Fire Scars
34 Dádiva
Capítulo XXXIII — Dádiva
“Talvez algum dia eu seja tipo você e
Pise nas pessoas como você faz
Fugindo de todas as pessoas que eu achava que conhecia
Eu então lembro de antes como você era
Você costumava ser calmo
Costumava ser forte, costumava ser generoso
Você deveria saber
Que você abusa da hospitalidade e agora você vê
O quão é silencioso sozinho”
Link Park – A Place For My Head
✻
Most – 1999
As portas de vidro do Mommy’s se abriram diante de nós, liberando uma onda de aromas irresistíveis de pão tostado, carne grelhada, queijo derretido e batata frita recém-saída do óleo. O som das risadas misturava-se à música suave que tocava num jukebox no canto, criando um clima leve, acolhedor, quase nos fazendo esquecer de todos os momentos perigosos que vivemos em nossas últimas missões.
O salão estava cheio, mas não lotado. Jovens ocupavam os sofás vermelhos encostados às paredes, casais dividiam milk-shakes gigantes e grupos de amigos disputavam nos fliperamas ao fundo. As paredes eram decoradas com fotografias antigas da cidade, letreiros em neon e quadros de receitas famosas da casa.
Cam abre caminho como se fosse dono do lugar, cumprimentando alguns jovens que ele parecia conhecer, sociável como sempre.
— Mesa grande para sete pessoas, de preferência perto do jukebox — pede para uma garçonete que nos recepciona.
A moça de uniforme listrado e sorriso simpático, nos conduz até um dos sofás maiores, num canto que acomodava bem os sete. O estofado vermelho rangia um pouco, mas o espaço era perfeito, sendo íntimo, mas sem nos isolar do movimento.
— Esse lugar tem cara de ser bem antigo, apesar de ser frequentado por muitos jovens — comenta Olga, deslizando pelo banco até encostar-se à parede.
Seus olhos curiosos percorrem cada detalhe, como se tentassem absorver aquela atmosfera nova. Era possível ver que ela tinha gostado bastante do lugar.
— E é mesmo — responde Irina, animada. — A Mommy’s existe há décadas. É quase um ponto turístico da cidade.
— Ponto turístico dos jovens, já que reúne tudo o que eles amam: música, comida saborosa e muito jogos — comenta Tyler, sentando-se ao lado da namorada.
Sentamos todos, com Cam já puxando o cardápio para si. Prince ficou ao lado de Olga, na ponta oposta à minha, mas por alguma razão isso não diminuía a intensidade da minha ansiedade. Era como se cada movimento dele, cada palavra, cada sorriso em direção a Olga ecoasse dentro de mim.
— Certo! Eu já decidi o que eu vou comer — informa Cam, batendo o cardápio na mesa. — O delicioso Mommy’s Triple, o lanche gigante de três andares. Quem está comigo?
— Nem pensar — protesta Tori, revirando os olhos. — Não vamos perder a chance de saborear o clássico Mommy’s Burger.
— Eu topo o gigante — concorda Irina. Isso faz Cam comemorar e fazer um “hi-five” com a garota. — Se eu não conseguir terminar, o Tyler come o resto.
— Ei! Quer jogar as suas sobras para mim? — questiona Tyler, arrancando risadas do grupo. Ele ri e dá de ombros. — Eu vou querer um Mommy’s Hot, já que provavelmente vou ter que comer o restante do lanche de Irina.
Prince sorri com o olhar se iluminando, quase como se fosse uma criança descobrindo um novo brinquedo. Ele estava encantado com a lanchonete e nem mesmo era capaz de disfarçar.
— Acho que vou querer o clássico. Quero experimentar o que faz esse lugar ser tão famoso — afirma Prince, entregando o cardápio a Olga. — O que você vai querer?
— Eu também quero o clássico, mas com batatas extras — responde, encarando o garçom que passava com o pequeno balde de batatas fritas.
— Ah, isso é obrigatório — garanto, entrando na conversa com o máximo de naturalidade que eu conseguia. — Aqui as batatas são praticamente um patrimônio da cidade.
Olga olha para mim e sorri de uma forma amável e gentil, algo que eu definitivamente não estou acostumada. Por um segundo, sinto o peso em meu peito se aliviar, como se aquela noite tivesse o potencial de ser diferente do que imaginei.
