Fire Scars

47 Interrogatório


Capítulo XLV — Interrogatório


“Vejo você lutando contra seus demônios internos

Vou te esperar, vou te esperar

Não tenha medo, você não pode me afastar

Vou te esperar, vou te esperar

Até o brilho nos seus olhos reaparecer

Vou estar aqui do seu lado

Vejo você lutando contra seus demônios internos

Vou te esperar, vou te esperar

Vou te esperar”

Myles Smith – Wait for You


Most – 1999

A manhã chegou mais rápido do que eu esperava e logo era seis horas da manhã. O despertador de Tori, que mais se parecia com uma sirene de incêndio do que com um simples relógio, ecoou pelo quarto, arrancando-me do sono com um pulo. Piscando, tento entender onde estou até que as lembranças da noite anterior me atingem de uma vez. Ainda consigo sentir o leve gosto de malte, a maciez dos lábios de Cam, o arrepio delicioso da expectativa antes do beijo, a frustração com a interrupção de Prince, com quem eu ainda preciso ter uma conversa.

Ainda abraçada pela sensação quente de que tudo o que aconteceu na noite anterior era real, sinto o tecido aconchegante do casaco de Cam. Um sorriso bobo me escapa, inevitável, ao notar o cheiro dele impregnado no tecido. Suspiro, desligo o alarme estridente com um tapa e me espreguiço.

— Tori, acorda — chamo, tentando recuperar a voz.

— Só mais cinco minutinhos… — resmunga Tori, virando-se para se enterrar ainda mais sob o edredom.

— Nem pensar. Se não estivermos prontas em cinco minutos, a Nina aparece aqui, e você sabe que isso não vai ser nada agradável.

Tori solta um bufo dramático, sentando-se com cara de poucos amigos. Madrugar nunca foi seu talento. Mesmo sendo uma das pessoas mais doces e animadas que conheço, ela precisa de tempo e um grande copo de café para existir de manhã.

Mas, quando finalmente se vira para mim, bocejando, algo muda em seu olhar. A expressão sonolenta é rapidamente substituída por pura curiosidade. Os olhos se arregalam, brilhando em malícia, provavelmente reconhecendo a peça de roupa que é uma das favoritas de Cam.

No entanto, assim que se vira para mim, enquanto boceja, algo parece chamar sua atenção e imediatamente reconheço a expressão curiosa e divertida da garota. Os olhos de Tori parecem dobrar de tamanho e um brilho interessado surge neles. Um sorriso malicioso surge em seus lábios.

— Por acaso essa é a blusa de frio preferida do Cam? O que aconteceu enquanto eu estava dormindo? — indaga Tori, encarando-me com expectativa.

Rio e deslizo para fora da cama, tirando o casaco devagar, consciente do olhar dela me seguindo. Deixo a peça de roupa sobre a cama e caminho até o banheiro com a calma mais calculada possível.

— Manu! — protesta Tori, batendo na porta quando a fecho. — Não faz isso comigo! O que aconteceu ontem?

— Vai se vestir, Tori — digo, rindo, enquanto começo a escovar os dentes.

As batidas impacientes continuam, cada vez mais cômicas. Só quando percebe que não vai arrancar nada de mim, e que temos apenas vinte minutos para nos arrumar e tomar café, é que ela desiste. O quarto fica em um silêncio quase divertido.

Ao terminar de lavar o rosto, apoio as minhas mãos na pia e encaro o espelho diante de mim. Meu reflexo revela bochechas levemente coradas e um sorriso que insiste em permanecer. Uma parte de mim queria ficar ali, suspensa entre as lembranças e o presente, mas o tempo corria e Nina não gostaria nada se nós nos atrasássemos. Respiro fundo, visto-me depressa e abro a porta.

— Você é cruel!

Tori reclama, já de pé com a roupa meio desarrumada, pronta para correr para o banheiro.

— Eu te conto tudo e você fica fazendo suspense de algo que envolve o meu primo.

— É mesmo? — ironizo, penteando o cabelo. — Que eu saiba, você não me contou que estava namorando.

Ela aparece na porta com a escova de dente pendendo da boca, os olhos arregalados como se eu tivesse lido seus pensamentos. Um balbucio incompreensível escapa, e eu não resisto a um riso. Empurro-a suavemente para dentro do banheiro.

