Fire Scars
42 Reencontros
Capítulo XLI — Reencontros
“É assim que realmente vai acabar?
É assim que diremos adeus?
Eu devia ter desconfiado quando você apareceu
Que você me faria chorar
Está partindo meu coração te ver por aí
Porque sei que você está vivendo uma mentira
Mas tudo bem, querida
Porque com o tempo você verá”
Justin Timberlake – What Goes Around.../...Comes Around
✻
Rengard – 1999
O motor do caminhão rugia baixo, mas dentro de mim parecia ecoar como um trovão. O balanço constante da estrada esburacada não ajudava a aliviar a tensão que pesava sobre todos nós que vinha desde a hora em que saímos do QG para pegar o avião em um local isolado de Most. Já era um pouco mais de uma hora da tarde, quando chegamos a Viana e partimos em direção a Rengard, que fica próxima a divisa entre Áustria e Krósvia.
A cada quilômetro percorrido, eu sentia que estávamos nos aproximando não apenas de uma missão de resgate, mas também de uma luta dolorosa contra o nosso próprio passado. Estar diante de Taynara de novo depois de quatro anos será o verdadeiro desafio.
Para chegarmos a Rengard de maneira discreta, nosso grupo precisou se dividir em dois veículos. O primeiro, que ia na frente em um carro menor, era ocupado por Bóris, Jay e Rose, que farão uma varredura inicial do local onde encontraremos Taynara para garantir a nossa segurança.
Logo atrás, Leon, Nina, Irina, Olga, Tyler, Prince, Cam e eu seguíamos em um pequeno caminhão. Dimitri e Hugo haviam partido na frente, para se encontrarem com Bart e Lorelai e coordenar o resgaste dos reféns.
Ninguém falava muito. O som predominante era o barulho do motor e o farfalhar do vento que entrava pelas frestas da lataria. Enquanto Leon dirigia o caminhão e Nina estava sentada lá na frente ao seu lado, nós permanecemos dentro do baú do caminhão.
Tyler estava sentado à minha esquerda de mãos dada com Irina, com a expressão distante. De frente para ela, Olga estava sentada ao lado de Prince, mas os dois não pareciam estarem bem. Desde ontem, eu sentia que eles pareciam distantes e evitavam se olhar. Prince encarava o vazio como se sua mente ensaiasse um embate silencioso que ocorrerá em algumas horas.
Cam estava ao meu lado e parecia muito mais sério do que geralmente fica. Ao notar que eu o encarava, ele dá um fraco sorriso e se aproxima mais, até que nossos ombros se encostam. Ele está preocupado e ansioso. Posso ver como está se esforçando para se manter calmo e me dar apoio. E eu realmente me sentia grata por tê-lo ao meu lado.
— Você está bem? — sussurra Cam, encarando-me com atenção.
— Sou eu quem deveria estar perguntando isso. Você parece nervoso. Por acaso não confia em mim? — provoco e ele bufa, sorrindo.
— Se eu não confio na pessoa mais perigosa que eu conheço? — ironiza Cam, dando aquele sorriso adorável que fazia seus olhos puxados se fecharem. — É claro que eu confio. Eu não confio é em mim. Não lembra que você me salvou todas as outras vezes?
— Eu sei que sou incrível, mas não precisa se fazer de humilde — retruco, encostando a cabeça no ombro de Cam. — Você é o melhor informante e atirador que eu conheço. É criativo e sempre consegue me fazer ficar com a cabeça no lugar. Então, não se preocupe. Nós vamos resgatar todos e sair vivos desse encontro. E se tudo der certo, eu ainda consigo dar alguns tapas na Taynara.
— Manu! Você sabe que devemos evitar confrontos por enquanto — relembra Cam, encarando-me com repreensão.
Rio e fecho os olhos, apreciando o momento. Cam passa o braço por cima do meu ombro e me permite aconchegar mais. Eu não tinha pregado os olhos durante a noite toda e menos ainda durante a viagem. Eu me sentia cansada e nervosa. Mesmo tentando soar confiante, ainda há uma parte de mim que teme perder o controle diante da pessoa que matou minha família e acabe colocando toda a missão em risco.
Respiro fundo, sentindo o coração bater rápido demais, como se quisesse acompanhar o barulho das rodas contra a estrada. Mesmo no silêncio pesado dentro do caminhão, era impossível desligar a mente do que estava por vir.
Abro os olhos e encontro Prince do outro lado, com o semblante duro e distante. Ele não olhava para ninguém, mas eu sabia que estava mergulhado em pensamentos que não ousava dividir com outras pessoas. Como sempre, ele continuava a guardar tudo para si de forma perigosa.