— E o que você vai querer comer, Manu? O mesmo Mommy’s Bacon de sempre com batatas extras? — indaga Cam, atraindo a minha atenção.
— Você me conhece tão bem — respondo e ele assente, sorrindo levemente.
Após fazermos nossos pedidos para a garçonete, a conversa entre o grupo se espalha animada entre risadas e provocações. O ambiente parecia conspirar para nos fazer esquecer, ao menos por algumas horas, o peso das responsabilidades. Mas, mesmo cercada de vozes e música, minha atenção estava voltada para o outro lado da mesa.
Prince se inclinava levemente para falar com Olga, os ombros quase se encostando. Ele ria de algo que ela havia comentado, e a forma como seus olhos brilhavam deixava evidente que havia algo íntimo ali, algo que ultrapassava a amizade. Olga, por sua vez, parecia confortável como nunca. Seus lábios se curvavam em sorrisos sutis, e de tempos em tempos, ela o olhava de um jeito que dizia mais do que qualquer palavra.
A cada olhar trocado entre os dois, uma pontada aguda atravessava meu peito. Era como se eu estivesse invisível. Eu me forçava a rir das piadas de Cam, Tori e Irina, a fazer comentários sobre o cardápio, mas por dentro, cada segundo era um lembrete cruel de que Prince já não me pertencia nem mesmo no mundo das possibilidades.
Mesmo que eu conseguisse perceber que eles faziam um grande esforço para não demonstrar que estão namorando, provavelmente em respeito aos meus sentimentos por parte de Olga, cada gesto sutil e íntimo enchia meu coração de dor e raiva.
Por um instante, Olga se aproxima de Prince para ajeitar a gola da camisa emprestada de Cam. O gesto foi rápido, quase imperceptível, mas íntimo demais para passar despercebido. Prince apenas sorri, deixando que ela o fizesse, como se aquilo fosse natural entre eles.
Sinto minha garganta apertar. Desvio meus olhos para o copo d’água a minha frente, tentando me concentrar em qualquer coisa que não fosse aquela cena, mas era difícil controlar minha mente masoquista, que continuava a me presentear com cenários dolorosos e detalhes discreto das trocas de carinho do casal.
No entanto, desperto-me de minha sessão de tortura ao sentir a mão áspera e calorosa de Cam sobre a minha. Surpreendo-me ao ver seu olhar intenso sobre mim. Ele, que até então parecia imerso em seu entusiasmo exagerado com os pedidos, agora me olhava com atenção com os olhos atentos, quase protetores. Quando nossos olhares se cruzaram, ele não diz nada, mas seu sorriso leve carregava uma mensagem silenciosa, como se ele dissesse que entendia como eu estava me sentindo.
Aquilo me desarma ainda mais. Cam sempre parecia enxergar além do que eu queria mostrar.
— Ei, Manu — chama Cam, mudando de assunto de propósito, como se quisesse me resgatar daquela espiral de pensamentos. — Você ainda lembra qual é o milk-shake mais famoso daqui? Era o de morango com chantili ou o de chocolate triplo?
Pisco algumas vezes, surpresa com a pergunta repentina, mas agradecida pela intervenção.
— O de chocolate triplo — respondo, tentando sorrir. — É o mais saboroso.
— Então é esse que eu vou pedir! — exclama, levantando o dedo como se fosse um voto em assembleia.
As risadas se espalharam pela mesa, desviando a atenção de todos. Olga e Prince até ergueram os olhos para acompanhar a brincadeira, e por alguns segundos o clima voltou a ser leve.
Mas ainda assim, em algum ponto invisível entre eles, havia uma corrente silenciosa que me deixava inquieta.
O jantar passou entre risadas, provocações e exageros de Cam tentando terminar seu sanduíche de três andares. As batatas extras de Olga desapareceram rápido demais, e Prince acabou pedindo mais um balde para dividir com ela, o que arrancou olhares cúmplices entre os dois. Eu, por minha vez, me esforcei ao máximo para manter a máscara firme, de quem estava feliz e não se importava com o que acontecia ao meu redor, rindo quando devia, comentando sobre a comida, até brindando com os copos de milk-shake Cam fez questão de pedir para nós dois.
