Fire Scars

37 Mudanças


Capítulo XXXVI — Mudanças

“Quando você tenta o seu melhor, mas não tem sucesso

Quando você consegue o que quer, mas não o que precisa

Quando você se sente cansado, mas não consegue dormir

Preso em marcha ré

E as lágrimas começam a rolar pelo seu rosto

Quando você perde algo que não pode substituir

Quando você ama alguém, mas é desperdiçado

Poderia ser pior?”

Coldplay – Fix You

Most – 1999

O café da manhã seguiu em meio a risadas, conversas cruzadas e o tilintar de talheres contra pratos. Para mim, no entanto, cada minuto parecia arrastar-se como uma eternidade. Olga tentava manter um semblante tranquilo, mas eu sabia que, no fundo, ela também se sentia ansiosa por notar a distância cortante entre mim e Manu.

Para controlar o nervosismo, passei a me concentrar no saboroso café da manhã e na televisão que exibia um noticiário local.

— Você conseguiu dormir bem? — questiona Olga, chamando a minha atenção. — Ou teve pesadelos de novo?

Desvio o olhar da televisão e encaro minha namorada, que já havia terminado de comer.

— Você sabe que eu sempre tenho pesadelos quando durmo longe de você — respondo, dando de ombros. — Acho que o seu feitiço perde o poder quando você não estar por perto.

Olga ri, relembrando da conversa que tivemos um pouco depois que começamos a namorar.

Desde que fugimos de Krósvia, não era incomum que eu tivesse pesadelos quando dormia e por causa disso, passei a sofrer com insônia. Mesmo os remédios mais fortes não eram capazes de me fazer dormir sem que minha mente trouxesse visões das inúmeras tragédias que presenciei desde criança e sua frequência se tornou ainda maior conforme precisei matar pessoas e vi pessoas que eu amava morrer ou se ferirem gravemente por minha culpa.

Em uma noite em que eu estava sofrendo com mais um dos pesadelos, Olga me acordou e eu acabei contando sobre o meu problema. Agindo de forma completamente diferente do que eu estava acostumado a ver, Olga me abraçou e disse que lançaria um feitiço que afastaria todos os meus sonhos ruins.

Após dizer uma frase em russo, que ela nunca traduziu para mim, Olga deixou um beijo em minha testa e disse que eu nunca mais teria pesadelos. Depois disso, ela se deitou comigo na cama e passou a acariciar meu cabelo. Surpreendentemente, eu voltei a dormir e não tive mais pesadelos.

Sorrio ao recordar daquela noite. Não importa o quanto eu tentasse me fazer de forte, Olga sempre conseguia ver através de minhas máscaras. A verdade é que a garota havia me salvado de mim mesmo mais vezes do que eu poderia contar.

Não foi apenas um feitiço, embora eu ainda não soubesse se aquelas palavras russas tinham, de fato, algum poder mágico, mas o gesto, a presença dela, o calor de alguém que ficou ao meu lado quando até eu tinha vontade de me abandonar, que fizeram com que não fosse tão doloroso e cansativo a hora de ir dormir.

Com Olga, os pesadelos perderam força. Não que tenham desaparecido por completo, mas ela transformou a escuridão em algo suportável. O toque dos dedos dela nos meus cabelos, a segurança de saber que não estava sozinho, me traziam a paz que eu jamais pensei que sentiria de novo.

E paz, para alguém como eu, é uma dádiva quase inalcançável.

Desperto do devaneio quando vejo Manu se levantar da mesa, acompanhada de Cameron e Tyler, carregando sua bandeja com calma. Meu coração dispara ao perceber que, se eu não tomasse uma atitude agora, perderia mais uma oportunidade.

Olho para Olga, que discretamente segurava minha mão debaixo da mesa. Ela não diz nada, mas seu olhar encorajador e o sorriso bonito me trazem o apoio que eu precisava para criar coragem e enfrentar o desafio que estava diante de mim. Sinto o peso de todas as minhas culpas se amontoando nas costas.

Respiro fundo.

Não bastava pedir desculpas por ter deixado tudo se acumular. Eu precisava encarar Manu de frente, mesmo que minhas palavras tropeçassem no meio do caminho e fosse difícil explicar a confusão de pensamentos que minha mente tem se tornado ultimamente.

