Fire Scars

33 Revelações


Capítulo XXXII — Revelações


“Você diz que quer sua liberdade

Bem, quem sou eu para te prender?

É verdade que você deve

Agir conforme seus sentimentos

Mas escute atentamente o som

Da sua solidão

Como um batimento, que te enlouquece

Na quietude da lembrança do que você tinha

E do que perdeu

Do que você tinha

E do que perdeu”

Fleetwood Mac – Dreams


Most – 1999

O vento frio da noite varria as ruas de Most quando deixamos o QG. Era uma típica sexta-feira na capital de Boise com jovens espalhados pelas calçadas iluminadas, casais de mãos dadas atravessando as praças e o burburinho das vozes se misturando ao som distante de música vindo dos bares. Acima de nós, o céu estava limpo, mas as estrelas, tímidas, mal conseguiam brilhar diante da claridade da cidade.

Depois de concordarmos com o passeio, Irina praticamente arrastou Olga para seu quarto, determinada a escolher a roupa da amiga. Prince seguiu para o quarto de Cam, com quem pegou uma roupa emprestada, já que, aparentemente, suas roupas haviam seguido direto para a casa dos Gibson.

Enquanto eles se arrumavam, Tori e eu fomos falar com Nina, pedindo permissão para que eu pudesse sair e, depois, dormir no QG. Para minha surpresa, ela não se opôs — pelo contrário, parecia até aliviada. Afinal, com Tyler, Prince e eu ocupando a casa a partir de agora, essa poderia ser a última oportunidade que ela e Leon teriam de aproveitar um momento só deles e matar a saudade dos três anos separados.

Como éramos sete, precisamos de dois carros da Resistência para chegar ao Mommy’s. Veículos simples, de vidros fumês, usados normalmente em missões discretas, mas que naquela noite nos serviriam como transporte de jovens ansiosos por algumas horas de normalidade. Cam, cheio de entusiasmo, tinha conseguido autorização de Johnny e ainda prometido que todos voltariam inteiros antes das duas da manhã.

No primeiro carro, eu estava no banco de trás com Tori, enquanto Tyler dirigia e Prince ocupava o banco do passageiro. No veículo atrás de nós vinham Cam ao volante, Irina ao seu lado e Olga no banco de trás.

O carro avançava pelas ruas iluminadas, e o reflexo das vitrines corria pelo vidro como flashes rápidos que me faziam sentir ainda mais presa ao silêncio. Tori permanecia em um silêncio que não é nada típico dela, e Tyler mantinha a atenção na estrada, com os olhos pretos sérios, a expressão calma, quase contemplativa. Mas era a presença de Prince no banco da frente que fazia cada minuto parecer interminável.

Três anos. Eu havia esperado três anos por aquele momento. Tantas noites de insônia imaginando o que diria, como seria ouvi-lo falar meu nome de novo, como soaria sua risada. Fantasiei reencontros cheios de palavras, de abraços demorados, de confissões. E, agora, aqui estávamos a poucos centímetros de distância, dividindo o mesmo ar e eu não conseguia dizer absolutamente nada.

Minha garganta parecia seca demais para arriscar uma frase. Cada vez que pensava em chamar sua atenção, em puxar um assunto banal sobre qualquer coisa. Talvez sobre a cidade, sobre o frio da noite, até sobre a música baixa que escapava do rádio, mas meu coração disparava tanto que eu desistia antes mesmo de abrir a boca.

Eu queria tanto que Cam estivesse no carro também, porque ele seria o primeiro a cortar o silêncio e fazer com que eu conseguisse interagir com o rapaz. Imaginei que Tori poderia me ajudar, mas, por não conhecer Prince, ela parecia não ter certeza se deveria dizer algo.

Prince se apoiava no banco, olhando pela janela como se tentasse absorver cada detalhe da cidade que não conhecia. Seu perfil estava iluminado pela luz amarelada dos postes, e eu reconhecia cada traço dele como se fosse um mapa gravado em minha memória. Mas havia algo novo em sua expressão, algo mais pesado, mais contido, que me impedia de enxergar o rapaz que conheci.

