Fire Scars

43 Retorno


Capítulo XLII — Retorno


“Derrotada, só choro quando estiver sozinha

Você nunca verá o que estou escondendo

Escondendo lá no fundo, sim, sim

Eu sei, já ouvi que se deve mostrar seus sentimentos

É a única maneira de fazer as amizades crescerem

Mas eu tenho muito medo agora, sim

Eu coloco minha armadura, te mostro o quão forte eu sou

Eu coloco minha armadura, vou te mostrar que sou.”

Sia – Unstoppable



Rengard – 1999

O vento parecia mais pesado quando Taynara e Gavin desapareceram na escuridão da floresta. Ficamos ali, imóveis, como se nossas pernas tivessem sido presas ao chão, incapazes de nos mover depois de tudo o que havíamos acabado de ouvir. O silêncio que tomou a clareira era quase ensurdecedor, e só o som da minha respiração acelerada preenchia o vazio.

Eu não sei por quanto tempo permanecemos parados, apenas refletindo sobre o que tinha acontecido, mas o céu já estava completamente tomado pela noite quando me dei conta da realidade. Com a falta de iluminação, era possível ver as estrelas e contemplar um cenário que seria encantador se não fosse pelo caos que me corroía por dentro.

— É tudo mentira — murmuro, quebrando o silêncio, mesmo que minha voz saísse trêmula. — Ela tem que estar mentindo. Meu pai não era um monstro.

Prince não responde de imediato. Seus olhos permaneceram fixos na sombra onde Taynara havia sumido, por alguns instantes, como se esperasse que ela voltasse a qualquer momento. O maxilar dele estava tão rígido que quase parecia que os dentes iriam se partir com a pressão.

— Não sei mais o que é verdade — afirma Prince, soando extremamente cansado. — Só sei que cada vez que olhava para ela, eu sentia como se estivesse diante de um espelho distorcido. Como se ela fosse tudo o que eu poderia ter me tornado.

Essas palavras me atingiram como um soco no estômago. Eu queria contestar, dizer que Prince jamais seria como Taynara, mas a forma como ele falou e o peso em seu tom me fizeram hesitar.

— Não se deixe abalar, Prince — sussurro, apertando a manga do casaco dele. — Ela só quer plantar dúvidas na sua cabeça. É isso que ela faz. Ela nos manipula. Eu odeio admitir, mas ela é muito boa com as palavras.

Ele me encara e assente, dando um fraco sorriso. Ainda assim, seus olhos continuavam a exibir um brilho frustrado, como se sentisse culpado por algo. Eu não sabia o que se passava em sua mente, mas não me agradava em nada vê-lo daquela forma.

No entanto, antes que eu dissesse algo a Prince, ouço Tyler, que até então permanecia em silêncio, respirar fundo. Encaro meu primo e ele nos observava com seriedade. Seu rosto estava tenso, e havia hesitação em seus olhos.

— Talvez… parte do que ela disse seja verdade — comenta Tyler devagar, como se cada palavra fosse um fardo. — Eu não estou dizendo que devemos confiar nela. Mas eu vi, Manu… nós vimos. Tio Stefan não era um santo.

Meu corpo gela. Era como se uma faca tivesse atravessado meu peito. Eu me afasto um passo, encarando meu primo com indignação.

— Você vai mesmo dar razão para aquela assassina? — questiono, sentindo a raiva queimar minha garganta. — Ela matou meu pai, Tyler! Matou Henry! Você vai esquecer disso só porque ela sabe manipular palavras?!

Ele fecha os olhos, passando a mão pelo rosto, exasperado.

— Eu não estou esquecendo! — rebate. — Mas precisamos encarar a possibilidade de que não conhecíamos tio Stefan tão bem quanto pensávamos.

— Chega! — interrompe Prince, ríspido como uma lâmina. — Não importa se Stefan era santo ou demônio. O que importa é que Taynara escolheu nos trair. Ela deixou Henry morrer, entregou a minha localização e agora ameaça Johnny. Isso é tudo que precisamos saber.

As palavras ecoaram na clareira, firmes, definitivas. Mas, por trás da dureza, eu reconheci a dor na voz dele.

Tyler desvia o olhar, vencido pelo silêncio de Prince. E eu apenas fiquei ali, abraçada pelo frio da noite, com a sensação de que, a cada palavra dita por Taynara, uma parte do nosso passado havia sido arrancada de nós.