Levanto-me, quase hesitante, quando ela dobra o corredor. Minhas pernas se movem por conta própria, cada passo uma mistura de coragem e medo. Olga já havia me ajudado a enfrentar meus monstros noturnos, mas esse, em especial, é um que só eu posso enfrentar.

— Manu... — chamo, com a voz saindo mais rouca do que planejava.

Ela para, mas não se vira de imediato. E naquele instante suspenso, entre o silêncio e a resposta dela, sinto meu coração acelerar como se estivesse prestes a entrar em batalha. Só que, dessa vez, a guerra era dentro de mim.

— Precisamos conversar — digo, dando um passo à frente.

Dessa vez, ela se vira. O olhar dela era frio, mas não agressivo, apenas guardado, como se tivesse erguido uma muralha em volta de si, que me impedia de me aproximar por completo dela.

— Sobre o quê, Prince? — pergunta em tom controlado.

— Sobre muitas coisas — respondo, sem hesitar. — Mas não aqui.

Por alguns segundos, ela me encara em silêncio e o peso do julgamento de Tyler atrás dela era quase palpável. Cameron, por outro lado, parecia avaliar a situação com cautela, mas não interveio.

Manu encara Cam, que assente, parecendo incentivar a garota a conversar comigo. Fico um pouco incomodado por ver como a opinião dele parece ser tão importante para ela, ao ponto de Manu precisar da aprovação dele para querer me ouvir.

Finalmente Manu suspira e assente, cansada.

— Está bem. Mas que seja rápido. Eu tenho que treinar e a Nina não é muito tolerável com atrasos — responde a garota, encarando-me com seriedade.

Assinto e a conduzo para fora do refeitório, sentindo todos os olhares nos acompanhando até a porta. A cada passo, meu peito parecia se apertar ainda mais. Eu já havia enfrentado inimigos armados, emboscadas, torturas. Mas, de alguma forma, nada parecia tão difícil quanto encarar Manu e a mágoa que eu mesmo havia causado.

Seguimos pelos corredores movimentados do QG, onde encontramos pessoas indo para seus pontos de treinamento ou salas de reunião. Algumas pessoas cumprimentam Manu e outras apenas nos ignoram, demonstrando que eu continuava a ser visto como um intruso pelos membros da Resistência.

Paro de andar, sem saber para onde poderíamos ir para ter privacidade. Manu parece notar, pois resmunga alguma ofensa e passa a puxar meu pulso, conduzindo-me com certeza brutalidade pelos corredores, até chegarmos em uma sala que ficava mais isolada da movimentação que o QG estava naquele momento.

Manu abre a porta e faz sinal para que eu entrasse, enquanto ela liga as luzes da sala. Ao contrário das outras salas de reunião que eu havia visto no dia anterior, essa possuía uma grande janela que tinha vista para o mar e ninguém do lado de fora conseguia ver o que acontecia, com a parede sólida e a porta de metal que a fechava.

— Entre. Aqui não devemos ser incomodados — fala Manu, dando espaço para que eu passasse.

Assim que eu entro na sala, ela fecha a porta e a tranca. Aproximo-me da janela, vislumbrado com a beleza daquele lugar. O sol brilhava intensamente e era possível ver o bosque que cobria uma parte da cidade e o porto que estava cheio de barcos, prontos para pegar os primeiros peixes do dia.

— É bonito, não é? — comento, quase como uma tentativa de quebrar o gelo, mas o tom da minha voz entrega o nervosismo.

— Se você me trouxe até aqui para falar sobre a vista, Prince, já pode voltar para o refeitório — retruca Manu, cruzando os braços.

A postura dela é firme, mas o olhar frio é o que realmente me atinge. Ela não dava qualquer abertura. Manu havia erguido ainda mais o muro entre nós e isso era o bastante para eu saber que eu não conseguiria pedir desculpas se continuasse enrolando. Eu precisava ir direto ao ponto.

Engulo em seco, forçando-me a sustentar aquele olhar.

— Não... — murmuro, suspirando. — Eu trouxe você porque preciso falar me desculpar.

Ela arqueia uma sobrancelha, irônica. Encolho-me diante do tratamento frio e distante recebido pela garota, que se revelou como uma pessoa doce e carinhosa quando nos tornamos amigos. Agora, eu sentia que havíamos retornado para o início da nossa relação, quando nos conhecemos e mal nos suportávamos, implicando um com o outro por causa de ciúmes ou outra idiotice.