Era estranho. Eu estava ali, tão perto dele, mas ao mesmo tempo me sentia a quilômetros de distância.

Meus pensamentos se atropelavam.

E se ele já tivesse mudado tanto que não sobrou nada do que vivemos? E se o carinho que sempre achei ver em seus olhos nunca tivesse significado nada? Será que eu nunca mais serei capaz de ter uma conversa de verdade com ele?

A cada curva, a cada semáforo, minha ansiedade crescia. Eu me agarrava ao tecido da calça para manter as mãos firmes, mas o nervosismo transbordava no ritmo apressado da minha respiração.

E, mesmo em silêncio, eu sabia que Tyler percebia. Conhecia bem o peso do meu olhar quando caía sobre Prince. Conhecia o jeito como eu desviava rápido demais, como se fosse culpada de algo.

Talvez fosse. Talvez a culpa fosse só minha ter guardado esse amor em segredo, ter esperado demais de alguém que a única coisa que havia me prometido era que voltaria a salvo.

Olho de novo para o banco da frente, para os ombros largos de Prince, para o modo como ele ajeitava a manga da camisa emprestada de Cam. Senti uma pontada aguda no peito, uma mistura de saudade e medo. Algo que nunca havia sentido antes. Era como se houvesse um muro de ferro entre nós, que nos impedia de estar tão confortável como antigamente.

E compreendi, naquele momento, que a noite no Mommy’s não seria apenas uma celebração para mim. Seria uma prova. Uma provação silenciosa em que eu teria que superar se quisesse ter o meu melhor amigo de volta.

O silêncio no carro já parecia insuportável quando Prince, ainda olhando para a estrada à frente, respira fundo e finalmente acaba com a quietude.

— Eu preciso contar algo a vocês dois.

Meu coração dá um salto imediato.

Olho para Tyler de relance, mas ele permaneceu com o olhar fixo na estrada, ainda que a sua expressão corporal deixasse claro que ele estava tenso. Talvez, assim como eu, essas palavras tivessem o deixado preocupado.

— Pode falar — fala Tyler, ao ver a hesitação de Prince. — O que aconteceu? Está tudo bem?

— Sim. É só que...

Prince respira fundo mais uma vez e passa a alternar seu olhar entre meu primo e eu. Seus olhos azuis acinzentado pareciam ansiosos, nervosos, como se temesse a nossa reação e isso me deixa ainda mais tensa.

— Vocês sempre foram meus melhores amigos — comenta Prince. — Por isso não quero que descubram por terceiros ou que pensem que estou escondendo alguma coisa. E eu espero que vocês me entendam, ainda que possa ser um pouco confuso e...

— Fala logo, Prince. Essa sua enrolação está me deixando nervosa — resmungo, vendo que ele continuaria a enrolar por um bom tempo até dizer o que queria.

O rapaz dá uma risada forçada e assente. Minhas mãos se entrelaçaram automaticamente sobre o colo. Já sabia, no fundo, o que viria, mas ainda assim uma parte de mim implorava para que fosse outra coisa. Qualquer outra coisa.

— Eu e a Olga estamos namorando.

Prince revela de uma vez o seu segredo, como quem retira um peso do peito. Enquanto isso, o mundo parecia ter parado para mim. Mesmo esperando por isso, depois de observá-los interagir, ainda que tentassem disfarçar, ouvir em voz alta foi como uma pancada.

Aperto ainda mais os dedos, lutando para não demonstrar nada. Ainda assim, eu continuava em completo choque, sem nem mesmo saber o que dizer. Sinto a mão de Tori tocar discretamente a minha, tentando me dar algum apoio, mas nada disso parece surtir efeito.

Eu me sentia tão destruída e traída. Meu coração tinha sido atingido e se quebrado em milhares de pedaços, mas ao ver o olhar ansioso de Prince, eu nem mesmo era capaz de demonstrar qualquer reprovação.

