Fire Scars
31 Retorno
Capítulo XXX — Retorno
“Toda estrada é uma ladeira escorregadia
Mas sempre há uma mão
na qual você pode se segurar
Olhando profundamente pelo telescópio
Você pode perceber que seu
lar está dentro de você
Apenas tenha certeza de que
onde quer que você vá
Não, você nunca está sozinho,
Você sempre voltará para casa”
Jason Mraz – 93 Million Miles
✻
Most – 1999
O cheiro de fumaça ainda impregnava minhas roupas quando voltamos para o QG da Resistência. O céu de Most estava coberto de nuvens, mas, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não parecia um presságio ruim. Era, na verdade, uma lembrança silenciosa da vitória que havíamos conquistado naquela manhã.
Eu me sentia orgulhosa e aliviada por ter conseguido sucesso na missão, que parecia ser quase suicida. Não tinha sido fácil destruir a base militar que Rhosália havia instalado próxima a divisa entre Boise e Krósvia, mas de alguma forma, tudo tinha dado certo e ainda havíamos conquistado diversas armas novas que serão usadas para investigar as novas tecnologias do reino inimigo.
Três anos havia se passado e o mundo estava definitivamente diferente.
Durante esse período, Serafine foi conquistada por Edgar, o rei de Elpízoume, e se transformado na perigosa nação Rhosália. Como resultado, o rei Mikael, a rainha Mirela e o pequeno príncipe Austin precisaram fugir para os Estados Unidos.
Para proteger a princesa Allycia, que corria risco de ter o país tomado pelas forças do rei Edgar, a Resistência passou a lutar contra os ataques de Rhosália, além de recrutar diversos membros para cuidarem da princesa no castelo em Füssen.
O tempo passou de forma tão rápida e caótica que de alguma forma, Tyler e eu conseguimos sobreviver. Era difícil acreditar que tanto tempo havia passado desde o início do treinamento infernal de Nina. Às vezes ainda me lembrava da garota que tropeçava nas próprias pernas, insegura e dependente de Prince para dar um passo adiante. Mas ela já não existia. No lugar dela, havia alguém que aprendera a se erguer, a lutar e a confiar em si mesma.
Tyler caminhava alguns passos à frente com os ombros firmes e o olhar focado. Já não era o primo atrapalhado e inseguro, que não se achava bom o bastante para lutar, mas um membro respeitado da Resistência. Os outros soldados o cumprimentavam com acenos discretos, reconhecendo suas habilidades como estrategista em campo. Eu não conseguia evitar o orgulho de vê-lo assim.
Como sempre, foi Cameron quem quebrou o silêncio. O garoto, que agora havia se tornado um homem atraente, se aproximou de mim com um sorriso largo, o cabelo bagunçado pela fuligem e os olhos brilhando de animação.
— Eu ainda não acredito que conseguimos!
Ele ri, passando a mão no cabelo. Isso faz com que algumas garotas mais novas da Resistência que passavam por nós, suspirassem e o observassem com fascínio.
Quase reviro os olhos com tamanha falta de senso.
— Você viu a cara daqueles soldados quando perceberam que as explosões estavam vindo de dentro da própria base? Foi hilário!
Acabo rindo de seu comentário e balanço a cabeça, negando ao lembrar como toda a situação havia sido muito mais perigosa do que divertida.
— Hilário é você quase explodindo a gente junto com a base.
Cam ergue as mãos em defesa, fingindo indignação.
— Ei, isso foi planejado.
— Planejado?
Arqueio a sobrancelha e o encaro em descrença.
— Você tropeçar nos fios e acionar os detonadores antes da hora foi parte do plano?
Ele ri ainda mais alto, ignorando meu tom de sarcasmo. Bufo e dou uma cotovelada na costela do rapaz, que parece se divertir mais ainda com o meu mau humor.
— Claro! Eu precisava criar emoção. Se tudo saísse certinho, qual seria a graça?
Reviro os olhos, mas não consegui segurar o riso. Cam sempre tinha esse efeito. Mesmo depois de dias de tensão, ele conseguia brincar com a situação e arrancar um sorriso meu.
