Fire Scars

32 Saída de Amigos


Capítulo XXXI – Saída de Amigos


“Venha para casa, volte para casa

Porque eu estive esperando por você

Por muito tempo, por tanto tempo

E agora há uma guerra entre as vaidades

Mas tudo que eu vejo é você e eu

A luta por você é tudo que eu já conheci

Então venha para casa”

Sara Bareilles – Come Home


Most – 1999

O retorno de Olga, Leon e Prince havia comovido todo o QG da Resistência e foi recheado por muitas risadas, lágrimas e celebrações pelos membros tão conhecidos terem retornado de sua missão secreta. Mesmo aqueles que não os conheciam, se sentiam animados pela agitação dos líderes da organização, que não disfarçavam a satisfação por tê-los de volta.

Nina, que era conhecida por sua conduta contida, ainda que carinhosa e compreensiva, não conseguia controlar as lágrimas que desciam pelo seu belo rosto. Entre beijos, abraços apertados e declarações de amores emocionante do casal, era impossível não se sentir sensibilizado pelo carinho e amor compartilhado entre eles.

Irina era outra pessoa que não conseguia conter a felicidade de ter a melhor amiga de volta. Mesmo Olga sendo conhecida pelo temperamento difícil e por ter dificuldades em lidar com o contato físico e carinho das outras pessoas, ela parecia bem feliz e confortável ao seu esmagada pela amiga e ouvir todas as histórias que perdeu nesses últimos três anos.

Inclusive, para a surpresa de todos, ao descobrir sobre o namoro entre Irina e Tyler, ao invés de brigar com a amiga ou avançar contra meu primo, opondo-se ao relacionamento, ela sorriu e felicitou o casal, parecendo genuinamente feliz pela notícia.

E nesse momento, eu percebi que Olga havia se tornado uma nova pessoa. A linda garota já não era mais uma adolescente revoltada com o mundo, pronta para atacar qualquer um que ela não gostasse ou que ia contra suas convicções.

Olga se tornou uma linda mulher, madura e contida. Mesmo que ainda carregasse aquele ar de desconfiança e perigo, ela parecia muito mais sociável e não demonstrava mais ter qualquer ódio por nós. Principalmente por Prince, com quem percebi ter trocado diversos olhares significativos desde que eles chegaram e passaram a conversar com a gente.

Prince também havia mudado muito. Além da diferença física gritante, mostrando que os dezenove anos havia trazido ainda mais maturidade e sensualidade ao rapaz, sua personalidade também estava bem diferente. Ele ainda era o Prince. O rapaz de sorriso bonito e olhar gentil, mas havia algo diferente. Algo que eu não sabia dizer o que era.

Infelizmente, eu não tive qualquer oportunidade de conversar em particular com Prince para entender o que estava acontecendo, pois logo Leon, Olga e ele foram convocados por Johnny para irem a sala de reunião junto de Mia e Nina para conversarem.

Assim que Olga, Prince e Leon deixaram o estacionamento e desapareceram no corredor rumo à sala de reuniões de Johnny, o clima de agitação no QG começou a se dispersar.

Aos poucos, os membros da Resistência voltaram às suas rotinas, ainda comentando em voz baixa sobre o retorno de Leon, Olga e Prince. Tyler, Irina, Cam, Tori e eu seguimos juntos até o refeitório, tentando nos afastar da curiosidade e do burburinho que crescia no ar.

O refeitório estava quase vazio. Algumas xícaras esquecidas na hora do aviso da chegada do trio ainda estavam sobre as mesas, e o cheiro de café forte pairava no ambiente. Sentamos em uma mesa mais afastada, buscando um pouco mais de privacidade para conversar.

Naquele momento, eu conseguia ver que assim como eu, Tyler e Irina pareciam desconfiados de que alguma coisa estava estanha em nossos amigos.

— A Olga está completamente diferente — murmura Irina, apoiando os cotovelos na mesa.

