Fire Scars

36 Conselhos


Capítulo XXXV — Conselhos


“Não suporto ser a causa das lágrimas em seu rosto

Há um nó na minha garganta, e ele não me deixa falar

Você tem pedido para conversar, eu tenho adiado

Porque tenho medo de te contar as mentiras que guardo

E eu sei que a vida que tenho buscado

É uma perda de tempo

E eu não quero dizer isso, mas tenho estado fora de controle

E eu estou pronto para encarar isso, querida, de uma vez por todas”

James Arthur – Just Us



Most – 1999

O sol ainda não havia nascido completamente, mas o céu de Most já ganhava tons azulados que se infiltravam pelas frestas da janela do quarto. O colchão rangia sob meu corpo quando despertei de súbito com o coração disparado e o suor frio colando meus cabelos à testa.

Ofegante, passo a mão pelo rosto, tentando afastar as imagens que ainda queimavam na minha mente. Fragmentos de lembranças de diversos momentos de minha vida se misturavam em um caos sufocante. Ainda era vívida a fumaça densa das chamas do castelo de Krósvia, gritos abafados, o olhar frio de meu pai enquanto me torturava com a Sombra e a sensação de impotência quando enterramos Tony. E então tem a voz de Olga me chamando, desesperada, após eu levar um tiro durante uma missão e o silêncio ensurdecedor que veio depois.

Sento-me no colchão, ainda atordoado. Minha respiração estava pesada e eu sentia as batidas violentas do coração ecoarem em meio ao silêncio, sentindo a falta de Olga ao meu lado ao despertar, como geralmente acontece.

De repente, a porta do quarto range suavemente e Tyler entra, limpando o suor da testa com a barra da camisa. Ele vestia uma estilo militar camuflada e uma camisa preta. Ele estava bastante suado e eu suspeitava que ele tinha acabado de voltar de algum tipo de treino. Ele olha para mim com sobrancelhas erguidas, surpreso por me ver acordado.

— Já de pé? — pergunta em tom baixo, largando a garrafa d’água sobre a escrivaninha que havia no quarto. — Achei que ia dormir até tarde depois de ontem.

Engulo em seco, desviando o olhar ao lembrar do caos que estava a minha mente.

— Pesadelo.

Tyler me observa em silêncio por alguns segundos. Ele se aproxima e puxa a cadeira encostada na parede, virando-a para sentar de frente para mim. Havia cansaço em seu rosto, mas também aquela expressão séria que ele usava quando queria me obrigar a falar antigamente.

— Com o que você sonhou?

Balanço a cabeça, ainda tentando me recuperar.

— Nada que eu já não tenha vivido. Só… fragmentos. As partes que eu mais queria esquecer do meu passado. Mas está tudo bem. Foi apenas um pesadelo.

Tyler apoia os braços no encosto da cadeira, inclinando-se levemente.

— Você não precisa carregar isso sozinho, Prince. Já basta o que temos que enfrentar acordados.

Fico em silêncio, absorvendo suas palavras. O relógio velho na parede marcava seis horas em ponto, e o novo dia começava a se impor sobre nós.

Por um instante, respiro fundo, sentindo o ar fresco da manhã misturado ao cheiro de estar em um local completamente diferente dos lugares que tenho vivido nos últimos três anos e percebo que, por mais doloroso que seja encarar o passado, ao menos eu não estou mais sozinho.

— Obrigado. Mas eu realmente estou bem — garanto, sorrindo verdadeiramente. — Mas estou surpreso que esteja voltando tão cedo de um treino. Que horas você saiu que eu não o vi?

Tyler me observa por um tempo, notando que eu havia propositalmente mudado de assunto. Felizmente, ele parece entender que eu não queria falar sobre meus traumas e assente.

— Quatro e meia da manhã — responde, dando de ombros. — Mas isso foi só aquecimento do dia. O verdadeiro treinamento começa mais tarde.

