Fire Scars

49 Namoro


Capítulo XLVIII — Namoro


“Então abra os olhos e veja

O modo como nossos horizontes se encontram

E todas as luzes vão te guiar

Pela noite comigo

E eu sei que essas cicatrizes irão sangrar

Mas os nossos corações acreditam

Todas essas estrelas vão nos guiar para casa”

Ed Sheeran – All Of The Stars



Most – 1999

Em completo silêncio, mas ainda com os dedos entrelaçados aos de Cam, deixo-me ser guiada pelos corredores sombrios do QG. Não faço ideia de para onde ele me leva e, no fundo, eu pouco me importava para onde estávamos indo. Eu sinto a minha mente como um redemoinho de lembranças e feridas, tão atordoada que pensar em algo coeso era quase impossível. Apenas me sinto aliviada de não precisar responder a perguntas e tampouco dar explicações de coisas que nem mesmo sou capaz de responder, então o silêncio do momento estava servindo como uma cura.

Meu corpo dói de um jeito que não é só físico. Cada passo lateja com a lembrança do treino com Prince, de cada golpe desferido mais com a alma do que com os punhos. Há uma dor que pesava mais que ossos, atingindo meu coração com uma tonelada de arrependimento.

Quando Cam para diante da porta da enfermaria, ergo o olhar, surpresa. Ele bate de leve e a abre, convidando-me a entrar. Obedeço, sem entender. O ar da sala estava frio e tinha o aroma antisséptico de álcool e remédio, que me envolve com a familiaridade incômoda das missões e treinamentos que tantas vezes me trouxeram a este lugar.

Sharon e Oliver, a médica e o enfermeiro do lugar não estavam no lugar e isso, de certa forma, me trazia alívio. Eu não queria lidar com o mal humor de Sharon e, tampouco, com a falta de interesse de Oliver, que claramente não vai com a minha cara.

— Acho que eles ainda não chegaram — murmura Cam, percorrendo o ambiente com o olhar. — Senta na maca. Eu vou procurar o kit de primeiros-socorros.

— Para quê? — indago, confusa.

— Porque você e Prince tiveram a ideia genial de brigar de luvas como se o mundo fosse acabar — responde, com uma ironia que é incomum de Cam usar comigo. — Aposto que nem notou os hematomas espalhados pelo corpo.

A irritação contida em sua voz é inconfundível. E quem poderia culpá-lo? Mesmo sabendo do peso de seus sentimentos, inconscientemente brinquei com eles, forçando a mentira de que somos namorados só para ferir Prince. Ele havia me pedido para que eu não confundisse seu coração. E, mesmo assim, eu o fiz. Não era estranho que ele estivesse furioso.

— Desculpa — murmuro, envergonhada.

— Tudo bem — ele responde, vasculhando as gavetas em busca da caixa. — Mas, por favor, tenha mais cuidado quando quiser descarregar sua fúria. Não quero que você se machuque.

As palavras me pesam. Fico imóvel, incapaz de encará-lo. Sinto a culpa me prender por dentro, fria e cortante. Como pude ser tão inconsequente? Como pude machucar alguém que sempre me valorizou e cuidou de mim? Eu fui tão estúpida e insensível.

— Me desculpa, Cam. Eu não deveria ter dado a entender que estamos namorando e menos ainda ter mentido para os nossos amigos. Eu sinto muito mesmo — lamento, encarando minhas próprias mãos. — Eu vou entender se você quiser me esganar.

Ele suspira, apoiando a caixa de primeiros-socorros sobre a bancada, e a frustração em seu olhar é mais triste do que furiosa.

— Eu não quero te esganar — resmunga Cam, suspirando. — Eu apenas estou decepcionado que você tenha me usado apenas para atingir Prince, Manu. Você sabe como eu me sinto em relação a você. Deixei bem claro meus sentimentos e fui enfático quanto a não querer que brincasse com o meu coração, porque eu realmente gosto de você e poderia ter a ideia errada. Eu não tenho sangue de barata, então me deixa chateado que tenha decidido dizer que eu sou seu namorado, sem ter qualquer intenção de ter um relacionamento comigo.

