Fire Scars
50 Confusão
Capítulo XLIX — Confusão
“Eu sei que você provavelmente vai odiar isso,
Mas eu estou na minha cabeça agora
Então vá devagar
Dê um tempo, agora
Somos muito jovens para nos afogar
Profundamente em águas sujas
Cheio de dúvidas sem esperança
Deixe-me puxar você para fora
Deixe-me te abraçar agora
Deixe-me (ir devagar)”
Benson Boone – Slow It Down
✻
Most – 1999
O som seco das luvas se chocando ecoa pela sala de treinamento do QG de forma intensa. Leon gira em torno de mim com a mesma calma meticulosa de sempre, como se estivesse estudando cada movimento meu antes mesmo que eu o executasse. Eu lanço um direto, mas ele desvia com um meio sorriso e me acerta de raspão no ombro.
— Está distraído, de novo — provoca, ajeitando a guarda. — Assim não vai durar dois minutos numa luta de verdade.
Reviro os olhos, tentando disfarçar que minha mente não está no lugar e que meu coração está sobrecarregado de emoções conflitantes há três dias. Três malditos dias desde que briguei com Manu, desde que senti a raiva e o desejo se confundirem durante aquele estranho e intenso treino que tivemos e que nunca deveria ter se tornado aquilo. Três dias desde que Olga saiu em missão ao comando de Johnny, mas deixando claro em seu olhar que estava decepcionada comigo.
Bato as luvas uma contra a outra, mais para descarregar a frustração que sentia do que por alguma técnica. Eu apenas estava agitado demais para conseguir pensar. Meu corpo desejava apenas tirar toda a ansiedade e raiva que eu sentia dentro de mim.
— Volte a sua atenção a luta, garoto — repreende Leon, deixando mais um golpe em minha costela. — Não importa o que está acontecendo, você precisa manter o foco aqui.
— Eu sei — respondo, sem energia.
A verdade é que mesmo que eu tentasse o meu melhor, eu não estava conseguindo me concentrar. Olga partiu para recrutar novos membros da Resistência em cidades vizinhas e, desde então, não trocamos uma única palavra. Sei que ela está furiosa comigo. E com razão.
Desde que passamos a treinar juntos, Olga sempre foi a voz que me puxava de volta a realidade quando eu começava a perder o controle. No entanto, quando entrou pela porta da sala de treinamento em que Manu e eu nos encontrávamos e me encarou, seus olhos apenas exibiram decepção e, ao contrário das outras vezes em que eu agi de forma idiota, ela nem mesmo tentou me alertar ou brigar comigo. Olga apenas foi embora e me deixou com o peso da minha própria culpa.
E como se não bastasse, cada vez que fecho os olhos, a imagem de Manu e Cam juntos me invade. Como em uma espécie de provocação, os dois estão constantemente andando de mãos dadas, dando sorrisinhos idiotas, abraços desnecessários, beijos as escondidas e atraindo elogios de todos os membros da Resistência, porque, segundo eles, os dois são o casal perfeito.
Cam é quase idolatrado pelas pessoas do QG. Todos estão sempre sorrindo para ele e ressaltando o quanto ele é divertido, inteligente e comunicativo. E as meninas faltam babar o chão que ele pisa, como se ele fosse um ser divino. É simplesmente ridículo.
E para piorar a situação, Tyler parece ignorar que Cameron usa essa máscara de perfeição e que Manu merece alguém muito melhor que ele. Ao invés de alertar a prima dos perigos de se envolver com um idiota como esse, Tyler incentiva o relacionamento. É inacreditável como ele não enxerga que não faz sentido algum esse namoro repentino.
Leon gira mais uma vez, atento, mas ao invés de ver os olhos atentos de meu mentos, minha mente projeta os olhos de Cam diante de mim e a cena irritante dele encarando Manu como se ela fosse o centro do mundo. Vejo Tyler rindo ao lado deles, como se tivesse finalmente aprovado a escolha. Como se não houvesse nada de errado em Manu escolher a calmaria dele ao invés da tempestade que sempre fomos juntos.
O punho de Leon atinge meu abdômen, me trazendo de volta ao presente com a dor aguda. Ofego, dobrando o corpo para frente.
— Viu só? — murmura Leon, erguendo uma sobrancelha. — Você luta contra fantasmas, Prince. E eles sempre vão ganhar.