Olga, ao lado dele, mantinha os braços cruzados e desviava os olhos toda vez que ele mexia a cabeça. O espaço entre os dois parecia maior do que realmente era, e eu sabia que aquela distância não tinha nada a ver com centímetros. E vendo-os assim, eu não sabia dizer o que eu sentia.
Mesmo magoada com Prince, eu não o odeio. Na verdade, continuo a gostar com tanta intensidade que é difícil manter a distância que impus para nós. E Olga é uma pessoa incrível. Ainda que tenhamos tido nossos problemas quando nos conhecemos, hoje em dia posso ver que ela é uma mulher divertida, amorosa e determinada. Não há qualquer possibilidade de odiá-la.
Suspiro e me aconchego mais em Cam. Não é hora de ficar me preocupando com assuntos complicados que não me levarão a nada. Eu preciso me concentrar na missão e garantir que todos serão resgatados em segurança.
Leon reduz a velocidade do caminhão e bate duas vezes na pequena janela que separava a cabine do baú, chamando a nossa atenção.
— Faltam menos de vinte minutos para chegarmos ao local onde ocorrerá o encontro — aleta o homem com firmeza e preocupação. — Daqui em diante, todos em alerta. Não sabemos o que pode acontecer, então é bom estarem preparados para um ataque repentino a qualquer momento.
O aviso caiu sobre nós como um peso ainda maior. Cam retira o braço dos meus ombros, ajeita o rifle sobre as pernas e passa a verificar a trava de segurança com movimentos mecânicos. Tyler se endireita, apertando mais forte a mão de Irina, que apenas retribui com um leve aceno de cabeça, como se dissesse que tudo ficaria bem.
Nina se vira parcialmente do banco da frente. Seus olhos azuis intensos encarava a cada um de nós com seriedade.
— Lembrem-se do combinado. Usem sinais de luz primeiro e façam o mínimo de comunicação possível. Por mais que sejam provocados, nada de agir por impulso — enfatiza Nina, demorando-se um segundo a mais em mim. — Principalmente vocês três. Eu sei que vocês têm assuntos pendentes com Taynara, mas não é o momento para resolverem. Foquem em sair vivos e garantir a segurança dos reféns. Essa é a nossa prioridade. Não coloquem isso a perder por causa de sentimentos pessoais que não podem ser resolvidos agora, em um ambiente desconhecido e sem termos conhecimentos sobre os objetivos desse novo grupo.
Sinto meu estômago se revirar e meu coração se apertar. O peso da responsabilidade da missão estava completamente sobre Prince, Tyler e eu. Talvez fosse justo, afinal, era a nós que Taynara queria. Mas naquele instante, eu me sentia frustrada.
Cam, percebendo meu desconforto, inclinou-se discretamente para falar só para que eu escutasse.
— Eu sei que está frustrada, mas ainda haverá o dia que você poderá fazer Taynara pagar pelo que fez. Ao menos agora você sabe onde ela está e poderá esclarecer o que aconteceu quatro anos atrás — afirma o rapaz, dando um sorriso encorajador. — Não deixe Taynara entrar na sua cabeça, Manu. Ela vai tentar te provocar, mas você se tornou muito mais forte e não está sozinha. Estaremos com vocês para impedir que qualquer coisa saia do controle.
Assinto em silêncio.
A tensão crescia a cada minuto. O balanço do caminhão, que antes parecia monótono, agora era como um tamborilar constante anunciando a aproximação do inevitável.
Prince ergue os olhos e encontra os meus por um instante. Não havia culpa, mágoa ou insegurança neles como vi todas as vezes que o encarei nos últimos dias, apenas um reconhecimento silencioso do que estava por vir. Era como se um pouco do Prince eu conheci anos atrás tivesse voltado.
Ele assente, tentando soar confiante, quase como se estivesse tentando dizer, sem palavras, que estava pronto para a missão, mas eu sabia que ninguém ali estava realmente preparado para encarar Taynara de novo.
Logo o veículo da frente, onde estavam Bóris, Jay e Rose param e nós fazemos o mesmo. O baú estremece e quando para, o silêncio se torna ensurdecedor.
— Chegamos no ponto em que podemos ir de carro — informa Leon, desligando o motor. — A partir daqui, seguimos a pé até a clareira.
Bóris desce do carro e sinaliza com a mão para que saíssemos. O frio cortante da floresta invade o caminhão assim que a porta traseira foi aberta, arrepiando minha pele. O ar cheirava a terra úmida e pinho, mas havia algo pesado nele, como se até a floresta estivesse ciente do encontro que aconteceria ali.
Descemos em silêncio, cada um ajeitando suas armas, mochilas e equipamentos de comunicação. O vento cortante atravessava os galhos nus das árvores, fazendo um assovio agudo que só aumentava a sensação de estarmos sendo observados.