Abaixo o olhar e noto o vinco azul-esverdeado que começa a aparecer na minha costela direita e a vermelhidão na pele do antebraço, mostrando que eu também tinha sido acertada no local. Eu nem queria imaginar como estariam o meu peito e ombros, depois de terem sido acertados tantas vezes por Prince durante o nosso combate.

No entanto, nada disso parecia ser pior do que a dor que sentia em meu coração por ver que tinha verdadeiramente magoado Cam. Eu me sentia péssima.

— Eu sinto muito, Cam. Não era minha intenção te usar — lamento, sentindo vontade de chorar ao pensar que poderia perdê-lo. — Por favor, me perdoa. Eu...

Cam se aproxima devagar, parecendo ponderar suas ações a cada passo, e então me envolve num abraço gentil. O gesto me desmonta. Aquele calor conhecido e o perfume que aprendi a associar a segurança, me envolvem e silenciam a confusão que ainda lateja dentro de mim. Por um instante, é como se o mundo tivesse parado e meus problemas desaparecido.

— Está tudo bem — murmura Cam. — Eu apenas quero que você fique bem e seja feliz, Manu. Eu não menti quando disse que jamais forçaria meus sentimentos sobre você. Apenas te peço que seja sincera e converse comigo antes de tomar qualquer atitude que me envolva de alguma forma.

— Eu prometo — sussurro, apertando-o mais, desejando que o abraço pudesse apagar o que eu fiz e diminuir a dor que tinha causando em Cam. — Eu nunca mais vou te usar dessa forma.

O silêncio entre nós se alonga, denso, como se cada segundo fosse uma respiração suspensa. Ainda abraçada a Cam, sinto a pulsação dele contra o meu peito, firme, constante. A constância que eu não encontro dentro de mim. Solto o ar devagar, mas a angústia não diminui. Há algo que precisa ser dito, um peso que insiste em ficar. Eu precisava colocar para fora tudo o que tinha acontecido e encontrar a resposta para o que eu deveria fazer.

— Cam… — começo, hesitante, sem desfazer o abraço.

— O que aconteceu?

Ele afasta o rosto o suficiente para me olhar. Seus olhos castanhos são um convite calmo, mas também um alerta silencioso de que não quer me ver escondendo nada.

— Pode falar — insiste, em voz baixa. — Eu estou aqui. Você ainda pode desabafar comigo se é isso que você precisa.

Engulo em seco. As palavras parecem pedras presas em minha garganta, difíceis de mover, mas que eu precisava expor, porque sentia que eu iria explodir.

— Quando eu estava treinando com o Prince foi diferente de qualquer outra vez — confesso com a voz trêmula. — Eu estava com raiva, e ele também. Cada golpe parecia mais do que um exercício. Era como se a gente estivesse dizendo coisas que não dava para dizer em palavras. Ao mesmo tempo, era nítido que algo acontecia dentro de nós. Algo que eu não sabia explicar e parecia que tínhamos medo de expor.

Cam permanece quieto, atento. Seu olhar não tem julgamento, apenas uma paciência que me faz querer continuar.

— Em algum momento, ele chegou muito perto. Mais do que eu imaginava que poderia me causar tantos... sentimentos — pauso, sentindo meu coração acelerar ao lembrar. — Eu senti o calor da pele dele, o aroma do perfume, a respiração... Era como se o mundo inteiro tivesse se estreitado ali, entre um soco e outro. E… eu quis que aquilo não terminasse. Mesmo sabendo que era errado, que só aumentaria ainda mais a confusão dentro de mim.

As lembranças retornam de uma vez me minha mente. Era como se eu estivesse diante da intensidade dos olhos de Prince sobre mim, como se pudesse atravessar cada camada de defesa que eu construí, enquanto nossas luvas se chocavam e produziam um som sufocante.

