Fire Scars

48 Embate


Capítulo XLVI — Embate


“Quanto tempo até eu sentir

Que a ferida está finalmente começando a cicatrizar?

Quanto tempo até eu sentir

Que sou mais do que um mero raio na roda?

Na maioria das noites, eu temo

Que eu não seja o suficiente

Já passei por muitas segundas-feiras em que não conseguia me levantar

Mas, quando a esperança se vai

E eu desmorono

Juro por Deus, que eu vou sobreviver”

Lewis Capaldi – Survive



Most – 1999

A sala de combate estava vazia. O aroma de álcool, lona e cânfora alcança nossos olfatos assim que adentramos a sala. A luz fluorescente fazia um zumbido baixo, e cada ruído do nosso passo parecia maior do que precisava.

Diante do olhar atento de Prince, deixo meu tênis da entrada da sala e aproximo-me do armário de equipamentos, refletindo sobre a arma que deveria usar dessa vez para treinarmos e descontar toda a frustração que eu sentia em relação ao rapaz de olhos azuis acinzentados encantadores e atitudes que me tiram do sério.

Por fim, decido que o melhor a fazer seria treinar combate corporal. Sem Cam ou Tyler para impedir que nós acabássemos passando do limite, não seria uma boa ideia usarmos armas letais. Por isso, alcanço quatro ataduras no armário e jogo duas para Prince.

— Já faz alguns anos desde a última vez que treinamos combate corporal. Acho que hoje é um ótimo dia para fazer isso — comento, começando a enrolar a atadura em minha mão esquerda.

— Manu...

— Apenas coloca as ataduras, Prince — murmuro, enquanto tento colocar a atadura na mão direita.

Infelizmente, mesmo depois de anos, eu ainda tinha uma certa dificuldade em enfaixar com a pressão certa a minha mão direita. E minha coordenação ficava ainda pior quando eu estava estressada, como é o caso no momento, enquanto estou diante do olhar pesaroso de Prince.

Ele suspira e, após deixar os tênis na entrada da sala de treinamento, avança um meio passo para perto de mim. Encaro-o com repreensão, mas ele ignora completamente e puxa meu pulso com delicadeza, assim como a atadura que eu usava para prender minha mão. Prince deixa as ataduras que eu dei para ele caírem no tatame e me encara com intensidade.

— Eu enfaixo — responde e passa a arrumar a faixa, sem esperar uma resposta minha.

Os dedos dele trabalharam com precisão, cruzando o tecido em volta do meu punho, passando pela palma, girando em oito pelos dedos. A pele dele roçava a minha de leve, só o suficiente para acender aquele arrepio que eu fingia não ter. Quando ele acaba, ergo a mão e noto que, frustrantemente, a atadura estava firme e perfeita.

Provavelmente, notando que eu não tinha prendido bem a minha outra mão, Prince puxa a minha mão esquerda, desamarra a atadura e repete o mesmo processo. Sinto aquele frio na barriga estúpido e meu coração acelerar. Afasto-me um passo antes que esquecesse por quê estávamos ali.

— Obrigada — murmuro, afastando-me para pegar as luvas de boxe que estavam no armário.

Repreendo-me mentalmente por me sentir tão afetada com algo tão bobo quanto a proximidade e o toque de Prince. E para completar o meu estado patético, meu coração se agita ainda mais ao ouvir a ouvir a risada baixa e rouca de Prince e a proximidade do corpo dele ao pegar as luvas que estavam na parte mais alto do armário que eu não conseguia alcançar.

— Muitas coisas mudaram nesses três anos, mas você ainda continua com dificuldade para enfaixar as mãos e alcançar objetos no alto — comenta Prince, com um sorriso divertido nos lábios, enquanto me entrega as luvas.

Bufo e me afasto, porque sentia que se permanecesse perto de Prince, poderia acabar prestando atenção demais no sorriso bonito do rapaz ou em como ele havia ficado bons centímetros mais alto do que eu ou como sua voz risonha continuava a causar reviravoltas em meu estômago.

— Vamos treinar — digo, colocando as luvas.

