Fire Scars

44 Explicações


Capítulo XLIII — Explicações


“Você é como a luz de um laser

Queimando, queimando em mim

Você é como a luz de um laser

Queimando, queimando em mim

Você me faz sentir bem, você me faz sentir segura

Você me faz sentir como se eu pudesse viver por outro dia”

Jessie J – Laserlight



Viana – 1999

O zumbido constante das turbinas do avião preenchia a cabine, embalando alguns em um sono inquieto e deixando outros mergulhados em seus próprios pensamentos. A iluminação interna era fraca, quase inexistente, permitindo que eu conseguisse observar a escuridão da noite que entrava pelas janelas pequenas do avião.

Cam estava ao meu lado de braços cruzados, mas não dormia. Seus olhos, fixos no teto da cabine, denunciavam que ele estava agitado demais para conseguir descansar. Eu também não conseguia fechar os olhos. Apesar de meu corpo estar exausto, o sono não vinha. Minha mente girava em círculos, revivendo a clareira, o olhar de Taynara, gélido e convicto, que parecia cortar até mesmo o ar que respirava, as palavras afiadas que ainda ecoavam em minha memória.

Institivamente, busco por Prince, que se encontrava do outro lado do corredor, imóvel e com a cabeça apoiada contra a fuselagem. Noto que seus olhos estão abertos, fixos em algum ponto invisível. Olga dormia encostada em seu ombro com os dedos entrelaçados aos dele.

Desvio o olhar e vejo que Tyler e Irina estavam algumas fileiras a frente, em completo silêncio. Ele a aconchegava em seu peito, enquanto acariciava a cabeça da namorada com carinho. Os demais membros dormiam ou simplesmente se perdiam no vazio.

— Você está bem?

A voz baixa de Cameron rompe meus pensamentos. Encaro-o, surpresa com a pergunta repentina. Ele não me olhava com insistência, apenas mantinha os olhos fixos no banco da frente, como se quisesse me dar espaço para responder com sinceridade.

Por um momento, quis apenas responder “sim” e encerrar o assunto. Mas algo em sua calma, em sua presença discreta, fez as barreiras se quebrarem.

Suspiro fundo, sentindo um peso sair do peito.

— Eu não sei — murmuro, soando mais fraca e vulnerável do que eu gostaria. — Ver Taynara depois de quatro anos foi como reviver cada dor que ela nos causou. E Gavin… ele estava com ela, defendendo cada palavra, como se nós fôssemos os monstros. O modo como ele nos olhava e nos acusava foi sufocante. Cada vez que eu fecho os olhos, relembro da dor presentes nos olhos de Taynara e do ódio que ela sentia ao falar do meu pai.

Cameron manteve o silêncio, apenas inclinando levemente a cabeça, ouvindo.

— Ela disse coisas sobre meu pai — sussurro, engolindo em seco. — Que meu pai era cruel. Que ele torturava pessoas, que era tão impiedoso quanto Lester. E o pior…

Minhas mãos se fecham sobre o tecido da minha calça, sentindo as lágrimas se formarem em meus olhos. Respiro fundo e encaro Cam.

— O pior foi ver o Prince e o Tyler não negarem. Eles concordaram que talvez fosse verdade. Hesitaram e pareciam ver sentido nas palavras de Gavin e Taynara. Como se não fosse tão absurdo assim o que eles diziam.

Minha voz falha. Olhei para baixo, tentando evitar as lágrimas, mas não consigo impedir que o desespero em meu âmago escapasse. A dor em meu coração se intensifica e acabo permitindo que chorar em silêncio, porque era pesado demais suportar toda a frustração que eu sentia naquele momento.

— Como posso aceitar isso, Cam? Como posso acreditar que o mesmo homem que cuidou de mim, que me embalava nas noites frias, que criava quatro crianças sozinho depois de perder a esposa e a irmã… era capaz de atrocidades? Ele foi um bom pai. Eu sei que foi. Como essas duas coisas podem existir na mesma pessoa?

Cameron finalmente se vira para mim. Seus olhos castanhos me encararam com uma firmeza acolhedora, e sua mão pousou suavemente sobre a minha.

— Porque as pessoas são complexas, Manu — responde calmamente. — Às vezes, alguém pode ser herói para uns e vilão para outros. Talvez o seu pai tenha mesmo feito coisas horríveis, mas isso não apaga quem ele foi para você. Ele ainda foi o pai que te amou e te protegeu. Essas duas verdades podem coexistir, mesmo que doa aceitar. Não errado que você o ame. Durante catorze anos da sua vida, ele a protegeu e garantiu que você visse apenas os lados bons dele. Isso significa que ele te amava de verdade e tenho certeza de que ele fez o que acreditava ser o melhor para você, Tyler e seus irmãos.