— Um dia você ainda vai nos matar com essa sua “emoção” — brinco.
— E um dia você ainda vai admitir que gosta quando eu improviso.
Cruzo os braços, fingindo seriedade.
— Nunca.
Ele coloca a mão no peito, em um gesto quase teatral. Bufo mais uma vez, porque era impressionante como ele se assemelhava a uma criança de dez anos e não a um adulto de vinte anos que era um dos membros mais importantes da Resistência.
— Essa doeu! Depois de salvar sua vida pelo menos três vezes hoje, é assim que sou recompensado? Você já teve mais consideração pelas pessoas, Manu. É assim que você trata o seu herói e que foi responsável pelo sucesso dessa missão?
— Três vezes? Herói?
Ergo a sobrancelha, rindo. Nossa discussão atrai a atenção de alguns membros do QG, que passavam por nós e se divertiam com nossa interação, acostumados com as nossas brincadeiras e provocações.
— Cam, você mal conseguiu mirar direito quando aquele soldado veio por trás de mim. Quem derrubou ele fui eu.
— Detalhes — rebate, com um sorriso maroto. — O importante é que a missão foi um sucesso, e a gente voltou inteiro.
Assinto, suspirando.
— Sim. Um sucesso.
Meus olhos se voltaram para Tyler, que conversava com alguns membros da Resistência mais à frente, confiante como nunca.
— Acha que dessa vez, vamos conseguir uma promoção? — questiono. — Sabe, eu me sinto frustrada em ver que Johnny continua negando o cargo de líder de equipe para o Tyler.
— Bom, essa missão era de um nível bem maior do que as outras em que estávamos acostumados e Tyler se mostrou alguém de confiança. Nina e Mia prometeram que conversariam com o Johnny se nos saíssemos bem, então estou confiante de que isso será possível — responde Cam, dando de ombros. — Agora que vocês se tornaram respeitados pelos membros da Resistência, já não é uma realidade tão impossível assim vocês assumirem missões de liderança sozinhos. Muitos membros estão loucos para trabalhar com vocês.
— E muitos ainda nos odeiam — comento, observando o olhar nada feliz de Maria, quando passamos em frente a sala dela.
— O que é uma pena, porque eles não sabem que estão perdendo a chance de trabalhar com os melhores agentes da Resistência — afirma Cam, esbarrando o corpo contra o meu, tentando me animar. — É verdade que Maria e Paul atrapalham um pouco a imagem de vocês aqui dentro, mas as pessoas não são cegas. Vocês evoluíram muito nesses últimos anos e superaram diversos membros que possuem muito mais experiência que vocês. É só uma questão de tempo até que vocês comecem a participar também das reuniões de planejamento.
— Assim espero — murmuro, frustrada.
Tyler e eu continuamos a morar com Nina fora do QG e isso gera bastante inveja e comentários irritantes de alguns membros da Resistência, que afirmam que recebemos tratamento especial por sermos protegidos de Nina, Mia e Johnny.
Mesmo que tenhamos passado por treinamentos absurdos e provado para todos do que somos capazes, ainda existe uma certa desconfiança de que tudo o que conquistamos foi muito mais por sermos próximos dos líderes da Resistência do que por nossa própria força de vontade.
E talvez seja por isso que Johnny nunca permitiu que assumíssemos a liderança de uma equipe dentro da Resistência, como aconteceu com Cam, Irina e Tori. Tyler e eu continuamos sendo apenas suporte ou realizando missões mais simples que não exija o envolvimento de mais membros, o que deixa tudo ainda mais frustrante para Tyler, que já se mostrava alguém capaz há muito tempo.
Enquanto estou perdida em pensamentos, seguindo com Cam e Tyler para a sala de Johnny para passar o relatório sobre a nossa missão, surpreendo-me com o movimento de Cameron ao passar o braço por cima dos meus ombros e me trazer de volta para a realidade.
— Mas falando sério, você ainda tem que admitir que eu fui a peça-chave dessa operação.
Reviro os olhos de novo.
— Você foi a peça que quase quebra a operação.
