Fire Scars
35 Discussões
Capítulo XXXIV — Discussões
“Se algum dia você se encontrar preso no meio do mar
Eu velejarei pelo mundo para te encontrar
Se algum dia você se encontrar perdido no escuro e não puder enxergar
Eu serei a luz a te guiar
Nós descobrimos do que somos feitos
Quando somos chamados para ajudar nossos amigos em necessidade”
Bruno Mars – Count On Me
✻
Most – 1999
O colchão improvisado no quarto emprestado para que Tyler e eu dormíssemos essa noite rangia toda vez que eu me mexia. A luz fraca que vinha do corredor mal iluminava o quarto, mas era suficiente para revelar o contorno da parede descascada e a sombra de Tyler deitado ao meu lado, já aninhado em seu travesseiro.
Fecho os olhos, tentando forçar o sono, mas a minha mente estava inquieta demais. O sabor das batatas do Mommy’s ainda parecia recente, misturado ao som das risadas do grupo, às provocações de Olga no fliperama e todos os momentos incríveis que passei ao lado dessas pessoas que imaginei que teria tanta dificuldade de interagir, depois de três anos longe.
Foi uma noite leve, uma trégua inesperada das nossas responsabilidades, e por um breve momento eu senti como se eu fosse um jovem comum. Não um soldado, não um príncipe renegado, não alguém que carrega segredos demais. Apenas Prince. Um jovem de vinte anos, saindo com a namorada e os amigos para uma lanchonete no centro da cidade em uma sexta-feira a noite.
Mas a leveza não durou. Assim que me acomodei no quarto e deitei para dormir, a realidade me acertou como uma pedra.
Ao amanhecer, irei para a casa de Leon e Nina, enquanto Olga continuará no QG, conforme a decisão de Johnny. Por um lado, eu me sentia um pouco nostálgico por pensar que voltarei a morar na mesma casa que Tyler e Manu, mas, por outro lado, eu me sentia ansioso e preocupado com a situação, sem saber o que esperar desse retorno na vida de meus amigos.
Relembro do meu encontro com Tyler e Manu. Algo que sonhei muito nos último três anos, imaginando como eu seria recebido. Se eles sentiram tanta saudade e preocupação quanto eu. Se eles estariam bem e o quanto haviam mudado durante esse tempo.
E então, eu fui recepcionado por abraços apertados recheados de saudade, alívio, preocupação e... amor, algo que eu convivia diariamente, mas que só fui entender quando parti e amadureci. Três anos se passaram, mas bastou poucos minutos juntos para que eu percebesse que os sentimentos de Manu por mim não tinham desaparecido.
Perceber isso me matou por dentro, porque eu já não era o mesmo rapaz que partiu três anos atrás. Eu não sou mais a mesma pessoa que acreditava na humanidade e achava que era capaz de lidar com meu pai e seus aliados apenas com o meu forte desejo de vingança.
Suspiro, virando de lado, tentando encontrar uma posição melhor.
O silêncio do QG à noite é estranho. Tão absoluto que chegava a ser incômodo. Como se cada batida do coração fosse alta demais. Ao meu lado, Tyler se ajeitava no colchão igualmente agitado. Eu podia sentir a respiração calma dele, mas sabia que estava acordado.
— Você está inquieto demais — murmura Tyler, quebrando o silêncio.
Abro os olhos e viro a cabeça em sua direção. Ele me observava com um misto de cansaço e seriedade no rosto.
— Não consigo dormir — admito, frustrado.
— Eu também não — responde, soltando um suspiro. — Eu estou tão eufórico por tudo o que aconteceu hoje, que minha mente não consegue desligar. Depois de três anos, de repente estamos todos juntos outra vez, rindo e agindo como pessoas normais. Pareceu irreal.
Sorrio fraco, concordando.
— É. Hoje foi um daqueles dias que mudam tudo — comento, pensativo.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Eu não precisava ver seu rosto para sentir o olhar sério que ele provavelmente lançava para o teto.
— Sabe, Prince — começa Tyler, num tom firme. — Você está diferente. Mais sério e desconfiado. É quase como se eu estivesse diante de uma versão mais nova de Johnny. Mas, enquanto estávamos no Mommy’s, rindo e brincando, eu realmente vi algo de especial na maneira como você olhava para Olga. Algo parecido com o que eu via quando você olhava para Manu.