Sua expressão pensativa mostrava que ela não sabia se diferente era a palavra certa para descrever a amiga, que se comportou de uma maneira que ela não estava acostumada.

Tyler solta um riso baixo, quase descrente. Meu primo também parecia incrédulo sobre o comportamento de Olga, que mesmo que tenhamos convivido tão pouco tempo, não parecia em nada com a pessoa que havia nos treinado por dez dias naquele submarino e tampouco com aquela que Irina relatava em suas histórias sobre a amiga.

— Diferente é pouco. Não sei vocês, mas parecia que eu estava olhando para outra pessoa — comenta meu primo.

— Eu também senti isso — acrescento, pensativa. — A Olga que conhecemos três anos atrás teria feito um escândalo quando descobriu sobre vocês dois, Irina. Mas hoje, ela só sorriu. Felicitou vocês. Como se estivesse genuinamente feliz. Ela nos odiava! Tudo bem que bem mais a Prince do que a Tyler e eu, mas eu me lembro claramente dela reclamar das vezes em que você nos defendia dos comentários sarcásticos e cruéis que ela fazia durante os treinos.

Irina balança a cabeça, inquieta.

— Eu conheço a Olga. E aquele sorriso não era só felicidade. Parecia calculado. Quase como se ela estivesse interpretando. Não parecia em nada com o sorriso que minha melhor amiga dava quando conversávamos ou compartilhávamos alguma novidade incrível.

— E não é só ela — destaca Tyler, pensativo. — O Prince também mudou. Ele ainda é ele, tem aquele jeito carismático, mas é como se tivesse voltado mais velho. Com um peso nos olhos que não dá para esconder. Eu não sei explicar. Tem algo realmente diferente nele.

As palavras dele pairaram pesadas sobre a mesa e eu não consegui deixar de pensar nos olhares silenciosos trocados entre Olga e Prince. Alguma coisa estava sendo escondida e eu sabia que jamais conseguiria ficar em paz até descobrir o que está acontecendo.

Foi então que Cam, que até então permanecia em silêncio, ergueu o queixo e nos encarou com um sorriso leve.

— Gente, escuta — pede Cam com aquela calma que só ele tinha. — É claro que eles mudaram. Passaram três anos longe, onde passaram por um treinamento que nem mesmo sabemos como foi e provavelmente participaram de missões que podem ter feito eles passarem por coisas pesadas. Vocês acham mesmo que alguém volta igual depois de algo assim?

Ele apoia as mãos na mesa, olhando de um para o outro.

— Mas mudado não significa que seja algo ruim. Talvez a Olga esteja mais madura, porque aprendeu a lidar com as próprias feridas e foi capaz de perdoar Prince por ele não ter se tornado o príncipe herdeiro de Krósvia. Talvez o Prince esteja mais sério, porque talvez tenha enfrentado missões que o fizeram agira de forma mais contida. Isso não precisa ser um problema.

Irina morde o lábio, ainda resistente.

— Você fala como se tivesse certeza de que eles estão bem. Algo muito ruim pode ter acontecido e eles podem estar escondendo da gente — resmunga a garota, preocupada.

Cam dá de ombros, sorrindo.

— Eu não tenho certeza. Mas sei reconhecer quando alguém encontra força em meio à escuridão. E é isso que eu vi nos dois. Eles sobreviveram, voltaram mais fortes e, no fim das contas, a primeira coisa que eles fizeram quando desceram do carro foi correr até vocês para abraçá-los e anunciar que eles estavam de volta. Isso já diz muita coisa.

Observo Tyler e Irina, e percebo que, por mais que ainda estivéssemos inquietos, as palavras de Cam traziam uma estranha sensação de alívio. Talvez houvesse verdade no que ele dizia. De fato, nós mesmos havíamos mudado. Não somos mais crianças. Passamos por inúmeros desafios e superamos cada um deles com muita luta.

Não deveríamos estar tão surpresos assim com as mudanças deles. Ainda assim, eu também sentia que havia muito mais por detrás das ações deles e meus instintos gritavam que eu não gostaria em nada de descobrir o segredo que eles guardam.