— Eu fiquei com medo de mim mesma, Cam.

Minha voz quase se perde. Inspiro o perfume de Cam, tentando controlar minhas emoções que estavam começando a me consumir.

— Porque, por um instante, eu quis que ele me beijasse. Quis tanto que doeu. E, ao mesmo tempo, senti raiva. Raiva por ele ainda conseguir mexer assim comigo depois de tudo, por ele estar me cobrando respostas e demonstrando ciúmes, quando ele tem uma namorada incrível.

Cam inspira fundo, ainda com os braços ao meu redor, mas com uma tensão que antes não havia. Ele não me solta, mas posso sentir o peso da informação pousando sobre ele.

— Então foi por isso que você disse aquela mentira — murmura, depois de um longo silêncio. — Para tentar se proteger do que estava sentindo. Ou para provocar ele.

Baixo o olhar, envergonhada.

— Eu não pensei direito. Parte de mim queria que ele acreditasse que eu já o esqueci. Outra parte… — mordo o lábio, procurando coragem. — Eu queria que ele reagisse. E ele reagiu. De um jeito que eu não esperava.

Cam suspira, e por um momento o som é quase um lamento.

— Manu, você não precisa se punir por sentir — afirma Cam. — O que você sente por ele não some só porque você quer. É normal que ainda se sinta mexida por ele, mesmo depois de tudo o que aconteceu. Não é legal que você tenha mentido, mas acho que qualquer que estivesse em seu lugar teria feito a mesma coisa.

O aperto em meu peito aumenta. Não sei se é dor ou gratidão. Talvez as duas coisas.

— Eu só não quero te machucar — sussurro. — Você é a pessoa que mais tem me ajudado, que mais me entende.

Cam se afasta levemente, apenas para que eu veja o brilho decidido em seus olhos.

— E é por isso que eu estou aqui — responde, com um meio sorriso triste em seus lábios. — Mesmo quando é difícil ouvir. Eu não estou aqui para competir com o Prince e tampouco quero te obrigar a mês corresponder. Estou aqui porque me importo com você e valorizo a nossa amizade.

Ele volta a me abraçar com doçura. Meu coração se contrai, dividido entre a confusão que Prince ainda provoca e a calma que Cam sempre oferece.

Por um instante, ficamos apenas respirando juntos, enquanto a enfermaria permanece mergulhada no frio e no silêncio. Lá fora, o barulho do mar bate nas pedras de Most se torna um metrônomo para meus pensamentos, que vão e voltam, esbarrando nas lembranças de Prince e na constância silenciosa de Cam. Sinto meus olhos arderem, mas não choro. O abraço de Cam é quente e firme, e é esse calor que me ancora ao presente.

Novamente, diante do consolo de Cam, percebo que não estou sozinha.

Cam não é só um porto seguro. Ele é o único que me vê inteira, sem máscaras, sem as versões fragmentadas de mim mesma que eu mostro aos outros, porque tenho medo de que me achem fraca. Ele sabe quando eu estou mentindo, quando estou perdida, quando estou prestes a quebrar. E, mesmo assim, continua aqui. Sem cobranças, sem me colocar contra a parede. Apenas ao meu lado.

Eu respiro fundo, tentando organizar o turbilhão dentro de mim. Prince sempre foi como um furacão para mim. Desde que nós nos conhecemos, tudo aconteceu com intensidade. Estivemos constantemente em perigo e todas as vezes em que entramos em conflito, eu sinto que meu coração se queima em chamas que me aquecem e me machucam. Cam é o oposto disso. Ele é a brisa depois do incêndio, o silêncio depois da tempestade. E talvez seja disso que eu precise agora. De alguém que não me empurre para o caos, mas que me ajude a construir alguma paz no meio de tudo.

Aperto mais o abraço, escondendo meu rosto contra o peito dele. As palavras se formam dentro de mim com medo, mas também com uma estranha clareza.

