Fire Scars
46 Frustrações - Parte II
Capítulo XLIV — Frustrações — Parte II
“Não responda, você teve que chegar ao fim
Como se as caixas fossem pequenas
Eu nunca irei me desdobrar, não, nunca ire me desdobrar
Mantenha sua cabeça erguida acima do que você quis dizer
Não finja se arrepender
Eu nunca irei me desdobrar não, nunca ire me desdobrar novamente
Mesmo quando seus pensamentos passaram
A cabeça dela parece mais clara agora
As palavras dela são vazias, perdidas e frias
Ela está mentindo para si mesma”
The Lighthouse and The Whaler – White Days
✻
Most – 1999
O vento carregava o cheiro salgado do mar e, por um instante, só o ruído das ondas respondia no lugar das coisas que eu não sabia dizer. Olho para nossas mãos entrelaçadas, para a blusa de frio de Cam nos meus ombros e sinto o corpo próximo a mim ficar tenso.
Cam estava imóvel há algum tempo. O riso fácil em seu rosto tinha sido substituído por um espanto quieto que me faz prender a respiração, sem saber se ele havia se sentido ofendido ou se estava surpreso demais com a ideia.
Por fim, ele suspira e desvia o olhar para o mar, parecendo pesaroso com a simples menção de algo assim acontecer. De repente, sinto-me apreensiva por sua reação ser tão opositora. Eu não esperava que ele fosse reagir de tal forma, quando ele sempre foi o primeiro a embarcar nas minhas loucuras.
— Não, Manu — murmura Cam, pesaroso.
— Por quê? — questiono, frustrada. — É tão horrível assim a ideia de me beijar? Sei que não sou a garota mais linda do mundo, mas...
— Você é a garota mais linda e encantadora do mundo, Manu. Ao menos, para mim — afirma Cam, encarando-me com seriedade.
Ao notar o que tinha dito, ele desvia o olhar e posso ver suas bochechas corarem. Eu teria achado sua reação adorável, se não tivesse tão frustrada ao ver que ele realmente parecia determinado a me rejeitar. Isso feria meu ego. Eu tinha confiança que ao menos Cam gostaria de me beijar.
— Se você realmente acha isso, então por que não podemos nos beijar? Nós dois estamos solteiros e eu sei que você não é do tipo puritano que só vai beijar a pessoa com quem vai se casar — resmungo, relembrando das vezes que fiquei sabendo que ele beijou outras garotas em alguma festa que ele frequentou com Tyler, quando eu fui proibida de ir por ser menor de idade. — Por que você não pode me dar o meu primeiro beijo?
Ele passa a mão pelos cabelos, como se procurasse uma resposta no vento.
— Porque eu gosto de você, Manu — responde, finalmente me encarando. — Eu estou apaixonado por você há algum tempo, mas eu sei dos seus sentimentos por Prince e meu coração já aceitou ser apenas seu amigo. Não vou impor meus sentimentos sobre você, mas não quero que me dê falsas esperanças ao meu coração ao ser o cara que vai te dar um primeiro beijo só porque a pessoa que você ama escolheu outra pessoa.
Preciso de alguns segundos para absorver a informação de que Cam está apaixonado por mim. Parecia algo surreal demais, visto que ele sempre me ouviu falar de Prince e até mesmo me consolou diversas vezes desde que venho sofrendo por causa do relacionamento dele com Olga, sem nunca demonstrar qualquer incomodo.
— Eu não quero estragar a nossa amizade ao me tornar ganancioso demais com o simples fato de termos nos beijado. Não quero que seu primeiro beijo aconteça por impulso. É um momento especial que precisa ser com alguém especial para você.
Os olhos de Cam expressavam tanta dor e tristeza, que tenho vontade de bater em mim por fazê-lo se sentir assim. Ele se aproxima do parapeito mais uma vez e suspira, fechando os olhos, como se estivesse se repreendendo por ter falado demais.
O silêncio nos atinge de forma intensa. Eu queria dizer algo, mas estava surpresa demais para ter qualquer reação. Observo a expressão desolada do rapaz com os ombros caídos e os lábios apertados, como se estivesse frustrado com a forma como tudo tinha acontecido.
Talvez não planejasse se declarar. Talvez não quisesse que eu soubesse sobre seus sentimentos, mas por conhecer minha teimosia, desconfiasse que eu não aceitaria uma justificativa boba para sua recusa, então resolveu ser sincero, ainda que isso o expusesse da forma que não queria.