Prince suspira e passa a enfaixar as mãos com as ataduras que deixou cair sobre o tatame. Após garantir que estavam firmes, ele coloca as luvas e me encara com seriedade.

Bato as minhas luvas uma na outra e caminho ao centro do tatame. Encaro Prince e ergo o queixo, em um convite silencioso para que ele se aproximasse. Sem muita escolha, o rapaz se aproxima a passos lentos e fica de frente para mim.

Ajeito a ponta do pé dianteiro e o calcanhar traseiro para deixá-los alinhados no centro e os separo na largura dos ombros, deixando-os na diagonal, com o calcanhar traseiro ligeiramente levantado. Deixo minha mão direita próxima do rosto e a esquerda mais à frente. Distribuo o penso do meu corpo entre as pernas, deixando meus joelhos levemente flexionados.

Com minha cabeça mais protegida, eu dou o primeiro soco reto e rápido com a mão esquerda e dou outro soco com a direita, iniciando a nossa troca de golpes. As luvas de Prince sobem no reflexo e o som do couro contra o couro estala na sala. Ele avança um passo e reage, dando um soco contra o meu lado esquerdo. Bloqueio. O impacto não é forte o bastante para machucar, mas empurra meu corpo um palmo para trás e acende meu orgulho.

— Sobre ontem... — murmura Prince, parecendo incomodado. — O que estava acontecendo entre você e Cam?

Aproveitando a distração de Prince, avanço contra ele e acerto um golpe mais duro do que eu gostaria na costela esquerda do rapaz, que arfa e se encolhe, sentindo a dor da investida. Eu o observo com intensidade.

— O que você acha, Prince? — questiono, dando um sorriso irônico. — Nós iriamos nos beijar se você não tivesse atrapalhado.

Prince solta uma risada irritada e revira os olhos, parecendo insatisfeito com a minha resposta. Ele volta a ajeitar sua postura.

— Isso é ridículo — afirma, voltando a me atacar. Defendo-me com dificuldade, pois, ele parecia mais focado agora. — Como pode se envolver com ele dessa forma?

— Do mesmo jeito que você se envolveu com a Olga — retruco, seca. — Ele esteve comigo nos bons e maus momentos. Esteve ao meu lado quando eu mais precisei e é a pessoa mais divertida, doce e empática que eu conheço.

Ele trava um segundo, o bastante para eu avançar. Meu punho encontra o lado do peito dele. Ele recua com um gemido de dor, mas logo volta mais concentrado. É difícil encontrar alguma abertura para atacá-lo, já que sua defesa estava bem fechada. E isso fazia meu orgulho ferver. Eu não podia me deixar ser vencida por ele.

— Você nem o conhece — resmunga Prince, frustrado.

— E você conhece? — retruco, indignada. — Você conviveu com Cam por apenas dez dias, Prince. Ele está ao meu lado a três anos. Se formos comparar, ele viveu mais tempo ao meu lado do que você. Que direito você tem de dizer que eu não o conheço?

Prince parece ficar ainda mais frustrado com a minha acusação e volta a me atacar. Defendo-me e desfiro mais alguns socos e chutes, descontando toda a raiva que eu sentia. Era simplesmente estúpido demais que ele ousasse ofender Cam dessa forma, quando ele nem mesmo o conhecia. Apesar de ser Prince, Cam se tornou meu melhor amigo. Eu não podia deixar que ele falasse mal da pessoa que tem sido o meu maior alicerce nesses últimos anos.

— Eu conheço o suficiente para ver que ele não é pra você — rosna, jogando um soco no meio do meu peito.

Defendo com a luva e sinto o impacto vibrar no braço inteiro. Arde, mas não dói. Eu desço o braço e devolvo rápido, com dois socos seguidos nas costelas dele. Ele dá aquele arfa, em um misto de raiva e dor, voltando a lutar comigo sem cessar.

— Você só não quer que me ver com ninguém — retruco, rodando o corpo e acertando de leve do lado do tronco dele. — Porque você acha que eu não tenho direito de me envolver com outra pessoa que não seja você!