Respiro fundo, tentando conter minhas próprias lágrimas. A raiva e a confusão se misturavam dentro de mim como um turbilhão. Eu queria acreditar que meu pai era o homem que me ensinou a ser forte, o homem que me abraçava nas noites frias de Füssen, que me protegia e era amoroso. Mas agora, uma sombra havia sido lançada sobre todas essas memórias. E se ele fosse mesmo alguém terrível? O que eu deveria fazer com essa informação? Todas os meus momentos com ele não passavam de farsas?

Não. Por mais que ele pudesse ser uma pessoa impiedosa, ele ainda era um bom pai. Ele ainda foi um homem que cuidou de quatro crianças sozinho, enquanto enfrentava o luto pela morte da esposa e da irmã. Então, por mais que ele tivesse tido ações contraditórias, ele ainda foi o meu amado pai e nada disso apagaria isso de minha memória.

Ignoro as incertezas de meu coração e observo os dois rapazes que pareciam tão perdidos em pensamentos. Nossa missão não havia acabado. Precisávamos verificar o estado dos reféns e se Nina e Leon haviam conseguido resgatá-los. Além disso, ainda havia o recado dado por Taynara a Johnny. A ameaça pairava sobre nossas cabeças como uma sentença inevitável.

— Temos que contar a ele — comento, quebrando novamente o silêncio. — Johnny precisa saber que Taynara está atrás dele.

Prince cerra os punhos e respira fundo.

— Sim. De qualquer forma teremos que repassar tudo o que aconteceu aqui quando retornamos para Most — relembra, cansado.

— E o que vamos fazer agora? — questiona Tyler, olhando em direção em que Taynara e Gavin haviam ido. — Devemos ir atrás deles?

— Não. Eles já estão longe — digo, dando de ombros. — E mesmo que fosse atrás deles, não haveria garantias de que sobreviveríamos. Estamos no território deles e desarmados. O melhor a fazer é voltarmos para o ponto de encontro e verificar a situação dos reféns. Nem mesmo sei se conseguimos enrolar o bastante para eles conseguirem resgatá-los.

— Droga! Eu tinha me esquecido deles — resmunga Tyler, parecendo frustrado consigo mesmo.

— De qualquer forma, nós precisamos estar preparados para quando essa guerra começar. Taynara não é mais uma garotinha. Eu ainda não entendi o objetivo dela de hoje, mas ficou claro que não haverá mais encontros em clareiras ou conversas com meias verdades. Da próxima vez que estivermos frente a frente, será para acabar com ela de uma vez por todas ou sermos mortos — destaca Prince, observando-nos com intensidade.

Sinto um frio subir pela minha espinha ao pensar em como poderá ocorrer nosso encontro. Mesmo assim, agora não era o momento de pensar nisso. Temos assuntos mais importantes para resolver do que pensar em um futuro que nem mesmo sabemos quando e se chegará.

— Não adianta pensarmos sobre isso. Não é como se tivéssemos poder agora para lidar com essa situação — respondo, tentando soar o mais confiante possível.

— Manu tem razão. Vamos voltar para o ponto de encontro e deixar para pensar sobre isso quando retornarmos para Most — concorda Tyler, passando a andar na direção em que viemos.

O caminho de volta até a borda da floresta parecia mais longo do que a vinda. Cada passo ecoava pesado, como se carregássemos a sombra de Taynara ainda grudada em nós. O frio da noite cortava a pele, mas não era nada comparado à sensação sufocante que pairava sobre nós. Ninguém falava. Prince caminhava na frente, rígido, e seu maxilar estava travado. Logo ao meu lado, Tyler mantinha os olhos baixos, como se lutasse contra os próprios pensamentos. Eu, por minha vez, sentia o coração se partir entre a raiva e a dúvida.

Assim que chegamos no meio da floresta, somos surpreendidos pela presença de Bóris, Jay e Rose. Antes que tivéssemos a chance de cumprimentá-los, Bóris faz sinal para que ficássemos em silêncio e seguíssemos em frente. Talvez temesse que algum membro do grupo de Taynara nos emboscasse.

Assentimos e passamos a seguir para o ponto de encontro, sendo escoltados pelos três. A escuridão dificultava a nossa mobilidade, então demorou um tempo até que as árvores passassem a abrir um pouco e permitisse que a lua cheia se tornasse a nossa iluminação.

Quando as árvores finalmente se abriram, revelando o ponto onde havíamos deixado os carros, não consigo evitar um suspiro de alívio. Lanternas discretas iluminavam o perímetro, e, assim que nos aproximamos, o som de passos e vozes baixas chegou aos nossos ouvidos.

