Fire Scars

38 Jantar em Família


Capítulo XXXVII — Jantar em Família


“Meu bem, cuide de mim com carinho

Me envolva em plástico bolha

Tenho medo de que você esteja falando sério

Que você nunca mais vai voltar

Vejo sua bolsa perto da escada

Então, acho que você já fez as malas

Não, eu não posso te fazer mudar de ideia

Mas como você pode simplesmente partir assim?”

Alex Warren – Before You Leave Me



Most – 1999

O cheiro de lasanha recém-saída do forno se espalhava pela casa, se misturando ao aroma suave das ervas que Nina havia deixado sobre a mesa de jantar. A mesa estava posta com louças simples, mas arrumada com capricho, como se ela tentasse compensar com aconchego a tensão inevitável que pairava sobre todos nós.

Leon coloca a travessa de lasanha e os pratos sobre a mesa, movimentando-se com naturalidade pelo espaço levemente apertado da cozinha e sala de jantar, enquanto Nina arrumava os copos e talheres. Ofereço ajuda, mas o casal apenas pede para que Olga e eu nos sentássemos, que Tyler e Manu já deveriam estar vindo para jantar.

Sentindo-me ansioso e desconfortável com a situação, sento-me em uma das cadeiras da bonita mesa de madeira de seis lugares que ocupava toda a sala de jantar. Olga se senta ao meu lado e sua mão discretamente toca a minha por debaixo da mesa, em um gesto silencioso de apoio.

Não demora muito para que passos ecoassem no corredor. Tyler entra primeiro na sala de jantar, exibindo a expressão neutra de sempre.

— O cheiro está realmente muito bom, Leon — elogia o rapaz e Leon sorri.

— Obrigado. Espero que esteja saborosa também. Já faz tanto tempo que eu cozinhei essa lasanha, que estou com medo de ter errado a receita — comenta Leon, dando um fraco sorriso.

Tyler me encara e parece surpreso com a presença de Olga, mas não demonstra qualquer hostilidade. Ele sorri para nós e se senta ao meu lado.

— Eu tenho certeza de que está deliciosa, Leon — garante Olga. — O cheiro e a beleza do prato não negam. Eu já estou salivando.

— É ótimo ter você com a gente, querida — afirma Nina, sorrindo.

Ela e Leon se sentam a mesa e não demora muito para que Manu aparecesse. Seu rosto estava impassível, os olhos firmes e frios como no nosso último encontro. Ela escolhe o assento mais distante de mim para se sentar, ao lado de Nina, e não dirige sequer um olhar na minha direção.

— Boa noite — murmura Manu, forçando um sorriso. — Essa lasanha parece deliciosa. O cheiro dela já estava me fazendo salivar desde o quarto.

— Eu comentei isso com Leon. O cheiro estar realmente divino — comenta Olga.

Manu a encara por alguns instantes e assente lentamente, como se ponderasse as palavras de minha namorada. Espero que Manu retruque ou diga algo que pudesse demonstrar raiva, frustração ou rancor de sua parte, mas ela volta sua atenção para Leon, que começa a cortar a lasanha. Nina me lança um olhar questionador e eu apenas me encolho levemente em minha cadeira, sem saber exatamente como reagir.

— Já que estão todos aqui, vamos começar a comer — sugere Leon, tentando amenizar o clima estranho que havia entre nós.

Ele vai recolhendo os pratos, um por vez, servindo uma porção generosa da lasanha para todos. Em seguida, o homem nos serve suco e volta a se sentar.

Os primeiros minutos do jantar transcorreram em silêncio, quebrados apenas pelo barulho dos talheres e pelo aroma intenso da lasanha que realmente estava deliciosa. Pouco a pouco, no entanto, a tensão inicial dá lugar a uma atmosfera mais acolhedora.

Com a saborosa lasanha e os suspiros de satisfação de todos a cada nova garfada em sua refeição, logo todos se viam elogiando os dotes culinários de Leon, que se mostrava feliz pelos comentários e aliviado também. Vez ou outra, era possível vê-lo trocando sutis carícias com a esposa, demonstrando que ele estava determinado a recuperar todo o tempo que perdeu ao ficar tantos anos longe de Nina.