— Isso não é verdade! Eu…

Prince se interrompe, parecendo perder o fôlego um segundo, mas não demora muito para que ele volte a me atacar, deixando dois socos no meu estômago.

— Eu só não quero que você se machuque.

Arfo, ficando um pouco sem ar pelo ataque repentino em meu estômago. Dou dois passos para trás para me recuperar, mordo o lábio para aguentar a dor que sentia e avanço de novo. Finjo subir, desço o braço e pego bem na parte de baixo das costelas. Ele xinga baixinho, mordendo o lábio para prender uma ofensa contra mim.

— E quem disse que eu não sei me cuidar? — questiono, sentindo o peito arder em orgulho, ao ver que eu estava conseguindo manter a luta equilibrada.

A gente começa a girar no tatame. Ele corta minha frente, eu escapo para o lado. Ele tenta bater no meio, eu tiro o corpo e o punho dele passa de raspão pela lateral do meu corpo. Em determinado momento, ele faz um movimento que parece me prender, mas eu consigo desviar, acertando o estômago dele com agilidade. Ele encolhe e eu recuo, buscando uma posição mais segura.

— Você só tem dezesseis anos, Manu — resmunga Prince, respirando com dificuldade. — O que você sabe sobre se cuidar? O que você sabe sobre homens? Acha mesmo que ele é esse cordeiro bondoso que é manso o tempo todo com você?

— Você está sendo um babaca! — exclamo, ofendida. Marco de novo a costela esquerda dele, agora mais fundo. — Por que ao invés de ficar fazendo suposições infundadas sobre Cam, você simplesmente não admite que está com ciúmes?

O olhar dele parece ferver diante da minha acusação. Não é ódio. É aquela mistura de orgulho ferido e algo semelhante a culpa. Ele se afasta e me volta a me encarar, como se não soubesse o que me dizer. Bufo e mordo o lábio, porque não sabia como reagir diante da expressão machucada que ele me lançava.

— Eu apenas estou tentando te proteger, Manu! Caras como Cam...

— Caras como Cam? — repito, rindo incrédula. — O que você sabe sobre ele, Prince? Desde que você chegou, você acha que tem algum direito de interferir em minha vida, mas você não tem. Podemos ser amigos, mas existe um limite do que você pode dizer. Eu não vou permitir que você ofenda Cam dessa forma.

— Inacreditável! — murmura Prince, afastando-se.

Ele leva as mãos ao cabelo e os bagunça, demonstrando toda a frustração que sentia por eu não dar o braço a torcer diante de suas palavras.

— Como você pode ser tão teimosa? Não vê que ele está apenas se aproveitando de você por ser mais nova e ingênua?

— Eu não sou mais criança, Prince! — grito, frustrada. — Para de agir como se eu fosse idiota!

— Eu não acho que...

— Não importa! Não faz diferença o que você acha ou deixa de achar! Eu não estou pedindo a sua opinião. Cuide da sua própria vida! Você quer me proteger? Então pare de ficar brincando com os meus sentimentos e me machucando!

Prince arfa e posso ver a dor brilhar em seus olhos. Aproximo-me dele e desfiro diversos socos em seu peito, sentindo as lágrimas se formarem ameaçarem descer pelo meu rosto. Eu me sentia tão frustrada e magoada.

— Eu não aguento mais essas suas atitudes ambíguas! Uma hora você parece se importar comigo e depois me afasta! Você voltou e está namorando. O que você quer de mim, seu idiota?!

O último soco vai mais fundo. Prince segura meus punhos de uma vez, travando o movimento.

Num estalo de irritação, torço o braço para me soltar e tiro o chão dele. Desabo de costas e, no impulso, arrasto-o junto. O tatame amortece o impacto, mas o peso dele ainda me prende. Prince resmunga, ergue o corpo rápido e se apoia. Os joelhos dele ficam apoiados ao redor do meu quadril, um antebraço cravado no tatame ao lado da minha orelha e a outra mão ainda envolve meu punho, com certa firmeza, mas sem me machucar. O rosto dele fica perigosamente perto do meu.