Depois que terminamos, fomos atraídos pelo barulho dos fliperamas ao fundo do salão. Tyler foi o primeiro a sugerir uma partida, e logo Irina o puxava pela mão para o jogo de corrida. Curiosa, Olga se aproximou de uma máquina de luta, e Prince não demorou a desafiá-la. Logo os dois estavam trocando provocações divertidas enquanto a tela piscava luzes coloridas. Tori, sempre competitiva, escolheu outro fliperama e foi jogar contra outro garoto em uma das máquinas de matar zumbis.
Eu fiquei para trás, próxima às mesas, observando-os de longe. A música do jukebox embalava o ambiente, e a mistura de vozes e risadas parecia criar um mundo paralelo, onde não havia guerra, nem dor, apenas jovens vivendo um momento simples e livre.
Mas, dentro de mim, a liberdade parecia distante. Eu olhava para Prince e Olga lado a lado, rindo, empurrando-se levemente, comemorando cada golpe no jogo como se fossem duas metades que haviam finalmente se encontrado. E aquilo me partia por dentro.
— Difícil de assistir, não é?
A voz calma de Cam me tira dos pensamentos.
Ele surge ao meu lado com dois copos de refrigerante na mão, estende um deles para mim e se senta, virando o corpo de forma a acompanhar meu campo de visão.
Suspiro, aceitando o copo.
— Está tão na cara assim?
— Para mim, sim.
Ele dá de ombros, bebendo um gole do próprio refrigerante. Seu olhar era gentil e compreensível, enquanto observava Olga e Prince se divertirem.
— Mas pode ficar tranquila, o resto do pessoal está distraído demais tentando quebrar recordes para perceber.
Dou uma risada fraca, quase aliviada. Torcendo para que Cam estivesse certo. Eu não queria estragar a noite de ninguém com as minhas dores e desilusões amorosas.
— Eu achei que estava conseguindo disfarçar bem.
— Você está — responde Cam, olhando direto nos meus olhos. — Só que depois de três anos estando ao seu lado, eu aprendi a te ler. Sei quando o seu sorriso é verdadeiro e quando é só para manter as aparências.
Minha garganta se aperta. Desvio meu os olhos para o copo, mexendo no gelo com o canudo.
— Eu não queria que fosse tão difícil. Ele era meu melhor amigo. E, de certa forma, ainda é. Mas agora… — hesito, tentando conter a emoção. — Agora parece que não há mais espaço para mim.
Cam fica em silêncio por um momento, absorvendo as minhas palavras doloridas e confusas. Por fim, ele suspira, parecendo frustrado com a situação.
— Manu, olha para mim.
Levanto os olhos, hesitante, e encontro o olhar firme dele.
— Vocês passaram por momentos complicados, possuem uma história única e eu vi a conexão de vocês no submarino durante os dez dias que passamos juntos. Aquilo foi real.
Cam me oferece um sorriso suave, quase protetor.
— Então, é compreensível que você se sinta traída e magoada. Por isso, você não precisa se fazer de forte e guardar tudo dentro de você. Se doer, deixa doer. Eu vou estar aqui para segurar o peso com você. Não vou sair do seu lado e prometo que farei o meu melhor para fazer você se sentir melhor.
As palavras dele me atingiram como um bálsamo inesperado. Engulo em seco, sentindo os olhos arderem, mas forço um sorriso.
— Obrigada, Cam. Você sempre sabe o que dizer.
Ele ri baixinho.
— Acho que estou melhorando meus talentos como ombro amigo — comenta e eu acabo rindo.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, observando a cena diante de nós. As luzes coloridas dos fliperamas piscavam no rosto de Prince e Olga enquanto eles riam, empurrando-se de brincadeira a cada golpe. O sorriso dela parecia mais leve, quase despreocupado. O dele tão cheio de sinceridade que me fazia sentir como se eu fosse uma intrusa assistindo algo que não deveria.
Suspiro, deixando escapar um sussurro que talvez fosse mais para mim do que para Cam.
— Ele não olha para mim assim. Nunca olhou.
— Manu, você ainda tem espaço no coração dele. Talvez não no lugar que você queria, mas isso não diminui quem você é para ele. não é porque ele olha desse jeito para ela que o que vocês tiveram deixa de existir. Você foi, e ainda é, alguém muito importante para ele — afirma Cam. — Apenas... eles passaram por muita coisa e acabaram criando uma ligação profunda, que o levou a vê-la como sua prioridade.
Aquelas palavras doíam, mas havia uma estranha honestidade nelas que me fazia não conseguir rejeitá-las.
— E se eu não conseguir aceitar isso? — pergunto em voz baixa, sentindo o peso da confissão.