Ele gargalha, erguendo os braços como se comemorasse uma vitória pessoal. Rio e empurro o rapaz, mais uma vez.
— Ah, Manu, sem você minhas piadas não teriam graça. Ainda bem que me aguenta.
Bato de leve no braço dele, sorrindo.
— Não é uma tarefa fácil, mas você tem sorte que eu sou uma pessoa com um coração enorme. Eu acho inclusive que eu vou direto para o céu só por ter a habilidade de aguentar você.
Cam me mostra a língua como resposta.
— Muito maduro da sua parte — ironizo.
Enquanto continuamos a seguir para a sala de Johnny, ainda rindo das provocações de Cam, sinto meu coração aquecer de uma forma que raramente acontecia ao me dar conta como eu me sentia grata por Cameron ao meu lado.
Três anos atrás, eu jamais imaginaria que ele teria um papel tão importante na minha vida.
Na época em que chegamos no QG da Resistência, eu estava quebrada e apavorada. Durante os primeiros dias, tudo em torno do vazio imenso que havia ficado em meu coração e que parecia impossível de preencher com a partida de Prince.
E foi Cameron quem, aos poucos, conseguiu suavizar esse buraco. Não que ele tivesse substituído Prince, já que isso seria impossível, mas porque ele me ensinou a rir de novo e a ver a vida com mais leveza, mesmo que a minha vida tivesse um histórico bem melancólico de acontecimentos trágicos.
Entre uma missão e outra, entre os momentos em que eu me deixava sufocar pela saudade, Cam sempre estava lá para me tirar do fundo do poço. Ele surgia com uma piada fora de hora, um comentário desastrado, ou até mesmo uma briga boba só para me distrair. Era como se ele tivesse um radar invisível para detectar quando eu estava prestes a desmoronar.
E funcionava. Sempre funcionava.
Ele me lembrava que a vida não era feita apenas de dor e de perdas. Que mesmo no meio da guerra, ainda havia espaço para brincadeiras, amizades e para pequenas alegrias que nos mantinham humanos. Sem perceber, ele se tornou a minha âncora, mesmo que não da mesma forma que Prince tinha sido, mas de uma maneira nova, inesperada e igualmente necessária.
Com Cam, eu aprendi que a saudade não precisa ser uma prisão. Que lembrar de Prince podia ser doloroso, mas também podia ser uma chama para me manter firme. E quando eu me perdia em pensamentos sombrios, era a risada de Cam que me puxava de volta para a realidade.
Olho para ele, caminhando ao meu lado, ainda rindo da própria “genialidade” na missão.
Eu não havia dito nada, mas dentro de mim havia uma gratidão imensa. Porque talvez eu não tivesse conseguido suportar a falta de notícia de Prince esses três anos sem ele, já que após partir com Olga e Leon, tudo o que Tyler e eu soubemos do príncipe era que ele estava bem e ocupado demais com as missões e treinamentos para conseguir voltar para Most.
Talvez, se não fosse por Cameron, eu teria me afundado no vazio da saudade, no peso da culpa e no medo de nunca ser suficiente.
Agora, depois de tanto tempo, eu entendia que ele tinha sido um dos pilares que me ajudaram a transformar a dor em algo diferente. Não a apagou, mas me mostrou que havia vida mesmo com a ausência.
Sorrio discretamente, deixando meus pensamentos em silêncio, porque eu sabia que, se falasse em voz alta, Cam transformaria tudo em mais uma piada. Mas, no fundo, eu sabia que ele havia se tornado uma pessoa essencial em minha vida assim como Tyler e Prince.
Respiro fundo e volto minha mente para a realidade assim que chegamos em frente à sala de Johnny. Após bater na porta e receber sua permissão para entrar, somos recepcionados com sorrisos animados de Nina e Mia, além de um olhar de aprovação de Johnny.
— Bem-vindos de volta e parabéns pelo sucesso da missão — elogia o líder da Resistência.
— Obrigado.
Cameron agradece e se aproxima da mesa de Johnny, enquanto Nina abraçava Tyler e Mia me esmagava em um caloroso abraço de urso.