Nossos olhos se encontram, surpresos. Há uma espécie de hipnose que nos deixa presos, quase como se o tempo tivesse parado por completo.

O zumbido das lâmpadas parece mais distante. Eu sentia o cheiro de borracha das luvas que Prince usava, o aroma do perfume marcante de âmbar e maresia, que sempre o acompanhava. A respiração do Prince batia de leve no meu rosto, ritmada, e, estranhamente, a minha acompanhava, como se o meu corpo tivesse decidido entrar no mesmo pulso antes de mim.

— Você está bem? — sussurra Prince, com a voz levemente mais rouca que o normal.

— Sim — murmuro, ainda atordoada.

Permanecemos mais alguns instantes naquela posição, presos em algo que eu não sabia explicar. Eu estava consciente de cada pedaço do corpo dele que tocava a minha pele. Sentia meu coração pulsar alto e acelerado e podia jurar que o dele não estava muito diferente do meu.

Seus olhos estavam dilatados. Há um brilho diferente que eu não sabia dizer o que significava, mas era doce e atrativo. E então meus olhos recaem sobre os lábios de Prince. Um erro que quase me leva a cometer a loucura de encerrar o espaço entre nós. Mas, imediatamente, a imagem de Olga e ele aos beijos vem a minha mente e eu o empurro para que se afastasse de mim.

Levanto-me, imediatamente, colocando-me de costas para ele, enquanto tento recuperar o juízo. Eu quase fiz a maior besteira da minha vida. Minha razão ficou a um triz de ser levada por causa de toda a tensão que eu sentia.

Não era justo com Olga que eu a traísse dessa forma. Mesmo que ela saiba dos meus sentimentos por Prince, não posso simplesmente ignorar o relacionamento deles por causa dos meus motivos egoístas. Olga não merece isso e nós também não.

Por mais que nossa relação esteja abalada, Prince ainda é o meu amigo. Não quero que isso deixe as coisas ainda mais estranha entre nós.

— Você e Cam estão mesmo namorando? — questiona Prince, quase como um sussurro.

Viro-me para ele, sem acreditar no tom melancólico usado por Prince, quase como se eu tivesse cometido uma traição. Sinto meu sangue ferver mais uma vez. Era tão frustrante que ele não tivesse a mínima consideração por mim ou por Olga nesse momento.

— E se estivermos namorando? O que isso tem a ver com você? — pergunto, irônica.

— Ele é muito mais velho que você, Manu! Você é só uma menina de dezesseis anos. Ele é...

— Eu tenho dezessete anos! — corrijo, bufando. Ele sussurra um “grande diferença” e isso me irrita ainda mais. — E ele só é três anos mais velho que eu. Não fale como se ele fosse um idoso se aproveitando de mim. Cam é uma pessoa maravilhosa que me respeita. Não tente taxá-lo como o vilão aqui. Tudo o que aconteceu entre ele e eu foi por minha vontade.

— Como um homem adulto, ele não deveria se deixar levar pelas suas vontades adolescente — resmunga Prince e eu reviro os olhos.

— Oh, tenha santa paciência! Você por acaso está ouvindo as idiotices que está dizendo? — indago, retirando as luvas de boxe que eu usava. — Até quando vai continuar agindo dessa forma. Você sabe muito bem que nada do que você disse faz sentido.

— Eu apenas estou querendo te proteger!

— Eu não quero ser protegida por você! Eu não preciso disso! Será que dá para você respeitar as minhas escolhas e parar de agir como se fosse meu pai ou meus irmãos? — digo, jogando as luvas de boxes no tatame.

Aproximo-me de Prince e coloco o dedo indicador no peito dele, encarando-o com toda a raiva que eu sentia. Ele se encolhe e corresponde ao olhar com menos intensidade, talvez sentindo medo da minha expressão naquele instante.

— Cam me faz feliz. Ele jamais brincaria com os meus sentimentos ou me faria de idiota, como certo alguém fez três anos atrás. Eu me sinto segura nos braços dele e confio nele de olhos fechados. Se você está insatisfeito, lide com isso sozinho. Não tente atrapalhar minha relação com ele — dito, pressionando o peitoral dele com o dedo, sem nunca desviar o olhar. — E ao invés de ficar me incomodando com a sua infantilidade, você deveria dar mais atenção a sua namorada. Ela sim merece sua preocupação e proteção.