Bóris é o primeiro a se aproximar. Seu olhar firme percorre cada um de nós, como se quisesse ter certeza de que todos estavam prontos. Jay vem logo atrás, trazendo um mapa em suas mãos. Ele olha ao redor e assente para Rose, que desce com uma caixa em mãos.
Com todos reunidos em um círculo, Jay abre o mapa que reconheci sendo o mesmo que Johnny havia usado para nos explicar as localizações de todos quando ainda estávamos no QG.
— Muito bem, pessoal. Cada um sabe seu papel. Sem desvios, sem improvisos. Sigam o combinado. Eu estou contando com vocês para ter minha esposa de volta, por favor, tenham cuidado com suas ações. Vidas importantes dependem de vocês — pede Jay e posso ver um brilho de súplica em seus olhos ao encarar Prince, Tyler e eu.
— Não se preocupe. Nós teremos cuidado — respondo, determinada.
Ele assente e dá um fraco sorriso.
— Eu irei entregar para vocês os micro comunicadores. Com exceção de Manu, Tyler e Prince, que não poderão estar com nada além do que foi entregue, todos nós teremos contato. Mas, como eu sei que foi alertado por Mia, evitem conversar. Usem esse recurso apenas em último caso — orienta Rose, entregando um aparelho sonoro para cada um.
— Agora que todos estão prontos, assumam seus postos — pede Leon, assim que todos colocam seus aparelhos no ouvido.
Cam é o primeiro a se afastar, caminhando de forma silenciosa. Ele escorrega por entre as árvores até sumir na direção do flanco leste, onde havia a formação rochosa que serviria de cobertura, conforme orientou Johnny. Antes de desaparecer, ele ergue a mão, sinalizando um “ok” rápido.
Pouco tempo depois, Irina se separa do grupo. Seus passos eram quase inaudíveis sobre o tapete de folhas secas. Ela seguiu em direção ao celeiro abandonado, a poucos metros de uma colina, levando sua rifle em mãos, já engatilhada para o caso de encontrar algum inimigo.
Ela lança um olhar breve para Tyler antes de partir, como se pedisse silenciosamente que ele tivesse cuidado. Ele apenas assente firme com a mandíbula travada de tensão.
— Olga, é a sua vez — sussurra Nina.
A ruiva ajeita a arma em suas costas e lança um breve olhar para Prince. Eles encostam as testas e fecham os olhos por segundos. Assim que se separam, ela sorri e segue para o ponto elevado ao norte. O vento agita seus cabelos soltos quando ela desaparece entre as árvores. Sabíamos que sua visão de lá seria ampla o suficiente para cobrir a clareira inteira.
Leon toma a dianteira com Nina, caminhando pela rota que levava até os túneis escondidos que, segundo os registros antigos, poderiam levá-los direto à fortaleza. Eles seriam os olhos e a lâmina silenciosa da equipe de resgate.
Jay e Rose se dividiram em posições de retaguarda, desaparecendo em meio as árvores. Dimitri e Hugo já haviam se infiltrado anteriormente junto com Bart e Lorelai, então agora cabia a eles garantirem a segurança no perímetro e dar suporte caso houvesse movimentação inimiga inesperada.
Ficamos apenas Prince, Tyler, Bóris e eu ao lado dos carros. Troco olhares com meu primo e Prince, apenas querendo confirmar que eles estavam preparados. Mesmo ansiosos, ambos assentem. Bóris passa a andar pela floresta de árvores altas e poucos sinais de ações humanos. Nós o acompanhamos, tomando cuidado com o percurso irregular.
O frio parecia mais intenso conforme nos aproximávamos da clareira.
— Lembrem-se — sussurra Bóris. — Vocês três seguem juntos até o centro da clareira. Nós ficaremos recuados, mas atentos. A partir do momento em que cruzarem aquela linha, estarão sozinhos diante dela.
Assinto em silêncio, sentindo o coração bater forte demais, como se fosse pular do peito. Tyler ajeita a manga da blusa, escondendo o micro comunicador e me lança um olhar firme. Prince, ao meu lado, respira fundo e ergue o queixo, tentando demonstrar a mesma firmeza.
O silêncio da floresta parecia sufocante. Cada estalo de galho, cada farfalhar do vento parecia prenúncio de algo maior. E, ainda assim, avançamos.
Era como se estivéssemos em um tabuleiro. As peças haviam sido colocadas em seus lugares. Agora, restava esperar o movimento de nossa maior inimiga.
A clareira ainda estava a alguns metros de distância, mas já era possível sentir a mudança na atmosfera. A floresta, que até então parecia cheia de sons com galhos estalando, corvos voando e o farfalhar constante do vento, agora se calava, como se a própria natureza prendesse a respiração diante do que estava prestes a acontecer.