De forma inconsciente, viro-me para observar Manu. Ao contrário da garota tagarela e extrovertida, ela permanecia quieta e distante. Mesmo que sua expressão fosse neutra e não esboçasse qualquer desconforto ou repulsa pela minha presença ou de Olga, ainda era evidente que havia algo de errado.

Ela apenas comia em silêncio, concentrada em sua comida. Vez ou outra, ela erguia o rosto para concordar com algum comentário de Tyler ou Nina, dando sorrisos contidos, mas logo voltava a atenção para o prato, permanecendo distante de todos.

— Sabe, Leon, durante esses anos em que Manu e eu temos morado aqui, Nina sempre fez questão de falar sobre você e de narrar as inúmeras aventuras que vocês viveram quando jovens — comenta Tyler, limpando a boca. Ele ri levemente e encara o homem. — De alguma forma, isso me fez sentir como se eu o conhecesse há anos.

Leon encara a esposa e sorri, colocando a mão sobre a dela. Nina parece um pouco envergonhada, mas ainda sorri, sem conseguir esconder a felicidade que sentia por estar próxima do marido.

— Não exagere. Eu não falei tanto assim — resmunga Nina.

— Nesse caso, eu não consigo nem imaginar como seria se você tivesse realmente falado — provoca Tyler e Nina bufa, mas logo volta a rir, envergonhada.

Leon deixa um beijo no topo da mão de Nina e sorri, parecendo feliz em saber que a esposa tinha o citado tantas vezes quanto ele mesmo havia feito durante o tempo em que estivemos longe de Most. Dia após dia, Leon fazia questão de narrar o quão sortudo se sentia por ter se casado com o amor de sua vida e como era grato por ter ao seu lado, alguém por quem ele se apaixonou diariamente nos últimos quinze anos, mesmo diante de todos os desafios e sacrifícios que eles tiveram que fazer para ficarem juntos.

— Está tudo bem, querida. Eu também não parei de falar sobre você um único dia nesses três anos — afirma Leon, encarando-a como um jovem apaixonado. — Aposto que entediei as crianças de tanto que eu falava sobre você.

— Nunca nos sentimos entediados. Na verdade, eu os admirava cada vez mais todas as vezes que eu o escutava contar sobre o quanto vocês lutaram para chegar até aqui — afirmo com sinceridade.

— Prince tem razão. É bonito que mesmo depois de enfrentarem guerras, verem tantas pessoas importantes morrerem e se decepcionarem com tantas injustiças, vocês ainda tenham a coragem para seguir em frente, acreditando no amor de vocês. Acho que se tivesse passado pela metade do que você passou quando jovem, Nina, eu acho que já teria perdido completamente a fé na humanidade — comenta Olga, encarando a esposa de nosso mentor com admiração. — Eu já a admirava antes de sair em missão com Leon, mas ouvir sua história me fez ter ainda mais respeito pela sua força e determinação, Nina.

Não foram poucas as vezes em que Leon relatou que a esposa passou por diversas torturas e dificuldades por causa das ações de meu avô, que mesmo tendo sido um bom líder para Krósvia, foi extremamente cruel para outras nações, e pelo meu pai, que foi responsável pela morte de sua família em um dos ataques ao povo do interior de Krósvia, que não estava conseguindo pagar as altas tarifas que impôs no início de seu reinado.

— Eu não fiz nada digno de tanta admiração — responde Nina com o semblante pensativo.

Ela bebe um pouco de suco e limpa a boca. A expressão série me mostra que Nina carrega um peso enorme em seu coração e, mesmo que anos tenham se passado, ela jamais esqueceria a mágoa que sentia de minha família pelo que fizeram a ela.

Nina nos encara com tanta determinação, que quase posso sentir o ódio que ela guarda dentro de si. Havia uma aura perigosa, quase mortal, que sinto meu sangue gelar apenas por pensar que compartilho do mesmo DNA que as pessoas que ela tanto odeia.

Mesmo que geralmente ela se mostre gentil e acolhedora, naquele momento, ao vê-la cortar a lasanha como se estivesse descontando toda a sua raiva no alimento, eu conseguia entender o que Leon quis dizer quando nos contou algumas vezes que Nina poderia ser tão adorável e letal quanto um gato-bravo-de-patas-negras.