Prince parece ficar ainda mais magoado com as minhas palavras. Eu sabia que estava fazendo parecer que estou namorando com Cam, mas meu orgulho simplesmente não me deixava dizer a verdade. Eu não poderia, quando ele parecia tão certo de que sabia o que é melhor para mim e estava tão disposto a me afastar de Cam.

Nesse momento, batidas na porta ecoam pela sala. Afasto-me de Prince no mesmo instante em que Tyler, Cam, Olga, Irina e Tori entram na sala, parecendo surpresos com a nossa presença. Cam me lança um olhar questionador, como se perguntasse se eu estava bem. Apenas dou de ombros e pego as luvas que derrubei no tatame para guardar.

— Vocês estão bem? — questiona Tyler, encarando-nos com desconfiança.

— Algumas pessoas disseram que ouviram vocês gritando aqui dentro da sala de combate e vieram nos chamar — comenta Olga, encarando Prince com seriedade. — O que aconteceu?

— Nós estávamos apenas treinando — responde Prince, começando a tirar as luvas das mãos. — As pessoas exageram.

— Sei... — murmura Irina. — Então por que vocês estão com essa cara de que comeram e não gostaram? Não me digam que estavam brigando de novo.

— Impressão de vocês — resmungo, cansada.

Cam se aproxima de mim e começa a me ajudar a tirar as ataduras que envolviam minhas mãos. Eu sabia que essa era a forma dele de verificar se eu estava bem, então eu apenas deixo que ele faça o serviço, apenas porque me sentia emocionalmente esgotada demais para fazer qualquer coisa e era bom ter ele cuidando de mim.

— De qualquer forma, já terminamos por aqui — afirmo, dando um fraco sorriso para Cam, que parece entender que eu queria um pouco de consolo dele depois que saíssemos da sala de treinamento.

— Aguenta só mais um pouco — sussurra Cam, colocando uma mecha de cabelo minha que tinha se soltado do meu rabo de cavalo, atrás da minha orelha.

— Obrigada — murmuro, agradecida.

Afasto-me levemente de Cam e me viro para Prince, que me observava com repreensão. Correspondo ao olhar com um recado claro de que ele deveria calar a boca e esquecer tudo o que aconteceu durante a nossa luta. No entanto, ele parece entender o contrário, pois assim que retira as ataduras das mãos, ele se aproxima de Cam a passos apressados.

— Você sabia que Cam e Manu estão namorando, Tyler? — comenta Prince, encarando Cam como se ele fosse um criminoso.

Arfo, sem acreditar no que ele tinha acabado de fazer. As meninas também parecem extremamente surpresas com a notícias, fazendo com que Tori e Irina soltem gritinhos animados e Olga sussurre um “uau” em resposta. Meu primo apenas encara a mim e a Cam, querendo confirmar a notícia, mas nenhum de nós dois se move.

— É mesmo? Desde quando? — questiona Tyler, parecendo genuinamente interessado na notícia.

Sinto o olhar de Cam sobre mim e eu dou um sorriso sem graça, torcendo para que ele apenas entrasse na onda e não me desmentisse na frente dos nossos amigos. Posso ver a repreensão no brilho fraco em seus olhos, mas felizmente, ele apenas suspira e assente.

Cam sorri e pega a minha mão, entrelaçando nossos dedos. Assumindo o controle da situação, ele se coloca mais para frente, impedindo que Prince me visse e encara meu primo como se realmente estivesse prestes a se apresentar como meu namorado.

— Bom, na verdade, tudo aconteceu ontem e meio que de forma apressada durante a madrugada, por isso, nós não havíamos contado nada. Espero que não fique chateado comigo, Tyler. Mas, eu prometo que darei tudo de mim para cuidar da Manu e apoiá-la. Então, mesmo que essa seja uma escolha dela, se não for pedir demais, você se importaria que eu seja o namorado de Manu? — questiona Cam, surpreendendo-me.