Endireito-me, limpando o suor da testa, e encaro o chão de cimento rachado. Fantasmas. Talvez ele tenha razão. Manu com Cam e Olga me ignorando. Cada um desses pensamentos me golpeia mais forte do que qualquer soco.
Fecho a guarda outra vez, tentando abafar a raiva que ameaça transbordar.
O som seco dos socos continua ecoando pela sala de treinamento. O ar é pesado, carregado de suor e tensão. Eu tento manter a guarda, mas Leon me desarma com facilidade. O olhar firme de meu mentor cravado sobre mim parece enxergar cada pensamento torto que me atravessa.
Ele gira em torno de mim de novo e, com um golpe preciso, acerta meu abdômen. O impacto me faz recuar dois passos. Solto um gemido abafado, mais de frustração do que de dor.
— Não adianta forçar o corpo se a mente está em outro lugar — aconselha o homem, soando extremamente frio. — Você está deixando tudo escapar por entre os dedos.
Respiro fundo, tentando conter a raiva que sobe pela garganta.
— Eu estou tentando, Leon.
Ele solta uma risada anasalada, sem humor, e balança a cabeça.
— Tentando? — repete, como se a palavra fosse uma ofensa. — Você acha que passei três anos treinando você para ouvir isso? Três anos, Prince! Três anos para aprender a controlar a fúria, a focar no que importa, a se tornar alguém capaz de liderar. E agora… olha para você.
Sinto meu rosto esquentar, mas não digo nada. Minhas luvas pendem ao lado do corpo, e eu odeio admitir que ele tem razão.
Leon se aproxima, sua sombra pairando sobre mim como a de um pai que não pede desculpas por dizer verdades duras.
— Desde que chegamos a Most, você tem se deixado levar pelas distrações — acusa, firme. — E pior! Você está se deixando levar por distrações que você mesmo alimenta. Está deixando que sentimentos confusos, ciúmes e orgulho arruínem o foco que conquistou com tanto esforço.
Meu peito arde. Cada palavra é um soco mais doloroso do que qualquer golpe físico.
— Eu… — tento me defender, mas as palavras morrem na garganta.
— Você quer ser só mais um soldado cego pelo coração? — questiona Leon, sem piedade. — Ou você vai ser o líder que eu treinei para ser? Porque, se continuar assim, vai colocar não apenas você, mas todos nós em risco.
O peso da responsabilidade cai sobre meus ombros. A raiva que sinto de Cam, de Manu, de mim mesmo, parece pequena diante da gravidade daquelas palavras. Leon nunca foi de falar em vão. Se ele diz que eu estou falhando, é porque realmente estou.
— Prince… — murmura Leon, após suspirar cansado. — Um líder não tem o direito de se perder em paixões a cada passo. Você pode sentir, é claro, mas não pode deixar que esses sentimentos ditem suas escolhas. O mundo não vai esperar você resolver seus dilemas pessoais. Não quando estamos em meio a uma guerra. Johnny me pediu para te treinar, porque ele viu em você, alguém que é capaz de estar ao lado dele, liderando a organização que vai tirar Lester do poder.
Fecho os olhos por um instante, engolindo o nó na garganta. Imagens de Manu e Cam juntos atravessam minha mente como lâminas afiadas, mas, ao mesmo tempo, me lembro do que Olga me disse tantas vezes: “você não pode se dar ao luxo de agir como um garoto quando todos dependem de você como homem.”
Leon toca meu ombro com a mão pesada, mas segura.
— Eu acreditei em você porque vi alguém capaz de ser mais do que um lutador. Vi um líder. E líderes não podem se perder no meio da batalha. Não quando todos dependem das suas decisões. Você sabe muito bem disso.
Abro os olhos, encontrando o olhar severo dele.
— Então me diz o que fazer — sussurro, cansado.
Leon solta um longo suspiro, e, pela primeira vez desde que começamos o treino, a dureza cede espaço a algo quase paternal. Algo que diversas vezes ele demonstrou quando estávamos nos Estados Unidos e eu me sentia desamparado.
— Faça o que eu sempre te ensinei. Respire, foque e se lembre do porquê está aqui. O resto é ruído.
Fico em silêncio, absorvendo cada palavra, enquanto sinto a dor física nos músculos se misturar ao peso invisível de suas lições.
O som metálico da porta se abrindo interrompe o silêncio pesado entre Leon e eu. O eco das dobradiças corta o ar abafado da sala de treino, e eu me viro, ainda arfando, para encarar o intruso.