Caminhamos em passos lentos, cada um preso em seus próprios pensamentos. Bóris ergue a mão, sinalizando para que parássemos. Ele se encosta contra uma árvore grossa e, de lá, observa os arredores com a calma de quem já havia feito isso dezenas de vezes. Ele assente, indicando que era hora de cada um ocupar sua posição.
Um pequeno brilho de lanterna piscou três vezes no flanco leste. Era Cam confirmando que estava no ponto certo, protegido pelas rochas. Alguns segundos depois, duas piscadas discretas vieram da direção do celeiro, onde Irina estava posicionada. O sinal de Olga veio por último, com quatro piscadas rápidas, o código de posição estabelecida. Lá de cima, sabíamos que seus olhos estavam cravados na clareira, esperando qualquer movimento que não fosse nosso.
Eu sentia a tensão vibrar no ar, como se estivéssemos presos em cordas esticadas prestes a arrebentar. O frio da floresta parecia mais cortante, cravando-se na pele e nos ossos, mas ninguém se moveu. Apenas observávamos.
Leon e Nina já haviam desaparecido entre as sombras em direção à entrada dos túneis, provavelmente indo se encontrar com Dimitri e Hugo. Bóris consultava o relógio, atento a cada minuto que passava. O tempo parecia se arrastar.
— Estão todos em posição — murmura Bóris, encarando-nos com intensidade. — Agora, só aguardamos.
O vento soprou novamente, fazendo as copas das árvores se inclinarem. Mas não havia pássaros e nem o som de algum animal menor. A floresta estava em completo silêncio. A clareira à frente parecia um palco vazio, esperando pelos atores.
Meu coração martelava no peito. Cada minuto que passava sem que nada acontecesse era ainda pior, como se a floresta estivesse zombando de nós, nos lembrando de que a calmaria sempre precede a tempestade.
Troco um olhar rápido com Tyler. Ele range a mandíbula, o corpo inteiro tenso. Do outro lado, Prince mantém a postura firme, mas consigo ver o leve tremor de sua mão ao ajustar a manga da blusa, provavelmente verificando o micro comunicador pela terceira vez.
Aguardamos. Um minuto. Dois. Três.
A cada segundo, eu sentia que a sombra de Taynara e Gavin já nos observava de algum lugar, invisível, como predadores que sabem exatamente quando atacar.
Bóris respira fundo e enfim solta em voz baixa:
— Está na hora. Eles chegaram. Boa sorte.
O frio pareceu cortar ainda mais fundo quando Bóris disse aquelas palavras. Meu estômago se revira e por um instante, minhas pernas pareceram hesitar em dar o próximo passo. Mas não havia volta. Tyler ajeitou o casaco e me lançou um olhar firme. Prince respira fundo, ergue o queixo e avança primeiro com passos firmes e confiantes, como se a própria tensão fosse seu combustível e todo o nervosismo tivesse desaparecido.
Estávamos diante de um líder novamente, algo que eu sentia falta em Prince desde que ele retornou. Isso faz eu me sentir um pouco melhor. Mesmo que tudo não passasse de uma máscara, ao menos ele estava muito mais centrado do que em nosso último confronto.
Juntos, nós três atravessamos a última barreira de árvores e entramos na clareira.
O silêncio era tão denso que o barulho dos nossos passos sobre as folhas secas ecoava como trovões. O vento cessou, e por um instante, parecia que até a floresta nos observava em expectativa. O campo aberto diante de nós era um círculo de grama úmida, iluminado pelo cinza opaco do céu. Quase como um palco pronto para um acerto de contas.
E lá estavam eles.
Do outro lado da clareira, duas figuras nos esperavam. Uma feminina e uma masculina, lado a lado. A primeira coisa que senti foi um arrepio subir pela espinha. O tempo não havia apagado nada.
Taynara Miller estava no centro da clareira, com a postura ereta e o olhar intenso, como se tivesse nascido para aquele palco. Usava roupas escuras ajustadas ao corpo e o sobretudo de couro balançava levemente com o vento.
Seus cabelos negros caíam soltos sobre os ombros, agora mais curtos do que da última vez que eu a vi, e seus olhos azuis nos encaravam com mesma intensidade de quatro anos atrás. Mas havia algo diferente. Ela possuía uma aura de liderança, confiante e segura de si, que antes não existia. Ela já não era mais a adolescente astuta que nos enganara. Taynara se tornou uma mulher moldada pela guerra, que carregava no olhar a convicção de alguém que sabe exatamente o que faz.
Ao lado dela, Gavin.