Segundo Leon, apesar de seu pequeno tamanho, esse gato é um caçador extremamente eficiente, capaz de abater mais presas em uma única noite do que felinos maiores, como o leopardo, em um período muito mais longo. Além disso, são caçadores pacientes, estrategistas e extremamente precisos. Dificilmente uma caça consegue escapar de seus movimentos ágeis e letais.

— Eu apenas não podia deixar que as mortes de inocentes que presenciamos todos esses anos tenha sido em vão. Eu não queria dar esse gostinho a Magnus Dawson e Lester Dawson de terem acabado com a vida de tantas pessoas e saírem impunes. Infelizmente, Magnus morreu antes que tivéssemos conquistado alguma revolução, mas Lester ainda está vivo. Ainda não é tarde demais para termos justiça pelas mortes injustas e liberdade de Krósvia. Enquanto eu viver, farei o que for preciso para garantir que ele vai sofrer bastante antes de partir para o inferno — garante Nina, encarando-nos quase como se estivesse acabado de proferir uma profecia.

Um silêncio contemplativo pairou sobre a mesa após as palavras de Nina, como se ninguém ousasse quebrar a força da sua determinação. Eu me sentia pequeno diante da intensidade daquela mulher. Até mesmo Leon, que conhecia e falava com frequência sobre a história de Nina como um incentivo para Olga e eu, apenas baixa os olhos para o prato, mostrando respeito ao momento.

— Sinto muito pelo que minha família fez a você, Nina — lamento, sentindo-me frustrado por estar diante da dor que meus familiares causaram na mulher. — Eu garanto que ele vai pagar por tudo o que ele fez.

Nina assente e suaviza a expressão assustadora que exibia em seu bonito rosto. Ela suspira e troca olhares com o marido, antes de voltar a me encarar.

— Por muito tempo, eu condenei todos da sua família, Prince, mas eu não sou mais a criança que viu os soldados krosviano atacando os pais por causa de míseros trocados. Eu sei que você não tem culpa alguma do que aconteceu e nem acho que você deve assumir a responsabilidade por eles, mas eu estou grata por você ter decidido lutar ao nosso lado e ter ajudado meu marido quando ele esteve em perigo durante esses anos de missão — responde Nina, sorrindo. — Vamos fazer o nosso melhor para garantir que a Resistência possa deter a tirania de seu pai e traga a paz que Krósvia merece.

Respiro fundo, tentando controlar minha frustração, e assinto.

— Sim. Eu não vou desistir de lutar. Não importa o que aconteça — digo, determinado.

Nina assente com satisfação e logo troca olhares de admiração com o marido, em uma conversa muda, que interpretei como se ela estivesse orgulhosa do bom trabalho que ele havia feito ao treinar a mim e a Olga.

Suspiro e meus pensamentos inevitavelmente fogem para Ally. Minha irmãzinha, ainda tão pequena, tão inocente, nem sequer imagina o peso que carrega nos ombros. Sinto um aperto no peito só de pensar em como será quando ela crescer e descobrir que herdou não apenas um sobrenome manchado de sangue, mas também responsabilidades que podem sufocar qualquer esperança de uma vida comum.

Será que ela terá a chance de brincar livremente, de sorrir sem medo, ou será que sua infância será roubada pelas terríveis ações do tirano rei Lester, assim como minha infância? Imaginar Ally tendo de assumir um papel tão grande e pesado quanto a coroa de Krósvia um dia me dá um nó no estômago, porque eu sei bem como é sufocante e doloroso. Eu daria qualquer coisa para que ela pudesse viver em paz, sem o peso da monarquia em seus ombros, mas sei que esse futuro só será possível se vencermos uma guerra que parece cada vez mais impossível.

Anos de medo, de intimidação e de manipulação deixaram marcas profundas na mente do povo. Meu pai não governa apenas pela força das armas, mas pela maneira como destruiu sonhos, famílias e a fé dos inocentes. Libertar Krósvia significará lutar contra um império de cicatrizes invisíveis, e essa batalha me parece, às vezes, mais difícil do que qualquer confronto armado.

— Manu, está tudo bem com você?