O alívio foi imediato quando reconheci as vozes conhecidas e vi as silhuetas surgirem sob a luz fraca das lanternas. Cam estava de pé ao lado de um dos carros, ainda carregando o rifle. Ele estava com a mochila apoiada nos ombros e exibia um rosto sério demais para seu feitio, mas não demora muito para seus olhos se suavizarem assim que nos avista. Olga se aproxima em seguida e não consegue esconder o suspiro de alívio ao ver Prince inteiro.

Irina surgiu logo atrás, ainda com a arma em punho, mas sorriu de leve para mim e Tyler, como quem dizia silenciosamente que já estava tudo sob controle. Ela abraça o namorado com intensidade e deixa um beijo delicado em seus lábios.

— Graças a Deus — murmura Olga, tocando o braço de Prince com delicadeza, como se precisasse confirmar que ele realmente estava ali. — Vocês demoraram tanto que estávamos com medo de que algo tivesse acontecido.

Prince sorri e a abraça, como se procurasse um pouco de consolo nos braços da garota, que prontamente o corresponde, fechando os olhos. Ela parecia apreciar o contato e eu apenas me sentia como uma intrusa, presenciando um momento íntimo de casal que eu não gostaria de ver.

Sinto a mão de Cam sobre meu ombro e eu apenas o abraço, escondendo meu rosto em seu peito, apenas porque estava me sentindo patética demais. Ele corresponde ao gesto, acariciando minha cabeça com carinho. Quase choro com o cuidado do rapaz.

— Paramos de ter a visão da posição de vocês, assim que retornaram para dentro da floresta e perdemos contato com Bóris, Jay e Rose, então estávamos cogitando entrar para procurar por vocês — revela Irina, afastando-se de Tyler.

— Apenas tivemos que ir devagar, porque estava muito escuro — explica Prince, separando-se de Olga para ficar de mãos dadas com ela. — Desculpa a demora.

— As árvores densas devem ter atrapalhado o sinal com Bóris e os outros — supõe Tyler, observando o três conversarem. — E onde estão Nina e Leon? Os outros estão bem? Conseguimos resgatar todos?

— Sim. Não se preocupe. Eles estão conversando dentro do caminhão. Ficamos aqui fora para esperar por vocês — responde Cam, ainda me abraçando.

Viro o rosto apenas para continuar observando meus amigos, enquanto permaneço abraçada por Cam. A presença dele conseguia me deixar um pouco mais confiante de que não choraria. Pelo menos, não na frente de Prince e Olga. Eu me recusava a isso.

E então, não demoramos a ouvir o restante do grupo se aproximar. Afasto-me de Cam e sinto meu peito se apertar de emoção. Nina e Leon surgiram lado a lado, sorrindo satisfeitos. Atrás deles, Dimitri, Bart e Lorelai abriram caminho. E no meio deles, enfim, estavam os reféns.

Cat caminhava com passos firmes, sorrindo com a típica doçura dela. Maria conversava com Lorelai de forma séria, mas não parecia ter um arranhão sequer. Paul vinha logo depois, a expressão endurecida pelo cansaço, mas saudável. Por último, Serguei ergueu os olhos para nós e deixou escapar um sorriso breve, como se quisesse dissipar toda a tensão que pairava sobre o grupo.

Eles estavam bem. Sem marcas de violência, sem ferimentos, sem sinais de terem sido maltratados. Exatamente como Taynara havia prometido.

— Vocês conseguiram! — exclamo, correndo até Nina. Ela sorri e me puxa para um abraço apertado. — Eu achei que tínhamos colocado tudo a perder. Não conseguimos nos controlar e acabamos brigando com eles...

— Está tudo bem, Manu — garante Nina, afastando-se de mim. No entanto, ela ainda tinha uma expressão repreendedora. — Mas, vocês foram muito inconsequentes. Tivemos sorte dessa vez. Nós treinamos tanto! Como puderam se deixar levar tão fácil assim?

Encolho-me, sentindo-me péssima. Ela estava certa. Passamos por tantas coisas. Nina nos obrigou a ir até o limite para perdermos o controle tão facilmente diante de provocações tão óbvias como as feitas por Gavin e Taynara.