— Vocês dois? — pergunta Tyler, mais surpreso do que incrédulo. — É sério mesmo?

Prince assente, ajeitando-se no banco.

— Eu sei que parece estranho. Quando nos afastamos de vocês, nós mal nos tolerávamos. Na verdade, Olga tinha um ressentimento muito profundo contra meus pais e não conseguia controlar sua raiva ao ver que eu possuía a aparência tão semelhante ao homem que ela mais odiava no mundo. Mas a verdade é que lá fora, longe dos nossos amigos, só tínhamos um ao outro.

Ele suspira e passa a mão pelos cabelos.

— Três anos atrás, quando Olga e eu permanecemos no submarino com Leon, nós seguimos viagem para Landover para encontrar um amigo de confiança de Johnny que iria cuidar da gente durante o período da nossa missão, que era nos infiltrarmos em um grupo de rebeldes que viviam ao redor de Most e que aparentemente era liderado por um velho conhecido de Johnny da Fire Scars. Se esse grupo se mostrasse aliado aos objetivos da Resistência, nós iriamos unir forças. Então, meio que Olga e eu precisávamos estar disfarçados para estudar esse grupo — explica Prince.

Um novo suspiro escapa de seus lábios e ele volta a encarar a janela, como se estivesse prestes a contar uma parte difícil da história, que ele não gostava de lembrar, mas que estava fazendo um esforço para ser sincero com a gente.

— Assim que chegamos em Landover, Olga e eu assumimos a nossa nova identidade e passamos a fingir sermos um casal, assim como Johnny havia ordenado, mas parece que não fomos bons o bastante para convencer e acabamos sendo atacados pelo grupo rebelde. No meio da confusão, Olga ficou gravemente ferida ao me salvar de um tiro fatal, Arnie, o amigo de Johnny, acabou morrendo para nos proteger e eu quase perdi meu braço enquanto fugíamos.

Arfo, imaginando os perigos que eles viveram.

— Com esse ataque, nós perdemos todo o contato com a Resistência e tivemos que continuar fugindo por um bom tempo, pois, no meio do ataque, eu acabei matando a mulher do líder do grupo e ele resolveu que se vingaria de mim. O controle desse grupo era tão grande em Boise, que não conseguíamos ficar nem três dias direito em um esconderijo antes de precisar ir para outro.

— Meu Deus! — murmura Tori, chocada.

— Não foi fácil. Como Olga e eu estávamos entre a vida e a morte, foi um verdadeiro milagre que Leon tenha conseguido cuidar da gente e ainda nos proteger — comenta Prince, pensativo. — Quando já estávamos chegando no nosso limite, nós conhecemos um médico, que era de Krósvia e me reconheceu como o príncipe herdeiro. Felizmente, ele não me odiava e resolveu nos ajudar. Jack cuidou clandestinamente de nós em sua clínica em Aragon e salvou as nossas vidas. Mas, novamente, não demorou tanto para sermos descobertos e tivemos que voltar a fugir.

— Que droga, Prince! E vocês ao menos conseguiram se recuperar dos ferimentos antes de fugir? — indaga Tyler, indignado.

— Por sorte, sim. Ainda não estávamos totalmente bem, mas já éramos capazes de fazer uma viagem mais longa. Com as nossas identidades falsas, Leon conseguiu fazer passaportes para nós e fugimos para Marrocos. Lá, nós permanecemos por mais seis meses. Só que acabamos envolvidos em uma confusão entre duas facções do país e voltamos a participar de guerras civis — conta o rapaz, dando uma fraca risada. — Parecia que a guerra continuava a nos perseguir.

— Vocês ficaram seis meses lá e depois foram embora para onde? — indago, curiosa.

— Bom, Leon descobriu sobre a queda de Serafine e que os reis Mikael e Mirela haviam fugido para os Estados Unidos com o noivo de Ally, o pequeno Austin. Como já havíamos perdido contato com Johnny e a Resistência e não poderíamos ficar para sempre envolvidos nos confrontos em Marrocos, nós fomos atrás da família real para ficarmos observando-os até que conseguíssemos retornar para Boise — explica Prince, suspirando.