— E o que seria o aquecimento? — indago com curiosidade.

— Correr até o bosque atrás da casa de Nina e Leon, o que deve dar uns oito quilômetros. Depois subir e descer a montanha que temos acesso por esse bosque com um saco de cem quilos nas costas. E então fazemos o circuito, que eu carinhosamente apelidei de circuito suicida. Quando a completamos, voltamos correndo para cá, já que quando não estamos em missão, fazemos outros diversos treinamentos no restante do dia — relata e eu me surpreendo com a naturalidade com a qual ele falava. — Felizmente, Nina não estava hoje, então consegui ir com mais tranquilidade.

— Espera! Todo mundo aqui faz esse aquecimento? — questiono, incrédulo.

— Não. Apenas Manu, Cam e eu. Deveria ser apenas Manu e eu, já que a Nina foi designada por Johnny a cuidar de nosso treinamento pessoalmente três anos atrás, mas Cameron disse que também queria se tornar mais forte e passou a treinar com a gente. No geral, o treino é menos caótico e é muito mais focado em habilidades de lutas ou conhecimento do que o preparo físico em si — explica meu melhor amigo.

— E eu achava que o Leon era rigoroso — comento, rindo. — Olga e eu também passamos por um treinamento pesado, mas geralmente, estava muito mais ligado ao treino com armas. Claro que treinamos idiomas e conhecimentos, além de termos o preparo físico, mas acho que ele não é tão intenso quanto o de vocês.

Tyler ri e pega a mochila dele que estava jogada no canto do quarto.

— No começo foi um verdadeiro inferno e chegamos no nosso limite diversas vezes, mas meio que conseguimos superar e hoje em dia é menos doloroso — afirma Tyler. Ele pega uma toalha de dentro da mochila e uma roupa extra. — Eu vou tomar banho e ir tomar café da manhã. Como você está de folga, pode voltar a dormir. Mais tarde, Nina e Leon devem aparecer para te levar até a casa deles.

— Certo — murmuro, observando o rapaz guardar a mochila sobre a escrivaninha.

Assim que Tyler sai, o silêncio do quarto volta a me envolver. Mas meu corpo já estava desperto demais para voltar a dormir. Levanto-me, e visto mais uma camiseta limpa que foi emprestada por Cameron e decido sair para caminhar pelo QG, tentando esquecer a sensação sufocante do pesadelo e colocar a cabeça no lugar.

O QG estava calmo, ainda adormecido, exceto por alguns sons distantes de passos e o farfalhar da brisa que atravessava as janelas estreitas. Quando eu me viro em direção ao pátio interno, encontro Cameron voltando de um dos corredores laterais, com uma toalha jogada sobre o ombro e os cabelos ainda úmidos do banho.

— Ei, Prince — cumprimenta Cam, abrindo um sorriso acolhedor. — Não esperava te ver tão cedo. Achei que aproveitaria sua folga para dormir até um pouco mais tarde.

— Também não esperava estar de pé a essa hora — respondo, forçando um sorriso. — Acordei mais cedo do que gostaria. Acho que meu corpo está acostumado com a rotina de acordar cedo para treinar, então, não consigo ficar muito tempo na cama.

Cameron me analisa por alguns segundos, como se quisesse decifrar se havia algo a mais por trás das minhas palavras, mas logo relaxa e passa a me guiar pelos corredores do QG.

— Bom, você teve um dia cheio ontem e está passando por muitas mudanças. É normal que sua mente esteja agitada — comenta em tom amigável.

— Sim — murmuro, incerto do que deveria dizer.

Continuamos a andar pelo QG, com Cam cumprimentando a todos que passavam por ele e o reconheciam. Ao notarem a minha presença, alguns apenas balançavam a cabeça em cumprimento ou ignoravam a minha existência. No geral, uma reação muito melhor do que eu esperava das pessoas que possuem meu pai como seu principal inimigo.