Cameron.
Ele está parado na entrada, usando aquela jaqueta preta que parece ter sido feita sob medida para seu ar de perfeição irritante. O cabelo está ligeiramente bagunçado, como se tivesse vindo às pressas, e há um brilho de suor na testa, que eu supus ser o sinal de que ele estava treinando na outra ala como de costume. Mesmo assim, seu sorriso é tranquilo, controlado, como se nada jamais o abalasse.
— Desculpa interromper, Leon — lamenta Cam, com a voz firme, mas educada. — Johnny pediu para falar com o Prince. Disse que é urgente.
Leon ergue uma sobrancelha, cruzando os braços sobre o peito largo.
— Urgente? Ou importante? Porque o garoto aqui ainda precisa lembrar o que é manter o foco antes de se meter em qualquer missão.
Cam força um sorriso, parecendo não saber o que dizer.
— Ele não especificou. Só mandou chamar.
Leon solta um resmungo, jogando a toalha sobre o ombro.
— Claro que mandou — murmura Leon e eu não consigo saber o que a amargura em seu tom de voz deveria significar.
Ele olha para mim de maneira tão dura, que tenho a impressão que ele vai perfurar a minha alma a qualquer momento.
— Vai, Prince. Mas quero que pense no que eu disse. Tudo o que treinamos nos últimos anos está indo pelo ralo e só você pode decidir se vai deixar isso acontecer.
Assinto em silêncio, tirando as luvas com gestos lentos. O couro gruda na pele suada e o som do velcro rasgando é o único que preenche o espaço entre nós. Meu peito ainda sobe e desce rápido, tentando recuperar um pouco do fôlego pelo nosso treino intenso e a razão, após ser atingido por suas palavras.
Leon se afasta em direção ao canto da sala, e eu passo por Cam sem olhá-lo, tentando conter o impulso de socar alguma coisa ou alguém.
Mas, claro, ele não fica calado.
— Não sabia que você estava treinando com o Leon hoje. Achei que você iria sair em treinamento com Manu, Tyler e Nina — comenta, caminhando ao meu lado com aquela voz leve que parece feita para irritar.
— E eu não lembro de ter que te dar satisfações sobre a minha rotina — ironizo, friamente.
Cam suspira, mas não perde o tom calmo.
— Relaxa, não estou aqui para brigar. Johnny só pediu para te chamar. Ele parecia meio tenso. Eu só queria te avisar para que você se prepare.
Olho de relance para ele, e o modo como suas mãos estão nos bolsos e os ombros relaxados me fazem odiá-lo um pouco mais. Ele parece sempre no controle. Sempre sereno, relaxado. Nada o abala. Exatamente o oposto de mim.
— Deve estar tenso porque anda confiando demais em gente que não merece — murmuro, meio venenoso.
Cam para de andar por um instante, franzindo o cenho, e eu quase me arrependo das palavras. Quase. Na verdade, até me sinto um pouco orgulhoso por ver os olhos dele esboçarem algo semelhante a raiva ao invés do ar divertido e estupidamente gentil.
— Se está se referindo à Manu, sugiro que repense suas palavras — responde Cam, com um olhar atipicamente cortante. — Ela não merece ser o alvo da sua raiva, Prince. Na verdade, ela não merece viver na sua indecisão.
Sinto o sangue ferver.
— Cala a boca. Não se mete no que você não sabe!
— Então para de agir como se o mundo girasse em torno dela — rebate, num tom mais frio. — Você é melhor do que isso. Ou era. Agora está agindo como um babaca, magoando duas mulheres incríveis por causa dessa sua indecisão. Você já teve sua chance, então não venha agir como se eu tivesse roubado Manu de você.
A raiva sobe até o pescoço, e por um segundo, eu esqueço completamente que Johnny está me esperando em sua sala. O que me prende é apenas a vontade de apagar aquele ar sereno do rosto de Cam. Mas então lembro das palavras de Leon de que preciso respirar e focar no motivo de estar aqui.
Solto o ar, forçando a calma que me escapa.
— Não vem me dá lição de moral, Cam. A última coisa que eu preciso é de alguém como você tentando me ensinar o que é maturidade.
Ele arqueia a sobrancelha, mas não responde. Em vez disso, apenas aponta para o corredor.
— O Johnny está te esperando. Anda logo.
Passo por ele, roçando o ombro propositalmente. O contato é breve, mas pesado.