Cam é alguém que esteve ao meu lado por todo esse tempo, sem nunca me cobrar nada e sem tampouco ter ultrapassado os limites. Cam sempre foi cuidadoso, acolhedor e respeitoso. Sempre me protegeu e foi um amigo sincero, que me dava bronca quando necessário e me consolava quando o mundo parecia perder o sentido.
Ele foi a minha âncora e a minha racionalidade nos momentos mais difíceis pelos quais passei nas missões e treinamentos da Resistência, pensando em desistir ou de que não conseguiria me tornar mais forte. Cam sempre me apoiou e até me ajudou a me sentir em casa, quando todos os membros da organização pareciam receosos em se aproximar e confiar em mim.
Por isso, por mais egoísta que pareça as minhas ações, eu só conseguia pensar que se não for com Prince, eu quero que meu primeiro beijo seja com Cam. Ele é uma pessoa especial para mim. É alguém em quem confio, que gosta de mim e com quem me sinto confortável.
Então, mesmo sabendo que talvez eu estivesse forçando a barra, eu dou um passo mais para perto de Cam, colocando-me ao seu lado. Toco no concreto frio no parapeito e inspiro a brisa marinha no ar. Aconchego-me no casaco pesado dele em meus ombros, reunindo coragem para mais uma tentativa.
— Você é especial para mim, Cam — respondo, cautelosa.
Eu não queria que ele pensasse que eu estava dizendo isso apenas porque queria beijá-lo. Claro, esse é o objetivo, mas não é mentira que ele é uma pessoa especial para mim.
O rapaz me encara desconfiado, como se estivesse tentando ler as minhas verdadeiras intensões, mas ao menos, não parecia hostil a uma aproximação minha. Aproveito para ficar mais perto e decido ser sincera sobre meus sentimentos, ainda que seja algo que eu tenho dificuldade em fazer.
— É verdade que me apaixonei por Prince e esperava que meu primeiro beijo fosse com ele e, como eu disse, me sinto frustrada e magoada por isso. Acredite, isso não mudou só por causa da nossa conversa — afirmo, encarando o rapaz com seriedade. — Mas, eu me dei conta que não posso passar o resto da minha vida esperando por ele, certo? E isso me faz pensar que de todas as pessoas no mundo, você é a pessoa em quem eu mais confio e que me faz bem. Nesse momento, você é a única pessoa que sabe tudo sobre mim e com quem eu mais compartilho sobre meus sentimentos, mesmo eu sendo uma pessoa que detesta parecer frágil ou vulnerável na frente dos outros.
— Mas, Manu...
— Eu quero que seja com você, Cam — interrompo Cam, quando ele parece hesitante. — Você é especial para mim e gosto como você me deixa tão confortável. Eu sinto que se for com você, eu não terei arrependimentos. E sobre a nossa amizade...
Reflito sobre como poderia argumentar contra um dos maiores medos de Cam.
— Nós já passamos por muita coisa desde que nos tornamos amigos. Você sabe coisas vergonhosas demais sobre mim para que eu te deixe ir tão fácil assim. Acredite em mim, nossa amizade não irá se desfazer só porque nos beijamos.
Aproximo-me de Cam e pego em sua mão. Ele me observa com tanta intensidade, que sinto meu estômago se revirar de nervosismo. Eu não quero machucá-lo, mas eu sinto que se não o beijar hoje, não terei coragem de pedir isso outra vez.
— E quanto aos seus sentimentos, infelizmente, eu ainda não sou capaz de corresponder, mas... — mordo meu lábio, incerta do que eu estava falando. — Eu sinto que talvez algo possa mudar depois de nos beijarmos. Então, por mais egoísta que eu esteja sendo, você poderia ser responsável por mais uma primeira vez minha?
Ele fecha os olhos por um segundo, como se a frase fosse um impacto físico. Quando abre, há ternura e medo misturados.
— E se você se arrepender amanhã?
— Então amanhã a gente conversa e nos resolvemos. Eu vou continuar sendo a garota teimosa que te tira do sério e você continuará sendo o mesmo idiota responsável que me dá conselhos e faz piadas ruins — respondo, tentando sorrir. — Eu não estou pedindo promessa e nem estou prometendo que vamos conseguir agir como se nada tivesse acontecido se algo der errado. Mas, podemos ser sinceros e tentar resolver isso juntos.