— Fala direito, eu não entendi nada — provoco, apoiando-me na moldura.

Depois de enxaguar a boca, Tori me encara, mordendo o lábio inferior.

— Eu acordei de madrugada e fui pegar um pouco de ar. Acabei me encontrando com Cam no pátio lateral. Ele me contou que você apresentou seu namorado para ele e que ele é um civil. Quando ia me contar isso? Fiquei bastante surpresa com essa novidade.

— Desculpa. Não é que eu não confie em você. É só que muita coisa estava acontecendo na sua vida. Você estava participando de tantas missões e depois veio Prince com a bomba de que ele estava namorando com a Olga e...

Tori suspira e me lança um olhar de culpa.

— Desculpa. Eu juro que eu queria te contar. Foi uma tortura guardar isso só para mim, mas eu não queria que você tivesse mais preocupações na cabeça. Eu sei que você e Cam se importam comigo e só querem meu bem, por isso poderiam ser contra ao nosso relacionamento. Mas o Jake me faz tão feliz e eu me sinto tão incrível ao lado dele. Ele é tudo o que eu sempre desejei encontrar, sabe? Então, fiquei com medo de vocês ficarem contra nós dois. Só que esse segredo estava me matando, então decidi contar para Cam primeiro, que estava um pouco menos soterrado. Mas, eu juro, você era a próxima para quem eu iria contar. Não fica com raiva de mim, por favor.

Sorrio e abraço de lateral, enquanto encaramos nosso reflexo pelo espelho do banheiro. Apesar de ser mais velha do que eu, o ar jovial e doce que Tori emana sempre me faz a ver como se fosse minha irmãzinha.

— Eu não estou com raiva e eu entendo você não ter contado antes. Está tudo bem — afirmo, encostando minha cabeça na dela. — Apenas quero que você seja feliz. Mesmo que seja um civil, se Jake te faz feliz, eu apoio você completamente.

— Obrigada, Manu.

Tori parece aliviada com a minha aceitação e me abraça aperto. Rio e correspondo ao gesto. Conhecendo-a bem, ela deveria estar quase para enlouquecer por guardar para si mesma algo tão empolgante quanto conhecer o cara dos seus sonhos e estar namorando.

— Tudo bem. Agora vamos nos apressar, que nós já estamos atrasadas — apresso a garota, sabendo que essa conversa teria que ficar para outro momento.

Assim que terminamos de nos arrumar, deixamos o quarto e passamos a seguir pelos corredores do QG em direção ao refeitório. O caminho que fazíamos estava silencioso, exceto pelo som suave de passos apressados ecoando entre as paredes de concreto. O frio da madrugada ainda pairava no ar, fazendo-me apertar um pouco mais o meu casaco contra o corpo e, inevitavelmente, eu acabo me lembrando de Cam e da reação de Prince ao nos ver juntos.

— Por que eu sinto que não aconteceu somente a conversa sobre a minha vida com o Cam durante a madrugada? — comenta Tori, de repente, com um tom quase cantarolado. — Você está sorrindo sozinha. É muito fofo… e incriminador.

— Você está imaginando coisas — digo, mas não consigo controlar o riso. — Eu apenas estou aliviada por termos voltado a nossa rotina.

— Sei... — murmura a garota, rindo enquanto me encara com ironia.

Descemos os últimos degraus até o refeitório aos risos, como duas adolescentes normais. O salão está cheio, com diversas conversando e, ao fundo, o som do televisor exibia um noticiário local. O cheiro de café recém passado e pão fresco deixam o ambiente aconchegante e aumentam o meu apetite.

Não vejo Cam, Irina, Tyler, Olga ou Prince e as mesas do fundo, onde costumamos nos sentar estava completamente vazia, então ou eles já haviam lanchado e saído ou ainda não tinham chegado. Tori e eu pegamos o café da manhã que estava sendo distribuído e seguimos com nossas bandejas pelo salão do refeitório.

Surpreendo-me ao notar a presença de Nina sozinha em uma das mesas, encarando uma prancheta, enquanto toma seu café. Ela geralmente toma café da manhã em casa e raramente interage com os outros membros da Resistência no refeitório.

Ao notar que era observada, ela levanta o rosto e, assim que nos reconhece, um sorriso amável se faz presente em seus lábios, algo bem diferente da expressão séria e carrasca que tinha em sua face instantes antes.

