Fire Scars
45 Frustrações - Parte I
Capítulo XLIV — Frustrações — Parte I
“Vejo esta vida como uma videira que balança
Balanço meu coração além do limite
E meu rosto está dando sinais
Procure e você há de encontrar
Velho, mas não sou tão velho
Jovem, mas não sou tão ousado
Não acredito que o mundo esteja vendido
Apenas estou fazendo o que me mandaram”
OneRepublic – Counting Stars
✻
Most – 1999
Acordo em um salto, sentindo meu coração disparado e o suor frio escorrendo pela testa. A minha respiração pesada e ofegante ainda me prendia ao pesadelo. Todo meu corpo parece sentir com vivacidade o desespero diante do fogo no castelo, a dor de ver Henry morto e meu pai levando um tiro bem na minha frente, o olhar de Taynara atravessando a escuridão. O rosto dela surgia diante de mim, ora com raiva, ora com dor, como se fosse impossível separar a inimiga da vítima.
O pesadelo se desfaz como uma onda quebrando na areia, mas deixou atrás de si o gosto salgado do medo. Sento-me na cama e levo a mão ao peito, tentando controlar meus batimentos cardíacos e minha respiração descontrolada. Levo alguns segundos para perceber onde estava.
O quarto de hóspedes do QG estava mergulhado na penumbra. A única luz vinha do corredor, filtrando-se por uma fresta da porta. As paredes de concreto, frias e úmidas, exalavam o cheiro característico do mar que circundava Most. Tudo estava silencioso. Nenhum som de passos, nenhuma voz distante.
Encaro o relógio no criado-mudo ao lado da cama e me surpreendo ao ver que era um pouco mais de uma hora da madrugada.
Eu tinha dormido o dia inteiro.
Depois da reunião com Johnny, não restou muito o que pudéssemos fazer. Ele nos dispensou, dizendo que por enquanto não havia decisões a tomar e que podíamos descansar, depois da viagem desgastante que havíamos feito. Prince foi para o quarto de Olga, Tyler saiu com Irina e eu fiquei sozinha, já que Cam precisou sair com Tori e não havia mais ninguém no QG com quem eu quisesse conversar. Eu também não queria pensar muito no que aconteceu nos últimos dias, então me deixei afundar no colchão macio no quarto de Tori, esperando que o sono fosse um anestésico. E ele foi. Mas não do jeito que eu precisava.
Agora, porém, a quietude do QG era sufocante. Era como se as paredes estivessem mais próximas, me empurrando para fora. Eu precisava respirar.
Levanto devagar, visto um moletom grosso e, após garantir que não incomodaria a garota que dormia tranquilamente na cama ao lado, saio pelos corredores desérticos. Cada passo ecoava levemente no concreto. Ao chegar ao pátio lateral, que era um mirante aberto que dava para o mar que rodeava a base, eu fui recebida pelo som suave das ondas quebrando nas rochas e pelo vento frio da madrugada. O céu estava limpo, e a lua cheia refletia sobre a água do mar, deixando o cenário quase irreal.
Foi então que vi uma silhueta apoiada no parapeito.
Cabelos castanhos, ombros largos, postura relaxada. Cameron. Ele estava de costas, a mão esquerda segurando uma garrafa de vidro cujo rótulo brilhava sob a lua. Uma cerveja.
Por um instante pensei em voltar, mas algo me fez ficar. Caminhei até ele, devagar, e quando cheguei perto o som da garrafa encostando no parapeito me fez sorrir.
— Você sabe que está quebrando umas duas ou três regras agora, não sabe? — provoco.
Cam vira o rosto e sorri de lado, surpreso.
— Achei que todo mundo estivesse apagado. Não deveria estar dormindo?
— Eu estava — respondo, encostando-me ao lado dele. — Mas tive um pesadelo. Resolvi que precisava de ar.
Ele inclina a garrafa levemente e o cheiro amargo da bebida se misturou ao sal do mar. A espuma dourada brilhou sob a luz da lua.
— Posso experimentar? — pergunto, meio por curiosidade, meio para provocá-lo.
Cam arqueia uma sobrancelha, rindo baixo, encarando-me daquele jeito divertido, mas que eu sabia que estava falando sério.
— Nem pensar. Você é menor de idade.