— Cam… — começo, em um sussurro hesitante. — Eu não sei mais como seguir em frente. Tudo com o Prince ainda é um nó dentro de mim. Mas eu não quero mais viver presa a isso. Não quero mais me sentir essa pessoa quebrada, sempre à espera de algo que talvez nunca aconteça.

Ele permanece em silêncio, só me ouvindo. Isso me dá coragem para continuar.

— Eu acho que talvez eu precise tentar algo diferente. Algo que me ajude a sair desse ciclo — digo e engulo em seco, sentindo meu coração acelerar. — E, de alguma forma, eu sinto que estar com você pode ser isso. Não por jogo, não para provocar ninguém ou porque estou com raiva e não quero sair por baixo. Mas porque você é o único que me faz acreditar que eu ainda posso ser feliz.

Cam permanece imóvel, os olhos castanhos buscando os meus como se quisesse ter certeza de que entendeu cada palavra. Um silêncio denso se instala entre nós, quebrado apenas pelo som distante das ondas. Sinto a respiração dele acelerar, mas ele não se move.

— Não, Manu. Não vamos começar com isso. Você ama Prince e eu amo você. Eu já disse isso outras vezes, mas não quero me colocar em uma situação em que serei usado, quando você jamais conseguirá corresponder aos meus sentimentos — responde Cam, suspirando. — Eu não quero ter esperanças e acabar com o meu coração partidão e com o fim da nossa amizade.

— Isso não vai acontecer! — garanto, confiante, ainda que eu não tivesse certeza de nada. — Eu sei que estou sendo egoísta e que você tem toda razão de se sentir inseguro, mas eu prometo que jamais vou fazer nada que possa machucar você. Pelo menos, não de propósito.

— Esse é o problema, Manu. Você não vai me machucar de propósito, mas eu sempre vou me sentir inseguro. Enquanto você conviver com Prince, seu coração sempre vai ser tentado a ir na direção dele. Eu sempre vou me sentir um peso na sua vida.

As palavras de Cam fazem meu coração se apertar em culpa. Eu o vejo à minha frente, tentando ser firme, mas o brilho nos olhos denuncia medo. Não é só medo de perder. Ele tem medo de se entregar a algo que pode desmoronar.

Inspiro fundo, sentindo minha garganta arder, e me aproximo um passo, recusando-me a deixar que ele se afaste de mim outra vez.

— Você tem razão em tudo, Cam. Em cada palavra que disse. Eu entendo que se sinta assim — afirmo, encarando-o com seriedade. — Eu não posso prometer que meus sentimentos por Prince vão desaparecer de um dia para o outro. Não posso prometer que não vou tropeçar nesse caminho. Mas eu posso prometer outra coisa.

Ele ergue o olhar, confuso.

— O quê? — pergunta, parecendo tenso.

Eu seguro as mãos dele entre as minhas, apertando-as como se assim pudesse transmitir tudo o que sinto e encaro os bonitos olhos pequenos do rapaz.

— Que, se eu estiver ao seu lado, é porque eu escolhi estar. Não porque quero provocar Prince, nem para me proteger da dor, nem para me esconder. Mas porque eu quero. Porque você é a única pessoa que me faz acreditar que eu ainda posso ser alguém melhor. Você faz eu me sentir bem e me ajuda quando eu não consigo confiar em mim mesma. Você traz a tona o que eu tenho de melhor. Então, eu tenho certeza que se eu tiver que me apaixonar por alguém, será por você.

Cam balança a cabeça, o maxilar rígido.

— Eu não sei, Manu. E se no fim, você não se apaixonar por mim e continuar sofrendo por gostar de Prince? E se eu não for capaz de ser o remendo que você espera para o seu coração?

Dou um passo mais perto, mantendo os olhos fixos nos dele.