Tori e eu nos aproximamos e nos sentamos à mesa com a nossa mentora, já que provavelmente éramos as únicas que tinham intimidade suficiente para ficar perto da mentora mais severa e maternal da Resistência.

— Bom dia, Nina! — cumprimenta Tori, sorrindo com doçura.

— Bom dia, Nina. Você sabe onde estão os outros? — questiono, assim que a alcançamos.

— Bom dia, meninas. Tyler e Cam foram com Leon no centro da cidade para pegar alguns equipamentos para Serguei e Prince foi conversar com Johnny na sala dele, mas eu não sei onde estão Olga e Irina. Provavelmente ainda estão descansando — responde Nina, dando um sorriso amável. — Por que não aproveitam que hoje o treino será apenas a tarde para comer e descansar um pouco mais também?

— O treino vai ocorrer apenas a tarde? — pergunta Tori, tão confusa quanto eu.

Nina assente, enquanto termina de tomar seu café.

— Achei que vocês já soubessem, já que comunicamos os membros ontem à tarde — comenta, confusa. — Eu jurava que vocês sabia.

— Depois da minha reunião com Johnny, Tyler e Prince, eu fui dormir, então eu provavelmente não ouvi quando o comunicado foi passado — respondo.

— E eu saí de tarde com o Cam para o centro da cidade e acabamos voltando tarde. Com isso, não ficamos sabemos do comunicado — explica Tori. — Quer dizer, se Cam sabia, ele não me comunicou também.

Após assentir lentamente, como se estivesse absorvendo as informações, Nina dá de ombros e volta a atenção para nós.

— De qualquer forma, hoje Johnny vai se reunir com todos os instrutores agora de manhã para montar uma estratégia de treino para preparar todos para o confronto que deveremos ter em breve com Taynara.

— Então ele vai mesmo desafiar Taynara? — murmuro, sentindo-me incomodada.

Meu peito se aperta ao refletir sobre a notícia dada por Nina. Com as forças que temos hoje, não parece sensato. O próprio Johnny disse que o grupo que ela lidera é mais perigoso e organizado do que qualquer célula rebelde que já enfrentamos. A Resistência tem números, mas poucos com o preparo certo para encarar um inimigo assim.

— Bom, não é como se pudéssemos deixar Taynara ganhar mais poder — responde Nina, dando um fraco sorriso.

Ao encarar os olhos de minha mentora, posso ver que, assim como eu, ela não estava muito de acordo com a ideia de enfrentarmos Taynara. Nina suspira e volta a encarar de forma pensativa o copo de café em suas mãos.

— O continente está passando por mudanças extremas. Com a comercialização de novas drogas e armas, muitas guerras podem ocorrer e no centro dela se encontra Taynara e seu grupo. Johnny quer intervir antes que ela cresça ainda mais — explica Nina, voltando a nos encarar. — É provável que nossos dias em Boise estejam contados também, já que o governo tem feito mais exigências do que podemos atender.

— O quê?! Teremos que sair do país?! — exclama Tori, exasperada.

Nina a encara com repreensão pelo volume usado, já que essa conversa provavelmente deveria ser confidencial. Tori se encolhe. Varro a sala com os olhos e ninguém parece prestar atenção em nós. Suspiro, aliviada.

— Se ocorrer, não deve ser por agora. Não precisam fazer alarde sobre isso. Apenas estejam ciente de que é uma possibilidade. Ainda mais agora que Taynara sabe a nossa localização. Nós estamos expostos demais aqui. Precisamos garantir a segurança de todos, então precisamos ir para um endereço seguro, de difícil rastreamento e que ainda seja perto o bastante da princesa Allycia.

— Não se preocupe, Nina. Não contaremos a ninguém sobre isso — afirmo, encarando-a com seriedade. — Eu prometo.

— Conto com vocês — responde Nina, pousando o copo de café vazio sobre a mesa.

O comunicador no pulso dela vibra com um estalo seco. Nina confere a tela, franze o cenho, provavelmente estranhando a mensagem presente nele.

— Johnny me quer na sala de reunião agora. Aproveitem a folga da manhã. Comam, descansem e mantenham os ouvidos atentos. Nós nos vemos na sala de treinamento principal depois do almoço.