— Vamos esperar. Mais cedo ou mais tarde, a verdade aparece — comenta Tori, sorrindo levemente. — Não adianta nada vocês ficarem tão preocupados assim. Eu tenho certeza de que depois que eles terminarem de conversar com Johnny, Mia e Nina, eles irão esclarecer o que aconteceu nesses últimos três anos que os fizeram mudar tanto.

Irina se recostou na cadeira, suspirando.

— Mesmo assim... eu não consigo ignorar o jeito como a Olga e o Prince ficaram se olhando. Era mais que amizade. Eu nunca vi eles trocarem olhares assim antes.

Assinto lentamente, encarando minhas mãos.

— Eu também percebi. Não eram simples olhares de apenas amigos. Havia algo escondido ali. Olga parecia tão confortável perto dele e o Prince parecia que só tinha olhos para ela. Uma cumplicidade diferente.

— Você acha que eles estão... namorando? — sugere Irina, desconfiada.

Sinto meu corpo tensionar e meu coração se contrair com as palavras que se passavam pela minha mente, mas que eu estava evitando proferir, temendo que isso se tornasse mais real.

— Eu convivi a vida toda com a Olga e, mesmo quando ela estava ao lado de alguma pessoa que ela gostava, ela nunca olhou para ninguém daquela forma — comenta Irina.

Mordo meu lábio e tento controlar as minhas emoções. Não era como se eu pudesse exigir algo de Prince, já que nunca tivemos nada de fato. Três anos havia se passado e é claro que eu não poderia esperar que o coração do rapaz guardasse aqueles mesmos sentimentos que venho escondendo a tanto tempo. Ainda assim, por mais racional que eu tentasse ser, nada disso impedia a dor intensa em meu coração ao imaginar que Olga e Prince possam estar mesmo juntos.

Eu sentia meu mundo se quebrando e cada parte de mim desejando desaparecer. O que eu deveria fazer se eles de fato estiverem juntos? O que eu vou fazer com esse amor que existe dentro de mim há tanto tempo e que tenho cultivado com tanto esmero nos últimos três anos, ansiando o retorno dele? Como eu poderia parabenizá-los, quando me sinto tão traída?

Cam parece entender o que se passava em minha cabeça e imediatamente passa o braço por cima do meu ombro, surpreendendo-me com o contato repentino.

— Vocês duas estão tirando conclusões precipitadas demais. Vocês não acham que, depois de tudo que passaram juntos, não é natural que eles tenham criado um laço mais forte? Isso não precisa ser necessariamente um namoro. Pode ser só uma questão de sobrevivência que os uniram — afirma o rapaz, tentando soar otimista.

— Bom, eu também não descartaria a possibilidade de um relacionamento justamente por causa do que eles podem ter passado juntos durante esses três anos — comenta Tyler, encarando-me com seriedade. — Acho que é bom estarmos preparados para qualquer que seja a resposta.

Posso ver Cam chutar meu primo por debaixo da mesa e encará-lo com repreensão. Tyler se encolhe e resmunga de dor, enquanto Irina me observava com preocupação.

Mesmo que eu não tivesse confirmado nada, já suspeitavam dos meus sentimentos por Prince. Não foram poucas as vezes que me provocaram com o assunto, insinuando que eu era apaixonada pelo rapaz e mesmo negando, eu sabia que eu não soava exatamente sincera em minhas respostas.

Era vergonhoso, mas eu tinha catorze anos quando entrei na Resistência e já havia vivido muitas emoções ao lado de Prince. É claro que não seria estranho me apaixonar por ele. Mesmo assim, eu sempre tive esperanças de que ele correspondia aos meus sentimentos. Que todos os abraços, beijos na testa, olhares carinhosos e sorrisos gentis deveria significar alguma coisa.

— De qualquer forma, não vamos nos precipitar. Vamos apenas focar nas coisas boas. Hoje foi um dia tão incrível! — comenta Cam, dando um leve aperto em nosso meio abraço, antes de me soltar.