— Sério, Cam? — digo, fingindo indignação. — Depois de tudo o que a gente passou, você acha que uma cerveja vai me corromper?
— Não é questão de corromper — afirma, balançando a cabeça, ainda sorrindo. — É questão de eu não querer ser o idiota que deu a sua primeira bebida, sendo que você ainda é menor de idade.
Cruzo os braços, insistente.
— Eu já vi e vivi coisas piores do que tomar uma cerveja. Eu já matei pessoas, Cam. E, se quer saber, eu só quero saber o gosto. Não é como se eu fosse ficar bêbada com um gole.
Cam suspira, desviando o olhar para o mar. O vento bagunçava seus cabelos, e por um momento ele pareceu medir cada palavra.
— E ainda assim continua sendo uma adolescente de dezessete anos — murmura, quase divertido. — Eu não quero ser o cara que vai ser responsável por te levar para o mau caminho.
Estendo a mão e o encaro em desafio.
— Mau caminho? É só uma experiência necessária para me preparar para quando for necessário beber. Nós estamos com frequência em missões de disfarce. Você sabe que em algum momento eu posso precisar beber. Eu prometo não te dedurar.
Ele ri de verdade dessa vez, aquela risada baixa que sempre deixa todas as garotas do QG suspirando de amores. Mas não entrega a garrafa. Apenas a segura com firmeza, encarando-me com aquele olhar que misturava cuidado e provocação.
— Manu, não — disse com firmeza, mas sem dureza. — Eu não vou dar.
Ficamos assim por um instante, com o mar rugindo ao fundo e a lua refletida solitária no céu. Um duelo silencioso que, de alguma forma, me fez esquecer o pesadelo e o peso do dia anterior.
— Você é realmente teimoso — murmuro, meio rindo.
— E você não sabe desistir — responde com o mesmo tom.
O vento frio soprou mais forte, fazendo-me encolher um pouco. Cam percebe e imediatamente tira a blusa de frio que usava para colocar sobre os meus ombros. Aconchego-me na peça quente e ele volta a beber, contemplando a paisagem.
Cam permanece em silêncio por alguns segundos com a garrafa ainda firme entre os dedos. O vento frio levantava pequenas ondas no mar escuro e a lua refletia um brilho prateado na água. Eu o encaro, determinada, sentindo a ponta dos meus cabelos roçar a blusa quente que ele havia colocado em meus ombros.
— Sabe, — começo com o tom de voz suave, mas carregada de firmeza — você me conhece há anos e já me viu lutando. Eu não sou mais uma criança. Não acha que é muito melhor eu experimentar a minha primeira bebida com você do que com um desconhecido qualquer?
— Com quem você beberia? — questiona Cam, encarando-me, desconfiado.
— Eu não sei. Eu poderia ir em uma festa qualquer, pedir uma bebida e me divertir em uma festa, não acha? — retruco, rindo. — Mesmo que eu seja menor de idade, eu tenho certeza que não seria difícil conseguir uma bebida alcóolica com qualquer homem por aí.
Cam franze o cenho e sua mandíbula fica tensa. Ele parece lutar consigo mesmo, entre o senso de responsabilidade e algo mais difícil de explicar. Por fim, ele suspira, parecendo cansado.
— Você é impossível, Manu — afirma, com a voz saindo quase como um riso abafado. — Sério, impossível.
Aproveito a expressão quase convencida do rapaz.
— Eu aposto que na minha idade, você já bebia. Não pode me proteger para sempre, não acha? — indago, estendendo a mão de novo. — Eu prometo que é só um gole. Nada mais. Além disso, Tyler, Prince e meus irmãos começaram a beber muito mais novos que eu. Não me diga que você só está agindo assim porque eu sou mulher?
— Claro que não — resmunga, contrariado.
— Então pare de ser careta e me deixa experimentar pela primeira vez uma bebida alcóolica — insisto, sorrindo determinada.
Por um instante ele não se mexeu. O som distante das ondas preenchia o espaço entre nós. Eu podia sentir o vento frio cortando meu rosto e, ao mesmo tempo, o calor da teimosia crescendo dentro de mim, cheia de expectativa para experimentar algo diferente e fazer essa pequena rebeldia.
Cam me encara, e naquele olhar havia algo que misturava cuidado, desafio e um leve brilho divertido.