Seu comentário faz meu estômago se revirar, nervoso com o que poderia vir da conversa que estava prestes a acontecer.
— Tyler, eu achei que você conseguisse me entender — resmungo, frustrado.
O rapaz de pele bronzeada e de olhos e cabelos pretos me encara por alguns instantes e suspira.
— E eu entendo. De verdade, Prince. É natural que tenham criado essa ligação depois de tudo o que vocês passaram nesses últimos anos. Eu sei como é encontrar amor em meio ao caos.
Havia compreensão em sua voz, mas também uma dureza que me deixou tenso.
— Mas? — murmuro, sabendo que viria algo em seguida.
— Mas você não pode ignorar o que fez com a Manu e agir como se nada tivesse acontecido.
A frase de Tyler cortou o ar como uma lâmina. Eu conseguia sentir a decepção e frustração vindo de do rapaz, mas nem mesmo consigo ter qualquer reação.
— Antes de ir embora, você deu esperanças a ela. Não precisa me dizer nada, eu vi. Eu estava lá. Vi os olhares, as palavras, o jeito como cuidava dela.
Aperto os punhos sobre o colchão, sentindo a velha culpa me tomar.
— Eu nunca prometi nada.
— Não precisa prometer quando as ações falam mais alto — retruca Tyler, encarando-me com repreensão. — Manu não é mais uma criança, Prince. Ela é uma linda garota de dezessete anos, que amadureceu rápido demais por conta da guerra e que tem sentimentos intensos por você desde a primeira vez que vocês se viram. Você fez ela acreditar que tinha algo. Que era recíproco. Todos pensaram isso. Ela passou esses últimos três anos, ansiando pelo seu retorno e por algo que você deixou no ar.
Fecho os olhos, deixando o peso das palavras dele cair sobre mim. Eu não podia negar. Talvez tivesse feito isso, ainda que sem intenção. Manu sempre foi especial, meu porto seguro no meio da tempestade. E eu sabia que ela me amava, mesmo que nunca tivesse dito em voz alta.
— Eu não queria machucá-la — murmuro, quase em um sussurro.
— Eu sei — responde Tyler, mais calmo agora. — Mas o fato é que você a machucou. E voltar namorando Olga foi como jogar sal em uma ferida profunda. Isso a destruiu. E mesmo assim, você continuou a agir como se não fosse nada demais, como se não soubesse a verdade.
O silêncio denso volta a se instalar entre nós.
Respiro fundo, passando a mão pelos cabelos.
— Eu não escolhi isso, Tyler. Não planejei me apaixonar por Olga. Só… aconteceu. No meio do caos, da dor, da solidão… ela estava lá. E eu estava lá para ela. A gente se ajudou a sobreviver.
Tyler fica quieto por um instante.
— Três anos é muito tempo — murmura, cansado. — Nós mudamos. Você mudou. Passamos por experiências únicas e crescemos. Eu entendo isso. Mas o problema está em você saber como ela se sentia e mesmo assim, antes de ir embora, deixou ela acreditar que havia uma chance. Prince, você sabe o quanto ela confiava em você. Ao menos, você poderia ter sido claro antes de partir.
A voz de Tyler soava como uma repreensão, mas havia também uma preocupação genuína.
— Eu sei! Você acha que eu não pensei nisso desde que comecei a me aproximar de Olga e a perceber meus sentimentos por ela? Que eu não senti essa culpa? Eu sabia que ela sentiria minha falta. Eu sabia que estava deixando alguém que me amava para trás.
Tyler se levanta e posso sentir seus olhos me queimando em meio a escuridão.
— Se você sabia disso quando estava indo embora, então por que não falou nada, Prince? Por que não foi honesto desde o começo?
Aperto o maxilar, tentando conter a dor que me corroía. Levanto-me também e o encaro, observando a expressão sombria de meu melhor amigo pela fraca iluminação do quarto que vinha do corredor.
— Porque eu não tinha certeza do que sentia. Ela sempre foi importante para mim, mais do que eu sou capaz de explicar, mas quando a guerra nos empurrou para o limite, quando a morte rondava a cada esquina, eu percebi que não sabia se era amor ou só dependência de ter alguém ao meu lado, depois de nunca ter recebido amor das pessoas que deveriam me amar. Eu não tinha certeza de nada e não sabia como falar sobre isso ou se devia falar alguma coisa.