Encaro o rapaz e ele sorri daquele jeito otimista, trazendo um pouco de acalento ao meu coração.

— É verdade! Tyler se tornou líder de equipe e Manu e Cam foram promovidos a agentes de elite da Resistência. Além de Olga, Prince e Leon terem voltado bem, depois de tantos anos sem notícias — relembra Tori, sorrindo animada.

— Realmente — concordo, finalmente conseguindo me recompor. — Hoje foi um dia cheio de novidades boas.

Ainda conseguia ver os olhares preocupados de Irina e Tyler, mas decido que não poderia ficar me martirizando sem ouvir da própria boca de Prince se ele e Olga estão mesmo namorando. Por mais difícil que seja, eu precisava ser forte.

Cam bate de leve na mesa, animado.

— Eu acho que deveríamos comemorar! Vamos sair! Podemos ir ao Mommy’s — sugere o rapaz. — O que vocês acham?

— Você quer mesmo sair depois de um dia tão agitado como esse? — questiona Tyler, desanimado.

— Claro! — responde Cam, rindo. — A gente precisa disso. Faz meses que só vivemos em função de missões e treinamentos. Uma noite de música, comida gostosa, jogos e risadas não vai matar ninguém. Muito pelo contrário. Vai afastar todos esses pensamentos péssimos que vocês estão tendo.

Tyler bufa, mas não consegue esconder o riso ao ver o entusiasmo do rapaz.

— Você sempre acha que a solução para tudo é encher a barriga.

— Porque geralmente é! — retruca Cam, divertido. — E não me digam que não estão com saudade do lanche gigante de três andares do Mommy’s.

Irina arqueia a sobrancelha, tentando conter a animação.

— Confesso que estou com vontade de comer aquelas batatas fritas crocantes. Faz tanto tempo que não saímos todos juntos.

— Então está decidido! — responde Cam, batendo palmas, animado. — Hoje à noite, o Mommy’s será invadido por nós.

Olho em volta, vendo a animação de meus amigos ao planejarem a noite e relembro dos dois membros do grupo que estavam em reunião com Johnny.

— E se Olga e Prince não quiserem ir? Eles acabaram de voltar, podem estar cansados.

— É justamente por isso que eles vão adorar — rebate Cam, sem hesitar. — Eles precisam relaxar, se lembrar que ainda existe vida além das missões. Além disso, não é qualquer dia que a gente recebe tantas boas notícias de uma vez. E podemos ouvir um pouco mais sobre o que aconteceu com eles nesses últimos três anos.

— Eu concordo com o Cam. Vocês foram liberados e tenho certeza de que Johnny também deve dispensar Olga e Prince, depois da reunião. Nada melhor do que celebrar o retorno deles fora das paredes desse QG e apresentar a cidade para eles. Mommy’s vai ser perfeito. É seguro, discreto e familiar. Vai ser ótimo para conversar com eles — argumenta Tori, animada.

Tyler suspira, rendido.

— Está bem. Mas nada de voltarmos muito tarde. Amanhã, nós voltamos ao nosso treinamento — relembra meu primo.

— Relaxe, Ty — responde Irina, sorrindo. — O Mommy’s e todo o comércio no centro da cidade fecha meia noite hoje, já que é meio da semana. Nem tem como a gente ficar lá até tarde. Nós vamos, nos divertimos um pouco e voltamos.

Apesar do aperto no coração ao imaginar Olga e Prince lado a lado na lanchonete, eu sabia que Cam tinha razão. Precisávamos dessa noite. Precisávamos celebrar as conquistas do dia e ter um tempo de diversão entre jovens.

— Então está combinado — respondo, forçando um sorriso. — Hoje à noite, no Mommy’s. Assim que Prince e Olga deixarem a sala de Johnny, contamos a eles os nossos planos. Por hora, é melhor irmos nos arrumar.