— Você sempre tem resposta para tudo, né? — murmura Cam, dando-se por vencido.
— Quando quero algo, sim.
Um sorriso travesso escapa de meus lábios antes que eu pudesse conter. Ele ri novamente, daquele jeito contagiante, e finalmente estendeu a garrafa em minha direção.
— Um gole — fala, encarando-me com firmeza. — Só um. E se você fizer careta, eu vou rir para sempre.
Sorrio, satisfeita, e seguro a garrafa gelada. O vidro estava úmido, e o cheiro levemente amargo da cerveja subiu de imediato.
— Combinado.
Levo a garrafa aos lábios e sinto o líquido frio deslizar pela minha boca. O gosto era forte, amargo, com um toque metálico que eu não esperava. Engulo devagar, tentando decifrar a sensação.
— E então? — pergunta Cam, divertindo-se ao observar cada detalhe da minha reação.
— É… diferente — admito, franzindo levemente o nariz, mas sem dar a ele o prazer de ver uma careta completa. — Não é horrível, mas não é algo que eu tomaria todo dia.
Cam ri. Uma risada sincera que soou mais quente que a blusa em meus ombros.
— Bem-vinda ao mundo adulto — brinca. — Mas não se acostume. Esse é um privilégio que eu só deixei você ter hoje. Espere até ter a idade adequada para beber. Não apresse as coisas.
Entrego a garrafa de volta, com um sorriso cúmplice.
— Obrigada por confiar em mim.
— Não confiei — corrige, ainda rindo. — Eu só não consegui resistir a você sendo tão teimosa.
Cam ainda ri quando leva a garrafa de volta aos lábios. Observo-o por alguns instantes e volto a encarar a paisagem, sentindo uma mistura de alegria e uma pontada antiga de frustração pulsarem em dentro de mim. Apoio os cotovelos no parapeito frio, deixando o vento cortar meu rosto enquanto eu me aconchegava mais na blusa de frio de Cam.
— Sabe… é engraçado — comento, pensativa. — Prince e Tyler sempre fizeram questão de me impedir de fazer qualquer coisa diferente. Beber, aprender a dirigir, caçar ou qualquer coisa que eles julgassem “perigoso demais” para mim.
Cam vira o rosto para mim, atento as minhas reações.
— Como assim?
— Eles sempre diziam que é porque eu sou nova demais — respondo, encarando o horizonte. — Mas os dois começaram muito antes de mim. Prince aprendeu a dirigir quando ainda era o príncipe herdeiro. Tyler vivia contando que a primeira vez que bebeu foi com meu pai quando tinha treze anos e ninguém nunca o impediu. Mas quando sou eu, de repente é um crime. Mesmo depois de tudo o que passamos, eu sempre senti que eles me viam como uma pessoa fraca, que precisa constantemente ser protegida.
Um riso sem humor escapa de meus lábios. Suspiro e coloco uma mecha teimosa de meu cabelo atrás de minha orelha.
— Eu não sei se isso é porque eu sou a mais nova do trio ou se é porque eu sou mulher. O fato é que os dois e meus irmãos mais velhos sempre me trataram como se eu fosse frágil. Meu pai também não era muito diferente. Constantemente sendo subestimada, precisando provar que não sou delicada ou fraca como pensam. E isso é tão irritante! Mesmo agora, depois de todo o treinamento e tudo o que eu já tive que fazer, eles continuam a agir como se eu ainda tivesse catorze anos.
Cam fica em silêncio por um momento, observando o mar, provavelmente buscando as palavras certas para me consolar.
— Eles te amam e se preocupam com você, Manu — responde, dando um sorriso doce. — Depois de tudo o que eles perderam, essa é a forma deles de proteger você. Você se tornou a preciosa família deles. Não podemos culpá-los por ser superprotetores, após terem sofrido tantas perdas.
Assinto devagar.
— Eu sei. E sou grata por tudo o que eles fizeram e fazem por mim, mas às vezes eu só queria que confiassem que eu posso dar meus próprios passos, que posso aprender a dirigir um carro ou beber ou lutar. Que eu não preciso viver na sombra deles.
Cam apoia a garrafa no parapeito, cruza os braços e se inclina na minha direção com o olhar calmo e determinado.