— E aí entrou a Olga, dando a certeza que você precisava — completa Tyler, com uma dureza amarga.
Assinto devagar.
— Sim. Claro, ela me odiava no início de tudo, mas, no fim, nós dois só tínhamos um ao outro. Eu vi a força dela quando pensei que não sobrava nada. Ela segurou minha mão quando eu quis desistir. E eu a segurei quando o ódio quase a engoliu. Nós nos reconstruímos juntos. E ela me ensinou como era amar alguém e a sensação de como é ser amado. Estar com Olga me faz feliz e eu achei que você ficaria feliz por mim também.
Tyler ri e se levanta de uma vez, indo ligar a luz do quarto. Seus olhos pretos estavam furiosos e eu sentia que ele fazia um grande esforço para não avançar contra mim.
— É claro que eu estou feliz por você! Eu estou feliz que você voltou e que sobreviveu mesmo depois de tudo! Não tem como eu não ficar feliz por você! Prince, você ainda é o meu melhor amigo e eu torço pela sua felicidade. Só que o ponto não é você estar namorando e ouvindo seus sentimentos!
— E então?
— E então que Manu é a minha priminha. É a minha única família. E ela está arrasada! Em respeito ao que vocês dois viveram, você deveria ter sido ao menos justo com ela e conversado em particular sobre esse assunto ao invés de jogar para ela a notícia, enquanto estava no carro comigo e Tori, a caminho de uma noite com os amigos. Você tem noção do quão canalha e covarde você foi?
Um pesado e doloroso silêncio volta a recair no quarto, quando Tyler termina de despejar toda a fúria que guardava. De repente, a porta do quarto é aberta, surpreendendo-nos. Os dois se viram ao mesmo tempo, tensos, quando Cam aparece parado no batente, com o cenho franzido e os braços cruzados.
— Ei, gente, que tal vocês se acalmarem? — murmura, entrando devagar.
Ele fecha a porta atrás de si e logo nos exibe uma expressão repreendedora, que em nada lembrava o rapaz descontraído e brincalhão que tornou a nossa noite mais divertida algumas horas atrás.
Tyler solta um resmungo, desviando o olhar. Eu apenas suspiro, tentando controlar a tempestade dentro de mim.
Cam olha de um para o outro, como se estivesse avaliando o estrago.
— Olha, eu não quero me meter nos assuntos pessoais de vocês, mas o que vocês estavam discutindo aqui dá para ouvir nos quartos ao lado. As paredes desse lugar não são tão grossas assim. Vocês precisam parar agora antes que deixe essa situação ainda mais constrangedora.
Arregalo os olhos, sentindo o peso implícito daquilo. Tyler também ergue a cabeça, com a expressão mais tensa ainda.
— Manu está dormindo a dois cômodos daqui — continua Cam, em um sussurro cortante. — Se alguém pegar metade do que vocês estão jogando na cara um do outro, amanhã de manhã o QG inteiro vai estar comentando. Vocês querem transformar os sentimentos dela em piada nos corredores?
A acusação caiu como um balde de água gelada em minha cabeça. Tyler parecia tão chocado quanto eu, mas não diz nada. Passo a mão no rosto, envergonhado, imaginando como será pela manhã se Manu tiver realmente escutado a nossa conversa.
Cam respira fundo, mais calmo agora.
— Eu entendo que tem coisa demais engasgada aí, mágoas que ficaram três anos presas. Mas essa briga de madrugada com plateia não é justo com ela e nem com vocês.
Tyler vira-se, encarando o chão, como se quisesse engolir as próprias palavras. Eu sentia a garganta secar, culpando-me pelo desastre que estava sendo o encerramento da noite.
— Vocês dois são líderes aqui dentro, quer queiram ou não — prossegue Cam, firme. — E se não conseguirem resolver entre vocês, ao menos tentem não deixar que isso vire munição para os outros.
Ele para na porta novamente, lançando-nos um último olhar sério.
— Conversem, se entendam, mas não destruam a Manu no processo. Ela já carrega peso demais nas costas e não merece ser machucada dessa forma.
O silêncio voltou assim que Cam saiu, deixando-nos sozinhos outra vez. Mas, dessa vez, não havia mais espaço para gritos. Apenas o incômodo amargo de verdades que não podiam ser desfeitas.