Aperto a mão de Cam e dou o melhor sorriso que consigo em meio ao nervosismo e ansiedade que eu sentia naquele momento.
— Apenas um beijo. Se eu não gostar, eu vou falar. Se você não quiser, eu aceito. Só não quero perder você — murmuro, demonstrando o meu receio.
Cam morde o lábio, pensativo. Seus olhos alternam entre os meus olhos e meus lábios. Há algo intenso acontecendo que eu não sabia descrever, mas causava aquele frio na barriga de antecipação, algo semelhante ao que eu senti em minha primeira missão.
— Eu…
Ele suspira.
— Eu tenho medo de bagunçar seu coração mais do que ele já está ou de ser lembrado como um erro que você cometeu por impulso, por frustração diante de algo que não deveria ser apressado.
— Você nunca seria um erro, Cam — afirmo com confiança. — Você tem sido o meu maior acerto em meio ao caos da minha vida. Eu sou muito grata por ter abaixado a guarda e decido confiar no estranho extrovertido que fazia aniversário no mesmo dia que o meu e deixou meus dias muito mais calorosos e divertidos.
Nossos olhos se encontram novamente, mas dessa vez, o sorriso divertido aparece em nossos lábios. Há um companheirismo silencioso entre nós, que me deixa estranhamente confortável. Ainda havia a ansiedade e expectativa de viver algo novo e significativo, mas eu realmente me sentia confortável com Cam e queria do fundo do meu coração que ele me beijasse.
Cam aproxima um passo. A mão dele paira no ar, hesitante, como se pedisse permissão sem palavras. Seus olhos brilhavam com tanta intensidade que eu acabo me sentindo hipnotizada.
— Posso? — sussurra Cam, encarando meus lábios.
Minha resposta positiva sai quase como um sopro.
Os dedos quentes dele tocam meu rosto e o polegar traça uma linha de leve na minha maçã do rosto. Cam apoia a outra mão no parapeito, me cercando sem me prender. Ele não avança. Apenas espera, como se quisesse me dar a chance de escapar se assim eu desejasse. Como resposta, inclino o queixo, encontrando o olhar dele. Cam assente e acaba com o último centímetro entre nós.
O primeiro toque de nossos lábios é delicado, macio, contido, breve. Havia o gosto de malte e sal misturados, o ar frio na pele e, por baixo, um calor inesperado que despenca do estômago para as mãos. Minha cabeça fica em branco por alguns segundos e tudo o que existe é a textura dos lábios dele e o cuidado com que ele se afasta só o suficiente para me olhar, como quem checa se eu ainda estava respirando, já que eu não havia me movido.
E eu estava e queria de novo. Queria descobrir mais daquela sensação única.
Dessa vez, sou eu quem avança contra ele. Sinto Cam sorri em meio ao beijo e a risada vira um suspiro contra minha boca. E se aprofunda, descobrindo a uma nova sensação ao ser guiada pela língua de Cam. O segundo beijo é um pouco mais longo, ainda gentil, ainda leve, mas com uma segurança nova que me surpreende.
A minha mão sobe sozinha até a gola do moletom dele e meus dedos se enroscam no tecido, buscando algo em que eu pudesse me apoiar para continuar a experimentar meu tão aguardado primeiro beijo. A mão dele desce para a curva do meu maxilar e fica ali, tranquila, conduzindo-me de forma quase embriagante.
Quando nos afastamos, a noite parecia diferente. Quer dizer, o mar continuava batendo nas rochas, a lua ainda estava enorme e a brisa marinha da madrugada ainda era fria e bagunçava meus cabelos de forma irritante, mas por dentro alguma coisa dentro de mim parecia diferente.
— E então? — pergunta Cam, afastando-se com um sorriso torto e a voz meio rouca. Ele parecia um pouco atordoado, mas se esforçava para manter o controle — Foi um desastre cientificamente comprovado?
Eu rio, sentindo meu coração acelerado.
— Zero desastre. Nota… — finjo pensar. — Nove e meio. Tirei meio ponto pelo gosto de cerveja.
Ele ri de verdade, aliviado, e encosta a testa na minha, roçando o nariz de leve com o meu.
— Justo. Da próxima eu trago água.
— Da próxima? — arqueio a sobrancelha, provocando.