— Você não precisa viver na sombra deles, mas tenha cuidado ao descobrir o mundo. Você foi forçada a amadurecer rápido demais. Viveu situações que nenhuma jovem deveria viver. Mas, não apresse demais as coisas. Sei que é frustrante e chega a ser hipocrisia da nossa parte, mas como uma pessoa que se importa muito com você, eu só quero que você aproveite a vida e seja feliz. Não se force a passar por experiências, que naturalmente você deverá passar quando mais velha — aconselha Cam, bagunçando meu cabelo antes de termina de beber a cerveja da garrafa dele.
— Você está soando como um velho, ultimamente — afirmo, esbarrando meu ombro no dele. — Desde quando você fica dando tantos conselhos sábios? Cadê o Cam que eu conheço, que simplesmente faz piada de tudo?
— Você pareceu a Tori agora — responde Cam, rindo. — Apesar de não parecer, eu consigo dar alguns conselhos bons as vezes.
Rio e finjo refletir sobre o assunto. Ele bufa e coloca a garrafa de cerveja vazia no chão. Observo o rapaz e ele parecia pensativo.
— Aconteceu alguma coisa? Você não é de beber e está com esse ar todo reflexivo, acordado de madrugada, depois de dias cansativos sem dormir direito — comento e ele dá de ombros.
— Tori me levou hoje ao centro para me apresentar o namorado dela — revela Cam, surpreendendo-me. — Ele é um civil que nunca esteve na guerra. É alguém gentil e tem o brilho nos olhos de alguém que planeja o futuro e parece gostar dela.
— O quê? Tori está namorando? — questiono, chocada. — Como assim? Ela nunca falou nada. Desde quando eles estão namorando?
— Parece que é recente. Acho que só tem algumas semanas — responde o rapaz, suspirando. — Ela disse que não contou para ninguém, porque sabia que não a apoiaríamos a se envolver com um civil, levando a vida que levamos.
— E o que você acha dessa situação? — pergunto com curiosidade.
— Eu não sei. Eu estou feliz por ela. Tori nunca esteve tão feliz e ele parece ser um cara legal. Mas me preocupa que a gente acabe arrastando ele para essa loucura que é a nossa vida — responde, dando um fraco sorriso. — Eu não quero atrapalhar esse momento importante dela, então estou tentando pensar em uma forma de protegê-los ou algo assim.
Cam permanece em silêncio por alguns instantes, fitando o mar com um olhar distante. A brisa fria da madrugada bagunçava seus cabelos e deixava sua expressão ainda mais séria. Ele parecia triste e cansado. A preocupação intensa em seus olhos era preocupante e eu não sabia se o fato de Tori estar namorando era realmente o que o incomodava naquele momento.
— Eu sempre me senti culpado por trazer a Tori para esse mundo — revela Cam, parecendo carregar uma tonelada de concreto em suas costas. — Por causa dos meus pais, os pais dela morreram. Eu sei que ela não me culpa, mas ainda me sinto responsável de alguma forma por ela ter se tornado órfão.
— Como assim? — pergunto, sem disfarçar o espanto com essa informação.
Ele baixa a cabeça e seus ombros ficam levemente curvados, como se a confissão fosse mais pesada que ele próprio.
— Meus pais eram amigos próximos dos dela e meio que lideravam a comunidade em que vivíamos. Morávamos em Aranis, uma pequena vila vizinha de Usingen.
Arfo, ao reconhecer o nome da cidade que foi dizimada pelo rei Lester, após a população se revoltar com o governante e simplesmente matar todos da cidade, mesmo os inocentes que nada tinha a ver com os protestos dos trabalhadores. Apesar de ter conhecimento inicial apenas de que tinha ocorrido um incêndio na cidade, Prince me contou quando estávamos na fazenda escondidos, que o rei Lester tinha sido responsável por essa chacina e o incêndio foi apenas uma forma de encobrir os assassinatos de suas sombras.
— Eu não sei se você sabe, mas Usingen...
— Sim. Eu sei — afirmo, colocando a mão sobre o ombro de Cam, ao ver como era difícil para o rapaz tocar no assunto. — Lester ordenou que o massacre acontecesse para impedir que as revoltas se espalhassem pelo país. O incêndio foi apenas uma máscara para esconder o que aconteceu.
Cam assente calmamente, mas eu podia ver a dor em seus olhos ao relembrar da tragédia.