— Que bom que vocês estão bem! Eu fiquei tão preocupada quando perdemos o contato com vocês — comenta Mia, dando um fraco sorriso. — Sinto muito que vocês tenham sido obrigados a irem sozinhos em uma missão tão perigosa.
— Está tudo bem, Mia — garante Tyler. — Não foi fácil, mas acho que teria sido muito mais complicado que tivéssemos saídos todos vivos se mais membros tivessem nos acompanhado nessa missão. Cam foi um ótimo líder e conseguiu lidar bem com a situação.
— Eu jamais teria conseguido se não fossem as estratégias de Tyler e o reforço de Manu nas lutas — comenta Cameron com seriedade. — Eles foram as peças-chaves para o sucesso da missão.
— Entendo — murmura Johnny, pensativo.
Johnny entrelaça os dedos sobre a mesa e nos encara em silêncio por alguns segundos. O ar na sala parecia denso, como se cada um de nós aguardasse um veredito final. Finalmente, ele solta um leve suspiro e se levanta, caminhando até nós.
— Vocês três…
Ele começa a falar, olhando de um a um. Havia algo de importante em seu tom de voz que fazia uma imensa expectativa ser criada dentro de mim. Eu me sentia orgulhosa em ver o brilho de aprovação nos olhos de meus mentores.
— Fizeram o que muitos aqui dentro considerariam impossível. Não apenas sobreviveram, mas eliminaram uma base inteira de Rhosália, enfraquecendo a linha de defesa deles e nos trazendo recursos que podem salvar dezenas de vidas. Isso merece ser reconhecido.
Meu coração acelera.
Era raro Johnny dar elogios diretos e a forma como ele nos observava fazia parecer que estávamos prestes a cruzar uma nova fronteira dentro da Resistência.
Nina, que até então se mantinha em silêncio, se adiantou com um sorriso cheio de orgulho.
— Eu treinei vocês dois, Tyler e Manu, para esse momento. Sabia que o dia em que estariam prontos chegaria, e hoje vocês provaram que não são apenas recrutas, mas verdadeiros agentes.
Ela se vira para Cam, exibindo o mesmo brilho de uma mãe orgulhosa.
— E você, Cameron… demonstrou liderança e coragem, mesmo com seu jeito caótico. É exatamente disso que precisamos em campo.
Cam arqueia uma sobrancelha, esboçando um sorriso convencido.
— Então você admite que meu “caos planejado” tem seu valor?
Nina revira os olhos, mas não disfarça a satisfação. Ela realmente estava feliz demais para se deixar ser afetada pelo jeito caótico de Cam.
— Não abuse da sorte.
Mia se aproxima, segurando minhas mãos com força, como fazia quando eu ainda tinha acabado de chegar na Resistência e me sentia perdida. Seus olhos brilham de emoção.
— Vocês me deram esperança de novo. Depois de tantas perdas, tantas derrotas, ver vocês voltando assim me faz acreditar que ainda podemos vencer essa guerra.
Ela solta minhas mãos apenas para abraçar Cam também, depois Tyler.
— Vocês são a prova de que a Resistência não está quebrada.
Johnny pigarreia, chamando a atenção de todos de volta.
— E por isso, decidi que não é mais justo manter vocês à sombra.
O loiro se aproxima de meu primo e o encara com intensidade.
— Tyler, a partir de hoje, você será promovido a líder de equipe de campo formado por David, Petra, Brianna e Matt. Você já provou que tem visão estratégica e maturidade para lidar com decisões críticas, então os confiarei a você. Continue fazendo um bom trabalho e guiando-os até que eles sejam capazes de alcançar lugares mais altos na organização.
O olhar de Tyler se arregala, e por um instante ele parece não acreditar.
— Líder…? Johnny, eu...
— Sem falsa modéstia, Tyler — corta Johnny, com um meio sorriso raro. — Você já é isso há muito tempo, só faltava eu oficializar.
Cam bate palmas de forma exagerada, comemorando.
— Finalmente! Já estava na hora!
— E vocês dois — continua Johnny, voltando seu olhar para mim e para Cam. — Serão promovidos a agentes de elite da Resistência. Isso significa missões mais perigosas, sim, mas também mais autonomia, mais voz nas reuniões e acesso a informações que até agora estavam restritas.