Cam me olha de lado, sério, mas com uma doçura que me desconcertava.
— Então eu estarei aqui do seu lado até você conseguir.
Fecho os olhos por um instante, lutando contra a onda de emoção que ameaçava me sufocar. Quando os abri, Olga comemorava mais uma vitória sobre Prince, rindo alto, com os cabelos escarlates balançando conforme ela se virava para Irina e Tori, que batiam palmas em incentivo.
Prince, que eu desconfiava que havia deixado ela vencer de propósito, sorria como se aquela derrota fosse o melhor prêmio que poderia receber.
— Eles parecem se completar — murmuro, sem perceber que falava em voz alta.
Cam assente devagar.
— Talvez completem mesmo. Mas isso não diminui você, Manu. Às vezes, a vida junta pessoas porque elas precisam uma da outra naquele momento. Só que isso não apaga a importância dos que vieram antes. Pode ser que no futuro, vocês acabem juntos e esse momento se torne uma lembrança divertida que vocês poderão contar aos filhos.
Viro meu rosto para ele, confusa.
— Você realmente acredita nisso?
— Eu não sei o que o futuro nos reserva, mas eu acredito que tudo na vida tem um propósito e por isso não devemos deixar as coisas ruins ditarem o nosso presente. Se você lutar pelo que acredita, eu sei que uma hora, a recompensa virá e você vai ver que tudo valeu a pena.
Havia tanta convicção em sua voz que por um segundo senti que poderia acreditar também. Olho para o copo nas minhas mãos com o gelo quase derretido e deixo escapar um sorriso pequeno.
— Você é bom demais comigo, Cam.
Ele ri baixinho.
— Não é ser bom demais. É só que você é minha amiga e eu não quero que você se afunde em culpa e sofrimento por algo que não vale a pena.
Deixamos o silêncio nos envolver de novo, mas agora era diferente. Não pesado, não sufocante. Um silêncio que me permitia respirar, mesmo que o coração ainda doesse. Enquanto Olga e Prince continuavam no fliperama, lado a lado, e Tyler e Irina se provocavam nas corridas, percebo que ter esses momentos de paz, depois de tanto tempo afastados e de todo o sofrimento que nós enfrentamos, era de fato uma dádiva que eu precisava aproveitar.
Cam apoia o cotovelo sobre a mesa e me observa por alguns segundos, como se meditasse sobre o que iria dizer em seguida. De repente, ele se inclina levemente em minha direção, falando em um tom baixo, só para que eu ouvisse.
— Sabe o que eu acho que você deveria focar agora, Manu? — pergunta Cam com os olhos atentos.
— O quê? — indago, desconfiada.
Ele sorri de lado, quase como uma criança traquina prestes a revelar o seu plano mirabolante e que nos deixaria encrencados.
— Que nós dois fomos promovidos a agentes de elite da Resistência. Você tem noção do que isso significa?
Arqueio as sobrancelhas, surpresa pela mudança de assunto. Não estava nem mesmo mais me lembrando de nossa promoção e que essa saída havia sido também uma desculpa para comemorar esse passo em nossas vidas dentro da Resistência.
— Eu não sei se já parei para pensar nisso de verdade.
Cam ri, cutucando meu braço com o dedo.
— Claro que não. Você está ocupada demais sofrendo por coisas que não pode controlar e se afundando em autopiedade e culpa.
Ele balança a cabeça, divertido, mas a seriedade logo voltou ao seu olhar.
— Manu, você e eu chegamos até uma posição que é desejada por diversos membros mais antigos e experientes do que a gente. Depois de tudo. Depois de cada treino que parecia impossível, de cada missão que poderia ter acabado mal. Nós não somos mais recrutas inexperientes. Agora somos parte da linha de frente, comandando missões que podem trazer ainda mais força para a nossa princesinha Ally. Nós estamos próximos de sermos generais do exército da princesa Allycia. É algo imaginável, levando em consideração que ainda somos tão jovens.
As palavras dele penetraram fundo, trazendo de volta flashes da nossa trajetória. Os momentos de incertezas que vivi no submarino, os treinamentos de Nina que diversas vezes me fizeram experimentar os limites da minha mente e do meu corpo, as missões que pareciam maiores do que nós e que por muitas vezes nos deixaram a beira da morte. O peso, o medo e as vitórias que conquistamos em nome de um futuro para a princesa Allycia.