Tyler o encara em silêncio por alguns instantes, como se analisasse as palavras de Cam. Sinto meu coração acelerado, sem saber como reagir a essa situação maluca que eu mesma havia criado. Por fim, meu primo apenas suspira e dá de ombros, sorrindo.

— Bom, eu sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Você é um cara muito legal, Cam, e eu sei o quanto você gosta da Manu. Eu vejo o quanto você faz bem para ela, então eu apenas quero que vocês sejam felizes. Enquanto você não a magoar, eu ficarei feliz em ter você na família — responde Tyler.

— Obrigado, cara!

Cam agradece, estendendo a mão a meu primo, que a aperta e o puxa para um abraço apertado. Ao contrário de Prince, que exibia uma expressão amarga, Tyler parecia genuinamente feliz pelo nosso relacionamento. Talvez, por saber que Cam é uma pessoa incrível, ele só estivesse aliviado que eu tinha desistido de Prince e seguido em frente.

Tori solta um gritinho abafado e me abraça de lado, tremendo de euforia.

— Eu sabia! — sussurra no meu ouvido. — Quer dizer, eu não sabia, mas… Ai! Meu! Deus! Isso é tão incrível!

— Essa é uma das melhores notícias dos últimos dias! — comemora Irina, pulando sobre nós duas em um abraço apertado. — Eu estou tão feliz por vocês!

— Parabéns, Cam. Eu espero que vocês sejam muito felizes — felicita Olga, abraçando Cam com carinho. Ela também sorria animada. — Cuide bem da Manu.

— Obrigado, Olga. E pode deixar. Eu não vou poupar esforços para fazê-la feliz — garante Cam, dando um bonito sorriso.

Sinto meu coração se dividir em um misto de emoção por ver o quanto meus amigos pareciam felizes com a notícia e preocupação por Cam estar assumindo um papel que eu nem mesmo sabia se ele queria. No entanto, nesse momento, eu me sentia ainda mais grata por ele entrar na história e torná-la mais verídica, mesmo que em nenhum instante a gente tenha conversado sobre isso.

Assim que Olga se afasta de Cam, ela se aproxima de mim e me encara com intensidade, como se estivesse lendo a minha alma. Ela sabia que eu não correspondia Cam na mesma intensidade, mas talvez pensasse que eu estava tentando seguir em frente e isso lhe deixava preocupada.

— Faça o Cam feliz. Eu tenho certeza de que você sabe, mas ele é um cara incrível. Cuide bem do coração dele e seja feliz também, Manu — deseja Olga, abraçando-me com carinho.

— Eu cuidarei dele — garanto, correspondendo ao gesto que me acalentava.

Ao nos separamos, ela alterna o olhar entre nós e assente, como se aprovasse a nossa união. Olga então dá um passo em direção a Prince e o encara com uma seriedade que faz a minha espinha gelar. Ele definitivamente estava encrencado.

— A gente conversa depois — sussurra Olga, deixando um último olhar intimidador sobre Prince, antes de deixar a sala de treinamento.

Prince assente com o maxilar travado. Ele tenta me encarar por cima do ombro de Cam, mas Cam se adianta meio passo e me cobre mais ainda sem parecer que está me escondendo. Eu quase choro com a gentileza e a proteção do rapaz.

— Manu e eu vamos pegar alguns equipamentos que a Mia pediu. Nós encontramos com vocês lá no refeitório na hora do almoço — avisa Cam, pegando em minha mão para me conduzir. — Vamos, Manu.

— Claro — murmuro, sorrindo para Tori, Irina e Tyler em despedida. — Até daqui a pouco.

Sem olhar na direção de Prince, sigo com Cam para fora da sala de combate, sem fazer ideia para onde estava sendo guiada pelo meu “namorado”. Minha cabeça estava um verdadeiro tormento e eu não sabia bem o que aconteceria agora, mas eu estava grata por Cam me tirar da sala e me levar para longe do rapaz que mesmo me magoando, ainda mexia e muito comigo.