— Não liga para eles. Você sabe como Lester é visto aqui, então, eles não confiam muito em você. Mas não se preocupe. É apenas uma questão de tempo até que eles percebam que você realmente deseja a liberdade de Krósvia — garante Cam, quando um grupo passa por nós e faz questão de esbarrar em meu ombro.

— Está tudo bem — afirmo, dando de ombros. — No lugar delas, eu provavelmente agiria assim também. Eu já estava preparado para isso quando resolvemos sair de Miami Beach e vir para o QG da Resistência.

Cam parece insatisfeito com a situação, mas provavelmente sabia que não havia o que pudesse ser feito. No fim, mesmo tendo se passado anos e odiando a minha ascendência, eu ainda sou filho do rei Lester e da rainha Penny. O mesmo Phillip Dawson, que abandonou a coroa de Krósvia e se tornou um rebelde, porque foi incapaz de mudar o futuro do meu amado país mesmo sendo o príncipe herdeiro.

Nós chegamos ao mesmo local que eu havia visitado com Tyler durante a madrugada, mas diferente da escuridão que vimos no pátio lateral do QG com vista para o mar que rodeia Most, um belo nascer do sol nos recepciona, trazendo uma visão de tirar o fôlego.

Cam se aproxima do parapeito de pedra e sorri, parecendo realmente fascinado com a vista. Desvio o olhar para o mar, apreciando os raios solares surgindo timidamente no horizonte. Era algo que eu não tinha tanta oportunidade de aproveitar em Miami, mesmo estando diante do mar, já que estava sempre ocupado com os treinamentos.

— Você e Tyler conseguiram se entender ontem? — questiona Cam, quebrando o silêncio.

— Sim. A gente conversou e conseguiu se entender.

— Entendi. Eu fico feliz por isso. Sinto muito por ter me intrometido com a discussão, mas estava preocupado com a repercussão que isso poderia gerar — explica o rapaz, encarando-me com uma expressão séria.

— Está tudo bem. Na verdade, obrigado pela ajuda. Nós realmente estávamos passando do limite — afirmo, observando o rapaz. — É bom saber que Tyler e Manu fizeram bons amigos enquanto eu estive fora nesses últimos três anos. Nosso mundo sempre foi muito limitado em Füssen e não melhorou muito depois que tivemos que fugir. Foi doloroso ter que me afastar deles, mas acho que isso também nos ajudou bastante a crescer individualmente.

Cam sorri de leve, mas percebo que ainda havia preocupação em seus olhos. Ele se volta para o mar, deixando o silêncio se instalar outra vez.

Respiro fundo, permitindo que aquela visão do nascer do sol me puxasse para dentro de mim mesmo, relembrando de tudo o que aconteceu nos últimos quatro anos.

Se hoje estamos aqui em Most, diante do bonito nascer do sol, no quartel general da Resistência, foi porque, três anos atrás, uma chama foi acesa no mesmo instante em que minha irmã nasceu. Ela, tão pequena e inocente, tornou-se um símbolo maior do que nós mesmos. Uma promessa de que Krósvia poderia ter um futuro diferente. Foi como se todo o sacrifício tivesse começado e ganhado forma a partir dela. A verdadeira herdeira, que um dia ocupará o trono que eu abandonei.

Sempre me pergunto se tomei a decisão certa. Se ao renunciar a coroa, não condenei ainda mais o povo que acreditava em mim. Mas, ao olhar para o passado e relembrar tudo o que aconteceu e como eu era, percebo que foi a única saída. A Resistência nasceu da necessidade de libertar Krósvia da guerra e da tirania de Lester Dawson. E, sem ela, não teríamos chegado até aqui e salvado tantas pessoas como temos feito nos últimos anos, enquanto atrapalhamos os ataques de meu pai a todos que o desafiam.