Fecho os olhos, deixando que uma lágrima escorresse. A dor ainda queimava, mas as palavras dele trouxeram um fio de consolo.

— Eu só queria que tudo fosse mais simples — murmuro. — Que houvesse apenas o certo e o errado, sem esse peso no meio.

Cameron aperta minha mão de leve.

— A vida sempre foi caótica para todos, Manu. Vivemos em um mundo repleto de possibilidades e verdades. Uma mesma situação pode ter vários pontos de vista e nem por isso todas estarão completamente erradas ou totalmente certas. O que nos resta é fazer o nosso melhor para ponderar o que devemos acreditar e lutar pelos nossos ideais.

— Acho que você tem razão — respondo, limpando o rosto.

— É claro que eu tenho. Eu sempre tenho razão, esqueceu? — provoca e eu dou uma cotovelada na costela do rapaz, que ri e se encolhe de dor.

Rio e respiro fundo, apoiando a cabeça em seu ombro. Pela primeira vez desde a clareira, senti o corpo relaxar, mesmo que fosse apenas um pouco. O mundo ainda estava desmoronando, mas ao lado de Cameron, havia uma pequena ilha de segurança no meio do caos.

— Nem sei o porquê de eu ainda te dar ouvidos — retruco, encarando-o em desafio.

— Porque você sabe que eu sempre estarei do seu lado e que eu apenas quero o seu bem — responde Cam, deixando um beijo no topo da minha cabeça.

Sorrio e encaro nossas mãos entrelaçadas, sentindo-me um pouco mais calma e acolhida. Relembrando que não estou sozinha, como me sentia até alguns minutos atrás.

O silêncio entre nós dois era confortável. Eu sentia o som do motor ao fundo, o leve balanço do avião e a respiração constante de Cam ao meu lado. Era como se, por alguns minutos, o mundo inteiro tivesse diminuído até caber só ali, entre nós.

Ele não disse mais nada e eu agradeci mentalmente por isso. Palavras demais teriam quebrado a frágil paz que começava a se formar dentro de mim. Apenas o gesto dele de segurar a minha mão com firmeza e o calor do ombro em que me apoiava, já me bastava.

Fecho os olhos, permitindo-me soltar um pouco do peso. Lágrimas silenciosas ainda escorriam, mas não eram mais de desespero. Eram um alívio estranho, uma rendição a algo que eu não podia controlar. Pela primeira vez em muito tempo, eu me senti pequena, mas também protegida.

Cam inclina o rosto de leve, quase roçando minha testa com os lábios, mas parou antes que acontecesse. Ficamos apenas assim, próximos o bastante para sentir a presença um do outro. Ele entendia. E eu agradecia por isso.

Ao redor, os outros seguiam dormindo ou mergulhados em seus próprios fantasmas. Prince e Olga não se moviam, Tyler e Irina dormiam, Nina e Leon respiravam pesadamente no fundo da cabine. Ninguém notava o que acontecia entre Cam e eu, e talvez fosse melhor assim.

Era como se esse instante fosse só nosso, roubado da guerra, dos ressentimentos e do futuro incerto. Uma pequena pausa antes da tormenta que viria.

— Obrigada por estar aqui, Cam — sussurro quase sem perceber, ainda encostada nele..

Ele aperta levemente minha mão.

— Sempre.

E aquela simples palavra foi o suficiente para que toda a agitação em meu coração se esvaísse mesmo que apenas por algumas horas.

Fechei os olhos outra vez e deixei o cansaço finalmente me dominar, adormecendo ali, no ombro de Cameron, com a sensação de que, apesar de tudo, eu ainda tinha onde me apoiar, enquanto o avião seguiu cortando os céus da noite em direção a Most, levando consigo não apenas os sobreviventes da missão, mas também os fantasmas que ainda precisávamos enfrentar.

O dia havia acabado de amanhecer, quando o avião pousou suavemente na pista improvisada de Most. As luzes baixas da base iluminaram a fuselagem ainda coberta pela névoa da madrugada, e, conforme o motor foi diminuindo o rugido, um silêncio tenso se espalhou entre todos.