A voz grave de Leon corta meus devaneios, trazendo-me de volta à mesa. Ele a observa com a testa levemente franzida, demonstrando sua preocupação com a garota.

— Você está tão quieta. Nina me disse que você é sempre tão extrovertida e tagarela. O que aconteceu?

Todos olhamos em sua direção. Manu levanta os olhos, surpresa por ser o foco de atenção e força um pequeno sorriso.

— Eu estou bem, Leon. Só estou cansada — responde de forma calma. — Passei o dia todo estudando com Mia e Cameron, além de ter aumentado a intensidade do meu treinamento.

— Parabéns por ter se tornado agente de elite — comenta Leon, sorrindo. — Nina me contou que você e Tyler são bastante talentosos e dedicados. Terem sobrevividos ao treinamento de Nina é um feito e tanto. Ninguém nunca aguentou os treinos dela por tanto tempo e o fizeram de forma tão determinada como vocês.

— Obrigada, Leon.

Manu o agradece e, pela primeira vez na noite, a garota dá um sorriso verdadeiro, ainda que fosse contido. Eu conseguia ver o quanto ela se sentia orgulhosa por ter chegado tão longe. Tyler não estava muito diferente. Era possível ver o alívio dele em saber que seus esforços havia valido a pena.

— De fato, não foi fácil, mas ver a nossa evolução e como nos tornamos mais fortes nos deu forças para continuar — responde Tyler, encarando Leon, parecendo emocionado. — Perdemos muitas pessoas no passado e sempre sentimos que tudo teria sido diferente se fossemos mais fortes.

— Prometemos a nós mesmos que não deixaríamos isso voltar a acontecer — completa Manu, trocando olhares determinados com o primo. — Então, obrigada por ter nos ajudado a crescer e nos tornamos soldados de verdade, Nina.

— Oh, querida, eu estou muito orgulhosa de vocês — afirma Nina, dando o sorriso maternal que parece deixar Manu emocionada. — Eu posso ter ajudado, mas o que aconteceu é mérito completamente de vocês. Como Leon disse, vocês foram os primeiros jovens que eu treinei que aceitaram as minhas loucuras e foram até longe. É um treinamento infernal, que Leon e eu passamos quando mais novos, mas foi o que nos levou a sobreviver em meio ao caos.

— Hoje em dia, as coisas estão bem melhores se comparado com vinte anos atrás — comenta Leon, soando melancólico. — Mas, não sabemos o que pode acontecer e quais cenários vocês terão que enfrentar, por isso, Nina e eu queremos que vocês quatro estejam preparados para tudo. Vocês não podem esquecer nunca dos objetivos de vocês e o motivo de estarem lutando.

— Faremos o nosso melhor — garante Olga. — Enquanto isso, por favor, continuem sendo os nossos mentores. Acho que posso dizer em nome de todos, que nós quatro ainda queremos ir mais longe, mas sabemos que ainda temos um longo caminho pela frente.

— Sim. Todos nós perdemos mais pessoas do que deveríamos — relembro, frustrado. — Não queremos mais nos sentir insuficientes como naquela época.

Um silêncio denso pairou no ar após minhas palavras. Lembranças dolorosas de batalhas perdidas e rostos que jamais voltaríamos a ver se projetavam em nossas mentes, como fantasmas que insistiam em nos assombrar. Por um instante, apenas o barulho dos talheres contra os pratos preenchia o ambiente.

Leon recostou-se levemente na cadeira, olhando para cada um de nós com atenção.

— Vocês são jovens, mas já conhecem o peso da guerra melhor do que muitos veteranos. Nina e eu sabemos como é sentir essa dor de não ser forte o bastante para salvar quem amamos. Mas não se enganem. Ser forte não significa vencer todas as batalhas. Significa levantar-se toda vez que a vida tenta esmagar vocês.

Nina assente, tocando a mão do marido. Seus olhos exibiam ternura e firmeza, como uma professora prestes a dar uma lição importante.

— Não deixem que a culpa corroa vocês. A Resistência não é feita de heróis perfeitos e sim de pessoas comuns que se recusam a desistir.

Manu suspira e bebe um pouco do suco. O brilho intenso refletido em seu olhar contrastava com a postura cansada que exibia.

— Eu entendo, Nina.