— Desculpar? — repete a palavra como se fosse estranha em sua boca. — E pelo que exatamente você precisa se desculpar?

Fico em silêncio por alguns segundos, tentando organizar as palavras que ferviam em minha mente. Manu, por sua vez, mantinha os braços cruzados e a expressão fechada, como se tivesse me dado apenas alguns minutos antes de me expulsar dali.

— Eu...

Suspiro, sentindo-me nervoso e frustrado por não conseguir ser claro no que eu sentia ou pensava.

— Depois de conversar com o Tyler, a Olga e o Cam, percebi que eu não tinha sido justo com você. A forma como eu te contei sobre meu namoro com Olga... como joguei aquilo em cima de você sem pensar, sem me importar com o que sentiria... eu não deveria ter feito desse jeito. Eu sinto muito, Manu — lamento, encarando-a com sinceridade.

O silêncio que se seguiu foi curto, mas suficiente para me fazer sentir o peso de cada segundo. Manu estreitou os olhos, ainda mais ferida, deixando-me ainda mais confuso.

— Então é isso? Você só percebeu por que eles te disseram? Só entendeu a situação por que precisou que o Tyler, a Olga e o Cam esfregassem na sua cara que você agiu errado? — questiona Manu, com a voz saindo muito mais cortante do que antes.

Ela dá um passo à frente, ficando com o rosto próximo ao meu. Seus olhos castanhos me deixavam desconsertado pela intensidade com a qual eles me encaravam. Os lábios naturalmente vermelhos eram pressionados como uma tentativa de controlar o que diria e os punhos cerrados me davam um aviso de que qualquer palavra dita de maneira errada, ela os usaria contra mim.

— Você nem sequer pensou em mim, Prince. Não foi por consideração. Foi porque eles abriram os seus olhos. Nem mesmo passou pela sua cabeça que poderia ter sido mais gentil e me explicado o que aconteceu.

Meu peito se comprime com as palavras duras e machucadas de Manu. Tento responder, mas ela se afasta e encarando-me com os olhos brilhando em dor e mágoa. Eu havia piorado a situação e nem mesmo era capaz de argumentar.

— E ainda acha que isso é um pedido de desculpas? Você está me dizendo que só entendeu a gravidade porque alguém te explicou como se eu fosse uma lição de moral a ser aprendida.

Ela balança a cabeça em negação com os olhos marejados, mas ainda firmes. Assim como três anos atrás, ela se recusava a chorar na frente das pessoas. Não importa o quão magoada e furiosa ela esteja, Manu jamais permite que a pessoa veja seu lado mais vulnerável.

— Sabe o que é pior? É que eu não esperava perfeição de você, Prince. Nem é mesmo um problema que você e Olga estejam namorando. Eu entendo o que aconteceu. Posso imaginar o quanto deve ter sido solitário e assustador esses últimos três anos, em que vocês só tinham a si mesmo e a Leon para confiar. Mesmo assim, eu só esperava que você tivesse algum... respeito por mim.

Engasgo com a última palavra. Não havia armas, não havia gritos, mas Manu me despedaçava com cada sílaba.

— Manu, eu pensei em você — afirmo, tentando achar uma brecha no muro que ela havia erguido. — Talvez não da forma certa, mas eu pensei. Eu só achei que se fosse direto, se contasse de uma vez, seria menos doloroso do que esconder...

Ela ri, mas não é uma risada leve. Sua risada é amarga, cheia de incredulidade, reforçando ainda mais quão decepcionada ela se sentia e isso me destruía.

— Menos doloroso? — repete, encarando-me como se eu tivesse acabado de dizer a maior estupidez do mundo. — Você realmente acha que despejar tudo daquela forma, sem preparo, sem sequer olhar para mim de verdade, foi menos doloroso?

Dou um passo em sua direção, instintivamente, mas ela recua. O gesto me corta por dentro.

— Eu não queria que você se sentisse enganada — insisto, sentindo minha voz oscilar. — Depois de tudo o que passamos juntos, eu não queria criar mais um segredo entre nós.