— O importante é que tudo acabou bem — afirma Leon, colocando a mão sobre o meu ombro. — Não se preocupe tanto, Manu. Taynara não planejava matar vocês ou os reféns. Nós conseguimos escapar facilmente da fortaleza. Os poucos guardas que tinham nem mesmo se moveram quando entramos e menos ainda quando tiramos todos da cela que nem mesmo era vigiada por guardas. Só havia diversas câmeras pelo local. Foi como se eles quisessem que nós saíssemos e estavam presentes apenas para garantir que não investigássemos mais coisas.

Surpreendo-me com a informação. Se Taynara não queria nos ferir, então o objetivo dela era realmente nos encontrar e apenas dá um aviso? Eu não conseguia entender o que se passava na cabeça de Taynara e isso só me deixa ainda mais preocupada.

Tyler e Prince trocam um olhar pesado, mas não disseram nada.

Suspiro e volto minha atenção para o grupo de reféns que cumprimentava Bóris, Rose e Jay, que não conseguia esconder a felicidade e o alívio de ter a esposa de volta. Cat o abraçava apertado e sussurrava algo que o fazia se encolher ainda mais contra ela. Bóris sorria e conversava com Serguei, aliviado por ter o irmão de volta. Enquanto isso, Rose inspecionava Paul e Maria com afinco.

Dimitri, Bart e Lorelai nos observavam em silêncio, mas era difícil saber o que eles sentiam. Suas expressões neutras não dava brechas para entendermos se o perigo havia passado ou se era apenas o início de uma noite conturbada.

Cat se afasta do marido e se vira para nós. Ela abre um grande sorriso e corre em minha direção. Correspondo ao sorriso e a abraço, assim que ela me alcança. Mesmo que quase não tenhamos tanto contato, já que estou frequentemente em missão e ela divide o tempo em ensinar os recrutas sobre a Resistência e cuidar das pequenas Ava e Dandara, eu ainda tenho um grande carinho por ela, já que Cat foi uma das poucas pessoas que realmente nos acolheu.

— Você está bem? Eu fiquei tão preocupada! — murmuro, apertando mais o abraço. — Eu sabia que não era uma boa ideia Johnny ter te enviado nessa missão.

— Não seja boba. Eu era uma das pessoas mais adequadas para essa missão — repreende Cat, afastando-se para me encarar. — E não se preocupe. Eles não encostaram um dedo em nós. Foi estranho, mas não sofremos nada. Na verdade, o local que estávamos era confortável e até recebemos refeições saborosas. Era frustrante que não dissessem nada, mas ficamos bem.

Eu não sabia se deveria sentir alívio ou desconfiança, mas, por ora, eu preferi abraçá-la novamente. Meus olhos se encheram de lágrimas ao perceber que a missão tinha sido um sucesso, mesmo que nada tivesse saído como esperávamos.

— Rose está me chamando. Eu já volto — avisa Cat, afastando-se com delicadeza.

Assinto e a observo partir, acomodando-me ao lado de Nina e Leon. Nesse momento, noto Prince se aproximar de nós, junto com Olga. Tyler permanece onde estava com Irina e Cam.

Prince anda apressadamente até Leon e o observa, certificando-se de que ele realmente estava realmente bem.

— Vocês estão bem? — pergunta, alternando o olhar entre Leon e Nina.

Leon assente, com um pequeno sorriso.

— Como pode ver, não precisamos nem suar. O resgate foi um sucesso e saímos da fortaleza sem precisar lutarmos. Todos estão perfeitamente bem.

— Fico feliz que estamos todos juntos de novo — comenta Olga, pousando os olhos em Prince com uma intensidade silenciosa.

Bóris se aproxima de nós, voltando a assumir a postura séria de sempre.

— Não podemos nos dar ao luxo de ficar aqui por muito tempo. Eles podem ter deixado vocês irem, mas isso não significa que não estejam nos observando.

— Já estamos prontos para sair — informa Cam, aproximando-se de nós. Ele aponta para o lado oposto. — Hugo acabou de chegar com mais uma van.

Nesse momento, noto o veículo se aproximando de nós. Ele para ao lado do caminhão e Hugo desce do lado do motorista para abrir a porta lateral da van.

— Organizem os reféns na van. Todos os outros retornem no mesmo veículo que vieram. Precisamos sair daqui antes que a sorte mude de lado — orienta Leon a Bóris, que assente.

Bóris vai em direção a Cat e os outros, que ainda conversavam com Rose, Dimitri e Jay. Ele informa sobre a orientação de Leon. Todos imediatamente começam a seguir para suas posições, assim como Tyler, Irina, Olga e Prince. Cam se vira para mim e me estende a mão.