— Meus pais incentivaram essa rebelião com os trabalhadores da fábrica que eles trabalhavam. Os pais de Tori era uma dessas pessoas. As atividades industriais em Usingen eram a principal fonte de renda de Aranis, então praticamente todo mundo ia trabalhar lá para sustentar a família. Quando a revolta iniciada pelos meus pais começaram, Aranis acabou se envolvendo e unindo forças com Usingen para exigir condições de vida melhores, já que não aguentavam mais os impostos cobrados pelo rei Lester e toda a tirania de seus soldados com a cidade.
Um suspiro sofrido escapa dos lábios de Cam e ele me encara com um sorriso doloroso em seus lábios, que não alcançava seus olhos.
— Quando os soldados de Lester invadiram Usingen, os pais de Tori se sacrificaram para que meus pais continuassem vivos e liderando as revoltas. Ela tinha dez anos e eu tinha acabado de completar onze anos na época. Éramos crianças e foi um choque para Tori descobrir sobre a morte dos pais.
Eu não sabia o que dizer. Apenas permaneço olhando para ele, sentindo um nó apertar a minha garganta, enquanto seguro em seu ombro.
— Infelizmente, no meio de nossa fuga para sobrevivermos, meus pais também acabaram morrendo, então não tivemos muito tempo para digerir o que estava acontecendo — explica Cam, parecendo fazer um esforço para não chorar. Ele tenta beber mais da cerveja, mas dá uma risada amargurada ao ver que a bebida tinha acabado. — Só restamos nós dois. Fugimos para Long Island e encontramos um grupo de pessoas que cuidavam de crianças que se tornaram órfãos por causa da guerra. Para que pudéssemos ficar juntos e garantir que ninguém nos separasse, nos tornamos primos, já que a nossa diferença de idade era mínima para convencer alguém que éramos irmãos. Foi a única forma de permanecer na mesma base, de sobreviver sem que os oficiais nos enviassem para abrigos diferente, já que ingenuamente tínhamos revelado que não éramos irmãos e a nossas datas de aniversário assim que os encontramos.
Cam inspira fundo e encara as próprias mãos.
— Eu fiz tudo o que pude para protegê-la. Sempre. Porque ela é como uma irmãzinha para mim. Mas… — Cam hesita, apertando o parapeito de concreto — eu nunca soube se ela entrou na Resistência porque realmente acreditava na causa ou se foi apenas para me acompanhar, já que eu estava determinado a conseguir a liberdade de Krósvia da tirania de Lester e não deixar que todas aquelas mortes tivessem sido em vão.
O silêncio se instala novamente entre nós, deixando apenas o som das ondas como um consolador dos conflitos internos que vivíamos.
— Ela nunca diz o que realmente quer — acrescenta, quase para si mesmo. — Sempre coloca os outros em primeiro lugar. Mesmo quando eu a questiono, Tori apenas diz que está tudo bem e segue em frente, por mais difícil que seja a situação. Ela constantemente esconde os próprios sentimentos para não decepcionar ninguém e isso me frustra e preocupa. Esse namoro é a primeira vez que vejo Tori fazer algo por si mesma e não pelos outros, mesmo que as pessoas possam ficar contra a sua decisão. Ela está determinada a ficar ao lado de Jake e eu nunca a vi sorri tão verdadeiramente como hoje, quando ele declarou o quanto a amava para mim.
Sinto um calor inesperado no peito. A imagem que eu tinha de Tori, sendo a garota sempre segura, pragmática e alegre ganha novas camadas. Claro que eu sabia que ela possui suas preocupações, mas ela é tão boa em ver o lado positivo das coisas e em nos animar, que jamais imaginei que ela se podasse tanto quanto Cam revelou.
— Então é por isso que você quer tanto apoiá-la nesse relacionamento, mesmo que isso signifique ir contra as regras da Resistência? — pergunto baixinho.
Cam finalmente me olha. Há um brilho úmido em seus olhos castanhos, que refletem a luz prateada da lua. É algo intenso e comovente.
— Sim. Porque, pela primeira vez, ela está escolhendo algo que é só dela. E eu não vou ser a pessoa que a impede disso. Depois de tudo o que já tiramos um do outro, ela merece algo que seja só dela. Ela merece encontrar a felicidade.