— Então vocês passaram dois anos e meio nos Estados Unidos, ajudando a família real de Serafine? — questiona Tori com curiosidade.

— Não. Apesar de termos os seguidos, nós não nos revelamos para eles. Apenas permanecemos observando e treinando em Miami Beach. O rei Mikael foi aliado do meu pai, então nós não tínhamos certeza de se ele era alguém em quem poderíamos confiar. Além disso, mesmo tendo a queda da coroa, inúmeros soldados seguiram os reis de Serafine para os Estados Unidos. Se por acaso eu revelasse a minha identidade e eles continuassem me vendo como um inimigo, poderia acabar sendo morto por eles, já que estávamos em desvantagem.

Prince volta a nos encarar.

— Enfim, desde que nos despedimos de vocês, Olga e eu estávamos sozinhos, cercados de perigo o tempo todo. Não dava para viver sustentando ódio. Então, deixamos isso de lado e nos tornamos amigos. Precisávamos ser companheiros e confiar um no outro se quiséssemos sobreviver em um novo país, sem poder confiar em ninguém.

Sinto a garganta apertar. A palavra amigos soava como uma ironia amarga.

Um sorriso fraco se faz presente nos lábios de Prince. Ele se vira parcialmente para nós e vejo seu rosto ser iluminado pelas luzes da rua.

— Eu sei que é difícil entender, mas enquanto enfrentávamos tantas coisas juntos e compartilhávamos tantos momentos difíceis, eu acabei me apaixonando por ela.

As palavras caíram sobre mim como pedras. Eu queria perguntar “e eu?”, mas minha voz estava presa em algum lugar do peito, sufocada. Sem conseguir rebater ao olhar apaixonado do rapaz, que mostrava toda a sua sinceridade.

Tyler respira fundo.

— Não é tão difícil assim de entender, Prince — comenta meu primo com sinceridade. — Eu também me apaixonei em meio ao caos. Só que, no meu caso, nunca houve ódio. Irina sempre foi minha amiga. Passamos tanto tempo juntos, enfrentando lado a lado, que um dia simplesmente não fazia sentido negar.

Prince o encara com atenção, como se absorvesse cada palavra. Um sorriso breve e cansado surge em seus lábios.

— Então você me entende — constata, aliviado.

— Entendo sim — responde Tyler, sorrindo para o amigo. — Quando tudo o que resta é confiar em alguém, esse alguém se torna tudo.

O silêncio voltou a preencher o carro, mas agora era diferente. Mais denso, mais real. Eu continuei encarando a janela, lutando contra as lágrimas que ameaçavam cair. Cada palavra dele era como uma lâmina girando dentro do meu peito, mas, ao mesmo tempo, havia tanta verdade na forma como ele falava de Olga que seria cruel negar.

Eu sabia que, se estivesse em seu lugar, lutando para sobreviver sozinho com outra pessoa, talvez tivesse feito o mesmo.

Respiro fundo, tentando acalmar o nó que apertava minha garganta, e me forço a falar antes que o silêncio se tornasse sufocante:

— Prince… eu sei que não deve ter sido fácil para vocês.

Minha voz treme levemente, mas respiro fundo mais uma vez e consigo prosseguir. Não era o momento para deixar minhas emoções fluírem. Agora, o homem a minha frente, de olhos azuis acinzentados, cabelos castanhos curtos e a barba por fazer, me encarava como uma criança, esperando a aprovação dos pais.

— Vocês sobreviveram a coisas que eu nem consigo imaginar. Mas, se nesse meio tempo encontraram força um no outro, isso só mostra que são mais fortes juntos. Eu apenas estou feliz que vocês tenham voltado para nós.

Prince me encara com surpresa, como se não esperasse aquelas palavras. Por um instante, o brilho ansioso de seus olhos deu lugar a algo mais suave, um alívio quase palpável.