Tyler permanece em silêncio por alguns segundos, respirando fundo como se lutasse para manter o controle. O olhar duro dele percorre o quarto, evitando o meu, até que finalmente balança a cabeça em frustração.
— Eu não vou conseguir ficar aqui agora — avisa com a voz embargada, enquanto calça o tênis que estava na beirada da porta.
Ele se caminha até a porta com passos pesados e sem sequer me encarar. O ranger da maçaneta parece ensurdecedor no meio do silêncio absoluto do QG.
— Tyler… — chamo, mas ele já estava no corredor.
Calço meus sapatos de forma apressada, temendo que acabasse o perdendo de vista. No entanto, assim que me aproximo da porta, acabo hesitando por alguns instantes. Parte de mim queria apenas desabar no colchão e esquecer aquela conversa, mas outra parte gritava que eu não podia deixá-lo sair assim. Não depois de termos finalmente nos reencontrado após três anos longe.
Sigo seus passos apressados pelo corredor escuro, sentindo a tensão grudada no ar. O som dos seus sapatos ecoava nas paredes até que ele empurra uma porta que dava para o pátio lateral do QG com vista para o mar que rodeia Most.
O ar frio da madrugada nos envolve, trazendo um pouco da brisa marítima. Tyler se apoia no parapeito de pedra, encarando a escuridão além dos muros e passa a observar o mar. Os ombros dele estavam tensos e sua respiração pesada.
— Eu precisava de ar — explica sem me olhar.
Aproximo-me devagar, parando ao seu lado para observar a paisagem.
— Você sabe o que é pior nisso tudo, Prince?
A voz de Tyler sai baixa, mas carregada de mágoa. Ele aperta os punhos contra o parapeito de pedra e permanece com o olhar fixo na escuridão do mar.
— Manu sempre esteve ao seu lado. Desde o primeiro dia. Foi ela quem acreditou em você quando ninguém mais confiava. Ela que te defendeu das críticas, que segurou sua mão quando você não acreditava em si mesmo. Manu sempre foi muito leal a você, afirmou para todos da Resistência que você era alguém digno para estar na organização. E dia após dia, ela deu o máximo de si para superar as próprias inseguranças apenas para melhorar as próprias habilidades ao ponto de não se sentir como um peso para você quando voltassem a se reencontrar.
Engulo em seco, porque cada palavra era uma flecha certeira.
— E o que você fez? — questiona Tyler, virando-se para mim, com os olhos negros faiscando de frustração. — A trata como uma amiga qualquer e finge que nada aconteceu. Três anos, Prince. Três anos de silêncio, de saudade, de dor. E quando volta, você simplesmente ignora os sentimentos dela e revela o seu relacionamento de forma fria.
Sinto o peso esmagador da culpa. Minha mente via flashes de Manu rindo, segurando minha mão em momentos de desespero, acreditando em mim quando eu não acreditava. Ela foi meu refúgio por muito tempo e eu retribuí com incertezas e silêncio.
— Tyler…
Minha voz falha. Respiro fundo e encaro o melhor amigo.
— Você tem razão. Eu fui covarde. Fui injusto. Não cometi apenas um erro. Eu machuquei uma pessoa que não merecia carregar mais dor do que já tinha.
Tyler se mantêm em silêncio, mas sua expressão endurecida não suavizou de imediato.
— Eu devia ter sido claro com ela antes de partir. Devia ter respeitado os sentimentos dela ao invés de me calar. Eu devia ter sido melhor.
Minha voz embarga e eu abaixo a cabeça, envergonhado.
— Eu me arrependo disso todos os dias. Sinto muito por ela e por você, Tyler.
Por alguns instantes, o único som era o do mar batendo nas rochas. Então, Tyler suspira, passando a mão pelos cabelos como se precisasse soltar o peso da raiva.
— Não é comigo que você tem que se desculpar. Por mais doloroso que seja, você precisa conversar com ela e esclarecer tudo. Ela tem esse direito — resmunga Tyler.
— Eu prometo que assim que eu a encontrar pela manhã, eu irei conversar com ela e vou me desculpar por tudo. Eu só espero que você não me odeie também.
— Eu não te odeio — murmura, cansado. — Você ainda é meu melhor amigo. Eu apenas não consegui continuar fingindo que estava tudo bem nessa situação. Só conversa com ela e dê um jeito de contornar essa situação. Isso é pelo bem do seu relacionamento com a Olga e pela amizade que você tem comigo e com a Manu.