Ainda assim, quantas vidas foram ceifadas no caminho? Quantos me protegeram sem eu ter pedido, apenas por que acreditavam que valia a pena? E então me lembro de todos que morreram em meio a essa guerra sem sentido criada por meu pai. Tony, Henry, Stefan, os soldados que tombaram em Krósvia, apenas porque precisavam seguir as ordens suicidas do tirano rei Lester. O peso dessas memórias nunca desaparece.

Aperto o parapeito de pedra com força, sentindo os nós dos dedos esbranquiçarem. Era impossível não pensar que, de certa forma, eu também tenho minha parcela de culpa no caos que atinge Krósvia. Talvez, se eu tivesse sido mais forte e menos ingênuo, muitas pessoas ainda estariam vivas e com suas famílias. Se eu tivesse tido a coragem de matar meu pai e assumir o trono de Krósvia, como muitas vezes escutei as pessoas dizerem, poderia ser que tudo fosse diferente.

Mas, por mais que eu me culpe, nada disso faz mais diferença. Eu não posso mudar o passado. Não posso trazer as pessoas de volta a vida. Então, no fim, esses pensamentos servem apenas para me lembrar que eu preciso ficar mais forte e garantir que a Resistência se torne poderosa o bastante para ajudar minha irmã quando o momento chegar.

— Prince?

A voz de Cameron me puxa de volta, suave, como se percebesse a batalha travada dentro de mim.

— Você ficou pensativo de repente. Está tudo bem?

Olho para ele e forço um sorriso.

— Só… pensando em como tudo isso começou. No que custou chegarmos até aqui.

Cam assente devagar, compreensivo.

— Você carrega muito mais responsabilidade do que deveria. Mas precisa lembrar que as escolhas que fez foram para proteger algo maior. Muitas coisas aconteceram, mas o importante é que você não desistiu de lutar e está aqui nos ajudando a fazer de sua irmã mais nova a futura rainha de Krósvia. É graças aos seus sacrifícios que somos capazes de ter esperanças de libertar Krósvia das tiranias de Lester.

Eu queria acreditar com a mesma firmeza que ele, mas as lembranças pesavam como grilhões. Ainda assim, uma certeza crescia dentro de mim. Minha irmã não herdará apenas a coroa. Ela herdará também o peso de todos que se sacrificaram. E, por ela, eu jamais poderia desistir.

O sol finalmente rompe o horizonte, tingindo o mar de dourado. Era belo e cruel ao mesmo tempo. Lembrava-me que o tempo não para, mesmo quando queremos congelar o instante para rever aqueles que se foram.

Suspiro, tentando afastar qualquer pensamento negativo e relembro que o principal objetivo da Resistência é garantir que as próximas gerações não precisassem carregar o mesmo fardo que nós.

— Mas, e então? Como você e a Manu ficaram tão próximos? — questiono, mudando de assunto.

— Quando você partiu, ela ficou bastante perdida. Não era só a ausência de um amigo. Era como se uma parte da base dela tivesse sido arrancada. Tyler sempre foi o protetor, mas Manu precisava de alguém para dividir as coisas, que conseguisse impedir que ela acabasse exagerando durante os treinos ou perdesse a cabeça quando alguém insultava você. Então, eu acabei ficando por perto.

— Você e ela, por acaso estão...?

Por algum motivo, sinto-me um pouco incomodado.

— Namorando?

Cam ri de leve, negando com a cabeça.

— Não. Nós somos apenas amigos. Com tudo acontecendo, nós nos aproximamos muito. Como eu era uma das poucas pessoas que não odiava você e com quem ela tinha muita coisa em comum, ela passou a confiar em mim para falar do que sentia, do que pensava, dos medos e das inseguranças que guardava de todo mundo. Manu amadureceu muito rápido, Prince. Foi forçada a isso. Mas ainda assim, em todos os momentos difíceis, o nome que mais aparecia nas conversas era o seu. Ela sempre fez questão de mostrar para todos o quanto você era incrível e como era injusto que as pessoas continuassem a te odiar, quando você não tinha culpa de nada do que seu pai fez.