Sinto meu estômago revirar de euforia. Finalmente, depois de tanto tempo de treino, suor, dor e dúvidas, nós tínhamos conquistado nosso espaço.
— Vocês merecem — conclui Johnny. — Descansem hoje. Amanhã, novas responsabilidades os aguardam.
Nina sorri orgulhosa, Mia nos abraça mais uma vez, parabenizando-nos pela conquista que tanto desejávamos. Eu também abraço meu primo, sabendo o quanto essa promoção dentro da Resistência era importante para ele, que havia treinado mais do que qualquer um para se tornar alguém forte e admirável dentro da organização.
De repente, Johnny pigarreia, chamando novamente nossa atenção. Ele estava com a postura séria, mas havia algo em seus olhos que denunciava que o que estava prestes a anuncia era algo bom.
— Há mais uma coisa que vocês precisam saber, Nina, Tyler e Manu.
O suspense começava a me incomodar. Definitivamente, eu não era boa em lidar com surpresas.
Mia ri e me abraça.
— Recebemos uma comunicação oficial esta manhã — revela a esposa de Johnny, encarando Nina com expectativas. — Leon, Olga e Prince estão finalmente retornando.
Meus olhos se arregalam instantaneamente. Ao meu lado, Tyler prende a respiração e sorri, sem conseguir conter a animação com a notícia, enquanto Nina suspira aliviada, com os olhos marejados com a notícia da volta do marido, com quem também não tinha contato há um bom tempo.
O impacto daquelas palavras atravessou a sala como uma explosão silenciosa. Foi como se meu coração tivesse aprendido a bater de novo. Um calor estranho tomar conta do peito, misturado a uma avalanche de sentimentos que iam da alegria sufocante ao medo de não saber quem eu encontraria depois de tanto tempo.
Tyler se vira para mim com os olhos marejados. Assim como eu, ele sentia a falta do melhor amigo e ansiou durante todos esses três anos pelo seu retorno.
Mia me solta e a abraça Nina, animada com a ideia do retorno do amigo. E eu, permaneço em choque, ainda atônita demais para saber como reagir a notícia que eu tenho desejado há tanto tempo.
— Ele vai voltar, Manu! — comemora Tyler, abraçando-me.
Sorrio e assinto, correspondendo ao gesto de meu primo. Encaro Cam e ele sorri, levantando os polegares em sinal de aprovação. Mesmo sem dizer nada, eu conseguia ver a animação dele também e eu me sentia grata por isso.
Ele tinha sido o meu maior ombro amigo nesses últimos anos, entendia melhor do que ninguém o quanto o retorno de Prince era significativo para mim.
Johnny se endireita, voltando ao seu tom habitual de comandante.
— Depois do que enfrentaram hoje, vocês merecem descansar, mas imagino que irão querer estar no portão quando eles chegarem.
E antes que eu pudesse conter as lágrimas que ameaçavam cair, uma certeza tomou conta de mim. Depois de anos de ausência, saudade e silêncio, Prince estava finalmente voltando para nós.
Como ainda estávamos sujos pelo recente retorno da missão, após receber informações que provavelmente Olga, Leon e Prince chegariam apenas em duas horas, Tyler, Cam e eu decidimos tomar um banho e contar a novidade para Tori e Irina, que, assim como nós, aguardavam o retorno do trio desde que chegamos ao QG da Resistência três anos atrás.
Assim que termino de me arrumar, sigo para o refeitório do QG para me encontrar com Cam, Tyler, Tori e Irina, que mal se aguentava em ansiedade pelo retorno da melhor amiga. Assim como meu primo e eu, que sofremos com a ausência de notícias de Prince, Irina também sentiu a solidão de se ficar três anos sem contato com Olga, que era como sua irmã.
Compartilhar de sentimentos tão intensos e semelhantes fizeram com que ela e Tyler acabassem se aproximando e, consequentemente, começaram a namorar. Eles são um casal adorável e era nítido como a presença da garota na vida do meu primo trouxe a luz que ele precisava para se tornar mais confiante e determinado.