Enquanto atravesso o corredor, ainda posso sentir o olhar dele nas minhas costas, algo calmo, seguro, inabalável. O tipo de olhar que só piora a ferida dentro de mim.
Por um momento, penso nas palavras de Leon e percebo o quanto meu mentor tem razão. Se continuar assim, vou acabar perdendo mais do que apenas o controle. Vou perder tudo.
E, no fundo, a ironia amarga me consome.
Respiro fundo, tentando manter a minha mente no lugar e volto a minha atenção a porta a minha frente. Dou algumas batidas na porta, ainda afetado pelo meu encontro nada agradável com Cam. De repente, a voz grave de Johnny atravessa a porta, trazendo-me de volta a realidade.
— Entre, Prince.
Empurro a porta e, ao entrar, observo a penumbra dominada pelo brilho azulado dos monitores, os mapas digitais projetando rotas e códigos, e aquele ar de autoridade que está sempre presente em Johnny. Ele está atrás da mesa da sala, de braços cruzados, observando alguma transmissão, mas não é isso que me faz travar no lugar.
É ela. Sentada à frente da mesa exibindo uma postura ereta e seu olhar firme, Olga traz de volta o alívio dentro de mim, que não via a hora de rever minha namorada. A saudade parece doer ainda mais, mas preciso me controlar para não ir até a garota.
As luvas pretas que ela usa durante as operações da Resistência ainda cobrem suas mãos, o que significa que ela tinha acabado de chegar da última missão. Os lindos cabelos vermelhos estavam presos em um rabo de cavalo alto e seus olhos revelavam o semblante cansado. Ainda assim, era possível notar que ela estava pronta para a próxima ordem de Johnny.
Ela não diz nada. Apenas me observa. E o silêncio entre nós é mais afiado do que qualquer faca.
Johnny interrompe o clima com um gesto.
— Feche a porta, Prince.
Obedeço, tentando mascarar a surpresa em minha expressão, e dou alguns passos para dentro. A sala parece menor, comprimida pela tensão que paira no ar. Sento-me ao lado de Olga e passo a observar nosso líder. Não era hora de resolver nossos problemas.
Johnny apoia os cotovelos na mesa e nos encara com aquele olhar que carrega mais estratégia do que emoção.
— Sei que os dois não tiveram tempo de respirar — comenta, com um suspiro pesado. — Olga, você acabou de voltar de uma missão longa, e Prince, você mal terminou de reorganizar as patrulhas em Most. Eu realmente não queria precisar de vocês tão cedo.
Olga cruza as pernas, impassível.
— Mas precisa.
Johnny assente, pesaroso.
— Exatamente. Temos informações de que Taynara está reunindo aliados novamente — explica Johnny. — Algo grande está prestes a acontecer. E dessa vez, não é apenas retaliação. Ela está montando uma estrutura de comando dentro do território neutro, e se conseguir consolidar isso, vai ganhar o controle total sobre os maiores inimigos de Krósvia. A minha suposição é que ela pretende se tornar rainha de Krósvia e matar toda a monarquia.
— Imagino que você queira que a gente investigue esse encontro e descubra uma forma de impedir que os planos de Taynara deem certo — sugiro e Johnny confirma com um aceno.
— Vocês dois são os meus melhores agentes para uma missão dessa importância. Olga possui experiência e adaptabilidade para se infiltrar na organização e você, Prince, é a pessoa que possui melhor conhecimento sobre Taynara entre os meus agentes mais preparados para essa missão. Estou contando com a habilidade de vocês dois para o sucesso da missão — responde Johnny, encarando-nos com intensidade.
Olga lança um olhar rápido para mim, e o ar entre nós se torna mais denso. Era nítido que ela estava brava comigo, mas ainda havia uma certa preocupação. Nós três sabemos que Taynara pode ser muito mais perigosa do que qualquer inimigo que Olga e eu já enfrentamos desde que me juntei a Resistência. A chance de não sairmos vivos dessa missão são altas.
— Quando será esse encontro? — pergunto, tentando manter a confiança de que essa não passa de mais uma missão qualquer.
— Eles devem se encontrar em Luxemburgo em uma semana — responde Johnny. — Mas quanto mais rápido conseguirem descobrir o próximo passo de Taynara, melhor. Temos uma janela curta antes que ela perceba que estamos rastreando os sinais das comunicações dela em Most.
— Entendido — responde Olga.