— Você conquistou isso, Manu — garante Cam, firme. — Não o Prince, não a Olga, nem ninguém. Você. Você superou seus medos, enfrentou desafios inimagináveis e provou para todos que duvidaram de suas habilidades, que você estava na Resistência por mérito próprio e não apenas porque era amiga do ex-príncipe herdeiro da coroa de Krósvia.
Mordo o lábio, sentindo meu peito aquecer de um jeito diferente, como se as palavras dele abrissem espaço para algo além da dor.
— Mas e se eu não estiver pronta? — pergunto em um sussurro, revelando um medo que raramente admitia.
Cam ri, mas não de deboche. Um riso suave, compreensivo.
— Eu conheço você. Sei o quanto você é teimosa, inteligente e mais corajosa do que deixa transparecer. E, sinceramente? Se alguém aqui está pronto, é você. Eu vi você crescer nesses últimos anos, Manu, e eu mesmo só estou aqui, porque você me salvou diversas vezes. Você é a nossa melhor atiradora e tem uma habilidade surreal com adagas, tendo apenas dezessete anos. Eu nem mesmo consigo imaginar quão mais incrível você ainda vai se tornar nos próximos anos. Então, você só precisa acreditar em você mesmo e não desistir.
Por um momento, não consigo responder. Apenas encaro aquele sorriso confiante e o olhar firme que parecia acreditar em mim quando eu mesma não acreditava.
— Você sempre sabe como melhorar a minha autoestima — murmuro, com um pequeno sorriso.
— Alguém precisa, já que você tem essa péssima mania de se autossabotar e se depreciar — retruca Cam, erguendo o copo em um brinde silencioso. — Aos agentes de elite.
Toco meu copo no dele, sentindo o gelo bater com um pequeno tilintar.
— Aos agentes de elite — repito, e pela primeira vez naquela noite, o peso dentro de mim pareceu um pouco mais leve.
O barulho alegre dos fliperamas voltou a preencher o ambiente. Olga e Prince comemoravam mais uma vitória, Tyler fingia estar indignado por perder para Irina, e Tori gritava triunfante por ter alcançado um novo recorde. Eu respiro fundo, permitindo-me sorrir de verdade dessa vez.
Cam estava certo. Talvez o futuro ainda fosse incerto, mas naquele momento eu tenho coisas sólidas e importantes em minha vida como a minha conquista dentro da Resistência, a minha força que me permitiu superar cada dificuldade e dor que surgiu em minha vida e um amigo que me lembrava de não me esquecer disso.
— Ei, vocês dois!
A voz de Olga ecoou pelo salão, atravessando o burburinho.
Levanto os olhos e a vejo perto do fliperama, com os braços cruzados e um sorriso desafiador estampado no rosto. Prince estava logo atrás dela, rindo e gesticulando para que nos aproximássemos.
— Venham logo — chama Prince, acenando com a mão. — Vocês precisam perder também, não é justo a Olga ficar rindo só da minha cara.
Cam solta uma risada curta.
— Acho que fomos convocados.
— Não sei se eu quero jogar — murmuro, apertando o copo entre as mãos.
— Vai ser divertido, Manu.
Cam inclina-se mais perto, com a voz baixa só para mim, dando aquele sorriso encorajador que só ele sabia me dar.
— Não é sobre ganhar ou perder. É sobre mostrar para eles que você está aqui, firme. Não se esconda atrás da dor. Aproveite essa noite para se divertir também. Desconte a sua raiva e dor nos jogos. Amanhã, será um novo dia e pode ser que a dor diminua.
Suspiro, sabendo que ele estava certo. Deixar de lado só me faria sentir ainda mais deslocada. Então, deixo o copo sobre a mesa e me levanto.
Seguimos até o fliperama. Olga nos olhou de cima a baixo, como se avaliasse nossa disposição.
— Finalmente — comenta Olga, dando um sorriso divertido. — Achei que vocês iam passar a noite inteira só assistindo.
Prince dá um passo à frente, sorrindo para mim de um jeito que quase me tirou o ar.
— Manu, eu acho que você deveria ser a primeira a jogar contra a Olga. Vai ser divertido de ver.
Meu coração dispara, mas antes que eu pudesse inventar uma desculpa, Cam já tinha se adiantado.
— Nada disso, eu vou contra a Olga primeiro. A Manu entra depois, quando eu já tiver provado que esse jogo é fácil demais.