Ele estava incrivelmente alto e agora possuía uma barba bem desenhada no rosto. Os cabelos loiros estavam bem cortados e arrumados. Seus ombros largos cobertos por um casaco pesado, mostrava que ele estava bastante musculoso. Ele também estava com algumas cicatrizes no rosto e tinha alguns traços que me lembrava Prince. Surpreendo-me ao notar que ele parecia tenso e nervoso. Ao notar nossa presença, ele se aproxima mais de Taynara e se coloca em uma posição de defesa, como se nós fossemos o perigo na situação.
Quase tenho vontade de rir diante de tamanho absurdo.
Meu coração martelava, e cada passo parecia me empurrar para dentro de um abismo. Meus pés ficam pesados por um instante, como se a terra tentasse me segurar para trás. Mas não havia volta. A cada passo, a lembrança da noite em que perdi meu pai e meu irmão pelas mãos de Taynara queimava mais fundo.
Sinto a mão de Tyler roçar discretamente a minha em um gesto silencioso de força. Do outro lado, Prince caminhava firme, o maxilar travado, exibindo algo sombrio em seus olhos. Nós três lado a lado, como antes, quando saímos de Füssen ao lado de Johnny sem saber o que o futuro nos reservava, mas tão diferentes de quem éramos quatro anos atrás.
Paramos a poucos metros de distância. O ar parecia vibrar entre nós e eles. Nenhum som, nenhuma palavra. Apenas aquele momento em que o passado e o presente se encontraram, e eu podia jurar que até a floresta prendia a respiração para assistir ao reencontro.
Taynara deu o primeiro passo à frente. Seus olhos percorreram cada um de nós, mas pararam em mim, demorando-se como se quisesse dizer alguma coisa.
— Já faz algum tempo — comenta Taynara, com a voz calma, mas seus olhos nos encaravam por com intensidade. — Espero que tenham feito uma boa viagem de Most até aqui. Obrigada por terem aceitado conversar comigo.
— Não que tivéssemos muita escolha — ironizo, mas logo me arrependo.
Não estava sendo fácil controlar meu corpo, mas diante do comentário estúpido de Taynara, eu já estava começando a perder o controle. Tyler toca em minha mão mais uma vez em um alerta de que precisava manter a calma ou colocaríamos a missão em perigo.
Taynara parece se incomodar com o que eu digo, mas logo volta a nos observava com calma.
— Tem razão. Eu fui um pouco cruel em sequestrar seus amigos — concorda Taynara, dando de ombros. — Mas, não podem me culpar. Eles avançaram contra o meu território primeiro e mataram uma pessoa importante para o grupo. Nós conseguimos impedir que eles fossem mortos, mas existe um limite do que posso fazer sem causar uma revolta no grupo.
— Eles estão seguros, então parem de nos encarar como se fossemos monstros — retruca Gavin, correspondendo ao olhar de Tyler. — Seus amigos logo conseguirão resgatá-los em segurança. Já sabemos que eles estão a caminho da fortaleza. Apenas esperamos que eles sejam bons o bastante para passarem despercebidos.
Prendo minha respiração, temendo pela vida de Nina, Leon e dos outros. Estava evidente que eles sabiam bem o que estávamos fazendo. Eu só não conseguia saber o que eles estavam planejando fazer com eles.
— O que vocês querem de nós? — questiona Prince. Ele demonstrava calma e firmeza. Não havia espaços para brincadeira. — Por que pediram para nos encontrar? Por acaso estão planejando nos matar, assim como fizeram com Henry e Stefan?
O assunto parece ser um tópico sensível para Taynara que morde o lábio e desvia o olhar. Eu não conseguia entender seu comportamento. Ela tinha matado os dois de forma fria e cruel, mas agora exibia um brilho de dor e sofrimento como se fosse uma vítima?
Sua reação desperta a fúria dentro de mim. Como ela ousava se portar dessa forma, quando tinha sido ela a acabar com a minha vida?
— Ela não matou Henry... — afirma Gavin, parecendo ofendido com a acusação.
— Oh, claro! Até porque não vimos ela ao lado de Henry com uma espada cravada no corpo dele e quando ela atirou contra tio Stefan — interrompe Tyler, encarando-os como uma fera.
— Eu nunca disse que matei Stefan — afirma Taynara, assumindo uma postura fria. — E não me arrependo nenhum pouco disso. Aquele homem era um monstro que destruiu a minha vida e de inúmeras outras pessoas inocentes.
— Não fale assim do meu pai! — grito, avançando contra ela.
Prince imediatamente me segura e Gavin se coloca na frente da garota, impedindo que eu a alcançasse. Meu corpo tremia e eu sentia meu sangue ferver. Eu queria estrangular Taynara e destruir aquela expressão inabalável que ela exibia.
— Controle-se, Manu! — sussurra Prince contra meu ouvido, apertando-me ainda mais em seus braços. — Não deixe que ela te faça perder a razão. Lembre-se do porquê estamos aqui.