— Vamos?

Assinto, respirando fundo, tentando me firmar diante de tantas emoções misturadas. O reencontro estava completo. Todos estavam vivos, ilesos. Mas as palavras de Taynara ainda ecoavam na minha mente, quase como um veneno lento.

A movimentação foi rápida, quase mecânica. Como todos já sabiam de suas posições, não demorou muito para que cada um fosse imediatamente para o veículo que tinha sido usado para vir. O alívio pelo resgate bem-sucedido não diminuía a urgência de deixarmos aquele território hostil o quanto antes.

Os reféns foram os primeiros a embarcar. Cat, Maria, Paul e Serguei seguiram para a van junto com Jay, Hugo e Bóris. Enquanto caminhava em direção ao caminhão, pude ver Jay segurar a mão de Cat por alguns instantes, como se ainda temesse que a perdesse de novo. Eles deveriam estar ansiosos para voltar a Most para reencontrar a filha. O gesto me aqueceu o peito, lembrando-me de que, apesar de todo o caos, ainda havia laços que nos mantinham firmes.

No caminhão, Leon assumiu o volante como tinha feito na vinda e Nina se sentou ao lado dele na frente, com os olhos atentos, conferindo o caminho no mapa.

Eu subi na carroceria, acomodando-me ao lado de Cam. O frio da noite entrava por todas as frestas, cortando a pele, mas a presença dele perto de mim me dava algum aconchego. Ao nosso redor, Prince se acomodou em silêncio e Olga sentou ao lado dele, oferecendo um suporte que parecia ser apreciado por ele. Tyler e Irina também se juntaram a nós, trocando olhares cúmplices, ficando mais próximos do que nunca.

Rose, Bart, Lorelai e Dimitri seguiram no carro menor, que se posicionou à frente, para abrir caminho.

O comboio partiu em silêncio com os motores dos veículos abafando qualquer som da floresta que ia ficando para trás. A lua cheia iluminava a estrada irregular, e por alguns minutos, eu me permiti fechar os olhos por alguns instantes para me acalmar.

Dentro da carroceria, ninguém parecia disposto a conversar. O silêncio era pesado e, mesmo que estivesse escuro, eu sabia que cada um estava perdido em seus próprios pensamentos. Prince encarava o vazio, a expressão séria. Olga não parecia muito diferente ao seu lado. Tyler ajeitava o micro comunicador que continuávamos a usar, como se buscasse se distrair, e Irina apoiava a cabeça no ombro dele, tentando descansar.

Cam quebra o silêncio ao se inclinar um pouco para mim. Sua voz foi baixa, como se tivesse medo de que alguém mais ouvisse.

— Você está bem?

Assinto, mesmo que fosse uma mentira.

— Estou. Só tentando entender tudo.

Ele não insiste, apenas passa o braço por trás de mim, como se dissesse que não havia problema em estar confusa.

A viagem até Viana durou cerca de três horas. O cansaço se acumulava em nossos corpos, mas ninguém ousava dormir profundamente. Cada farol distante, cada curva mais fechada, cada ruído da estrada fazia nossos músculos enrijecerem. Era como se estivéssemos prontos para saltar a qualquer momento.

Quando finalmente cruzamos a fronteira e vimos as primeiras luzes da cidade austríaca, uma onda de alívio silencioso percorreu o grupo. Viana estava à nossa frente, discreta, mas para nós representava a saída daquele pesadelo.

Na pista de pouso improvisada, o avião da Resistência já nos aguardava, camuflado sob a escuridão da noite, com alguns agentes que ficaram responsáveis por cuidar dos veículos e garantir a nossa viagem segura de retorno a Most.

Os veículos pararam próximos, e em poucos minutos todos estavam desembarcando. Os Maria, Paul, Cat, Jay e Serguei foram os primeiros a embarcar na aeronave, guiados por Hugo e Bóris. Na sequência, cada grupo ocupou seu lugar. Eu subi junto com Cam, Prince, Olga, Tyler, Irina, Nina e Leon. Rose, Bart, Lorelai e Dimitri vieram logo depois.

Quando todos estavam acomodados e o motor começou a rugir, um silêncio pesado se espalhou. O avião decolou com firmeza, finalmente saindo do território inimigo. As luzes de Viana foram ficando pequenas até se perderem na escuridão.

Enquanto observava pela janela, uma única certeza ecoava em minha mente era que estávamos vivos, havíamos resgatado os reféns, mas a guerra com Taynara estava apenas começando.