidam uns dos outros. – Responde Gavin, sorrindo fracamente.
— É. – Concorda o príncipe, pensativo. – Ao menos é isso que o que as famílias deveriam fazer. Proteger, amar, respeitar, cuidar um dos outros.
E o clima se torna tenso e melancólico. Gavin me encara, arrependido pelo que havia dito. Respiro fundo, também abalada com o que Prince havia dito, porque eu sabia o que ele sentia. Minha mãe deveria me amar, proteger, cuidar de mim, mas tudo o fez comigo desde a morte de meu pai foi me machucar, descontando sua raiva do mundo em mim sempre que podia.
Sean se aproximar mais de mim e me encara preocupado. Era incrível a ligação que havíamos criado com tão pouco tempo de convivência. Sorrio para o garoto e dou um beijo estalado em sua bochecha, fazendo com que ele risse e me abraçasse.
— É melhor terminarmos de fazer os curativos para que você possa descansar um pouco. – Orienta Henry, provavelmente tentando aliviar o clima. Prince concorda, respirando fundo, antes de colocar o pano em sua boca mais uma vez.
E assim, Henry e eu voltamos a cuidar dos ferimentos de Prince, enquanto Sean continuava ao meu lado. Quando enfim terminamos, Gavin já havia dormido e não demorou muito para que Prince pegasse no sono. Olho para a criança que havia permanecido tanto tempo em pé ao meu lado e o pego no colo. Vencido pelo cansado, não demorou muito para que Sean acabasse dormindo.
Preocupado que eu pegasse peso, Henry pega Sean de meu colo e o leva para o quarto que estou dividindo com Manu, enquanto eu vou para cozinha, preparar algo para comer. Eu estava faminta e tinha certeza de que Henry não estava diferente, ainda mais depois de cuidar de tantos feridos.
No entanto, minha mente volta a me castigar assim que estou sozinha. Inúmeras lembranças de minha mãe voltam a minha mente e se misturam ao terror que senti ao ser encarada por Lester Dawson ensanguentado após ter o presenciado torturando o próprio filho sem sentir qualquer remorso por isso.
— O que você está fazendo? – Questiona Henry, entrando na cozinha. Arfo, assustada, e levo a mão ao meu coração, encarando-o com repreensão. – Desculpa. Não queria ter te assustado.
— Tudo bem. Estou apenas preparando um mingau. Espere um pouco. Não deve demorar a ficar pronto. Não é uma grande refeição, mas deve saciar nossa fome. – Respondo, sorrindo levemente. Ele sorri e se senta em uma das cadeiras da mesa de jantar, completamente exausto. – Você viu como Tony está?
— Sim. Ele vai ficar bem. Tyler fez um curativo em sua cabeça, onde ele recebeu uma coronhada e colocou gelo no abdome, onde ele foi chutado algumas vezes. – Conta Henry, pensativo. – Eu dei um pouco de anti-inflamatório para ele. Amanhã de manhã ele já deve se sentir bem melhor. Tyler e Manu felizmente conseguiram dormir. E Sean está dormindo em sua cama.
— Obrigada por ter levado ele. – Agradeço, abaixando um pouco do fogo, para cozinhar o mingau. – E como você está?
— Não era eu que deveria estar fazendo essa pergunta, mocinha? Por que insiste em me desobedecer? Você deveria estar de repouso para se curar completamente das suas queimaduras e não arriscando a sua vida confrontando os soldados do rei Lester. – Resmunga, frustrado. Rio de seu comportamento. – O quê?
— Você parece um velho rabugento. Já perdi as contas de quantas vezes me mandou ir descansar, Henry. – Respondo, divertindo-me com sua careta.
— Que tal me ouvir pelo menos uma vez, já que eu repeti isso diversas vezes? Você é a paciente mais teimosa que eu já tive em toda a minha vida. Por que não pode simplesmente se deitar e ficar quieta, assim como todas as garotas quando se machucam? – Reclama, o que me faz ri ainda mais. Apago o fogo do mingau e encho os dois pratos que estavam próximos de mim.
— Eu não sou como todas as garotas. – Sussurro próximo ao ouvido de Henry, que se afasta, assustado. Seguro o riso, enquanto coloco o prato de mingau em frente a ele. – Eu estou bem e nós já conversamos sobre o motivo de eu precisar ter ido com Manu e Tyler ao resgate de Prince. Você viu como sua irmã ficou? Acha mesmo que Tyler teria conseguido trazer Tony e Prince sozinho?
— Eu sei que não, mas... – Henry suspira e come um pouco do mingau. Sorrio satisfeita ao ver que ele havia gostado do sabor. – Uau, isso está delicioso.