Meu coração aperta. Entendo agora o motivo da cerveja, da madrugada silenciosa. Não era só a novidade do namoro de Tori. Era a culpa, a memória, a necessidade de finalmente deixá-la seguir.
— Cam… — chamo, pousando minha mão sobre a dele. — Você não tem culpa pelo que aconteceu com os pais de Tori e tenho certeza de que ela não espera que você a proteja mais uma vez. Eu tenho certeza de que o objetivo de apresentar Jake foi apenas porque ela queria te mostrar quem a faz feliz e que ela está bem. Eu tenho certeza de que em momento algum ela se sentiu pressionada por você a entrar na Resistência. Eu posso ver o quanto estar aqui a deixa feliz e se ela por acaso decidir sair do grupo para se dedicar talvez a uma nova vida, eu tenho certeza de você será o primeiro a saber.
Cam suspira e assentem dessa vez, dando um sorriso mais verdadeiro.
— Obrigado, Manu.
Sorrio e nego o agradecimento, colocando minha mão sobre a dele. Entrelaçamos nossas mãos e ficamos em silêncio, lado a lado, olhando para o mar que refletia a lua. O vento frio já não parecia tão cortante. Havia algo quase sagrado naquela confissão. Um elo silencioso entre feridas antigas e esperanças de futuro.
— Caramba, eu ainda não acredito que a Tori está namorando — comento, rindo incrédula. — Ela sempre me disse que não planejava se envolver com ninguém e que estava ocupada demais tentando se tornar mais forte e salvando as pessoas para se envolver com alguém romanticamente.
— O amor é assim mesmo. Acontece de forma inesperada e nos faz queimar a língua — brinca Cam, esbarrando levemente em mim.
— Droga! Eu sou a única que nunca nem beijou no nosso grupo — bufo, frustrada. — Isso é tão patético e frustrante! Eu já tenho dezessete anos!
— Não é patético — garante Cam, soltando as nossas mãos.
Ele se vira para mim e bagunça meus cabelos, dando aquele sorriso irritante e doce.
— Não se pressione tanto — aconselha Cam. — É um momento especial que você deve ter com a pessoa que você gosta. Não é um cronômetro, Manu.
Solto um riso pequeno, sem humor.
— A pessoa que eu gosto passou três anos longe e retornou namorando a garota que supostamente o odiava e que é frustrantemente legal — resmungo, amargurada. — Passei três anos esperando ele voltar como uma idiota, imaginando que daríamos nosso primeiro beijo e que, sei lá, começaríamos a namorar. E, no fim, eu continuo sozinha, sem nunca ter beijado ninguém. Eu sou tão idiota!
Cam pega a minha mão com delicadeza e a aperta, transmitindo consolo e segurança.
— Você não é idiota e não fez nada de errado. As coisas apenas não aconteceram como você gostaria. Isso pode acontecer. Não se martirize por seguir seu coração — garante Cam.
— O pior que tudo seria mais fácil se a Olga continuasse a agir daquela maneira rebelde e petulante de quando nos conhecemos. Agora que eu a conheço de verdade, eu nem mesmo consigo sentir raiva dela. A Olga é uma boa pessoa. Ela cuida dele e posso ver que ela o entende. Como é que eu vou odiar alguém assim?
— Você não precisa odiar ninguém, Manu. É compreensível que você sinta dor e tenha se machucado nessa situação — responde o rapaz, dando de ombros. — Duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. A Olga ser uma boa pessoa e você estar magoada. Não é competição de quem sofre menos.
Mordo o lábio, sentindo-me frustrada.
— Às vezes parece que eu fiquei parada no tempo. Todo mundo avançando fases e eu aqui, presa no tutorial de um jogo irritante.
Cam dá uma risadinha, divertindo-se com a minha comparação.
— Você não está atrasada. Cada um tem o próprio ritmo. O primeiro beijo não é medalha, não é prova de que você é forte, madura ou pronta. Você já provou tudo isso de outros jeitos. Infelizmente, até cedo demais. Ninguém poderia julgá-la por não ter se relacionado com alguém, quando estamos constantemente lutando e a pessoa que você gostava estava longe.
Eu o encaro e a raiva antiga se dissolve num cansaço que pesa nos ombros. De repente, sinto as lágrimas querendo se formar em meus olhos, porque sou incapaz de ignorar a frustração e a tristeza que eu sentia.