— Mas criou! — explode Manu com a voz embargada. — Porque, no fundo, você não me contou por honestidade. Você me contou por que já não tinha como esconder, já que queria agir como um casal com Olga sem peso na consciência. Você não se importou em como eu me sentiria ou como seria difícil para mim agir com naturalidade na frente de nossos amigos, quando eu me sentia péssima. Todo mundo sabe como eu me sinto em relação a você e mesmo assim, você ignorou tudo, porque é um grande egoísta!

A acusação me atinge como uma lâmina. Tento respirar, mas cada palavra dela abre uma ferida nova em meu coração.

— Eu não sabia como dizer... — murmuro, quase implorando para que ela acreditasse. — Tive medo de te perder, Manu.

Por um instante, o silêncio toma a sala. Mas, em vez de suavizar a tensão, apenas a intensifica. Os olhos dela brilham com lágrimas que se recusam a cair.

— Já me perdeu, Prince — sussurra Manu, firme, como se a frase fosse uma sentença.

Sinto meu coração despencar. Tento estender a mão, mas ela recua de novo, cruzando os braços como se precisasse de uma armadura contra mim.

— Eu não sou uma criança para você ter medo de contar a verdade — responde, engolindo em seco. — Você devia ter confiado em mim e sido sincero comigo. Ter tido o mínimo de consideração, sem que Olga, Tyler e Cam tivesse que conversar com você.

Fico sem ar. Eu queria explicar, dizer que estava perdido, que tinha medo de feri-la de qualquer jeito, mas as palavras morrem na garganta. Tudo o que consigo sentir é a distância cada vez maior entre nós, mesmo estando a menos de dois passos dela.

— Manu...

Tento me explicar, mas Manu ergue a mão, enquanto fecha os olhos, apoiando-se em uma das cadeiras de que cercavam a grandiosa mesa de reuniões da sala. Ela respira fundo e finalmente me encara, exibindo um olhar ainda mais firme, mesmo que fosse visível que ela estava fazendo um grande esforço para não chorar.

— Nós vamos passar a morar na mesma casa a partir de agora e teremos que conviver frequentemente nos treinos ou missões. A nossa convivência será inevitável e eu não quero que nossa relação seja um problema para nossos amigos ou para a Resistência. Então, vamos mater as coisas claras — responde Manu, finalmente me encarando.

Sua voz parecia uma lâmina fria. Soava fria, dura e impenetrável. Ao menos, eu podia dizer que eu a conhecia o suficiente para entender que, por trás daquela postura, havia um coração machucado tentando desesperadamente não se despedaçar.

— Eu não preciso que você seja meu amigo agora — afirma Manu. — Não preciso que você force intimidade ou tente consertar o que não pode ser consertado de uma hora para outra. O que eu preciso é que você seja profissional. Se estivermos em missão, você vai agir como parte da equipe. Vai me ouvir, vai me respeitar e vai fazer o seu trabalho sem misturar as coisas pessoais.

Sua mandíbula se contrai, demonstrando a raiva que ela tentava controlar. O lado rancoroso de Manu estava especialmente feroz naquele momento.

— Porque se não fizer isso, não será só a mim que vai decepcionar, mas todo mundo que confia em nós. Então, saiba separar as coisas. Não vamos mais tocar nesse assunto e agir com naturalidade na frente de nossos amigos, já que querendo ou não, vamos acabar saindo no mesmo grupo.

As palavras pesam mais do que qualquer acusação. Manu não estava apenas colocando limites. Ela estava me dizendo que, a partir daquele momento, havia erguido uma barreira intransponível entre nós e que não havia nada que eu pudesse fazer.

— E quanto ao resto...

Ela desvia o olhar por um breve instante, mordendo o lábio antes de continuar.

— Quanto ao resto, eu vou lidar sozinha. Não se preocupe em me pedir desculpas de novo ou tentar se explicar. O que eu precisava ouvir de você já não tem mais importância.

Um nó se forma na minha garganta. Tento falar algo que pudesse diminuir sua ira, mas percebo que seria inútil. Manu já tinha tomado a decisão e eu não podia obrigá-la a me ouvir.

Ela descruza os braços, endireita a postura e caminha até a porta, destrancando-a com firmeza. Antes de sair, lança-me um último olhar, que eu podia ver que não era de ódio, mas sim de frieza calculada, como se estivesse encerrando qualquer vínculo que existira entre nós.

— Para mim, você é só mais um membro da Resistência. Nada além disso.

E então, sem esperar resposta, Manu atravessa a porta e a fecha atrás de si.