O refeitório estava mais barulhento do que o normal. A notícia sobre o retorno de Leon, Olga e Prince parecia ter incendiado cada canto do QG, e todos queriam comentar, especular ou simplesmente sonhar em voz alta.
Sento-me à mesa junto de Cam, Tori, Tyler e Irina, tentando conter a ansiedade que se revirava no meu estômago. A animação fazia meu corpo inteiro se agitar e eu mal conseguia conter o sorriso em meus lábios.
Irina tamborilava os dedos na mesa, inquieta, com os olhos brilhando, enquanto Tyler a abraçava, dando apoio para a namorada.
— Eu ainda não consigo acreditar — murmura Irina, olhando para nós. — Três anos. Três anos sem uma única carta, sem um sinal, e agora… Olga vai voltar.
Ela ri, mas a risada sai embargada. Eu entendia exatamente como ela se sentia. Havia dor, frustração, saudade, amor e alívio por saber que eles estavam voltando.
— Eu juro que vou socar ela por ter me deixado sozinha tanto tempo e depois vou abraçar até não conseguir mais. Tenho certeza de que ela vai surtar quando descobrir que estamos namorando.
Tyler rir.
— Será se ela ainda nos odeia? — indaga meu primo, pensativo.
— Bom, se ela ainda te odiar, eu desejo boa sorte para você, cara — comenta Cam, rindo.
— Eu vou precisar — murmura Tyler, estremecendo só de imaginar uma Olga nada feliz diante dele.
Irina ri e deixa um beijo na bochecha do namorado.
— Ah, não fique tão tenso. Tenho certeza de que quando ela perceber que você me faz feliz, logo vai te aceitar — garante Irina, aconchegando-se nos braços de Tyler.
Tyler suspira e assente, ainda que fosse nítido que ele não se sentia tão confiante assim.
— Eu estou tão animada para conhecer Olga e Prince. Vocês falaram tanto sobre eles nesses últimos anos, que eu quase me sinto amiga deles também — brinca Tori, sorrindo animada. — Além disso, é bom ver vocês tão animados assim depois de tudo o que passaram, Manu e Tyler.
— Apesar de tudo, Prince sempre foi bom em cumprir suas promessas, então eu estava confiante de que ele voltaria — afirmo, sorrindo.
Cam apoia o queixo na mão e solta uma risadinha.
— Eu só quero ver a cara de vocês quando ele chegar. Eu estou apostando que Manu vai desabar chorando, Tyler vai bancar o durão por uns dois minutos e depois vai chorar também, e eu…
Ele fez uma pausa dramática, apontando para si mesmo com um sorriso convencido.
— Eu vou ser o único a manter a postura.
Reviro os olhos.
— Ah, claro. Você não vai derramar uma lágrima? Logo o manteiga derretida do grupo?
— Eu? — questiona Cam, erguendo a sobrancelha. — No máximo uma lágrima estilosa, para valorizar o momento.
Tyler gargalha, balançando a cabeça.
— Quero ver isso acontecer.
A conversa seguiu leve, misturando piadas de Cam com o nervosismo de Irina, o sorriso e comentários ansiosos de Tori para conhecer Olga e Prince e minha ansiedade e de Tyler. E por alguns instantes, eu senti como se fôssemos apenas um grupo normal de amigos, falando sobre reencontros, e não soldados em meio a uma guerra.
Mas então o som estridente ecoou pelos alto-falantes do QG. Um sinal agudo, grave e contínuo que alertou o meu corpo.
Todos congelamos. Sabíamos o que aquilo significava.
Irina leva a mão à boca com os olhos se enchendo de lágrimas instantâneas.
— Eles chegaram!
Meu coração dispara tão forte que parecia prestes a explodir. Troco um olhar rápido com Tyler e vi nele a mesma mistura de euforia e nervosismo que me dominava.
Sem pensar duas vezes, nós nos levantamos quase ao mesmo tempo. O refeitório, que segundos antes estava barulhento, agora parecia tremer com os passos apressados de dezenas de pessoas correndo em direção aos fundos do QG, onde se encontra o estacionamento da Resistência.