— Eu sei. Só… dói. Porque eu queria que fosse com ele. E agora, mesmo se um dia acontecer, eu sei que não vai ser como eu imaginei.
— Quase nada é como a gente imagina — responde Cam, suave. — Às vezes é melhor. Às vezes é só diferente. Mas ainda pode ser seu. Do seu jeito. Pode ser que vocês por acaso se beijem no futuro. Nunca sabemos o dia de amanhã. Pode ser que daqui alguns anos vocês acabem se casando e tendo filhos ou que estejam com pessoas diferentes, mas felizes a sua maneira.
Baixo o olhar para nossas mãos. Meus dedos brincam com as cicatrizes finas nos nós dos dedos dele.
— E se nunca acontecer? E se eu nunca encontrar ninguém de quem eu goste além dele? E se eu ficar velha demais e nunca conseguir beijar ninguém porque meu tempo passou?
Cam ri e bufa, revirando os olhos.
— Manu, isso não vai acontecer — afirma Cam. — Você é linda, inteligente, divertida e encantadora. Se Prince não for o cara certo para você, outra pessoa virá e você verá que nem fazia sentido essa pressa toda. Você só tem dezessete anos. Ainda é uma adolescente. Sei que nosso estilo de vida pode acabar ceifando as nossas vidas cedo demais, mas você é forte e sei que vai sobreviver a qualquer desafio. Você tem um futuro brilhante pela frente. E eu tenho certeza de que você terá sim o seu primeiro beijo e com alguém que você gosta. E sabe o que é mais importante?
— O quê? — indago, brincando com os nossos dedos.
Ele levanta a mão livre e ajeita uma mecha do meu cabelo atrás da orelha com um toque delicado e cuidadoso, quase reverente.
— Eu vou estar ao seu lado, para comemorar ou para te zoar se for um desastre, não importa quanto tempo passe — afirma Cam, dando um sorriso traquina.
— Ótimo — encaro-o com falsa gravidade. — Porque se for um desastre, eu vou precisar de um plano de contenção, estatística e piadas ruins.
— Eu sou excelente em piadas ruins — responde, fazendo uma pose de quem recebe uma condecoração. — E em planos de contenção.
Sorrimos e o aperto em meu peito diminui. Encosto a testa no ombro dele e, por um momento, deixo o vento fazer barulho no lugar dos pensamentos.
— Obrigada por me ouvir e levar a sério o que eu digo. Sei que talvez pareça bobagens as minhas preocupações, mas gosto como você me escuta, me aconselha e sempre faz eu me sentir melhor — digo e ele deixa um beijo demorado em minha testa.
— Você torna a minha vida mais leve e divertia. Como eu poderia não te levar a sério? — comenta Cam, encostando de leve a testa na minha têmpora, um toque amável.
Ficamos assim até o frio começar a incomodar de novo. Ele puxa a blusa nos meus ombros, certificando-se de que está bem ajustada. Quando me afasto um pouco, nossos olhares se encontram, próximos o bastante para eu perceber o brilho tranquilo nos olhos castanhos dele. E uma ideia maluca surge em minha mente.
Cam é a pessoa em quem eu mais confio e me sinto confortável. Nesse momento, ele sabe mais sobre mim e minha vida do que qualquer outra pessoa. Ele é gentil, paciente, divertido e compreensível. Além de ser incrivelmente lindo, ainda que eu ache Prince mais atraente.
Eu não posso continuar esperando por ele para sempre, quando claramente foi Prince quem seguiu em frente primeiro. E no meio dessa vida de lutas, mortes e perigos, não acho que conseguirei me apaixonar tão facilmente por outra pessoa. Por mais que eu odeie admitir, Prince e eu vivemos momentos importantes e que me marcaram profundamente. Eu o amo, mesmo com toda a raiva e frustração que sinto por ele nesse momento.
Então, se preciso seguir em frente e se quero que meu primeiro beijo seja com alguém especial, por que não ser com a mesma pessoa que me deu minha primeira bebida alcoólica, que me deu meu primeiro bolo de aniversário depois da morte da minha família, que foi meu par na minha primeira dança e foi a primeira pessoa para quem me abrir tão inteiramente na vida?
— Ei, Cam — sussurro, atraindo a atenção dele. — Que tal eu ter meu primeiro beijo com você?
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