O silêncio que se instala é ensurdecedor. Apoio as mãos na mesa, tentando encontrar fôlego, mas tudo o que sinto é o peso esmagador da derrota. Eu havia lutado tantas batalhas, sobrevivido a tantas guerras, mas nenhuma delas me preparou para perder Manu dessa forma.

A sala parecia maior agora, vazia, silenciosa e sufocante ao mesmo tempo.

Sento-me em uma das cadeiras para organizar minha mente e meu coração. Apoio os cotovelos sobre a mesa, enterrando o rosto nas mãos, enquanto tentava recuperar o fôlego que parecia não vir.

"Para mim, você é só mais um membro da Resistência."

As palavras de Manu martelavam na minha mente. Era estranho como uma frase tão simples podia pesar mais do que qualquer sentença de morte que já ouvi em campo. Não porque fosse injusta, mas porque era verdadeira demais.

Eu sempre acreditei que poderia lidar com rejeição, com a dor de decepcionar pessoas, afinal, minha vida inteira foi uma sucessão de reações decepcionantes para quem tinha alguma expectativa em mim e consequências inevitáveis. Mas ouvir Manu reduzir nossa relação — depois de tudo o que passamos, depois das batalhas travadas lado a lado, das perdas e do sangue compartilhado —, a uma convivência fria e profissional destruía qualquer resquício de confiança que eu ainda tinha em mim mesmo.

Se ela não confiava em mim, como eu poderia confiar em mim mesmo para protegê-la? Para proteger as pessoas que eu amo? Como posso ser de alguma ajuda para minha irmãzinha no futuro, se nem mesmo sei como tratar as pessoas próximas a mim?

Respiro fundo, tentando me convencer de que eu precisava separar as coisas, assim como ela exigiu. Eu preciso ser profissional, assim como o pacto que Manu acabara de impor, e talvez seja o único jeito de não perder completamente o respeito da equipe.

Mas, ao mesmo tempo, a dúvida corroía cada fibra do meu ser. Eu seria capaz de manter a cabeça fria em uma missão, sabendo que ela não me enxergava mais como alguém digno da sua confiança? Que ela me via apenas como mais um soldado entre tantos?

Encosto-me na cadeira, fitando o teto, tentando buscar uma resposta que não vinha. Meus punhos se fecham com força contra as pernas e a sensação de impotência me queima como fogo. Eu havia sobrevivido a guerras, mas a batalha contra os meus próprios erros parecia impossível de vencer.

Talvez Manu esteja certa. Eu sou egoísta demais, impulsivo demais. E agora, mais do que nunca, eu temo que esse lado meu não custe apenas a relação com ela, mas tudo o que precisamos enfrentar de agora em diante pelo bem de Ally.

Fecho os olhos, respirando fundo. A única certeza que me resta é de que, a partir de agora, cada movimento meu será observado e que cada erro será julgado com o dobro de severidade. E eu não posso falhar. Não mais.

Ainda assim, persiste dentro de mim a sensação de que por mais que eu lute, eu já perdi uma guerra que nenhuma vitória em campo poderia apagar.

Fiquei ali por mais alguns minutos, imóvel, como se a cadeira fosse um peso que me prendia ao chão. O silêncio da sala parecia zombar de mim, ecoando apenas as últimas palavras de Manu. Finalmente, respiro fundo e me obrigo a levantar. Cada músculo do meu corpo protesta, como se tivesse acabado de voltar de uma batalha perdida.

Eu precisava ir para a casa de Nina e Leon para arrumar as minhas coisas, além de ir comprar alguns itens pessoais no centro da cidade com Olga. Não dava para eu continuar para sempre na sala de reuniões, lamentando a minha situação.

Aperto o punho antes de abrir a porta, tentando recompor alguma dignidade que ainda restava. A maçaneta fria pareceu pesar toneladas em minha mão, mas, quando a giro, o corredor iluminado me cega por um instante.

E então eu a vejo.

Olga estava encostada na parede ao lado da porta, braços cruzados e uma expressão neutra que escondia a tensão em seus olhos claros. Não parecia surpresa por eu ter demorado tanto. Pelo contrário, ela apenas exibia uma expressão paciente, como se soubesse exatamente o que tinha acabado de acontecer lá dentro.