Assentimos. Nina se levanta se despede de nós, tocando levemente em nossos ombros, em um gesto afetuoso que ela permite dar apenas a um grupo seleto. Com sua prancheta em mãos, Nina deixa o refeitório, ficando apenas Tori e eu na mesa.

— Será se vamos nos mudar para muito longe de Most? — murmura Tori, preocupada. — Eu mal comecei a namorar. Eu já vou ter que me separar de Jake?

— Não fique tão ansiosa por isso. Pode ser que ainda demore um bom tempo para isso acontecer. O melhor a se fazer é aproveitar o tempo que temos — aconselho e coloco a mão sobre o ombro de Tori, que suspira entristecida.

— Sim. Você tem razão — afirma Tori.

Ela bebe um pouco de café e inspira fundo, antes de voltar o sorriso animado que é típico da garota. De repente, ela parece se lembrar de algo, pois apoia os cotovelos na mesa, aproxima-se como quem vai contar um segredo. No entanto, seus olhos recaem sobre mim com expectativa, e eu logo entendo que na verdade, ela está interessada em ouvir um segredo.

— Então, que tal voltarmos ao tópico “você estar sorrindo para o vento e parecer com a cabeça nas nuvens”?

— Ah, não — murmuro, rindo.

Começo a comer meu pão, fugindo do olhar insistente de Tori, que definitivamente não me deixará em paz até saber o que aconteceu entre Cam e eu durante a madrugada.

— Manu! O que aconteceu? Me conta! Por favor! — implora Tori, balançando-me com desespero. — Você não pode continuar me mantendo na curiosidade assim!

— Você é insuportável, sabia? — resmungo, rindo. — Não aconteceu nada demais.

— Mentira! — acusa Tori, apontando em minha direção a colher que segurava para comer a gelatina que tinha em sua bandeja. — Se não fosse nada demais, você não estaria fazendo todo esse suspense e nem estaria com esse sorriso bobo! Vai! Me conta os detalhes!

Rio da ansiedade da garota ao ver que ela estava quase me batendo de tanta curiosidade. Bebo um pouco de café e acabo decidindo que já tinha sido malvada o suficiente para esconder o que aconteceu.

— Ontem à noite, eu acordei de madrugada, depois de um pesadelo, e acabei decidindo ir pegar um pouco de ar fresco. Como eu te disse, acabei encontrando com Cam no pátio lateral, bebendo uma cerveja, enquanto observava a paisagem — conto, atraindo a atenção completa de Tori. — Ele estava mais pensativo do que o normal e eu ainda estava um pouco agitada por causa do pesadelo, então pedi para experimentar a cerveja, já que nunca bebi antes. Depois de muita insistência, ele acabou deixando eu provar.

— Sério? Cam deixou você beber mesmo sendo menor de idade? — questiona Tori, surpresa. Assinto, rindo. — Ele é sempre tão certinho. É surpreendente que ele tenha deixado.

— Bom, foi apenas um gole. Não é como se eu fosse ficar bêbada com isso — respondo, dando de ombros. — E eu precisei ser bem insistente para ele ceder. Não foi fácil, mas acho que ele já estava um pouco mais relaxado por causa do álcool, então, no fim, eu pude experimentar.

— E como foi? — indaga Tori, curiosa.

— Não é o melhor sabor do mundo — confesso. Tori gargalha, divertindo-se com o meu comentário.

— Eu também não gosto de cerveja. Entre as bebidas alcóolicas, eu prefiro vinho ou coquetéis, que são muito mais agradáveis e menos amargos — comenta a garota, pensativa. — Mas, enfim, depois que você bebeu a cerveja, o que aconteceu?

— Eu perguntei para ele o motivo de estar tão pensativo e ter ido para o pátio de madrugada. Ele me contou que você estava namorando com Jake, sobre o encontro com ele e como ele se sente responsável por você depois do que aconteceu com seus pais.

— Então ele finalmente revelou nosso passado — murmura Tori, dando um fraco sorriso enquanto encara o próprio café. — Ele não tem culpa de nada e já passou muito tempo. Não sei mais o que fazer para que ele consiga superar.

— Bom, esse é o jeito de Cam. Ele está sempre sorrindo e animando a todos, mas, no fundo, ele acaba sendo muito sensível e carrega muita responsabilidade dentro de si.

Tori assente, voltando a me encarar. Ela suspira e bebe um pouco do café, apreciando brevemente o líquido que traz tanta calma e paz de espírito para a garota.