Levanto o olhar, encontrando o dele. E, finalmente, havia menos dureza, ainda que a mágoa permanecesse.
— Eu prometo que vou conversar com ela — respondo com determinação.
Tyler desvia o olhar, mas um sorriso breve e cansado surgiu em seus lábios. Ele me dá um soco leve no ombro.
— Ótimo. A partir de agora, não me dê mais motivos para te chamar de covarde.
Suspiro aliviado e sorrio, concordando. Ficamos em silêncio, lado a lado, observando o mar escuro. O vento frio ainda cortava a pele, mas não parecia mais tão pesado. A sensação de que, apesar das feridas, nossa amizade ainda podia resistir me trazia um certo acalento no peito.
Ficamos ali por alguns minutos em silêncio, apenas ouvindo o som do mar batendo contra as pedras e o vento carregando o cheiro salgado da madrugada. O peso das palavras de Tyler ainda ecoava dentro de mim, mas, de algum modo, já não pareciam uma sentença. Era como se, ao enfim pronunciadas, elas nos tivessem libertado.
De fato, eu precisava me redimir com Manu. Mesmo não podendo corresponder aos seus sentimentos, ela ainda é minha melhor amiga e alguém precioso que não quero perder. Mesmo que agora tenhamos mais pessoas em nossas vidas para nos apoiar como os líderes da Resistência e nossos amigos, Tyler e Manu ainda são a família que eu escolhi.
Eu nunca consegui sentir amor vindo dos meus pais e passei a minha vida toda me sentindo deslocado em meio aos costumes antiquados da realeza. Viver a pressão de me tornar rei tinha me tirado a liberdade de ser quem eu realmente era e isso me afastou das pessoas.
Manu e Tyler foram os primeiros amigos verdadeiros que eu fiz e com quem pude experimentar me sentir em casa, mesmo que estivesse longe dos luxos e confortos do castelo.
Olga pode ser a mulher que eu amo e a pessoa que planejo formar uma família, mas Manu ainda é a garota de coração doce e temperamento explosivo que foi capaz de me fazer ter forças para enfrentar a minha família e que me salvou quando eu já não tinha mais esperanças de seguir em frente depois de toda a tortura que passei nas mãos da pessoa que mais deveria me proteger.
Ela sempre terá um espaço importante em meu coração. Então, mesmo que essa seja uma conversa desconfortável, eu não posso continuar fugindo da minha responsabilidade. Manu e eu precisamos esclarecer os nossos sentimentos se nós quisermos permanecer na vida um do outro de agora em diante.
— Vamos voltar antes que alguém acorde e venha ver o que estamos fazendo aqui fora — alerta Tyler, ajeitando a postura e empurrando-se para longe do parapeito.
Assinto, acompanhando-o de volta pelo corredor.
Nossos passos soavam menos pesados agora, e o silêncio entre nós não era mais sufocante. Transmitíamos um silêncio de paz, de quem ainda precisa digerir tudo, mas que já não carrega o mesmo veneno de raiva e frustração.
Quando chegamos ao quarto, a luz fraca do corredor ainda desenhava as sombras na parede descascada. Tyler chuta os tênis para o canto, atira-se no colchão improvisado e solta longo suspiro.
— Boa noite, idiota — murmura meu melhor amigo, sem me olhar, mas com um leve tom de ironia que denunciava que a raiva havia dado lugar ao cansaço.
Sorrio, fechando a porta atrás de mim. Apago as luzes e me aproximo do meu colchão.
— Boa noite, cabeça-dura.
Deito-me também, sentindo o colchão ranger sob meu peso. O silêncio do QG volta a envolver o ambiente, mas agora ele não parecia tão incômodo. Era quase acolhedor.
Fecho os meus olhos e suspiro, sentindo que talvez possa finalmente dormir em paz.
Tyler e eu enfrentamos uma briga intensa e enfrentamos nossas verdades. Mesmo com feridas abertas, nossa amizade permanece de pé. Isso é o suficiente para acreditar que, de algum modo, ainda há alguma esperança de que o futuro não será tão ruim assim para nós, enquanto estivermos morando sob o mesmo teto.
E sabendo que quando o amanhecer chegar, eu terei muito mais do que apenas desculpas a oferecer aos meus amigos, entrego-me ao reino dos sonhos.
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