— Quanto tempo você ficou aí? — pergunto com minha voz soando mais áspera do que eu pretendia.

Ela dá de ombros, soltando um leve suspiro.

— Tempo suficiente.

Olga descruza os braços e dá um passo em minha direção. Seu olhar percorre meu rosto como se pudesse enxergar as fissuras que eu tentava esconder. Eu endireito os ombros, forçando um ar de firmeza que não sinto, mas sei que ela não se deixa enganar.

— Ela não quer me ouvir, Olga — admito, falhando na minha tentativa de soar controlado. — Não como eu gostaria.

Os olhos dela suavizam, e por um instante sinto o calor que me protegeu tantas vezes das minhas próprias sombras. Olga não sorri, não tenta minimizar a dor. Ela apenas me puxa para um abraço caloroso, firme, como quem ancora alguém prestes a afundar.

— Você sabia que seria difícil — responde Olga, com uma serenidade que contrasta com o turbilhão dentro de mim. — Mas você tentou.

Engulo em seco, correspondendo ao único abraço que poderia me acalmar naquele momento.

— Tentei e falhei.

Ela não rebate. Apenas intensifica o abraço, como se quisesse me arrancar dali antes que o peso da derrota me esmagasse de vez. Permanecemos assim por alguns instantes, até que eu consigo me recompor.

Relembrando que ainda tínhamos muito o que fazer ao longo do dia, caminhamos juntos pelo corredor, e embora cada passo me pareça pesado, a presença dela ao meu lado é o único detalhe que me impede de desmoronar.

Por dentro, tudo que sinto é a fragilidade de alguém que já não confia em si mesmo. Por fora, mantenho a postura ereta, o rosto impassível, como se nada tivesse acontecido naquela sala.

Afinal, eu sou o príncipe herdeiro renegado de Krósvia, Prince Dawson. E, pelo menos diante dos outros, ainda precisava parecer inabalável.

Saímos do QG e seguimos para o centro da cidade. O comércio fervilhava com pessoas indo e vindo, carregando sacolas, carrinhos ou simplesmente conversando animadas em frente às pequenas lojas. O contraste entre aquela rotina comum e a realidade que eu vivia me pareceu quase cruel.

Entramos em algumas lojas simples, onde Olga insistiu que eu comprasse roupas novas como camisetas, calças, um par de botas resistentes e uma jaqueta mais grossa para as noites frias. Também pegamos o essencial de higiene pessoal como sabonete, escova e pasta de dentes, lâmina de barbear e toalhas. Itens banais que, de repente, ganharam um peso simbólico para mim. Eram uma confirmação silenciosa de que eu não estava de passagem e que eu terei que me adaptar à essa nova vida.

Olga manteve a conversa leve durante as compras, tentando me distrair. Eu forcei alguns sorrisos, mas a verdade é que meu pensamento ainda estava preso ao que Manu havia dito. Ainda assim, segurei firme as sacolas, como se o peso delas fosse mais fácil de carregar do que a culpa que ainda me acompanhava.

Quando terminamos, caminhamos pelas ruas movimentadas do centro de Most até a casa de Nina e Leon. Era uma construção bonita, com uma fachada pintada de amarelo claro, janelas amplas, uma varanda na entrada e um belo jardim cheio de flores coloridas.

Ao batermos na porta, não demora muito para que Nina a abrisse, permitindo que um delicioso cheiro de comida caseira escapasse atingisse os nosso olfatos, misturado ao vento salgado vindo do mar que, pelo som, ficava próximo da residência.

Ela nos encara com um olhar amoroso e sorri.

— Olá! Sejam bem-vindos. Entrem! Leon está lá dentro, fazendo a sua famosa lasanha — comenta Nina, dando passagem para que entrássemos. — Vejo que fizeram compras.

— Sim. Como a gente não trouxe quase nada de Miami e não sabíamos o que ele teria aqui na casa de vocês, resolvemos comprar as coisas que ele poderia precisar — responde Olga, sorrindo.

— Ei, vocês chegaram! Como foi as compras? — questiona Leon, aparecendo na sala.

— Cansativas — respondo, mostrando as inúmeras sacolas que eu carregava. — Olga faltou levar todos os produtos e roupas das lojas.

— Deixa de exagero. Nós compramos apenas o necessário — repreende Olga.