Assinto, concordando.
Não será uma missão fácil, mas precisamos fazer com que ela seja um sucesso. Agora que Taynara possui poder e um grande ressentimento com a minha família, não sabemos o que pode acontecer com Krósvia.
— Eu sei que a sua última missão foi bastante desgastante — comenta Johnny, diretamente para Olga, e então ele se vira para mim. — E que as tensões internas aqui no QG não ajudam, mas eu confio em vocês. Taynara está planejando algo que pode mudar o rumo da guerra. Eu preciso saber o que é. Conto com vocês para tornar essa missão um sucesso.
— Não se preocupe. Nós vamos conseguir — garanto, determinado.
— Assim espero — responde o loiro, pensativo. — Leon comentou que você está agindo de forma emocional demais nos últimos tempos. Sei que estão passando por muita coisa e que é difícil separar o pessoal do profissional, mas, lá fora, cada segundo de distração pode custar uma vida. Não se esqueça disso.
— Eu não vou — afirmo, frustrado por saber que meu comportamento havia chegado aos ouvidos de Johnny.
— Ótimo. Agora vão descansar que a partir de amanhã começaremos os preparos para a missão. Mia vai ajudá-los a organizar tudo e estudar toda a informação que temos sobre a Stigma, a organização de Taynara — orienta o homem.
Olga se levanta, exibindo sua postura impecável de um soldado pronto para a guerra.
— Entendido.
— Boa sorte — deseja Johnny, encarando-nos quase em um lamento. — E, Olga…
Ele hesita
— Me desculpe por mandá-la de novo. Eu sei que você não teve tempo de respirar e que tenho exigido mais de você, mas...
— Não se preocupe com isso, Johnny. Antes de ser uma agente, nós somos amigos. Eu sei que as coisas não estão fáceis para você e Mia. Se eu posso ser útil de alguma forma para a Resistência, eu fico muito feliz em ajudar — garante minha namorada, dando um sorriso tranquilizante para Johnny, que suspira e agradece.
Johnny faz um breve aceno, dispensando-nos.
Quando saímos da sala, o corredor parece mais longo do que nunca. O som das botas ecoa e o silêncio entre Olga e eu é mais pesado do que qualquer conversa. Ela caminha à frente, firme, e eu a sigo, sentindo que algo nada divertido estava por vir.
Assim que chegamos ao quarto que ela divide com Irina, Olga faz sinal para que eu entrasse. Sentindo a ansiedade me atingir, faço o que ela pede e respiro fundo, esperando ter a sabedoria e paciência para lidar com a evidente briga que estava para acontecer.
Olga se vira devagar e o som do trinco travando ecoa pelo quarto. A luz fraca que entra pela janela do quarto projeta sombras em seu rosto, realçando o cansaço que ela tenta esconder atrás da postura firme. Ela cruza os braços e me encara por alguns segundos. Longos o bastante para me fazer engolir em seco.
— Precisamos conversar — afirma Olga, com a voz firme e controlada.
Sento-me na cama de Olga e a encaro, tentando soar calmo, embora meu coração batesse rápido.
— Sobre a missão? — arrisco, tentando enrolar um pouco.
— Não.
Ela cruza os braços e dá um passo à frente, parando de frente para mim. Apesar da voz controlada, seus olhos exibiam uma seriedade cortante que não abria espaço para que eu mudasse de assunto.
— Sobre você. Sobre nós. E sobre o desastre que você vem se tornando desde que chegamos a Most.
Reviro os olhos, exasperado.
— Lá vem você com esse discurso mais uma vez.
— É, mas parece que não entrou na sua cabeça.
Olga aumenta um pouco o volume de sua voz e seus olhos faíscam, enquanto me encara. Desvio olhar, sentindo-me intimidado pela forma como ela parecia fazer um grande esforço para não me esganar naquele momento.
— E sabe por quê? Porque você não entende os próprios sentimentos, Prince. Você age como se o mundo inteiro devesse te decifrar, quando nem você faz ideia do que está sentindo.
Sinto a irritação ferver.
— Eu entendo, sim.
— Entende? — questiona Olga, dando uma risada curta e amarga. — Porque, do lado de fora, o que todo mundo vê é um cara que se diz comprometido comigo, mas que fica destruído ao ver Manu com outro. Um cara que ainda olha para ela como se tivesse perdido algo que lhe pertence. E, ao mesmo tempo, me trata como se eu fosse uma âncora que o prende a uma vida que ele não sabe se quer.