— Ela não precisava ter feito isso — murmuro, sentindo o peso da culpa se instalando em meu coração mais uma vez.

Cam me encara de frente, com uma expressão firme, mas sem agressividade.

— Pode ser, mas o ponto é que ela acreditava em você. Mesmo quando todo mundo dizia que você não voltaria, ela te defendeu. E, nesse tempo, eu vi a força dela crescer. Vi Manu se tornar alguém ainda mais determinada, porque não queria decepcionar a imagem que tinha de você.

Suspiro, sentindo o estômago se revirar.

— Eu não sei se consigo corresponder a isso.

— Ninguém espera que você corresponda — responde Cam, colocando a mão em meu ombro. — O que a Manu precisa agora é de clareza. De saber que você não vai deixá-la no escuro outra vez. Ela já sofreu o bastante com silêncios. Tente apenas ser sincero com ela esclarecer qualquer ponta solta que tenha entre vocês. Confie nela e conte o que aconteceu nesses últimos três anos. Acho que ela merecer conhecer esse novo Prince.

Fico em silêncio, encarando o chão por alguns segundos, digerindo suas palavras. Cam não falava com julgamento, mas com uma lealdade sincera a Manu. Eu podia ver que ele realmente se preocupava com ela.

— Obrigado, Cam — murmuro, levantando o olhar. — Por ter estado lá por ela quando eu não podia.

Ele sorri, dando um leve tapa no meu ombro antes de voltar sua atenção para linda paisagem que continuava a se transformar a nossa frente com a bela variação de cores.

— Nós somos um time, Prince, onde cada um tem a sua função. Manu é aquela que nos dar coragem para continuar lutando, porque ela é teimosa demais para desistir. Você sabe disso melhor do que ninguém. Então, eu apenas não quero que os esforços dela sejam em vão.

Enquanto Cam e eu ainda observávamos o horizonte, uma voz ecoou pelo pátio e me fez endireitar o corpo instintivamente.

— Prince? Você está aí? — questiona Olga, aproximando-se. Ao notar a presença de Cam, ela sorri. — Oi, Cam. Bom dia! Estou atrapalhando vocês?

— Bom dia, Olga. É claro que não — responde Cam, bagunçando o cabelo ruivo de minha namorada. — Estávamos apenas contemplando a paisagem.

Olga bufa com a ação do amigo e ele ri, divertindo-se com a careta dela.

— Você continua irritante — acusa Olga, dando uma cotovelada em Cam, que se encolhe, rindo. — O café da manhã já está sendo servido. Pensei em tomarmos café da manhã e ir para a casa do Leon para arrumar suas coisas. O que acha, Prince?

— Tudo bem — concordo, sorrindo. — Você vem com a gente, Cam?

— Ah, não. Podem ir. Eu já tomei café da manhã. Eu vou arrumar algumas coisas e me encontrar com o Johnny. Preciso acertar alguns detalhes com ele sobre a minha nova posição como agente de elite. A gente conversa depois.

Assinto e me despeço de Cam com um aceno. Olga deixa mais um soco de leve no braço do amigo e ele dá língua como resposta. Deixamos o pátio e seguimos pelos corredores que nos levariam até o refeitório do QG de mãos dadas.

Noto pela forma como ela me olhava de relance, que havia algo preso em sua garganta e, por isso, não demora muito para que ela finalmente revelasse o que a incomodava.

— Irina me contou que você e Tyler brigaram ontem à noite. O que aconteceu?

Meu estômago se revira de imediato. Continuo andando, sem encará-la, mas sentindo o peso daquela revelação. Eu sabia que ela seria mais uma pessoa a me repreender pelo assunto Manu, já que o tema foi discutido por nós diversas vezes desde que decidimos voltar para Most.