Após a confirmação de que podíamos descer em segurança, Cat e Jay foram os primeiros a descer, ansiosos para reencontrar a filha que havia ficado com Tori desde que os pais estavam afastados. Maria, Paul, Serguei, Bóris e Hugo desceram logo em seguida. Rose, Nina, Leon, Dimitri, Bart e Lorelai também desceram, parecendo exaustos pela viagem.

Cam, Prince, Olga, Tyler, Irina e eu seguimos logo em seguida, aliviados por finalmente estarmos em casa. A missão tinha nos desgastado física e mentalmente, então esperávamos poder descansar um pouco, antes de voltarmos para a nossa intensa rotina.

O ar frio da manhã nos envolveu assim que deixamos a aeronave. O céu ainda estava tingido de cinza e a névoa cobria parcialmente a pista improvisada, fazendo tudo parecer mais silencioso do que realmente era. Um micro-ônibus já nos aguardava com o motor ligado, e Vince, um dos motoristas da Resistência, nos aguardava ao lado da porta de entrada do veículo.

Assim como ocorreu no avião, Cat e Jay foram os primeiros a se acomodarem no micro-ônibus. Em seguida, Maria e Paul subiram no veículo, enquanto conversavam baixo. Bóris e Hugo foram em seguida, junto a Serguei, que mantinha a postura calma, mas os olhos atentos a cada movimento.

Nina e Leon ajudaram a organizar a entrada do grupo, garantindo que todos ocupassem seus lugares sem demora. Rose, Dimitri, Bart e Lorelai foram para o fundo, exaustos, mas alertas.

Eu segui para o micro-ônibus ao lado de Cam, e logo atrás de nós vinham Prince, Olga, Tyler e Irina. A viagem até o QG da Resistência seria curta, mas a atmosfera dentro do veículo era de puro cansaço. O balanço na estrada e o calor abafado do interior só reforçavam o silêncio coletivo.

Depois de atravessar a cidade inteira, o micro-ônibus avançou pelas ruas estreitas de estrada de chão pelo bosque onde se encontrava escondido o QG da Resistência, e cada quilômetro percorrido parecia aliviar parte do peso que carregávamos desde a clareira. Ainda assim, o silêncio predominava. Ninguém tinha forças para trocar palavras, nem mesmo para fingir leveza. O único som constante era o motor do veículo e o ranger da suspensão nos buracos da estrada.

Quando finalmente chegamos ao estacionamento subterrâneo do QG, a sensação de segurança foi quase imediata. As luzes fluorescentes iluminavam os corredores de concreto, e rostos conhecidos repletos de expectativas já aguardavam nossa chegada.

Entre eles, Johnny.

Ele estava de braços cruzados e exibia uma expressão fechada. Parecia mais imponente do que nunca. Seu olhar percorreu rapidamente cada um de nós enquanto descíamos do veículo. Primeiro Cat, Maria, Paul e Serguei, para mostrar a todos que eles estavam vivos e bem. Depois os veteranos, e por fim nós, os mais jovens.

Enquanto eu descia, podia assistir a bonita cena do reencontro de Cat com a pequena Ava. Mia segurava Dandara ao seu lado e parecia aliviada por ver a melhor amiga bem. Os outros membros da Resistência também passam a cumprimentar o restante do grupo, felizes por verem que a missão havia sido um sucesso.

No entanto, Johnny permaneceu afastado. Não havia sorriso, nem palavras de boas-vindas, apenas um exame silencioso que denunciava a preocupação por trás da postura austera.

Eu não sabia o que se passava pela sua cabeça, mas parecia algo sério. Mesmo que sempre fosse uma pessoa mais rígida e quase não demonstrasse suas verdadeiras emoções, geralmente seus olhos possuíam um brilho mais gentil e satisfeito sempre que retornávamos com sucesso de alguma missão.

No entanto, hoje parecia que havia algo de diferente nele. Talvez soubesse que havia algo de errado com a missão, levando em consideração que o resgate dos reféns tinha sido fácil demais. Ou suspeitasse que Taynara havia descoberto alguma ação dele e deixado o recado. O fato é que eu sentia que ele estava mais impaciente e talvez não demorasse muito para que nos convocasse até sua sala de reunião para saber mais detalhes da missão.

Aos poucos, todos foram entrando no QG, conversando animados sobre o retorno dos reféns a salvo e como estavam felizes por tudo ter dado certo. Nina e Leon trocaram algumas palavras com Johnny, mas, aparentemente, ele informou que eles conversariam depois. Mia também troca olhares com o marido, que parece dizer que estava tudo bem.