Leon solta uma risada curta diante da nossa troca de farpas, assim como sempre fez, nos nossos momentos de paz em Miami Beach, e pega algumas das inúmeras sacolas que eu segurava para aliviar parte do peso em minhas mãos.

— Eu vou levar essas sacolas para o quarto de Prince. Por que você não apresenta a casa para ele, querida? — sugere Leon a Nina, pegando o restante das sacolas que eu segurava.

— Ótima ideia! Vem comigo — pede Nina, sorrindo animada.

Leon segue para o andar superior da casa, enquanto seguimos por um corredor iluminado por janelas largas que deixavam a luz do sol invadir os ambientes. Nina explicava cada detalhe com entusiasmo, enquanto eu observava a sala de estar aconchegante com sofás claros e uma estante repleta de livros, a cozinha espaçosa com uma mesa robusta de madeira e panelas de cobre penduradas acima do fogão, o banheiro coletivo que servia o andar de baixo e os fundos da casa que dava acesso a um bosque, conforme Tyler tinha descrito mais cedo.

Além das diversas árvores que compunham o quintal, ainda havia barris de água grandes, pneus, sacos de areia empilhados, uma grande parede de pedra irregular para praticar escalada, halteres, cordas, espadas e outros itens que deveriam ser usados nos treinamentos.

De fato, o lugar possuía elementos que mostrava o quão rigoroso é o treinamento pelo qual Manu, Tyler e Cam tem passado nos últimos anos. Não era tão surpreendente assim que eles emanassem uma energia tão confiante comparada a aparência que eles tinham quando eu fui embora.

Caminhamos até o andar superior, onde os passos ecoavam levemente no piso de madeira. Leon abre a última porta do corredor e revela um quarto simples, mas limpo e acolhedor. Havia uma cama de solteiro bem arrumada, um armário de duas portas, uma escrivaninha próxima à janela que oferecia vista direta para o mar e um banheiro pequeno. O cheiro da maresia invadia o espaço, trazendo consigo uma tranquilidade inesperada.

— Esse será o seu quarto, Prince — explica Leon, apoiando-se no batente da porta. — É simples, mas Nina fez o seu melhor para deixá-lo o mais confortável possível.

— Ele é incrível. Obrigado, Nina — agradeço.

Ela sorri e nega.

— Aqui você terá privacidade — acrescenta Nina, sorrindo de leve. — Nós, Tyler e Manu ficamos nos outros quartos do corredor. Vocês terão que aprender a conviver, mas, ao menos, cada um terá seu próprio espaço para respirar.

Assinto em silêncio. O comentário dela parecia carregado de uma indireta que não passou despercebida. Talvez tivesse ciente das brigas que tive com Tyler e Manu. E novamente, as lembranças voltam a machucar meu coração.

— Vou deixá-los à vontade para arrumar as coisas — avisa Leon, já se afastando com Nina pelo corredor. — Quando terminarem, o jantar estará pronto. Você ficará para comer com a gente, certo, Olga?

— Ah, eu não sei... — murmura Olga, incerta.

— Não se preocupe, querida. Eu aviso ao Johnny que você chegará mais tarde. Logo, Manu e Tyler devem estar chegando também. Será divertido ter o nosso primeiro jantar em família — afirma Nina, dando um fraco sorriso.

Penso que eu duvidava muito disso, mas não digo nada. Não queria estragar o clima com um comentário desnecessário.

— Certo. Obrigada pelo convite — responde Olga, dando um sorriso notoriamente sem graça.

Ela também sabia que esse jantar estia longe de ser tão caloroso quanto um divertido jantar em família, mas eu me sentia grato por ter a presença dela. Eu não sei como será quando Manu nos encontrar, então será bom tê-la ao meu lado.

— Tudo bem. Vamos terminar de preparar o jantar. Se precisarem de alguma coisa, é só chamar — avisa Leon, deixando o quarto com Nina.

— Obrigado — respondo, passando a encarar as sacolas sobre a cama.

Assim que ficamos sozinhos, sento-me pesadamente ao lado das sacolas de compras e passo a observar o ambiente. O quarto era acolhedor, mas tudo que eu sentia era o vazio que se instalava ao perceber que, dali em diante, eu dormiria longe de Olga.

Dois anos dividindo noites, enfrentando juntos os pesadelos que me assombravam, não poderiam ser simplesmente substituídos por quatro paredes silenciosas.