— Eu não quero que você seja um remendo para o meu coração— digo, a voz firme apesar do nó na garganta. — Você sempre foi o meu amigo, o meu porto seguro. Se eu não te quisesse de verdade, eu nunca ousaria dizer isso. Não agora, não assim. Você é especial para mim, Cam. Eu já te disse isso. Foi por isso que eu te escolhi como para dar o meu primeiro beijo e com quem experimentei minha primeira bebida alcóolica. Então, não tem ninguém melhor do que você para ser o meu primeiro namorado.

Ele hesita. Seus dedos tremem levemente dentro dos meus.

— Mas e se você se arrepender? — questiona com a voz embargada. — E se eu acabar sendo só mais uma cicatriz na sua vida?

Eu sinto os olhos arderem, mas não desvio o olhar.

— Então eu vou te dizer. Eu vou ser honesta. Mesmo que doa, assim como nossa relação tem sido até agora. É isso que nos torna tão bons juntos, Cam. Nós sempre somos honestos um com o outro. Não há mentiras entre nós, certo? Sempre somos sinceros e construímos nossa amizade assim. Isso não vai mudar só porque estamos namorando. Então, Cam, me dá uma chance. Me dá a chance de tentar construir algo com você. Não como uma fuga, mas como uma escolha.

Cam fecha os olhos, enquanto seus ombros parecem tensos. Ele parecia viver uma lutar contra si mesmo dentro dele.

— Manu… — murmura, mais fraco. — Eu não quero perder a nossa amizade. Ela é o que tenho de mais importante.

Aperto suas mãos ainda mais.

— Nem eu. Por isso eu prometo que, antes de qualquer coisa, nós seremos amigos. Que não vou deixar o que existe entre nós se transformar em algo tóxico ou pesado. Que se em algum momento eu não puder mais, eu vou falar. E eu preciso que você faça o mesmo.

Ele inspira fundo. Quando abre os olhos outra vez, há uma mistura de dor e esperança ali.

— Você fala como se fosse tão simples — murmura, cansado. — Mas meu coração não é simples, Manu. Já é um caos só o fato de conviver com meus sentimentos e respeitar os seus sendo apenas amigos. Não sei se vou conseguir me controlar sendo seu namorado.

— O meu coração também não é — respondo, sentindo meu estômago se revirar em ansiedade. — Mas talvez, juntos, a gente possa aprender a fazer isso dar certo. Eu não estou pedindo para você esquecer seu medo. Só estou pedindo para a gente tentar.

Por um instante, só existe o som do mar do lado de fora, preenchendo o silêncio entre nós. Cam me observa como se estivesse diante de um precipício e eu estendesse a mão para ele. O olhar dele suaviza e vejo o muro começar a desmoronar.

Ele suspira, finalmente, e passa o polegar pelo dorso da minha mão.

— Eu não sei como vai ser, Manu, mas eu acho que ao menos vale a pena a tentativa. Ainda acho que é loucura, mas não é como se eu conseguisse dizer não para você.

Sinto um alívio quente me invadir e um sorriso pequeno escapa dos meus lábios.

— Nessas horas, eu realmente fico feliz por você não conseguir dizer não para mim — provoco e ele revira os olhos.

No entanto, não demora muito para que um sorriso doce apareça nos lábios de Cam.

O ar frio da enfermaria toca minha pele ao mesmo tempo em que a mão dele sobe até a minha bochecha, num gesto cuidadoso. Fecho os olhos, apreciando o carinho, que me trazia um leve frio na barriga pela expectativa do que estava por vir. Sinto que Cam me encarava com intensidade e eu volto a abrir meus olhos, correspondendo ao olhar, sentindo-me envolvida pelos castanhos calorosos e gentis de Cam.

A mão em minha cintura intensifica o aperto e os dedos de Cam contornam o roxo da minha costela por cima do tecido de minha blusa, como se pedissem desculpas por uma dor que ele não causou. E o único som entre nós é do mar bate nas pedras do lado de fora do QG como um coração antigo segurando o compasso por nós dois.