Prince, Tyler e eu permanecemos parados, sentindo que deveríamos esperar por uma nova ordem de Johnny. Cam, Olga e Irina ficaram ao nosso lado, mas logo foram chamados por Mia para que a acompanhassem até o refeitório.

Cam me encara preocupado e eu apenas assinto, tentando mostrar que estava tudo bem. Relutante, ele assente e segue com as meninas para dentro do QG. Quando o estacionamento começou a esvaziar, ele finalmente deu alguns passos à frente.

— Manu. Tyler. Prince. Comigo.

A voz de Johnny ecoa de forma firme, cortando qualquer murmúrio restante no local.

Meu estômago se revirou no mesmo instante. Não havia espaço para perguntas ou hesitação, então apenas assentimos, trocando olhares tensos entre nós, e seguimos atrás dele. Prince andava na frente, os ombros rígidos, e eu percebia no caminhar dele que estava ansioso e nervoso. Tyler me acompanhava ao lado, silencioso, e a sombra em seus olhos me deixava ainda mais apreensiva.

Surpreendendo-me, Johnny não seguiu pelo caminho que levaria até a sala dele. Sem qualquer explicação, ele nos guiou até uma sala fechada, afastada do restante do QG. O som da porta metálica se fechando atrás de nós soou como um aviso: não havia como escapar. Ele se posicionou diante da mesa, braços cruzados, e nos encarou um a um.

— Quero o relatório. Completo — pede, indo direto ao ponto. — O que aconteceu no encontro entre vocês e Taynara?

Prince dá um passo à frente antes que eu ou Tyler tivéssemos chance de abrir a boca.

— Encontramos Taynara e Gavin na clareira. Eles estavam esperando por nós, sozinhos.

Johnny não esboçou reação, apenas manteve os olhos fixos em Prince, como se esperasse por mais informações antes de expressar qualquer opinião.

— Eles não estavam interessados em lutar — narra Prince. — Não conseguimos identificar o objetivo desse encontro. Ao mesmo tempo em que ela parecia nos provocar, não era como se ela quisesse nos torturar de fato. Ela falou sobre o pai da Manu, sobre o passado. Disse que ele não era o homem que nós lembrávamos, que ele foi cruel. Gavin confirmou cada palavra. Ela também admitiu que o matou, quatro anos atrás, quando invadiu o castelo, resultando no incêndio e na morte de inúmeras pessoas, incluindo soldados de Krósvia, de Serafine e do pai de Gavin, Thomas Darius. No entanto, negou que tenha matado o irmão de Manu, ainda que tenhamos presenciado o momento em que ela segurava a espada contra ele.

Senti o nó na minha garganta apertar outra vez. Reviver aquelas falas me fazia querer gritar todas as palavras que não fui capaz de dizer naquele momento, mas permaneci em silêncio, porque Prince ainda não tinha terminado.

— No fim, Taynara deixou claro que esse foi o último encontro "amigável". Da próxima vez, será como inimigos. E, antes de desaparecer, mandou um recado.

Prince respira fundo e trava o maxilar. Ao erguer os olhos, ele os crava em Johnny como se quisesse arrancar dele uma reação.

— Ela disse que você nunca mais deveria ousar cruzar o caminho dela. Que a partir de agora, não haverá misericórdia.

A sala mergulhou em um silêncio denso. Johnny permaneceu imóvel, mas vi seus punhos se fecharem, deixando os nós dos dedos brancos. Seus olhos, porém, estavam sombrios, quase endurecidos demais para que pudéssemos decifrá-los.

Eu não consigo me segurar. A dúvida que vinha me corroendo escapou sem que eu planejasse.

— Johnny… — murmuro, encarando-o com firmeza. — O que exatamente você fez para ela? Com o que você a atrapalhou para ela parecer tão interessada em te dar um aviso que mais soou como uma ameaça?

Ele não responde de imediato. O silêncio dele era pesado e desconfortável. Naquele momento uma ideia me atravessou como uma lâmina. Talvez Taynara não estivesse apenas lutando contra a coroa krosviana. Talvez ela esteja envolvida em diversos negócios ilegais e de alguma forma Johnny havia se intrometido, afinal, a Resistência tem sido financiada pelo governo de Boise, com as missões secretas para garantir o bem do país e evitar os ataques de Krósvia e Elpízoume.

Johnny solta um suspiro pesado e caminha até a cadeira mais próxima, sentando-se devagar, como se carregasse um fardo pesado demais para ser posto em palavras. Por alguns segundos, ele apenas esfrega as têmporas, pensativo, até erguer o olhar para nós.