Travo os dentes e me forço a controlar minhas ações. Procuro focar em Prince e em sua respiração, que assim como anos atrás, ainda me traz um certo acalento. Quando parecer perceber que eu estou mais calma, o rapaz me solta e me encara, quase como uma súplica para que eu não voltasse a me deixar levar pelas minhas emoções.
— Como você pode ser tão psicopata assim? — indaga Tyler, visivelmente abalado com as palavras de Taynara. — Você matou o pai da pessoa que te salvou e ainda parece sentir orgulho disso. Quem é realmente o monstro aqui?
— Não fala do que você não sabe, Tyler — retruca Gavin, ameaçando se aproximar, mas Taynara puxa o pulso do rapaz e o detém. — Tay...?
— Está tudo bem, Gavin — responde Taynara, encarando-nos calmamente.
Taynara se aproxima de nós com passos lentos e firmes. O vento gélido balançava seus cabelos e os olhos azuis brilhavam mostrando todo o ódio que ela sentia. Eu apenas não sabia dizer para quem seus sentimentos eram direcionados. Mas, sinceramente, nada disso fazia diferença para mim. Eu só queria pegar uma arma e atirar contra sua cabeça, assim como ela fez friamente contra meu pai.
— Vocês têm razão. Talvez eu seja um monstro. Eu fiz muitas coisas ruins nos últimos anos, tentando desesperadamente sobreviver. Mas o que vocês entenderiam? — indaga Taynara, dando um sorriso irônico. — Mesmo que não sejam mais crianças, suas visões permanecem distorcidas sobre quem Stefan realmente foi.
— Você não é um monstro — resmunga Gavin e Taynara o lança um olhar duro, que o faz se encolher, chateado.
— E o que você sabe? Você nem mesmo o conheceu! — acusa Prince, enfrentando a garota. Gavin ameaça se colocar na frente de Taynara de novo, mas ela apenas ergue a mão, em um sinal para que ele ficasse quieto.
— Mais do que vocês, pelo visto — retruca a garota, aproximando-se mais.
Ela fica a poucos centímetros de Prince e o lança um olhar tão gélido, que ele também parece vacilar por alguns instantes. Mesmo sendo maior do que ela, naquele momento, Prince parecia uma criança diante da presença marcante de Taynara.
Havia algo de assustador na maneira como ela se movia. Ela como se cada movimento fosse calculado. Quase como uma víbora prestes a atacar sua presa.
— Você esteve ao lado de Stefan a vida toda. O viu ao lado de seu pai, matando e torturando pessoas de países opositores a tirania de Lester. Ele não tinha qualquer piedade. Na verdade, até sentia prazer em vê-los sofrer — afirma, dando mais um passo em direção a Prince. — Quantas vezes vocês presenciaram Stefan ultrapassar os limites com pessoas inocentes vindas de outros países para se tornar exemplos para os outros? Ele não era muito melhor do que Lester.
— Isso não é verdade! — exclamo, inconformada.
— É verdade sim! — grita Taynara de volta, agora, encaminhando-se até mim. — Prince e Tyler assistiram isso com frequência. Veja! Eles nem mesmo conseguem negar!
Viro-me para Prince e Tyler, esperando que eles negassem o que ela dizia, mas ambos pareciam refletir sobre as palavras de Taynara. Eu não conseguia acreditar que aquilo poderia ser verdade. Mesmo com toda a rigidez típica de um militar, Stefan Santos sempre foi um pai carinhoso e presente. Eu não podia simplesmente acreditar nas palavras de Taynara.
— Se ele fosse tão íntegro e justo como vocês o fazem parecer, Tony e Henry jamais teriam escondido a localização de Prince dele naquela época — argumenta Taynara, voltando-se para o lado de Gavin. — Vocês gostem ou não, Stefan era uma pessoa cruel e mau-caráter...
— Isso não importa — responde Prince, interrompendo Taynara. — No fim, você nos traiu ao revelar a minha localização e atacou ao castelo junto com Gavin. Pode ser que Stefan não fosse uma pessoa tão bondosa, mas por sua culpa, ele, Henry e Tony estão mortos! Você acabou com a vida de pessoas que a consideravam uma amiga.
— O quê?! Cala a boca! Vocês não sabem de nada! — afirma Gavin, furioso. Ele avança contra Prince e o puxa pelo colarinho da camisa que usava.
O punho de Gavin se fechou ainda mais no colarinho de Prince, puxando-o para frente com uma força que fez o corpo de ambos vacilar. O olhar de Gavin ardia em fúria, e por um instante, a clareira se encheu do som ofegante da respiração dos dois.
— Você não sabe nada do que realmente aconteceu! — ruge Gavin, cuspindo as palavras no rosto de Prince. — Vocês sempre foram cegos demais para enxergar quem era realmente Stefan e o que de fato aconteceu quatro anos atrás! É por isso que Tony e Henry nunca contaram nada para vocês!