— Então, você não está com raiva de mim? — pergunta em um sussurro, quase inseguro.

Sinto uma pontada aguda no coração. Eu queria odiá-lo, mas como poderia, quando mesmo me sentindo traída, eu ainda preferia vê-lo sorrir a questionar se em algum momento, ele me amou ou se pensou em mim como algo além de uma amiga.

Mesmo assim, forço um sorriso, que eu sabia que estava longe de ser o meu melhor.

— Claro que não. Você continua sendo o Prince, meu melhor amigo. Isso não mudou. Só... pode ser que demore um tempinho até eu me acostumar com vocês... juntos.

Prince me encara por alguns segundos e o sorriso que surge em seu rosto foi genuíno. Um daqueles sorrisos que sempre me desarmavam antes dele partir. O mesmo sorriso pelo qual eu havia me apaixonado. O mesmo brilho no olhar que fazia meu estômago se revirar.

— Obrigado, Manu. Eu precisava ouvir isso.

Ele se vira de volta para a janela, ainda com um enorme sorriso nos lábios, como se agora, finalmente, se sentisse confortável para abrir o coração.

— A Olga me entende de uma forma que ninguém nunca conseguiu. Eu sempre tentei ser forte por todos, escondendo meus sentimentos e dando prioridade para o que eu precisava fazer. Claro, eu conseguia conversar com vocês dois, mas, eu sempre temi sobrecarregar vocês, porque ambos sofriam com o luto da perda da família e era a primeira vez que passavam pela guerra, assim como eu. Mas com ela eu não precisava fingir. Com ela, eu podia ser só eu, porque ela conseguia me ler. Ela havia passado por isso antes, sabia exatamente como eu me sentia. E, no começo, isso me assustou. Mas depois, eu percebi que era exatamente o que eu precisava.

As palavras dele me atravessavam como estilhaços, mas eu permaneço quieta, apenas observando. Havia dor, sim, mas também uma estranha sensação de paz em vê-lo falar com tanta sinceridade. Ele parecia mais leve, como se finalmente pudesse respirar.

— Eu entendo você, Prince. De verdade. Foi assim comigo e a Irina. Eu conseguia conversar sobre qualquer coisa com ela e, de repente, já não conseguia mais negar os meus sentimentos..

Prince vira-se para encará-lo e os dois trocam um olhar silencioso de compreensão. Um sorriso breve se formou em seus lábios.

— Então você sabe. Quando alguém se torna sua âncora, você não consegue mais viver sem ela — comenta Prince, sorrindo apaixonado.

— Exato — concorda Tyler, sorrindo da mesma forma, enquanto volta a focar na estrada.

Eu, por minha vez, recosto a cabeça no vidro da janela, sentindo o frio da noite atravessá-la.

— Manu, você está bem? — sussurra Tori, apenas para que eu a ouvisse.

Por dentro, estava em pedaços, mas ao olhar para Prince, falando com tanta clareza sobre seus sentimentos, percebo que nada apagaria o laço que tínhamos.

Ele podia ter mudado. Eu podia estar sangrando por dentro. Mas, ainda assim, ele continuava sendo o meu melhor amigo. E eu não estava disposta a perder isso.

— Sim. Não se preocupe — afirmo, forçando um sorriso.

Felizmente, as luzes cor-de-rosa do letreiro brilha diante de nós, iluminando a rua com um tom suave e acolhedor. O nome Mommy’s piscava em néon, acompanhado da imagem caricata de uma senhora sorridente segurando uma bandeja de hambúrgueres. O cheiro de fritura e pão tostado escapava pelas portas de vidro, misturando-se às risadas e ao barulho de copos vindos de dentro. Além do som animado das risadas dos diversos jovens que estavam do lado de fora.

Tyler estaciona o carro junto à calçada, e logo atrás, o veículo de Cam para também. O silêncio havia retornado, mas agora eu sabia que precisava esconder o que se passava dentro de mim. Respiro fundo, ajeitando os cabelos com os dedos e me obrigo a sorrir, ainda que meu coração parecesse apertado em um punho de ferro.