— Não foi bem uma briga — murmuro, tentando conter a tensão em minha voz. — Foi… uma conversa que saiu do controle.

Olga arqueou uma sobrancelha, visivelmente cética e para de andar, puxando a minha mão para que eu fizesse o mesmo.

— Uma conversa que saiu do controle ao ponto de o Cam ter que intervir? Logo no dia em que vocês voltaram a se reencontrar depois de três anos? O que aconteceu, Prince?

Suspiro, massageando a nuca.

— É só que... tudo saiu do controle — respondo, frustrado. — Tyler não gostou da forma como eu agir contando a notícia do nosso namoro e isso fez a gente se desentender. Mas está tudo bem agora. Depois de esfriar a cabeça, a gente conseguiu fazer as pazes e estamos bem.

— Vocês brigaram por que ele não aceitou o nosso namoro? — indaga Olga, preocupada. Seus olhos exibem uma insegurança atípica da confiante Olga. — Ele parecia bem ontem. Eu não fazia ideia que ele não tinha gostado de saber que estamos juntos.

— Não foi isso. Ele ficou feliz por estarmos juntos. A questão é que eu fui um idiota e acabei contando para ele e Manu no carro, a caminho do Mommy’s com Tori junto.

— Prince! Por quê? — questiona Olga, furiosa. — Você disse que iria conversar com ela! Como pôde contar algo assim dessa forma?

— Não foi por maldade. Eu só não tive oportunidade de conversar as sós com ela. E então, imaginei que ela acabaria descobrindo pelos outros na hora que estivéssemos na lanchonete, então eu apenas falei de uma vez — respondo, encolhendo-me diante do olhar repreendedor de minha namorada.

— Você não tem noção do que fez, tem?

A voz de minha namorada soava baixa, mas carregada de firmeza, algo que era ainda mais assustador do que lidar com a voz alterada quando discutimos.

— A Manu passou três anos acreditando que você voltaria para os braços dela, guardando sentimentos que todo mundo via, menos você. E quando finalmente reencontra o "príncipe herdeiro", descobre no banco de trás de um carro, com testemunhas, que ele voltou de mãos dadas com outra, sem qualquer consideração pelos sentimentos dela.

Engulo em seco, sentindo o peso das palavras dela me esmagarem.

— Eu sei que errei — murmuro, desviando o olhar.

Olga suspira, passando a mão pelo rosto, demonstrando toda a sua frustração e isso só faz com que eu me sinta ainda mais envergonhado.

— Prince, eu não estou dizendo isso porque tenho medo de perder você. Eu sei o que temos, tenho confiança no que sentimos um pelo outro. Mas, eu não quero ser um obstáculo na sua vida. Nem nos seus laços. Muito menos na amizade que você tem com o Tyler e, principalmente, com a Manu.

Ergo os olhos para ela, surpreso com a seriedade na sua voz.

— Eu jamais quero que ela pense que eu roubei você dela. Ou que o nosso relacionamento destruiu algo que era importante para vocês dois.

A voz de Olga tremia levemente, apesar da firmeza. Eu conseguia ver o quão frustrada ela se sentia e como minhas ações haviam colocado ainda mais pressão em cima da minha namorada, que eu sabia que não se sentia totalmente à vontade com a forma como a nossa história começou.

— Eu posso lidar com a desconfiança dos outros, com a falta de confiança no QG, com qualquer coisa. Mas não quero ser motivo de rancor entre você e a Manu. Não quero que o passado de vocês seja ignorado e menos ainda que a amizade de vocês termine depois de tudo o que aconteceu com vocês.

Meu peito se aperta. Olga era tudo o que eu tinha nos últimos três anos, a pessoa que segurou minha mão no meio do caos. E agora, mesmo com todos os motivos para se sentir insegura, estava colocando o bem-estar de Manu acima da própria paz.