Prince, no entanto, não recuou. Pelo contrário, avançou meio passo, colando os olhos nos de Gavin, o maxilar travado com a voz carregada de veneno.
— E você sempre foi um covarde, que se escondia atrás da ganância do seu pai! Tudo porque ele não aceitava que a coroa de Krósvia tinha sido passada para o meu pai e não para ele! Você e ele foram a maior desonra da nossa família!
O ar pareceu explodir entre eles. Gavin empurra Prince com violência e o rapaz responde com um soco certeiro no queixo dele. Em segundos, estavam em um embate corpo a corpo, seus movimentos pesados ecoando pelo chão úmido.
Tyler deu um passo à frente, pronto para intervir, mas para ao sentir minha mão agarrar seu braço. Eu só conseguia pensar que isso colocaria imediatamente a missão em risco e os reféns poderiam ser mortos. A tensão era tanta que parecia impossível me mover sem ser engolida pelo redemoinho de ódio que se formava diante de nós.
E então, tudo aconteceu rápido demais.
Taynara avança com a velocidade de um raio. Seus passos mal soaram na grama antes que suas mãos já estivessem nos dois rapazes. Com um giro preciso, ela torceu o braço de Gavin para trás e, ao mesmo tempo, acertou o joelho de Prince, forçando-o a cair de lado.
Em menos de três segundos, ambos estavam no chão, imobilizados. Gavin praguejava, tentando se soltar, enquanto Prince cerrava os dentes, humilhado por estar sob o domínio dela.
Meu primo e eu nos entreolhamos, tensos, sem saber se era certo interferir. A cena era brutal, mas também revelava algo que não podíamos ignorar. Taynara não estava ali para brincar e ela tinha habilidades o bastante para nos destruir.
— Chega! — ordena Taynara, soando tão afiada quanto uma lâmina. — Essa briga não vai levar vocês a lugar nenhum.
Ela solta os dois com a mesma rapidez com que os dominara. Prince e Gavin rolam no chão, recuperando o fôlego, mas ainda com os olhos cheios de rancor.
Taynara então ergue o olhar para mim e Tyler. Havia autoridade em seu tom, mas também uma estranha calma, como se estivesse nos dando uma informação crucial.
— Os reféns já foram libertados. Seus amigos estão a caminho, em segurança.
Meu coração falha uma batida. A clareira parece ficar em silêncio absoluto.
Tyler engole em seco, enquanto arregala os olhos. Prince congela por um instante. A raiva parece ceder lugar à surpresa. E Gavin apenas se levanta. Eles passam a conversar em um idioma que eu não sabia identificar qual, mas era evidente que estavam em desacordo.
Por fim, Gavin parece perder a discussão, pois imediatamente bufa e se afasta, bagunçando seus cabelos loiros. Por outro lado, Taynara se manteve firme e controlada. Ela apenas volta sua atenção para nós.
— Eu sabia que vocês dificilmente acreditariam em mim, mas estou bastante decepcionada ao ver que vocês preferem ignorar os crimes de Stefan para me atacar ao invés de entenderem a verdade — responde Taynara, encarando-nos com um brilho de decepção nos olhos.
— Foi você que matou minha família e fugiu por quatro anos — acuso, sentindo a raiva ferver pelo meu corpo. — Agora você sequestra nossos amigos e nos ameaça para nos encontrarmos com vocês. Não tentem se fazer de vítima aqui para manipular essa situação. Eu já não sou mais uma criança para acreditar nas mentiras que você conta. No fim, nunca vai mudar o fato de que você foi a responsável pela morte da minha família. E enquanto eu viver, eu juro que eu vou matar você, Taynara. Não importa quantos anos passe, eu vou fazer você pagar amargamente pelo sua traição.
A garota me encara com seriedade e posso ver um brilho de dor em seus olhos. Mas nada disso importava para mim. Eu apenas queria acabar de uma vez por todas com a pessoa que tirou a minha família de mim. Eu jamais a perdoarei.
Taynara me encara em silêncio por alguns segundos que pareceram eternos. O vento gélido passa por entre as árvores, erguendo algumas mechas de seus cabelos escuros, mas ela não desviou os olhos dos meus.
Então, com um suspiro baixo, sua expressão se transforma em algo ainda mais frio, como aço endurecido pelo fogo.
— Em momento algum eu vim em busca do seu perdão, Manu — responde Taynara de maneira firme. — E nem pretendo me justificar mais. Eu tentei abrir os olhos de vocês, mas está claro que já não existe mais diálogo entre nós. Vocês podem me odiar pelo resto da vida, podem repetir quantas vezes quiser que vão me matar, mas saiba de uma coisa. Eu não vou morrer até cumprir o meu objetivo. Eu fiz uma promessa ao amor da minha vida que sobreviveria a qualquer custo e é isso que eu vou fazer. Mesmo que para isso eu tenha que destruir tudo o que está em meu caminho.