— Obrigada. – Agradeço, antes de começar a comer. Solto um gemido de prazer ao engolir o alimento. Eu sabia que estava com fome, mas somente nesse momento foi que notei que eu realmente precisava me alimentar. Vejo Henry me encarando intensamente. – Não é só você que tem algum dom por aqui, Senhor Fantástico.
O apelido que eu havia dado ao rapaz, devido ao seu fascínio por super-heróis faz Henry sorri. No entanto, ele logo volta a me encarar de forma indescritível.
— Você é realmente incrível. – Comenta o outro, sorrindo. Suas palavras me pegam de surpresa e me fazem corar, envergonhada.
— Eu apenas fiz um mingau saboroso. Não é motivo para me achar incrível. Qualquer um pode fazer um mingau, se tentar o seu melhor. – Brinco, tentando não me sentir tão mexida com as palavras do rapaz. – Se pararmos para pensar, você que é incrível. É um excelente fitoterapeuta de apenas dezesseis anos. Isso sim é incrível.
— Você sabe que eu não estou falando apenas do mingau, apesar de ser realmente incrível como você conseguiu deixar essa farinha de arroz tão saborosa. Eu nem mesmo gosto de mingau de arroz. – Comenta Henry, sorrindo. – Mas sendo sincero, você é uma das pessoas mais incríveis que eu já conheci. E olha que eu sou irmão de Anthony Santos. Não tem ninguém mais surpreendente do que ele.
— Isso é verdade. Seu irmão é mesmo surpreendente. – Concordo, rindo. – Mas do que exatamente você está falando?
— Você é tão inteligente, que é capaz de criar estratégias incríveis. É excelente com armas, cozinha muito bem e é ótima com crianças. Mesmo tendo treze anos, é madura e extremamente responsável. – Responde o garoto de cabelos negros brilhantes e encaracolados. – E é incrivelmente teimosa.
Rio, envergonhada. Eu nunca havia sido tão elogiada, por isso não sabia bem como reagir a declaração tão sincera de alguém tão fantástico quanto Henry. Mordo meu lábio, enquanto brinco com o mingau em meu prato. Olho para o relógio que estava pendurado na parede e vejo que se passavam da meia noite.
— Se serve de consolo, eu tenho catorze anos agora. Isso explica a minha maturidade, Senhor Fantástico. – Brinco, sorrindo para o jovem fitoterapeuta, que me encara surpreso.
— Hoje é seu aniversário? – Questiona, olhando para o calendário que havia na parede da cozinha. Balanço a cabeça, dando de ombros. Ele se levanta e se aproxima de mim com os braços abertos. Sorrio e me levanto para o abraçar. Ele me puxa e seus braços rodeiam minha cintura, enquanto eu enlaço seu pescoço. – Feliz aniversário, teimosa Taynara, que não cansa de me surpreender e de me desobedecer.
— Obrigada, Senhor Fantástico, também conhecido como o melhor fitoterapeuta de Krósvia. – Agradeço, realmente feliz. Essa era a primeira vez que alguém comemorava meu aniversário desde a morte de meu pai. Afasto-me do garoto, ainda que meus braços continuassem em seu pescoço e os seus em minha cintura. Eu estava envergonhada por ter gostando tanto de seu abraço. – E pare de agir como um velho rabugento. Você só é dois anos mais velho do que eu.
Ele me encara intensamente. Nós estávamos tão próximos, que eu conseguia ouvir seu coração batendo forte. Engulo em seco e olho para qualquer lugar que não fosse os olhos castanhos calorosos que me traziam tantos pensamentos confusos desde que eu os havia visto pela primeira vez. Henry pega em meu queixo com delicadeza e me faz o encarar. Eu não tinha dúvidas de que estava vermelha como um tomate. Tento olhar para qualquer lugar que não fosses os olhos e a boca de Henry, mas era uma missão impossível, quanto ele fazia questão de me observar tão de perto.
— Tay... – Ele sussurra roucamente e sinto meu corpo se arrepiar. Finalmente crio coragem para encará-lo. A beleza de Henry era injusta demais para que eu conseguisse ficar mais do que poucos segundos observando-o sem me sentir o patinho feio perto dele. Mas naquele momento, eu me sentia tão bonita e, estranhamente, amada. O brilho presente nos olhos de Henry enquanto me encarava era encantador.
E então seu rosto passa a se aproximar do meu. Meu coração dispara como um louco. Sinto a respiração de Henry atingir meu rosto e acabo fechando os olhos, completamente hipnotizada e entregue ao que quer que acontecia naquele momento.
— Feliz aniversário, Tay. – Sussurra Henry, antes de me beijar e me fazer experimentar pela primeira vez a sensação de se estar apaixonada.
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