Abro a boca, mas ela ergue a mão, cortando qualquer tentativa de resposta.
— Não tenta negar.
Ela respira fundo, parecendo buscar forças para não se deixar levar pelas emoções, mas era possível ver o quanto ela estava magoada e isso me destruía. Eu odiava saber que estava a machucando, quando prometi a mim mesmo que jamais faria isso.
— Eu estou cansada, Prince. Cansada de ver você se sabotando, de fingir que está tudo bem, de te puxar de volta para o foco toda vez que o seu ego ou o seu coração entram em colapso.
Ela se senta na cama de Irina, ficando de frente para mim e eu vejo em seus olhos uma mistura de raiva e dor.
— E, mais do que isso, eu estou cansada de ser o porto seguro de alguém que não sabe se quer ficar.
— Não é isso… — começo, mas a minha voz falha de forma patética.
— Então o que é? — retruca, cortante. — Você diz que me ama, mas basta Manu olhar para você e tudo desmorona. Três anos de treino, de autocontrole, de tudo o que o Leon tentou te ensinar. Você joga fora como se não tivesse aprendido nada. Você perdeu totalmente o controle só por saber que ela está namorando com Cam.
Fecho os punhos, sentindo a frustração crescendo dentro de mim.
— Você não entende, Olga.
— Oh, eu não entendo?
Ela ri de novo, agora amarga.
— Eu entendo perfeitamente, Prince. Eu entendo que você está preso entre o passado e o presente, entre o que sente por mim e o que ainda sente por ela. Só que, ao contrário de você, eu não posso me dar ao luxo de me perder nisso.
O silêncio que se segue é tenso. A respiração dela está acelerada e eu não estava muito diferente. Era nítido que ela estava se esforçando para não chorar. Essa conversa pesa dentro dela. Olga nunca deixa as emoções transparecerem e o simples fato de ela estar deixando a raiva escapar já é um sinal de exaustão.
— Eu entrei nessa relação acreditando que podia lidar com o seu caos — continua Olga, com a voz um pouco mais baixa, mas sem perder a firmeza. — Que o tempo e a disciplina te fariam amadurecer. Mas você continua preso naquele garoto que reage antes de pensar, que deixa o ciúme e a culpa ditarem cada passo.
Meu coração dói diante das acusações de minha namorada, que, traziam tanta mágoa e verdade. Por mais que eu odiasse a realidade, ela não era a primeira a me dizer que eu estou me perdendo. Na verdade, eu mesmo não consigo me reconhecer e tudo isso é frustrante.
— Eu não sou esse garoto — murmuro, sem tanta convicção.
Ela me encara, séria.
— Então prova. Porque até agora tudo o que eu vejo é um homem que diz estar pronto para liderar as missões e criar a equipe perfeita para ajudar a princesa Allycia, mas que não consegue nem liderar o próprio coração.
Engulo em seco.
Olga suspira e se levanta, passando a andar de um lado para o outro, como se tentasse reorganizar os próprios pensamentos. Ela para de andar e me encara de forma quase melancólica.
— Prince, eu te amo. Mas amar você tem sido como andar num campo minado. Um passo em falso e tudo explode. Eu não quero mais viver esperando quando vai ser a próxima vez que você vai se perder ou que vai acabar surtando por causa de ciúmes por uma garota que não sou eu.
Meu peito aperta.
— Eu não quero te machucar, Olga.
— Mas está machucando — responde, sem hesitar. — Não só a mim. A si mesmo. A Manu. Todo mundo que tenta te apoiar acaba levando estilhaço.
Levanto-me e a puxo para um abraço, porque eu não fazia ideia do que falar nesse momento. Eu odiava ser assim. Sinto-me um verdadeiro lixo ao ver como fui capaz de deixar Olga tão frágil.
— Eu sinto muito, Olga. Eu te amo. Nunca foi minha intenção te machucar — insisto, apertando mais os meus braços ao redor de seu corpo, mas Olga não me corresponde.
Ela permanece rígida nos meus braços. Por um segundo, achei que fosse ceder, como tantas outras vezes, mas Olga inspira fundo, tira minhas mãos da cintura com cuidado e dá dois passos para trás. O olhar dela está úmido, porém firme.