— Só se você quiser — corrige-se Cam, encarando-me sério de novo. — E só quando você quiser. Sem pressa, sem pressão. E se você não quiser que isso volte a acontecer, eu vou guardar esse momento como algo especial em meu coração e não vou pedir mais nada. Voltaremos a ser apenas amigos. Nada além disso. Eu garanto.
Permaneço quieta por alguns instantes, refletindo sobre o que deveria dizer a Cam. Sinto ainda meus lábios formigarem pelo recente beijo, o peso do casaco nos ombros e a lembrança do pesadelo desbotando como fumaça no vento, relembrando brevemente de todos os momentos em que vivi ao lado de Cam desde que entrei para a Resistência.
— Eu não sei o que vai acontecer amanhã — admito. — Não sei o que eu vou sentir daqui a um mês. Mas, por agora, eu estou bem e não me arrependo de ter tido meu primeiro beijo com você. Eu não quero esquecer.
Ele assente, devagar.
— Então a gente não esquece.
Nós nos sentamos no piso frio, encostando-nos no parapeito, assim como sempre fazemos após chegar do treinamento matutino para recuperar o fôlego. Cam puxa o casaco mais para cima de mim, como se fosse um cobertor, e eu encosto a cabeça no ombro dele. Por um tempo só ouvimos as ondas. Minha respiração desacelera no ritmo da dele.
— Manu… — sussurra Cam, depois de alguns minutos. — Só para esclarecer.
— Fala — respondo, erguendo o queixo para encará-lo.
— Eu não planejava ter me declarado dessa forma. Na verdade, por saber dos seus sentimentos por Prince, eu disse a mim mesmo que eu expulsaria a paixão de dentro do meu peito, porque valorizo a sua amizade acima de tudo. Mas, como nada sai como planejamos, eu realmente falei sério quando disse que estou apaixonado por você. Mas eu não vou te apressar. Não vou disputar nada com ninguém. Se isso aqui for só um beijo que te lembre que serviu para tirar a frustração que você sentia por nunca ter beijado, eu já estou feliz. Mesmo depois do beijo, não planejo te forçar a corresponder ao que eu sinto. Eu prefiro ser seu porto do que ser uma tempestade nova.
Um sorriso me escapa sem eu conseguir segurar.
— Porto combina com você — brinco. — Mas prometo não forçar a barra também. Eu sei melhor do que ninguém como dói não ser correspondido e ainda brincarem com os nossos sentimentos. Não posso prometer que vou conseguir corresponder algum dia, mas quero tentar seguir em frente e acho que você é a pessoa certa para me ajudar a descobrir lados meus que até então eu não entendia.
— Tudo bem. Vamos apenas deixar a maré nos levar e ver no que isso vai dar — responde Cam, deixando um beijo em minha testa.
A madrugada avança, fria, mas o frio não dói. Eu levanto a mão e toco a bochecha de Cam, só para ter certeza de que não foi invenção da minha cabeça. Ele segura meus dedos e beija meus nós, um gesto pequeno, doméstico, que me desarma mais do que qualquer grandiosidade.
— Quer voltar? — pergunta, preocupado. — Se ficar aqui, você vai congelar, e a Tori vai me matar se descobrir que eu deixei você gripada. Além disso, ainda dá para dormir algumas horas antes de precisarmos ir treinar.
— Vamos — concordo, mas não me mexo de imediato. — Cam?
— Sim?
— Obrigada por ter hesitado.
Ele me encara confuso.
— Porque me fez ter certeza de que era escolha minha — esclareço, dando de ombros. — Não foi por impulso ou raiva. Eu realmente senti que era a escolha certa.
Ele entende. Os olhos dele brilham num jeito que não tem nada a ver com a lua.
— Não tem que me agradecer. Eu também fui um pouco egoísta. Essa também foi um teste meu para saber se você realmente não estava apenas agindo por impulso e que desejava de verdade me beijar.
Sorrio e me afasto, deixando que ele se levantasse. Ele estende a mão e me ajuda a levantar também. Cam pega a garrafa vazia para levar com a gente e sorri, daquele jeito fofo.
Em silêncio e de mãos dadas, seguimos pelos corredores, aproveitando a calmaria da madrugada e a luz singela que iluminava o nosso caminho. Assim que chegamos aos dormitórios, nós paramos de frente da porta do quarto de Tori, Cam se vira para mim e me encara com intensidade.