Ele pisca para mim e percebo que Cam estava tentando aliviar a tensão que pairava no ar. Olga revira os olhos, mas aceita o desafio, posicionando-se diante da máquina.
Cam se posiciona diante da máquina com um ar de confiança exagerado, estalando os dedos como se fosse um atleta prestes a entrar em campo. Olga apenas ergue uma sobrancelha, divertindo-se com a encenação. Tyler, Tori e Irina parecem notar o que estava prestes a acontecer e imediatamente se juntam a nós.
— Já vou avisando — destaca Olga, ajeitando o cabelo para trás dos ombros. — Não espere moleza só porque você é engraçadinho e um amigo de longa data.
— Engraçadinho não — corrige Cam apontou para si mesmo, sorrindo. — Carismático e incrivelmente gato.
Irina ri alto.
— Olga, por favor, acabe logo com essa confiança dele.
— Vou fazer melhor que isso — responde Olga, sorrindo de canto. — Vou esmagar.
Cam fez um gesto dramático de dor no peito.
— Ei! Logo no aquecimento?
Tyler bufa, mas com um sorriso escondido.
— Se você perder, Cam, você será eternamente lembrado como o pior jogador de todos os tempos. Esteja preparado para isso.
— Quanta falta de confiança em mim, meu caro líder de equipe — retruca Cam, sem perder o bom humor. — Eu vou ganhar só para calar a boca de vocês que duvidam da minha capacidade.
O jogo começa. Os botões e alavancas da máquina tilintaram quando Olga, com reflexos rápidos, lança a primeira sequência de golpes. Cam apertava os botões feito um maníaco, sem muita técnica, mas com uma sorte inacreditável que arrancava gargalhadas do grupo.
— O que você está fazendo? — questiona Olga, incrédula, enquanto seu personagem levava um golpe inesperado.
— Estratégia secreta — responde Cam, fingindo mistério. — Técnica ancestral passada de geração em geração de apertar todos os botões de uma vez.
— Isso não é estratégia, é desespero! — rebate Olga, rindo pela primeira vez em voz alta.
— E olha só como meu desespero funciona!
Cam vibra quando a barra de vida de Olga cai mais da metade.
Prince segura o riso ao meu lado, mas torcia abertamente.
— Vamos, Olga! Não deixe o Cam ganhar de você assim!
Ela cerra os olhos, agora levando o jogo a sério. Os dedos se moviam rápidos, mas Cam conseguia resistir, sempre improvisando, sempre encontrando uma forma caótica de contra-atacar.
Irina batia palmas de incentivo para Olga, enquanto Tori gritava para Cam, só para provocar. O clima havia mudado de tensão silenciosa para pura diversão.
No último round, os dois personagens estavam quase sem vida. Olga lançou o golpe final, certa de que venceria. Mas, por pura sorte ou timing perfeito, Cam apertou uma sequência que derrubou o personagem dela com um golpe crítico, fazendo com que o jogo anunciasse fim de jogo.
Cam ergue os braços como se tivesse acabado de ganhar uma maratona.
— Eu avisei! Técnica ancestral, ninguém supera!
— Isso foi pura sorte! — protesta Olga, tentando não rir. — Você nem sabia o que estava fazendo!
— Sorte é habilidade disfarçada — responde Cam, piscando para ela.
— Eu exijo revanche! — declara a ruiva, cruzando os braços.
O grupo cai na gargalhada, divertindo-se com aquele momento caótico entre os dois amigos, que envolvia a todos que estava ao redor.
Eu observava a cena, com o coração um pouco mais leve. O jeito de Cam, sempre disposto a arrancar risos e a transformar qualquer situação em algo menos doloroso, era exatamente o que eu precisava naquela noite. Ele sabia quando provocar, quando aliviar, quando simplesmente estar ali.
Olho para ele, ainda comemorando sua “vitória épica” com Irina e Tori batendo palmas para o rapaz e percebo algo que até então não tinha me permitido pensar. Talvez Cam fosse a âncora silenciosa que eu nem sabia que precisava.
Mesmo com o coração em pedaços, havia algo de valioso naquela noite, que tornava esse cenário tão mágico para mim. Estar ao lado de Cam e meus amigos era um lembrete de que eu ainda tinha forças e que, no meio da confusão da minha vida, havia alguém disposto a me ajudar a juntar meus cacos.
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