E nós cinco seguimos juntos, com a respiração acelerada e as emoções à flor da pele, prontos para finalmente reencontrar aqueles que esperávamos há tanto tempo.
O estacionamento do QG estava lotado. Os membros da Resistência se espremiam em torno do portão, todos ansiosos, todos com os olhos fixos na entrada. O sinal sonoro ainda ecoava ao longe, mas o som agora parecia ser apenas o pano de fundo para a expectativa que tomava conta de cada um de nós.
Eu estava na frente, entre Tyler e Irina. Tori permanecia logo atrás, com o semblante sereno, mas os olhos brilhando em emoção contida. Cam, inquieto como sempre, não parava de se mexer ao meu lado, esticando o pescoço na tentativa de enxergar antes de todo mundo.
— Se eu desmaiar, alguém me segura — brinca Irina, a voz trêmula, sem desviar os olhos do portão.
— Pode deixar — afirma Tyler, entrelaçando as mãos com a namorada. — Apesar de que não faço ideia do que pode acontecer quando eles aparecerem.
Cam ri baixo, batendo no ombro dele.
— Se vocês dois caírem, vai sobrar para mim, já que é capaz da Manu sair correndo sem nem se importar com vocês — provoca o rapaz.
Reviro os olhos, mas não consigo responder. Minha garganta estava seca demais, e meu coração parecia querer escapar do peito.
E então, o portão começou a abrir.
O som metálico ecoou e o local inteiro se silenciou de repente. Cada olhar e respiração ficaram presos naquele instante. A abertura foi lenta, cruel, como se o próprio universo estivesse testando nossa paciência.
Primeiro, surgiu Leon. Sua presença imponente fez muitos soltarem exclamações de alívio. Ele ergueu a mão em cumprimento, com aquele ar sério e confiante que sempre transmitia segurança.
Logo atrás dele, Olga. Os olhos dela varreram a multidão até encontrarem Irina, e no mesmo instante a máscara de guerreira se quebrou.
Irina solta um grito abafado e corre, sem se importar com nada além de alcançar a amiga. Quando finalmente se abraçam, o impacto é tão forte que ambas quase caem. O choro de Irina preencheu o estacionamento, emocionando até de quem não tinha ligação direta com elas, mas que sabia da amizade que elas compartilhavam.
Mas eu mal conseguia prestar atenção. Porque, alguns passos atrás ele surgiu.
Prince.
Por um segundo, achei que minhas pernas iam ceder. Ele estava diferente: mais alto, mais forte, o semblante marcado pelo peso dos anos e da guerra. Mas seus olhos eram os mesmos. Aqueles olhos que tantas vezes me empurraram para frente quando eu não acreditava em mim mesma.
— Ele… — sussurro, sem conseguir terminar a frase.
Tyler não esperou. Assim que o viu, meu primo corre em disparada. Eu fui logo atrás, sem pensar. E quando Prince abriu os braços, nós nos lançamos contra ele ao mesmo tempo.
O impacto do abraço foi avassalador. Senti o corpo dele tremer sob o peso da nossa emoção, e minhas lágrimas finalmente transbordaram. O cheiro dele, a sensação dele ali, real, vivo. Era como se um pedaço de mim que tinha se perdido nesses últimos três anos tivesse acabado de voltar ao seu lugar.
— Eu disse que voltaria — murmura Prince com a voz rouca.
Tyler apenas aperta mais o abraço e eu podia ver que ele fazia um grande esforço para não chorar, aliviado por ter o amigo de volta. Eu apenas me agarro com mais força, sem conseguir falar nada, porque todas as palavras pareciam pequenas demais diante do que eu sentia.
— Droga! Eu disse que não ia chorar — resmunga Cam, com a voz embargada pelo choro, enquanto ria ao lado de Tori.
A garota ri e passa o braço em volta dele como se quisesse apoiá-lo também.
E ali, no meio do estacionamento lotado, com todos assistindo em silêncio respeitoso, o tempo pareceu parar. Porque, pela primeira vez em anos, nós estávamos juntos de novo.
Fale com o autor