Assim que todos concordaram com a ideia, o clima entre nós mudou. A preocupação que dominava nossas expressões foi substituída por um brilho de expectativa. Era como se tivéssemos nos dado permissão para respirar depois de tantas horas de tensão.

— Então vamos nos arrumar — relembra Cam, animado, já se levantando da cadeira. — Se é para ir ao Mommy’s, a gente precisa estar apresentável. Não é todo dia que temos motivo para comemorar.

Irina ri, sacudindo a cabeça.

— Você fala como se fosse um evento de gala. É só uma lanchonete, Cam.

— Uma lanchonete lendária — corrige o rapaz, erguendo o dedo em tom dramático. — Quem vive em Most sabe que o Mommy’s merece respeito.

Tyler bufa, encarando Cam com ironia.

— Tudo bem, mas eu só vou trocar de camisa. Não esperem mais do que isso de mim.

— Já é um avanço — comenta Tori com um sorriso divertido nos lábios.

Eu me levanto por último, ainda sentindo o coração apertado. A simples ideia de estar com Prince e Olga naquela mesa, cercados de risadas e lembranças, me deixava ansiosa. Mas ao mesmo tempo, ansiosa. Talvez fosse exatamente disso que eu precisava. Um ambiente neutro, fora do QG, onde pudesse observar melhor o que havia mudado neles e talvez descobrir respostas.

Seguimos juntos pelos corredores do QG. O burburinho ainda ecoava em alguns cantos, mas o dia já estava terminando e a movimentação diminuía à medida que cada grupo voltava de suas atividades.

— Então está decidido — comenta Irina, puxando meu braço com um sorriso cúmplice. — Assim que Olga e Prince saírem da reunião, a gente conta. Não vai ter como eles recusarem.

— É — concordo, tentando sorrir de volta. — Afinal, eles também precisam dessa noite.

Enquanto eu seguia para o quarto em que Irina e Tori compartilham no QG para pegar uma roupa emprestada delas, um pensamento martelava em minha mente. Aquela saída ao Mommy’s poderia ser apenas uma comemoração inocente ou o início de revelações que eu não estava preparada para ouvir.

Depois de terminamos de nos arrumar, todos voltamos a nos encontrar no corredor principal dos dormitórios. Trocamos as roupas pesadas que usamos nos treinamentos por peças mais estilosas e casuais. Pela primeira vez em meses eu vi meus amigos sorrirem sem aquele ar de cansaço. Cam, claro, parecia o mais empolgado de todos, como se a simples ideia de sair já fosse suficiente para renovar suas energias.

— Olha só vocês — comenta Cam, passando os olhos pelo grupo. — Se não soubesse que vamos ao Mommy’s, juraria que estavam se arrumando para um baile.

— Exagerado — responde Irina, ajeitando os cabelos soltos. — Só nós vestimos de acordo com a ocasião. Você mesmo disse que precisávamos estar apresentáveis.

Rimos baixo, mas logo o assunto voltou ao que realmente nos interessava. Olga e Prince ainda não tinham aparecido. Fazia tempo que eles estavam na reunião, e a ansiedade só crescia.

— Eles estão demorando demais — murmuro, olhando para o relógio de pulso. — Se demorarmos demais, não vamos conseguir aproveitar quase nada da noite.

— Concordo — responde Tori. — Vamos até a porta da sala de Johnny. Assim que eles saírem, falamos com eles sobre os planos para hoje.

Como não havia muito o que pudéssemos fazer, já que nem mesmo temos o número de telefone deles para mandar mensagem, avisando sobre os nossos planos, seguimos pelo corredor silencioso. O QG parecia mais calmo naquela hora da noite. As vozes que ecoavam antes tinham se transformado em murmúrios distantes. Apenas o som firme dos nossos passos preenchia o ar.

Quando chegamos ao setor das salas de reunião, encontramos o corredor quase vazio. Apenas duas luzes estavam acesas, projetando sombras alongadas no chão. A porta da sala de Johnny permanecia fechada, e de dentro vinha apenas um silêncio absoluto.