Olga se aproximou, ajoelhando-se diante de mim, suas mãos firmes sobre as minhas.

— Ei... — chama suavemente, buscando meu olhar. — Você está bem?

— Sim. Só receoso em como será agora que Manu me odeia — respondo, suspirando.

— Ela não te odeia. Está apenas magoada. Vai ficar tudo bem. Apenas dê um tempo a ela para assimilar tudo o que aconteceu e aprender a lidar com os sentimentos dela — aconselha Olga, sentando-se ao meu lado.

Ela entrelaça nossas mãos e encosta a cabeça no meu ombro.

— Eu tenho certeza de que logo as coisas vão se resolver. Apenas tenha um pouco de paciência. Ela vai perceber que você se arrependeu. Só deixa a poeira abaixa.

— Não pense no que Manu disse agora. Você já tem peso suficiente para carregar.

Balanço a cabeça, concordando, mas a culpa ainda me consumia intensamente.

— Eu errei com ela, Olga. E não importa o quanto eu tentasse explicar, parecia que eu só piorava a situação. Você precisava ver como ela me olhou. Foi como se eu fosse apenas um conhecido que ela tinha nojo de se aproximar.

Olga intensifica o aperto em minha mão e puxa meu queixo para ela, obrigando-me a focar na serenidade dos seus olhos verdes.

— Sim, você errou. E Manu tem todo o direito de estar magoada. Mas você não pode deixar que essa culpa te paralise. Não podemos nos dar esse luxo aqui. Você já se desculpou. Não há mais nada que você possa fazer, além de respeitar o espaço dela. Então, foque nas missões e deixe que o tempo cure o coração dela. Se você ficar forçando a barra, só vai fazer ela se sentir mais pressionada.

Suspiro, sentindo meu peito pesado.

— Só que agora ela me vê como nada. Só mais um membro da Resistência. Ela não me quer nem mesmo como amigo.

Olga suspira e se inclina, encostando a testa na minha.

— Então prove que é mais que isso, Prince. Não com palavras — responde minha namorada com firmeza. — Prove o que você com atitudes que você se importa. Seja o homem que eu sei que você pode ser.

Fecho os olhos, absorvendo a força dela.

— Você tem razão — murmuro, abraçando-a apertado. — Eu vou superar essa culpa e mostrar que eu realmente estou arrependido do que aconteceu. Enquanto isso, vou focar na Resistência e em tudo o que preciso fazer para o bem da equipe.

— Isso mesmo. Agora vamos arrumar essas compras, porque logo vai ser a hora do jantar e vamos ter um clima encantador para enfrentar — ironiza Olga, deixando um beijo em meus lábios.

Olga se levanta e passa a desempacotar as compras de dentro das sacolas. Eu permaneço sentado por alguns instantes, observando o quarto que agora será meu. As paredes simples, a cama solitária e a janela aberta para o mar me lembravam que a partir de agora a minha vida mudará de forma definitiva. Eu não estou mais em fuga, mas também não estou em paz.

Apesar de Olga ser meu alicerce, ela não pode travar todas as minhas batalhas por mim. Eu perdi a minha amizade com Manu e eu sei que parte da Resistência ainda me vê como um inimigo ou um estranho, o que talvez eu também sinta.

Mas Olga tem razão. Eu preciso provar que não sou apenas um príncipe renegado perdido no próprio egoísmo. Preciso mostrar que posso ser alguém em quem eles podem confiar, tanto dentro quanto fora do campo de batalha.

Talvez leve tempo. Talvez seja impossível apagar a mágoa de Manu ou conquistar o respeito completo de Tyler, que ainda continua me encarando com desconfiança. Mas se eu desistir, aí sim estarei selando minha derrota.

Levanto-me e começo a ajudar Olga a tirar as roupas das sacolas, dobrando-as em silêncio. O cheiro da maresia entra pela janela e, de algum modo, me traz um resquício de calma. Sei que a noite será difícil sem Olga ao meu lado, que os pesadelos vão me assombrar e que o jantar será tudo, menos um momento de família.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, sinto que carrego uma escolha diante de mim. Posso continuar me afundando em culpa ou posso me levantar e provar, pouco a pouco, que ainda sou digno da confiança daqueles que caminham ao meu lado.

E, apesar do medo, decido que é isso que vou fazer.