— Se amanhã você quiser fingir que tudo não passou de um sonho maluco, basta agir como sempre e eu farei o mesmo — relembra Cam, soltando minha mão.
— Eu vou querer lembrar — afirmo.
— Nesse caso, eu também não esquecerei.
Ficamos nos olhando um segundo a mais do que seria o aceitável como amigos. Quer dizer, eu ainda me sentia estranha com essa situação e tinha uma parte de mim que continuava a pedir por Prince, mas estar com Cam era algo divertido e leve. Então, ignorando as vozes contraditórias da minha cabeça, eu me inclino e deixo um beijo rápido no canto da boca dele.
Ele sorri, meio bobo, meio vitorioso.
— Boa noite, Manu.
— Boa noite, Cam.
Com um rápido aceno, entro no quarto. Tori ainda dormia profundamente, sem nem imaginava que eu estava ciente de seus segredos e ainda tinha dado meu primeiro beijo com o primo dela. Sorrio e me deito devagar, sentindo-me estranhamente feliz e relaxada. Levo as mãos ao rosto e noto que ainda estou usando o casaco de Cam.
Deslizo a mão pelo tecido grosso do casaco e suspiro. Eu realmente não conseguiria dormir com ele. Não que eu não apreciasse o calor da peça, já que sinto muito frio no QG, mas havia um turbilhão de estímulos que não me deixaria parar de pensar tão cedo no que aconteceu.
Agora que o momento havia passado, eu não conseguia acreditar que eu tinha tido coragem de sugerir que nós nos beijássemos e ainda ficaria tão feliz com isso. Inspiro o casaco e sinto o característico e envolvente perfume de Cam. E então vem a lembrança das sensações de nossos beijos e as expressões tão únicas do rapaz, que mais uma vez havia participado de uma primeira vez minha e eu não sabia como reagir a isso.
Decido não pensar muito nisso. Minha mente possuía a irritante mania de ir muito a fundo nos pensamentos e acabar me levando a loucura.
Ergo-me devagar para não acordar a Tori, dobro o casaco de Cam e saio do quarto de fininho, levando a peça de roupa contra o peito.
O corredor estava vazio. A lâmpada amarelada oscilava levemente, enquanto era possível ver a escuridão da noite pelas poucas janelas espalhadas pelo espaço. O som de distante do mar atravessa as paredes como uma respiração antiga e acalentadora. Continuo a seguir pelo corredor até virar à direita, na direção do quarto de Cam, e o encontrar parado, encostado na porta do próprio quarto, sorrindo feito um bobo.
Agora, diante da claridade das lâmpadas e da atenção aos detalhes, consigo ver que os cabelos dele estavam bagunçados, as bochechas levemente coradas e os olhos puxados se fechavam de forma adorável. Enquanto isso, ele tamborilava os dedos contra a própria perna, com um sorriso largo e fofo que mostrava que estava eufórico demais para dormir.
— Eu devia saber que você não ia conseguir dormir — brinco em voz baixa.
Ele endireita a postura e um sorriso divertido aparece em seus lábios.
— Zero sono — confessa, passando a mão pelos cabelos. — Culpa de uma certa avaliação de “nove e meio”. Eu levo muito a sério as minhas notas.
Reviro os olhos, mas a bochecha esquenta. De repente, eu já não tenho mais a petulância e a confiança que sentia quando estávamos no pátio, apreciando a paisagem.
— Vim te devolver — ergo o casaco, meio envergonhada.
Cam dá um passo e, ao invés de pegar, ele pousa a blusa novamente sobre meus ombros, com cuidado. Os dedos dele roçam minha nuca de forma leve e delicada, que quase me faz suspirar de surpresa e expectativa.
— Pode ficar. Eu sei que você sente muito frio aqui no QG. Vai te manter aquecida. — diz, e o olhar dele fica sério o suficiente para me desmontar por dentro.
Ficamos próximos demais para dois amigos no corredor de madrugada. Eu sinto o cheiro dele outra vez, misturado a maresia que entra por algum lugar e à tinta velha das paredes.
Ele ri baixinho, nervoso.
— Eu ainda estou tentando processar tudo — confessa, em um misto de euforia e uma doçura tímida. — Então, pega leve comigo. Quando voltarmos a nos encontrar na hora do treino, eu prometo que vou agir com naturalidade.
Sorrio e nego, dando de ombros. Observo o bonito rosto de Cam, que parecia ainda mais atraente essa noite.