— Eu também te amo — responde, dando um fraco sorriso. — Mas eu estou exausta, Prince. Exausta dessa corda bamba em que você me deixa. E o pior é que isso nem é sobre mim e ela. É sobre você não entender o que sente. Nem por mim. Nem por Manu.
As palavras me atravessam como gelo. Tento me aproximar de novo, mas ela ergue a palma, barrando.
— Me ouve — pede, autoritária. — É nítido que você não entende os próprios sentimentos. Você confunde culpa com amor, posse com dor, saudade com orgulho ferido. Comigo, você parece querer paz, mas com a Manu, você parece estar no meio de um fogo cruzado. E no meio disso, você se perde. Eu não vou mais viver à mercê desse caos.
Engulo em seco.
— O que você quer que eu faça?
— Três coisas — responde, exibindo os três dedos da mão. — Primeiro, eu quero que a partir de agora e até o fim da missão, nós sejamos apenas parceiros de campo. Só isso. Sem beijos, sem mãos dadas, sem conversas banais às três da manhã. Seremos profissionais. Eu preciso saber que posso confiar no agente ao meu lado sem que ele desmonte por causa de seus próprios fantasmas durante uma missão que pode custar nossa vida.
Eu assinto, a vergonha pesando nos ombros.
— Segundo, eu quero que você me prometa que vai ter cuidado nessa missão e que fará o que for preciso para não deixar que suas emoções falem mais alto que a razão. Estaremos diante de alguém que o machucou no passado e eu sei que é difícil para você lidar com isso, mas me prometa que não vai fazer nenhuma idiotice ou que vai se arriscar — implora Olga, encarando-me com preocupação.
— Eu prometo — afirmo, dando um fraco sorriso. — Eu juro que não vou fazer nada que possa fazer você ficar em perigo.
— Não, idiota! — repreende Olga, dando um tapa em meu peito. — Não é comigo que você tem que se preocupar. Eu sei me cuidar. Eu estou preocupada é com você diante de Taynara. Podemos ter tido sorte em seu último encontro com ela, mas não sabemos se ela vai ser tão passiva assim com você caso ela descubra que você está tentando atrapalhar os planos dela mais uma vez.
— Eu vou me cuidar — afirmo.
— E, por fim, eu preciso que você reflita sobre o que você sente por Manu. Não por mim ou por ela, mas por você — dita, encarando-me com seriedade. — Você precisa se entender, Prince. Se você quer mesmo continuar nesse relacionamento ou se está apenas me usando para preencher o medo que você sente de se envolver com ela.
— Eu...
— Não. Não fala nada agora — pede a garota, suspirando. — É claro que nesse momento, você acha que tem certeza do que sente por mim, mas sejamos honestos. Durante esses três dias em que eu estive em missão, quantas vezes você pensou em mim e quantas vezes você pensou em Manu? O que mais te incomodou: estar longe de mim ou vê-la nos braços de alguém tão incrível como Cam?
Hesito, sem saber como responder a pergunta de Olga. Ela parece perceber, pois solta uma risada amargurada e assente, vagarosamente, quase como se já tivesse a resposta que esperava.
— Não me afasta, Olga — murmuro, soando mais desesperado do que gostaria.
— Eu não quero te afastar. Eu quero te salvar — afirma minha namorada, erguendo o queixo. Há uma dor quase palpável em seus olhos. — De você mesmo. E, se for o caso, de mim. Eu só quero que a gente seja feliz, Prince. Se você não for capaz de corresponder aos meus sentimentos, então não me prenda em algo que só vai me machucar mais.
Mordo meu lábio, sentindo meu peito se comprimir. Apenas a ideia de ficar sem Olga me apavora. Ela é minha pilastra e a pessoa que eu mais amo. Como poderia viver sem ela?
O quarto fica pequeno. Eu procuro alguma rachadura naquele escudo que Olga ergueu diante de mim. Algum convite, um gesto que me permita atravessar a muralha entre nós, mas o que encontro é a decisão de quem já sangrou demais por mim.
— Isso é… um fim? — pergunto, o gosto amargo da pergunta na boca.
Ela hesita um instante. Depois, balança a cabeça.
— É um limite — responde, suspirando. — Até você entender o que sente, eu não vou ser a sua âncora nem o seu remendo. Eu estou cansada, Prince. Cansada de te amar enquanto você tenta adivinhar se ama a mim ou à ideia de quem eu sou para você. E cansada de ver você confundindo a Manu com o que sobrou do seu passado. Decide. Não por mim. Por você.
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