— Sentem-se — orienta o homem, demonstrando que a conversa quer teremos será longa.

Hesitantes, Tyler, Prince e eu nos sentamos de frente para o homem, que nos observava com o olhar distante. Meu primo e eu trocamos olhares desconfiados, cientes de que Johnny não estava agindo como ele mesmo.

— Eu não conhecia Taynara — começa Johnny, mostrando uma exaustão que não esperava dele. — Não até ouvir o nome dela da boca de vocês, quatro anos atrás. Mas, com algo muito maior em jogo, nunca dei muita importância para a existência dela, afinal, era algo que vocês iriam resolver com ela quando conseguíssemos garantir a liberdade de Krósvia. Mas, seis meses atrás, acredito que nossos caminhos tenham se cruzando.

Prince estreita os olhos.

— O que aconteceu seis meses atrás?

— Eu impedir que o ataque de um grupo extremista contra o rei Lester ocorresse durante o aniversário da princesa Allycia.

Johnny se inclina para frente, apoiando os cotovelos sobre a mesa. Ele permanece em silêncio por alguns instantes. A tensão na sala era quase palpável. Ele passa a mão pelo rosto, como se estivesse cansado até dos próprios pensamentos.

— Esse ataque não seria um plano rebelde qualquer, que poderia ser facilmente desarmado — explica Johnny, — Era engenhoso. E perigoso.

Ele se levanta, caminhando devagar até a parede, como se precisasse se mover para colocar em ordem os fragmentos de memória.

— A ideia era simples na superfície. Eles iriam atacar durante a celebração do aniversário da princesa Allycia, quando Lester estaria cercado de convidados estrangeiros, nobres e membros do alto comando. Mas a genialidade estava nos detalhes.

Seus olhos escurecem, distante em pensamentos, como se ainda enxergasse o cenário. Ele se vira e nos encara com seriedade.

— O salão principal teria sido fechado por dentro, lanternas a óleo estrategicamente colocadas em pontos cegos, que iriam incendiar o local em questão de minutos. As rotas de fuga já estariam comprometidas.

Engulo em seco ao imaginar o caos que isso poderia causar e quantas mortes de vidas inocentes aconteceria.

— Enquanto o pânico tomasse conta do local, o grupo rebelde usaria disfarces de guardas da própria coroa. E quando Lester agisse para se proteger, seria atingido por dentro de seu círculo de confiança.

Johnny faz uma pausa, olhando diretamente para Prince.

— Eles matariam o rei diante de seus aliados, o palácio em chamas mais uma vez e usariam a princesa Allycia como símbolo de fragilidade do regime. Provavelmente eles a matariam também.

Prince se enrijece com o olhar faiscando, mas manteve o silêncio. Vejo seus punhos se fecharem com força e era nítido o quanto estava se esforçando para não interromper o líder da Resistência. Coloco minha mão sobre a dele, tentando dar algum consolo.

O rapaz me encara surpreso, mas parece acalmar um pouco o coração agitado pela irmã.

— E o mais brilhante era o que viria depois — alerta Johnny, suspirando. — Não bastava matar Lester. Com o caos instaurado e a corte enfraquecida, alguém precisaria se levantar como alternativa, como líder capaz de prometer ordem e trazer a paz para Krósvia. É aí que entra Taynara. Jovem, carismática, sobrevivente. Apareceria como a única capaz de oferecer justiça contra os tiranos que queimaram o próprio povo. Krósvia estaria de joelhos. E ela teria as mãos na coroa sem precisar conquistá-la pelo sangue do povo, apenas pelo ódio contra Lester.

Minha respiração ficou presa no peito. Era um plano cruel. E ao mesmo tempo, implacável em sua lógica. Não seria difícil convencer um povo maltratado pela tirania de Lester a aceitá-la como líder. Ainda mais quando se tem a esperteza de Taynara para manipular a situação a seu favor.

Johnny volta a se apoiar na mesa, encarando-nos.

— Eu só percebi a dimensão disso quando já estava dentro. Quando vi a organização e a disciplina deles. Nenhum grupo rebelde qualquer e teria tanto poder e preparo como aquele. Era algo maior, articulado, com muita preparação e quase nenhuma brecha para falhas. Foi a missão mais difícil da minha vida e olha que eu já passei por muitas situações perigosas.

— Você entrou sozinho no palácio? — questiona Prince, surpreso.