— Se serve de consolo, eu também estou um pouco agitada demais para conseguir pegar no sono — sussurro, aproximando-me mais de Cam.
Alterno o olhar entre os olhos brilhantes de Cam e seus lábios vermelhos, que agora que eu havia experimentado, havia me deixado extremamente interessada neles.
Os olhos dele caem nos meus por um segundo a mais do que o de costume. Um breve silêncio nos envolve e nesse silêncio eu sinto algo dentro de mim se revirar em êxtase e ansiedade. Cam inclina um pouco a cabeça, como se pedisse permissão outra vez. Eu me aproximo, quase nada, o suficiente para entender que a distância acabou.
A mão dele toca minha bochecha, o polegar desenha um caminho que me arrepia inteira. Ele baixa o rosto, devagar e eu fecho os olhos, pronta para experimentar mais uma vez os lábios de Cam. No entanto, antes que encerrássemos a distância entre nossa boca, somos surpreendidos com um pigarro alto e bastante impaciente.
— Poderiam abrir espaço, por favor?
As palavras proferidas com ironia excessiva cortam o corredor como um estalo. Abro os olhos no susto. Prince estava parado a poucos metros, vindo do acesso da escada com o cabelo bagunçado de quem tinha acabado de acordar e o maxilar tenso demais para alguém que tentava expressar neutralidade. Os olhos dele passam de mim para Cam, descem para a minha mão segurando a barra do casaco, sobem de novo.
Cam recua, surpreso com a aparição repentina do rapaz, e eu ajeito o casaco nos ombros, sem saber onde pôr as mãos. Observo Prince e eu só conseguia me sentir frustrada mais uma vez. Ele estava claramente incomodado, mas continuava a tentar agir calmamente, como se estivesse prestes a me repreender por cometer o maior crime de todos.
— Saí para beber água — anuncia Prince, como se precisasse justificar a presença. O olhar dele passa por mim, estaciona no casaco de Cam e então volta para a distância entre nós dois. — Não sabia que o corredor se tornava um espaço tão íntimo assim a essa hora.
A voz de Prince soa de forma passiva agressiva. Não havia gritos ou qualquer tipo de repreensão direta, mas era nítido que ele estava quase nos mandando ir para o quarto.
— Nós só estávamos conversando — responde Cam, assumindo uma postura mais séria.
Prince dá uma risada curta pelo nariz, quase de ironia. Não dura mais que um segundo. Espero ele dizer qualquer comentário ácido sobre a situação que encontrou Cam e eu nessa suposta conversa, mas ele apenas bufa e me encara com intensidade.
— Posso falar com você? — questiona Prince.
Cam desloca o peso do corpo e por um instante acho que ele vai interpor o próprio corpo entre nós. Em vez disso, só inclina a cabeça na minha direção, deixando claro que a decisão era minha e que ele não iria interferir. O corredor inteiro parece esperar comigo.
Analiso Prince e sua proposta. Pela forma como ele me encarava, nossa conversa levará a uma nova discussão. São um pouco mais de três horas da manhã, e mesmo sem precisar fazer o treino extensivo de Nina, nós ainda precisaríamos acordar cedo para acompanhar o treino matutino da base. Eu não queria me estressar e estragar o meu humor, que estava radiante depois de ter beijado Cam.
— Agora não — respondo, decidida. — Já está tarde e eu estou cansada. Eu quero aproveitar que posso dormir um pouco mais para descansar.
O olhar de Prince escurece um tom, mas ele não se move. A respiração dele é medida, como quem conta até dez para não fazer besteira.
— Certo — fala, com certa aspereza. — Amanhã, então.
Ele dá meio passo, como se fosse acrescentar alguma coisa, mas se contém. O silêncio que sobra é áspero. O corredor inteiro parece ter ficado menor.
— E, Manu… — chama Prince, dando-me um olhar repreendedor. — Cuidado com as câmeras do corredor. Não é sobre moral. É sobre gente vendo o que não tem que ver. Seria bom ter um pouco de senso sobre o local onde você quer “conversar”.
É um aviso mascarado de preocupação. É também uma tentativa de controle. Sinto meu sangue ferver e tenho vontade de avançar contra Prince. Cam parece notar, pois imediatamente segura meu punho com delicadeza e nega.