Ela dá um passo à frente com os olhos azuis faiscando como lâminas sob a luz cinzenta da clareira.
— Eu vou destruir a coroa krosviana. Vou acabar com tudo o que ela representa e vou cobrar de seu pai, Prince, cada gota do sofrimento que ele trouxe para mim e para tantos outros. Eu te garanto que ele terá uma morte bastante dolorosa e eu vou assistir à queda dele e de todos que me destruíram, nem que essa seja a última coisa que eu faça.
A maneira como ela disse aquelas palavras fazia cada sílaba soar como uma sentença. Prince cerra os punhos, demonstrando os músculos tensos, mas não responde. Era como se até ele soubesse que qualquer palavra agora seria desperdiçada diante da convicção dela.
Taynara ergue o queixo e lança o olhar sobre nós quatro. O ar parecia vibrar entre ódio e promessa, até que ela concluiu, com a mesma calma de quem traça um destino inevitável.
— Este foi o último encontro amigável que teremos. Na próxima vez que cruzarmos nossos caminhos, não haverá conversa, apenas guerra — garante, fazendo sinal para Gavin de que eles iriam embora.
Taynara ainda não havia dado as costas completamente quando parou de andar e se virou para nós de novo. O silêncio da floresta pareceu se aprofundar e o vento cessou de repente, como se até a natureza estivesse à espera de suas próximas palavras. Ela vira levemente o rosto e seus olhos azuis nos atingem como lâminas afiadas.
— Ah, antes que eu me esqueça… — comenta, encarando-nos com uma expressão de sarcasmo. — Transmitam um recado para Johnny.
Meu coração se contrai ao ouvir o nome dele. A lembrança da noite em que partimos juntos de Füssen, anos atrás, voltou à minha mente como uma punhalada. Prince também endureceu a postura, e vi a mandíbula dele tremer com a força que fazia para conter a raiva.
— Digam a ele que esta foi a última vez que ousou entrar no meu caminho.
O tom de Taynara não era apenas frio, era uma sentença carregada de rancor. Eu não sabia o que Johnny havia feito, mas ela parecia furiosa só de pensar no líder da Resistência. — Na próxima, não haverá misericórdia. Johnny aprenderá como a vida pode ser cruel com aqueles que metem o nariz onde não são chamados.
— Se você encostar um dedo nele… — rosno, mas minha voz sai mais frágil do que eu queria.
— Você não pode me impedir, Manu — afirma, com um olhar intenso e implacável sobre mim. — Nem você, nem Tyler, nem Prince. Johnny se meteu em uma guerra que não era dele, e agora terá de arcar com as consequências.
Prince dá um passo à frente com os olhos faiscando como brasas.
— Se tocar nele, eu juro que vou caçar você até os confins do inferno — garante Prince, com a voz carregada de ódio contido.
Por um instante, parecia que os dois iriam se lançar um contra o outro novamente. Gavin ergue o corpo, tenso, pronto para intervir. Mas Taynara apenas ergue o queixo e sustenta o olhar de Prince com um meio sorriso gelado.
— Então espero você lá, Prince — responde Taynara. Ela respira fundo, quase como se sentisse prazer na promessa, e encara Prince de forma perigosa. — Porque no fim, tudo isso vai se reduzir a certeza de que eu não vou morrer até destruir a coroa e que vocês não vão descansar até tentar me destruir. O único caminho que nos resta é arder no inferno ao fim de tudo.
Um silêncio carregado tomou conta da clareira. Eu podia sentir meu sangue fervendo, mas minhas pernas estavam presas ao chão, incapazes de reagir. Tyler me segura pelo braço discretamente, como se tivesse medo de que eu avançasse mais uma vez.
Taynara então se virou de vez. Gavin a seguiu, ainda relutante, lançando um último olhar de ódio para Prince. E em poucos passos, ambos desapareceram entre as árvores.
A clareira permaneceu imóvel. O ar parecia pesado demais para respirar, como se ainda estivéssemos sob o peso da presença dela.
— Maldita… — sussurro, sentindo o gosto amargo da impotência na boca.
Prince não respondeu. Apenas ficou parado, encarando a direção por onde Taynara havia desaparecido, com o punho cerrado e o olhar sombrio de alguém que já não podia voltar atrás.
— Isso não acabou — garante Tyler, ao meu lado, finalmente soltou o ar que parecia estar segurando desde o início.
E dentro de mim, eu sabia que não apenas não havia acabado, como aquilo tinha sido apenas o prelúdio da guerra que se aproximava.
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