Ela dá um fraco sorriso, mas sua voz ainda carregava uma leve melancolia. Manu parecia se sentir sobrecarregada. Seus ombros estavam tensos e seus olhos, que geralmente são intensamente brilhantes, agora exibia uma certa insegurança.

— Ainda assim, nós precisamos ter cuidado e ter ciência de nossas responsabilidade. Ao receber o treinamento de Mia, eu pude entender que não somos mais aprendizes. Pessoas podem facilmente morrer por qualquer escolha errada que a gente faça. Estar na equipe de elite significa se envolver em missões de resgate e colher informações que envolvem a segurança nacional. São responsabilidades que não podemos tratar de forma banal.

— Você não precisa carregar tudo sozinha, Manu — responde Tyler, encarando a prima com determinação. — Eu vou estar com você, não importa o que aconteça.

Ela desvia o olhar, tocada pela promessa, e por um instante deixa transparecer a fragilidade que sempre tentava esconder.

— Eu sei, Tyler. Mas, no fundo, cada um de nós vai ter que enfrentar seus próprios demônios. E nem sempre estaremos juntos na mesma missão.

Manu respira fundo e volta a encarar Leon e Nina.

— Ainda assim, obrigada por acreditarem em mim. Eu prometo que não vou decepcionar vocês.

Leon a observou em silêncio, mas sua expressão paternal entregava a mistura de orgulho e preocupação que sentia. Nina parece preocupada com as palavras de Manu, mas não sei dizer o que se passava em sua mente.

Meu mentor estende a mão e a estende para Manu sobre a mesa, surpreendendo a garota, que a pega, desconfiada.

— Apenas prometa que nunca vai se esquecer que você não é só uma agente de elite, Manu, ou apenas um soldado da Resistência que precisa carregar o mundo nos ombros. Você é uma garota que ainda tem direito a viver e sonhar. A Resistência precisa de guerreiros, mas também de pessoas que lembrem pelo que estamos lutando. O mundo precisa de esperança de que não estamos apenas lutando. É preciso que se veja um futuro além do caos. Não deixe que a guerra tome de você o dom de imaginar e sorrir. Você ainda é jovem. Por mais difícil que seja, aproveite essa fase para se divertir com os amigos, para rir e se divertir nos dias de paz. E quando o momento de se comprometer com tamanha responsabilidade, você ainda terá companheiros da Resistência para te apoiar e fazer acreditar que algo de melhor está por vir — aconselha Leon.

Manu assente, intensificando o aperto de suas mãos. Seus olhos parecem ganhar um pouco mais de luz e isso faz Leon sorri antes de soltar a mão da garota.

As palavras dele me atingem fundo, porque é inevitável não pensar mais uma vez em Ally. Minha irmãzinha. Será se um dia eu serei capaz de me sentar ao lado dela em uma mesa e aconselhá-la como Leon fez com Manu? Poderei ficar ao lado dela em algum momento? Será que um dia ela irá me perdoar por deixá-la com a responsabilidade de se tornar rainha de Krósvia? Será que poderei vê-la se casar e ter filhos?

Olga parece perceber que meus pensamentos tomavam um rumo melancólico e cruel demais, porque sua mão se fecha com ainda mais firmeza sobre a minha debaixo da mesa, transmitindo-me uma força silenciosa.

Nina, então, ergue seu copo de suco, quebrando a tensão com um gesto solene.

— Pela Resistência. Por aqueles que vieram antes de nós... e por aqueles que ainda virão.

Todos nós erguemos nossos copos em uníssono. As vozes se uniram em um brinde simples, mas carregado de significado.

— Pela Resistência!

Enquanto o líquido frio descia pela minha garganta, sinto algo acender dentro de mim. Medo, sim. Incerteza, também. Mas, acima de tudo, esperança. Talvez fosse frágil, mas ainda era esperança. Esperança de lutar ao lado de meus amigos pela liberdade de Krósvia. Esperança de reencontrar minha irmã e ser o irmão mais velho que possa estar ao seu lado nos momentos bons e ruins. Esperança de um dia a guerra ser só um período sombrio que ficou no passado junto a memória daqueles que fizeram parte de nossas vidas e se foram cedo demais.