— E então...?

— Então o quê? — questiono, confusa.

— Não se faça de desentendida. Eu sei que aconteceu mais coisa — retruca Tori, encarando-me com desconfiança. — O que aconteceu depois disso?

— Bem, eu confessei que me sentia frustrada por todo mundo já ter namorado ou beijado e eu continuar atrasada, porque passei três anos esperando pelo cara por quem estou apaixonada, para ele voltar namorando outra pessoa — conto, começando a me sentir envergonhada. — Cam me consolou, dizendo que eu não precisava ter pressa e que é um momento especial, então precisa ser com alguém especial.

— Cam tem razão. Não tem necessidade de ficar apressando as coisas. Ainda mais no nosso mundo, onde não temos muito tempo para pensar em relacionamento. Vai acontecer. Você só precisa ter um pouco mais de paciência — afirma Tori, apertando minha mão, enquanto sorri docemente.

— Então... — murmuro, rindo envergonhada. — Meio que já aconteceu.

— O quê?! — exclama Tori, surpresa. Ela me encara por alguns instantes, refletindo, e não demora para seus olhos quase dobrarem de tamanho e a boca se abrir em um “o” perfeito. — Não me diga que... Ai. Meu. Deus! Manu! Você e Cam se beijaram? Eu não acredito!

— Sim — respondo, divertindo-me com a reação chocada de Tori. — Eu propus que ele fosse a pessoa com quem eu tivesse meu primeiro beijo, porque ele é alguém especial para mim. É verdade que ainda estou apaixonada por você sabe quem, mas não posso parar a minha vida por isso. Ele está feliz com a namorada e ela é uma pessoa legal. Então, eu decidi seguir em frente. Talvez fosse pelo álcool no gole da cerveja que eu dei, mas me senti corajosa e arrisquei.

— Eu ainda estou em choque — murmura Tori, embasbacada. — Como isso aconteceu? De onde surgiu a ideia de propor que vocês se beijassem? O Cam realmente aceitou dar o seu primeiro beijo? Como foi? Você gostou? Ele foi gentil? O que você sentiu? E como ele reagiu? Foi como você esperava? E...

— Calma, Tori. Eu já não estou conseguindo entender mais nada — interrompo a garota, vendo que ela não pararia com a sessão de interrogatório. — Respira fundo e se acalma.

Rio e ela respira fundo, tentando se acalmar. Suspiro e fecho os olhos por alguns instantes, relembrando tudo o que aconteceu na noite anterior. Assim como Tori, eu ainda não conseguia acreditar que tive coragem de propor que Cam desse o meu primeiro beijo, mas eu não me arrependia. Eu ainda estou feliz por ter sido com ele.

— Enquanto Cam me consolava, eu refleti sobre o que ele disse de ser algo especial. Quando olhei para Cam, eu senti que ele era a pessoa certa, sabe? Eu realmente pensava que esse momento aconteceria com outra pessoa, mas ao sentir os braços dele ao meu redor e como eu não me sentia incomodada de meu primeiro beijo ser com ele, eu simplesmente criei coragem e sugeri.

— Uau, Manu. Eu realmente admiro a sua determinação. Eu acho que nunca teria tido coragem de propor algo assim. Meu primeiro beijo foi um jogo de verdade ou consequência aos treze anos e o garoto simplesmente me beijou. Foi horrível! E com Jake, simplesmente aconteceu. Surgiu o momento e ele me beijou. Foi tudo tão mágico e... lindo — confessa Tori, suspirando apaixonada.

— Eu fico feliz que com o Jake tenha sido especial — comento, sentindo-me emocionada em como Tori parecia realmente feliz ao falar do namorado.

— Obrigada.

Um sorriso genuíno aparece nos lábios de Tori e isso me deixa ainda mais animada. Os olhos dela pareciam ter se tornado diamantes ao relembrar do momento. E suas bochechas coradas a deixavam ainda mais adorável.

— De qualquer forma, eu quero mais detalhes! — exige Tori, animada. — Como Cam reagiu a proposta? Aposto que ele ficou em choque.

— Ele negou na mesma hora — respondo, encolhendo-me envergonhada. — E de quebra, ainda confessou que gosta de mim.