O gesto do rapaz parece deixar Prince ainda mais incomodado, pois revira os olhos e bufa, sem fazer muita questão de disfarçar a indignação dele. A tensão vibra entre nós três.
— Obrigada pela informação — respondo, seca. — Mas, eu convivo diariamente nesse lugar há quase três anos. Acho que sei melhor do que você como me portar diante dos corredores do QG. Além disso, você está dormindo com a sua namorada escondido de Johnny e acha que tem algum direito de me dar lição de moral? Por que não volta para a sua namorada e para de estragar o humor dos outros?
Prince solta uma breve risada incrédula, como se não acreditasse em minha resposta. Cam aperta os lábios, segurando o riso, e parece se divertir com a minha resposta.
— Boa noite, Prince.
Os olhos dele prendem nos meus por um segundo que dura um minuto. Depois, descolam. Ele assente, duro, e passa por nós com um “boa noite” que não me inclui de verdade. O cheiro de âmbar e maresia que sempre vem colado nele fica um instante e some na curva do corredor, com ele seguindo para o quarto de Olga.
Só quando o eco dos passos desaparece, o ar volta aos meus pulmões. Cam solta um riso quase inaudível, nervoso, e balança a cabeça.
— Desculpa — murmura Cam, dando um sorriso sem graça. — Zero timing. Eu não deveria ter ultrapassado os limites. Isso deixou você em uma situação complicada.
— Não é culpa sua — respondo, sentindo-me extremamente furiosa com Prince. — Não fizemos nada de errado. Não tem motivos para você se sentir culpado.
— Eu ainda sou o mesmo idiota responsável, lembra? — brinca Cam, dando um sorriso caloroso. — Prometo tomar cuidado para que isso não volte a se repetir.
— Você fala como se só você tivesse desejado que nos beijássemos de novo. Prince foi inconveniente. Ele fez de proposito para deixar o clima péssimo — retruco, indignada. — Mas não se preocupe. Amanhã eu vou fazer questão de conversar com ele durante o nosso treino. Ele vai experimentar um pouco do que significa enfurecer Emanuelle Santos.
— Cuidado para que isso não vire uma guerra e comprometa a relação dos grupos — aconselha Cam, encarando-me com preocupação.
— Não vai — garanto. — Se depender de mim, não vai. Mas, Prince precisa aprender a não ser inconveniente. Eu não vou deixar essa afronta passar impune.
Cam passa a mão na nuca, inquieto, provavelmente meditando sobre o que deveria me dizer. Decido mudar de assunto e relembro o principal motivo de ter ido me encontrar com Cam.
— Eu devolvo o seu casaco na hora certa — aviso e o riso sai de nós dois no mesmo ritmo, desalinhando a tensão.
O rapaz assente e pega a peça de roupa para colocar em cima dos meus ombros mais uma vez. Os dedos dele seguram o tecido, os meus roçam os dele. Por um instante aquele quase-beijo volta a existir entre a pele e o ar. Mas, não forçamos. Não agora.
— Boa noite, Manu — despede-se Cam, baixinho.
— Boa noite, Cam — digo, voltando a deixar um beijo na bochecha dele antes de me afastar.
Dou dois passos para trás, sem quebrar o olhar, e então me viro primeiro. Caminho até a porta do quarto de Tori sentindo o coração bater em lugares que eu nem sabia que existiam. Antes de entrar, olho por cima do ombro. Cam ainda está parado, com os braços cruzados e aquele sorriso de quem aprendeu a guardar coisas boas sem esmagá-las.
Fecho a porta com cuidado e volto para a cama. Tori continua dormindo, alheia a qualquer drama de corredor. Eu encosto a testa no travesseiro e, me encolho contra o casaco Cam, sentindo uma espécie de calor que não tem a ver com a roupa. No corredor, bem longe, acho que ouço passos de novo, que reconheço como os de Prince voltando ou talvez indo, e a pergunta que eu não faço a ninguém balança na minha cabeça como uma cortina aberta. Por que foi tão difícil para ele olhar para nós dois, se ao me ver ao lado de outro cara ele vai agir assim?
Eu não tenho resposta. Só sei que, quando fecho os olhos, o mar continua batendo nas rochas, a madrugada segue fria e, por dentro, algo segue aceso. Amanhã a gente vê o que faz com isso. Hoje, eu deixo o rapaz eufórico no corredor me dar boa noite pela décima vez na memória, e durmo.
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