— Você precisa se acertar com ela, Prince — responde Olga, pegando em minhas mãos com carinho e firmeza. — Não por mim. Não por Tyler. Mas por vocês dois. Porque se não fizer isso, esse peso vai continuar crescendo entre vocês até não sobrar mais nada.

Fico em silêncio, absorvendo cada palavra, sentindo o coração bater descompassado. Eu sabia que ela tinha razão.

Olga respira fundo e então volta entrelaçar nossas mãos, mas sem a mesma leveza de antes.

— Agora vamos. O café da manhã não vai esperar.

Assinto em silêncio e continuamos seguindo pelos corredores em direção ao refeitório do QG. Mas, a cada passo, a imagem de Manu surgia mais nítida em minha mente, junto com a dolorosa certeza de que não poderia adiar aquela conversa por muito mais tempo.

O refeitório estava cheio quando entramos. O cheiro de pão fresco e café forte se misturava ao burburinho animado da Resistência. Mesas lotadas, conversas cruzadas, risadas abafadas. Era um contraste doloroso com o turbilhão que me consumia por dentro.

Assim que cruzei a porta ao lado de Olga, senti olhares recaírem sobre nós. Alguns de curiosidade, outros de desconfiança. Provavelmente, ninguém sabia ainda que estávamos namorando e fato de Olga, a pessoa que mais me odiava no mundo, e eu estarmos de mãos dadas com certeza renderá muitas fofocas e boatos pelos próximos dias. Mas não era isso que importava.

O que eu realmente queria era acabar com todo esse mal-entendido que me fez ter discussões nada agradáveis com o meu melhor amigo e minha namorada, além de receber conselhos de alguém que eu nem mesmo conheço direito.

Meus olhos a encontraram quase de imediato.

Manu estava sentada próxima à parede, entre Tyler e Cameron. Conversava com Tori e Irina, rindo de algo que elas diziam, mas o sorriso não chegava aos olhos. Quando percebe minha presença, o riso morre nos lábios. Por um instante, nossos olhares se encontraram e foi como se o tempo congelasse.

Ela desvia imediatamente, pegando uma caneca de café como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Em seguida, volta a conversar com Cam, que percebe a tensão, mas parece fingir não notar, já que apenas sorri e comenta algo com a garota. Tyler, no entanto, lançou-me um olhar duro, como se estivesse me lembrando silenciosamente das palavras da noite anterior.

Engulo em seco e sigo com Olga até uma mesa um pouco mais afastada, mas ainda próxima o bastante para conseguir ver nossos amigos.

Tento manter a naturalidade, mas era impossível ignorar a distância que Manu havia imposto. Ela não disse nada, não fez nenhum gesto e, ainda assim, a frieza dela me atingiu mais do que qualquer discussão.

— Ela está te evitando — murmura Olga, apoiando a caneca na mesa.

— Eu sei — respondo com a voz mais baixa do que pretendia.

Olga suspira, mas não diz nada. O silêncio dela foi suficiente para reforçar tudo o que já havia me dito minutos antes.

Enquanto mordiscava um pedaço de pão sem sentir o gosto, minhas lembranças se embaralhavam. O abraço de Manu quando me viu pela primeira vez depois de três anos, o alívio nos olhos dela e agora aquele muro invisível que nos separava em pleno café da manhã.

Cameron conta uma piada e ela ri, parecendo verdadeiramente se divertir com as palhaçadas do amigo. Mas quando percebo que, por um breve instante, seus olhos voltaram a me encarar por cima da caneca, sinto o peso do tratamento frio. Não era apenas raiva. Era mágoa. E eu sabia que só pioraria se eu não tivesse coragem de encará-la.

Olho para Olga, que, mesmo em silêncio, parecia ler meus pensamentos.

— Vai ter que ser hoje, Prince — murmura minha namorada. — Quanto antes, melhor.

E, pela primeira vez em muito tempo, percebo que não havia missão ou guerra que me apavorasse tanto quanto a ideia de encarar Manu a sós naquele momento.