— Chegamos — informa Tyler, desligando o motor.

Prince se vira para mim e seu olhar demora um segundo a mais do que o normal. Talvez tentando confirmar se eu estava bem.

Forço um sorriso e assinto, como se nada tivesse acontecido. Mesmo desconfiado, ele assente e corresponde ao sorriso, um pouco mais animado.

— Vamos aproveitar a noite — afirmo e agradeço mentalmente as forças divinas por minha voz sair mais firme e animada do que eu esperava.

Descemos juntos. O ar frio da rua me atingiu de imediato, mas, de algum modo, me ajudou a recobrar os sentidos.

A poucos passos dali, Olga sai do carro, ajeitando a jaqueta preta sobre os ombros. Irina vinha logo atrás, animada, enquanto Cam fechava as portas com seu entusiasmo habitual.

— Então esse é o famoso Mommy’s? — pergunta Olga, erguendo uma sobrancelha curiosa.

Havia algo novo em seu tom, menos ríspido, quase divertido. Observo-a por alguns instantes. Ela continuava a exibir ondulados e volumosos cabelos ruivos, os olhos verdes intensos, as sardas no rosto e a cicatriz que vai da sobrancelha até a boca, mas estava ainda mais bonita e atraente do que da última vez que nós nos vimos, o que era ainda pior para a minha autoestima, já que nem mesmo poderia me animar, pensando que pelo menos sou mais bonita do que ela.

Não havia nem comparação. Claro, eu tinha mudado bastante nesses últimos anos. Crescido alguns centímetros, desenvolvido mais o corpo, ganhado alguns músculos por causa do árdua treinamento de Nina, mas eu não tinha nem um terço da feminilidade de Olga.

— Esse mesmo — responde Cam, sorrindo largo. — Você está diante do templo dos melhores hambúrgueres da cidade.

— Finalmente vocês vão conhecer o nosso ponto de encontro nos dias de folga — comenta Irina, segurando o braço de Olga como quem compartilha um segredo. — Eu tenho certeza de que vocês vão amar!

Noto o olhar de Prince sobre Olga e isso me machuca. Respiro fundo, voltando a me repreender por não ser capaz de controlar meus sentimentos e resolvo me aproximar delas, usando o sorriso mais natural que eu conseguia forçar naquele momento.

— Preparem-se, porque as batatas fritas daqui são viciantes. Vocês não vão querer parar de comer.

Olga me olha de lado, avaliando. Seus olhos, que tantas vezes me atravessaram como lâminas no passado, agora pareciam mais calmos e amistosos, mas ainda havia uma certa desconfiança em meu comportamento, como se estivesse se questionando até que ponto eu sabia.

— Então vamos ver se esse lugar é tudo isso mesmo — responde com um meio sorriso.

— Eu estou animado. Vocês falaram tão bem que as minhas expectativas estão altas — comenta Prince, aproximando-se com Tori e Tyler ao seu lado.

Olga o encara e posso vê-lo assentir. E, assim como ele havia comentado, eu posso ver que eles realmente conseguem se comunicar com o olhar, pois logo, a ruiva suspira aliviada e assente.

Irina se solta da amiga e se aproxima do namorado, que passa o braço por cima de seus ombros e a puxa para mais perto. Tori comenta algo com Cam, que me encara preocupado, mas, felizmente, não comenta nada.

Antes que entrássemos no Mommy’s, Olga diminui o passo e fica ao meu lado, enquanto os outros passam por nós, indo na frente, conversando sobre as expectativas da noite.

O néon cor-de-rosa refletia em seu rosto, dando-lhe um ar ainda mais sereno, diferente daquela garota que eu lembrava.

— Você parece surpresa — comenta, me olhando de soslaio.

Questiono-me mentalmente se aquela era algum tipo de provocação, mas ela parecia genuinamente interessada em conversar comigo. Sinto a tensão se apossar de meu corpo e Olga parece perceber. Um fraco sorriso surge em seus lábios e ela suspira.