— O quê?! Ele falou? Mesmo sendo algo que todos viam, porque ele nem mesmo conseguia esconder os sentimentos dele, eu pensei que ele jamais fosse se confessar para você.

Tori parecia ainda mais surpresa com a informação. E eu acabo me sentindo idiota por nunca ter notado os sentimentos do rapaz, que, pelo visto, pareciam óbvios para todos, menos para mim.

— Quando eu insistir em saber o porquê de não querer me beijar, ele acabou me contando. Mas, deixou claro que ele não planejava me contar nada. Ele apenas queria explicar que se nos beijássemos, o coração dele poderia ganhar esperanças e exigiria receber mais. Cam também disse rue temia perder a minha amizade e que não queria que eu me arrependesse. Que não queria se tornar uma tempestade em meio ao caos que eu já estou vivendo.

— Que fofo!

— Eu sei! — exclamo, emocionada. — E isso só me fez ter ainda mais certeza de que eu queria que meu primeiro beijo fosse mesmo com ele.

— E como você o convenceu a mudar de ideia? — questiona Tori, curiosa.

— Eu expliquei para Cam que ele é especial para mim e que se ele não quisesse, estaria tudo bem. Eu apenas não podia perdê-lo. Se as coisas dessem errado, a gente conversaria e resolveria. Afirmei que ele não era um erro e eu jamais me arrependeria. Ele acabou aceitando. Você sabe como eu sou teimosa e não poderia desistir em apenas uma resposta negativa — conto, levemente envergonhada. — Depois disso, nós nos beijamos.

— E como foi? — indaga minha amiga com expectativa.

— O primeiro foi um selinho leve e delicado. Depois eu quis mais e o beijo se aprofundou. Foi incrível. Eu nunca pensei que seria assim, mas não foi ruim. Eu gostei bastante — respondo, rindo. — Eu até dei a nota nove e meio.

— Nove e meio? — repete Tori, divertindo-se. — E por que não dez se foi tão bom assim?

— Por causa do gosto de cerveja.

Tori ri da minha careta. Eu a acompanho, sentindo-me animada ao narrar o acontecimento. Ela parecia genuinamente feliz e isso era o bastante para me acalmar.

— Mas ele prometeu que na próxima vez vai beber égua.

— Próxima vez, é? — questiona Tori, sorrindo maliciosa.

— Enfim, nós nos beijamos duas vezes e teria acontecido uma terceira vez se Prince não tivesse aparecido no corredor e estragado todo o clima — reclamo, inconformada ao relembrar que Prince tinha sido um verdadeiro estraga prazeres. — Eu ia devolver a blusa para o Cam, ele pediu para que eu ficasse com a peça e surgiu aquele clima. No entanto, no mesmo instante apareceu Prince e tudo foi por água abaixo.

— Ele viu vocês dois quase beijando? — sussurra Tori, chocada. — E o que ele fez?

— Ficou reclamando, dizendo que precisávamos ter cuidado com as câmeras de vigilância no corredor e outros comentários deselegantes — digo, dando de ombros. — Inclusive, hoje eu vou dar um jeito de treinar com ele e descontar toda a minha raiva.

— E como você se sente? Quer dizer, em relação aos dois? Você gosta do Cam ou do Prince? Você e Cam vão namorar agora ou se foi apenas um momento casual.

Antes que eu respondesse a pergunta de Tori, Prince aparece no refeitório e nossos olhos se encontram. Ele caminha a passos largos em nossa direção e eu não conseguia imaginar o que ele queria comigo.

— Manu, podemos conversar? — indaga, indo direto ao ponto.

Ele parecia chateado, mas não parecia ser urgente o bastante envolvendo a Resistência. Isso só me fazia pensar que isso tinha a ver com o mesmo motivo de ontem que o levou a fazer o mesmo pedido quando estávamos no corredor durante a madrugada.

Tori me encara com preocupação e eu apenas dou um pequeno sorriso para garantir que estava tudo bem e que ela não precisava interferir e, tampouco, se preocupar comigo.

— Tudo bem. Mas vamos fazer isso enquanto treinamos — respondo e ele me encara desconfiado, mas apenas assente, provavelmente sabendo que eu não conversaria com ele em outro lugar. — Vem comigo. A nossa conversa será longa.

Assim, deixando minha bandeja com praticamente toda a comida, e passo a guiar Prince pelo local que poderia se tornar seu próximo cemitério.