— Sim. Entrei sozinho. Não podia arriscar a vida de todo o grupo por algo que poderia muito bem ser uma armadilha. Só Bóris, Serguei e Dimitri sabiam. Eles me ajudaram a preparar a infiltração, mas dentro, apenas eu.

Ele passa a mão pelo rosto, exausto só de se lembrar.

— Alguns rebeldes morreram no processo. Eu não tive escolha. Se estivesse errado sobre o alvo, teríamos uma princesa morta e um massacre em nossas mãos. Consegui frustrar o ataque, mas quase não voltei vivo. Só sobrevivi porque um imprevisto desviou a atenção deles por segundos e isso me deu a brecha para escapar.

— E você acredita que era o grupo dela — murmuro, mais como constatação do que pergunta.

Ele assente.

— Sim. Levando em consideração o que vocês nos contaram sobre a genialidade dela, não é difícil concluir que esse era um plano dela. Talvez ela não estivesse no comando direto da operação, mas a assinatura era dela. Apenas alguém genial conseguiria elaborar algo tão complexo como foi feito naquela noite.

Tyler passa a mão pelo rosto, exasperado.

— Então, você impediu a morte de Lester e que esse grupo rebelde tomasse o poder de Krósvia — conclui meu primo, frustrado. — Por que não nos contou isso antes?

— Eu não sabia que a líder desse grupo era a mesma com quem vocês conviveram anos atrás. Além disso, não conseguimos muitas informações sobre esse grupo. Eu nunca vi nada como eles. Apesar de um grupo gigante, que está espalhado pelo mundo, nós só conseguimos informações que eles querem compartilhar. Até mesmo a fortaleza de Rengard foi apenas um local provisório, que eles esvaziaram logo depois que os reféns foram resgatados — responde Johnny, frustrado.

— O quanto ela sabe sobre a Resistência? — indago, mesmo já sabendo a resposta pela preocupação presente nos olhos de Johnny.

— Eu não tenho como ter certeza, mas suponho que muito além do que sabemos sobre o grupo dela — garante Johnny. — Nem mesmo sabemos qual é o nome deles. Por outro lado, Taynara sabia que Cat, Maria, Paul e Serguei eram da Resistência. Sabia que vocês participam também, já que solicitou a presença de vocês. Ela sabe quem eu sou e que eu fui responsável pela interrupção do plano de ataque daquela noite. E eu tenho minhas suspeitas que ela também sabe a nossa localização.

As palavras de Johnny ecoam dentro de mim como se tivessem peso físico, pressionando contra o peito, deixando a minha respiração curta. Eu tentava juntar as peças, mas quanto mais refletia, mais confuso tudo se tornava.

Se Taynara estava por trás daquele ataque, então seu alvo não era apenas a Resistência, nem tampouco nossas vidas. Não era apenas Lester, tampouco. O que ela buscava ia além de um simples acerto de contas.

Ela queria destruir por completo a coroa krosviana.

Lembrei-me do olhar convicto dela na clareira, inflamado por algo maior do que rancor. Ela não falava como uma assassina em busca de vingança pessoal, mas como alguém movida por uma causa, mesmo que distorcida. E isso me deixava ainda mais assustada.

E eu me perguntava onde nós entramos nessa história? Quer dizer, o que mais temos a oferecer a ela, agora que não temos mais qualquer ligação com a coroa de Krósvia? Minha família está morta e Prince se tornou um renegado de seu próprio país. Não temos a possibilidade de fazer qualquer diferença em seu plano de conquistar o trono.

A resposta me corroía por dentro. Talvez porque fôssemos apenas os herdeiros do sangue que ela mais odiava. Talvez porque, em sua visão, éramos a lembrança viva de um sistema corrupto e cruel, representado por meu pai e Lester.

Mas e se não for só isso?

E se ela estiver preparando algo muito maior, algo que transformaria não só Krósvia, mas todos os reinos?

Engulo em seco, sentindo meu corpo tremer. Eu queria odiá-la apenas como assassina. Queria me agarrar à minha raiva, ao desejo de vingança por tudo o que ela havia tirado de mim. Mas quanto mais eu pensava, mais a sensação me corroía. Havia lógica nos atos dela, por mais distorcida que fosse. E isso me dava medo.

Porque, se Taynara acredita de verdade em sua causa, quantas pessoas ela será capaz de arrastar consigo?

Meus pensamentos rodavam como um redemoinho, e a única certeza que restava era sufocante que talvez, o nosso embate com Taynara não esteja tão longe assim.