— Não esperava me ver aqui, andando para uma lanchonete com vocês? — surpreendo-me com a mudança de assunto.

Reflito sobre suas palavras. Ela provavelmente havia desistido de me questionar sobre a minha opinião do relacionamento dela com Prince. Suspiro aliviada e observo nossos amigos, enquanto adentramos a Mommy’s.

— Para ser sincera, eu realmente não esperava por isso — confesso, dando uma fraca risada. — A Olga que eu conheci por dez dias naquele pequeno submarino teria recusado imediatamente o convite e dito que tinha coisas melhores para fazer do que comer hambúrgueres com a gente.

Ela arqueia uma sobrancelha, mas sorri de lado.

— Talvez três anos tenham sido tempo suficiente para eu me cansar de reclamar de tudo e parar de atacar as pessoas.

— Ou talvez tempo suficiente para descobrir que a vida pode ser mais simples às vezes — respondo, devolvendo o sorriso.

Olga me encara por alguns segundos e percebo que o raro brilho em seus olhos, que demonstrava certo reconhecimento. Como se, pela primeira vez, ela admitisse em silêncio que eu tinha razão.

— Você também mudou — comenta. — Está muito mais confiante e bonita. Não se parece mais aquela menina insegura e raivosa que eu conheci no submarino. Suas emoções estão mais controladas e posso ver que se tornou alguém bem habilidosa, ainda que já tivesse algum talento quando eu a treinei por dez dias, anos atrás no submarino.

Engulo em seco, surpresa com a observação.

— Bom, o treinamento de Nina não foi nada fácil e me obrigou a mudar bastante. Mas, obrigada.

— Eu não era fácil de lidar — comenta Olga, com um suspiro curto. — Eu sei que te fiz sentir coisas horríveis naquela época, porque era imatura demais para separar meu ódio de Lester de seu filho e amigos. Eu sinto muito pela forma que eu te tratei. Eu só quero que você saiba que meus sentimentos por Prince são verdadeiros e que eu sou grata por você ter ficado ao lado de Irina durante esse tempo em que estive longe. Eu quero de verdade que a gente consiga se dar bem.

Por um instante, minha máscara vacila. Meu peito se aperta, lembrando-me de tudo o que eu queria dizer, de tudo o que ardia em mim desde que descobri sobre ela e Prince, do sentimento de traição eu sentia, da gratidão que eu possuía por ela ter salvado Prince e estado ao lado dele quando tantas coisas terríveis aconteciam com ele.

Respiro fundo e mantenho o sorriso no rosto.

— Fico feliz de ouvir isso, Olga. Eu não sei como será daqui para frente, porque eu imagino que você saiba como eu me sinto em relação a Prince, mas eu apenas quero vê-lo feliz, e eu me importo muito com Irina, então também espero que possamos nos dar bem.

Ela assente lentamente, sem parecer realmente surpresa que eu tenha confessado indiretamente que sou apaixonada por Prince.

— Então acho que finalmente temos um recomeço.

Estendo a mão para ela em um gesto espontâneo. Olga olha para mim, surpresa, e depois aperta meus dedos com firmeza, com um sorriso discreto surgindo em seus lábios.

Naquele instante, percebo que, apesar da dor escondida dentro de mim, a amizade ainda podia ser construída. E talvez, só talvez, fosse esse o começo de uma nova forma de convivência entre nós duas, já que agora, ela é a pessoa mais importante no mundo de Prince.

Cam, que já estava segurando a porta do Mommy’s, grita da frente:

— Vamos logo, vocês duas! Ou vou comer todas as batatas sozinho!

Olga ri e solta minha mão, acelerando os passos.

Eu respiro fundo e ajeito os cabelos, agradecida pelo olhar compreensivo que Cam direcionava para mim, enquanto eu seguia atrás de Olga, pronta para enfrentar a noite. Eu sabia que nessa noite, ele seria meu ombro amigo mais uma vez e impediria que eu fizesse alguma besteira.