Eu estou ciente de que talvez esteja cometendo uma das maiores loucuras da minha vida. Eu ainda me sinto muito ligada a Prince e, instantes atrás, eu quase o beijo, enquanto brigávamos como dois malucos. Ainda assim, eu também não posso ignorar que o futuro que eu consigo visualizar pelos olhos de Cam é bastante tentador e me faz esquecer pelo menos por aquele momento, todo o caos que envolve a minha vida.

Por isso, sem pensar de mais, eu me aproximo de Cam e a distância entre nós diminui até não existir. Fecho os olhos quando a testa dele encosta na minha e nossas respirações se chocam, quentes e calmas. O mundo parece parar por um instante quando Cam me puxa pela cintura com firmeza e certa possessividade.

O choque dos nossos lábios faz meu corpo se arrepiar por inteiro. O primeiro toque é faminto, quase urgente, como se houvesse algo incontrolável que nos dominava e acendia algo dentro de nós. Cam me toma com uma firme na minha cintura e a outra desce pelo meu rosto até chegar na curvatura de meu pescoço, faminto e dominador, fazendo com que eu me aproximasse até que não restar ar entre nós. Eu correspondo sem pensar, guiada pelo calor que explode no peito e pela adrenalina que corre pelas veias.

Ele inclina o rosto, aprofunda o beijo, deixando tudo ainda mais intenso. Sinto o gosto sutil de hortelã do hálito dele misturado, não se assemelhando em nada ao gosto da cerveja da última vez. A boca de Cam é quente, certa, insistente e me convida a me entregar sem medo.

Minhas mãos sobem pelo peito definido dele até a nuca, enlaçando seus cabelos curtos e, quando puxo de leve, ele solta um gemido baixo que faz meu coração tropeçar. O frio da enfermaria cede lugar a um calor que me colore as bochechas e me faz esquecer de todas as perguntas.

Cam me guia um passo para trás e me apoia com delicadeza na borda da maca, como se, mesmo no furacão, ele se lembrasse dos meus roxos. Os dedos dele desenham um caminho atento por cima do tecido da minha blusa, contornando a costela dolorida, e retornam à minha cintura, marcando um território que não é de posse, mas de cuidado.

A cada segundo, o beijo cresce, muda de ritmo, variando do tímido ao decidido, do doce ao devastador. Ele me beija como quem desejasse esse momento há muito mais tempo do que eu poderia imaginar. E eu, completamente embriagada por aquele domínio inesperado, entrego-me ao beijo, esperando que meu coração pudesse mudar de dono.

Eu perco a noção do tempo e até mesmo não conseguia saber mais como respirar. Cam sorri contra a minha boca e volta a me conduzir em um ritmo mais lento e envolvente. O peito dele sobe e desce colado ao meu. O coração de Cam batia forte e acelerado, em um compasso que me atraía e me fazia querer sorrir.

Quando nos afastamos, deixamos nossas testas encostadas, enquanto a nossa respiração saia ofegante e divertida. Os olhos de Cam estão escuros, brilhando, e eu me vejo inteira refletida neles de uma forma que eu não sabia que seria capaz de me ver..

— Oi namorada — murmura Cam com a voz rouca.

Observo os cabelos bagunçados, a boca avermelhada e levemente inchada de Cam. Ele parecia ainda mais atraente do que eu parecia possível. E isso me confunde de uma forma que eu não consigo entender.

— Oi namorado — sussurro, sorrindo.

Então, como resposta, Cam me puxa para um selinho rápido, eu acabo sorrindo contra sua boca, trazendo-o para mais perto. O beijo recomeça e nos devora de novo, avassalando qualquer dúvida que reste. Lá fora, o mar continua a se agitar, enquanto aqui dentro, entre o frio da enfermaria e o calor dos braços de Cam a me envolver, eu sinto a calmaria que eu tanto buscava.

E é assim, com lábios perdidos em um beijo envolvente e o coração em disparada, que eu começo o dia sendo a namorada de Cameron Lee e desejando que meus sentimentos por Prince possam desaparecer algum dia.