Cam se encostou na parede próxima a sala de reuniões, cruzando os braços com um sorriso maroto.

— Pronto. Assim que eles saírem, nós fazemos o convite. Aposto que vão aceitar na hora.

— Você fala como se fosse impossível eles dizerem não — resmunga Tyler, sem muita convicção.

— Confia em mim — retruca Cam. — Depois de três anos sem ver os amigos e recém-chegados a uma cidade que eles não conhecem, a chance de conhecer o Mommy’s vai ser irresistível.

Irina olha para mim com expectativa, e eu tento responder com um sorriso, ainda que meu coração estivesse disparado. Eu me sentia nervosa.

Nos acomodamos em silêncio, esperando. Cada segundo parecia se arrastar, e o corredor inteiro estava tomado por uma tensão quase palpável. Eu me perguntava como eles agiriam quando estivéssemos na lanchonete, conversando sobre a vida e compartilhando os acontecimentos dos últimos três anos.

Após alguns minutos em completo silêncio, finalmente ouvimos o som do trinco girando. Meu coração dá um salto imediato, e instintivamente todos nós nos endireitamos, como se estivéssemos prestes a enfrentar uma inspeção militar.

A porta se abriu devagar, revelando Olga e Prince.

Olga estava diferente do que tínhamos visto no estacionamento. A expressão dela estava mais contida, quase fria, como se tivesse guardado todas as emoções dentro de uma armadura invisível. Já Prince trazia aquele mesmo sorriso gentil, mas havia algo nos olhos dele. Um cansaço pesado, que nem mesmo o sorriso conseguia disfarçar, fazendo eu me questionar se era mesmo uma boa ideia obrigá-los a sair, depois da longa reunião que tiveram com os líderes da Resistência.

Assim que nos viram parados no corredor, os dois trocam um olhar rápido, quase imperceptível, antes de voltarem a nos encarar.

— Vocês estão nos esperando? — pergunta Olga, arqueando uma sobrancelha.

— Sim — responde Cam, tomando a frente com o entusiasmo que lhe era natural. — Porque temos planos para esta noite.

Prince inclina a cabeça, curioso.

— Planos?

Cam sorri ainda mais, como se estivesse prestes a anunciar algo grandioso.

— Vamos levar vocês ao Mommy’s!

Olga pisca algumas vezes, confusa com a afirmação de Cam. Provavelmente, tentando entender o que o rapaz queria dizer com isso.

— Mommy’s? O que é isso?

— É uma lanchonete famosa no centro da cidade. Um lugar simples, mas cheio de vida. Música, comida deliciosa, jogos e os melhores hambúrgueres que você vai comer na vida — afirma Irina, aproximando-se da amiga.

Prince deixa escapar uma risada baixa, olhando para Olga com um ar divertido.

— Parece tentador. Nunca estivemos no centro da cidade desde que chegamos, não é?

— Sim — confirma Olga, ainda sem sorrir por completo, mas com uma fagulha de curiosidade nos olhos. — Bom, Johnny nos liberou para descansar hoje e amanhã.

— Então está decidido. Hoje, todos juntos, no Mommy’s. Sem discussões — declara Cam, sorrindo animado.

Olga suspira, como se estivesse tentando disfarçar a própria animação.

— Você realmente não mudou nada, não é?

— É claro. Eu ainda sou teimoso e incrivelmente convincente — responde Cam, dando de ombros. — Além disso, temos inúmeras conversas para colocar em dia, não é mesmo? Vai ser divertido!

Prince sorri para mim por um breve instante e sinto meu estômago revirar. Era o mesmo sorriso de anos atrás, mas agora carregado de uma intensidade que eu não conseguia decifrar.

— Certo — responde Prince por fim, dando-se por vencido. — Nós vamos.

O corredor se encheu de uma energia leve, como se tivéssemos acabado de vencer uma pequena batalha. Não era apenas sobre ir a uma lanchonete. Seria a chance de estarmos juntos, vivendo um momento mais próximo de uma vida normal que poderíamos ter.