Fire Scars
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
Eu fiz o pedido da marca que você moldou
Não se cicatriza tão rápido
Eu escuto sua voz no silêncio
Irá a provocação do fogo ser seguida por um baque?
Fire and The Thud — Arctic Monkeys
✻
Krósvia – 1995
Os passos dos soldados inimigos eram audíveis mesmo estando a vários metros de distância da estrada pela qual os homens armados marchavam. Com sua postura rígida e olhares perversos, eles demonstravam o motivo por serem chamados de guerreiros das trevas pelos krosvianos.
Manu agarrou-se à casca do carvalho, apertando o corpo contra a árvore como se esta pudesse protegê-la. Mas tudo que sentiu foi a aspereza. Não podia ficar ali. Os inimigos poderiam perceber sua presença facilmente, afinal, o céu ainda estava claro, apesar de nublado.
A jovem garota observou em volta, tentando encontrar alguma saída. Arrependia-se amargamente de ter desobedecido Tony, seu irmão mais velho. A ordem do moreno havia sido clara: ela deveria permanecer em casa, na segurança do lar, enquanto Tyler, Henrique e ele sairiam em busca do pai.
A única coisa que os irmãos e o primo da morena haviam se esquecido era que Emanuelle Santos sempre foi uma criança teimosa demais para obedecer tal ordem. A criança de onze anos nunca foi o exemplo de tranquilidade e, com a guerra prestes a acontecer, ela jamais ficaria em casa, trancada, fingindo que nada estava acontecendo.
Mesmo sabendo que receberia uma bronca, a garota juntou tudo o que achou necessário dentro de sua bolsa e resolveu se arriscar na densa floresta de mata fechada de Krósvia. Ela sabia que o pai estava no esconderijo inimigo e acreditava ser a única capaz de salvar o homem.
No entanto, os planos da criança foram por água abaixo ao ser encurralada por uma grandiosa tropa inimiga, coberta por armas de intenso poder de destruição. Sua única opção foi manter-se escondida entre as árvores, torcendo para não ser descoberta.
Observando a movimentação, Manu avistou um casal e três crianças, duas meninas e um menino, sendo arrastados para uma área mais aberta da floresta, por cinco homens. Mesmo sabendo que deveria permanecer onde estava, a criança começou a se aproximar, na tentativa de ver o que estava acontecendo.
Acorrentados e amordaçados, a família tentava a todo custo se livrar das amarras que os prendiam. O pavor brilhava com intensidade em seus olhos. Eles iriam ser mortos. Sabiam disso.
Os soldados, carregando sorrisos maliciosos e malignos, aproximaram-se da mulher, arrancando suas roupas sem delicadeza alguma. O marido e os filhos se debatiam, parecendo implorar para que eles se afastassem.
Um dos homens pega um cigarro e o acende. Ele ordena que outros dois soldados segurem a mulher, fazendo com que fosse quase impossível que ela continuasse a se remexer. Os outros dois permaneceram ao lado das crianças e do homem, segurando suas armas na cabeça de cada um. O moreno, que parecia ser o mandante do grupo, sorri com escárnio e se aproxima da mulher, possuindo um olhar que dava enjoo a menina que observava a cena.
Após dá uma profunda tragada em seu cigarro, ele aproxima seu rosto ao da mulher e libera a fumaça na cara de sua vítima. A mulher começa a tossi e a chorar ainda mais. Impetuosamente, o soldado queima a face coberta de lágrimas da bela jovem com o seu cigarro, sorrindo com crueldade.
Ela urra de dor, se debatendo com a ardência que a queimadura causava. Os soldados riram em deleito, demonstrando a sua satisfação ao ver a reação da mulher. Os olhos daqueles homens eram como os de um demônio transbordando perversão, maldade e prazer pelo terror.
Eles não haviam se cansado das torturas. A garota escondida viu cada um dos soldados inimigos estuprarem, agredirem e torturarem física e mentalmente a mulher. E eles permaneceram fazendo um rodizio até a mulher não se mexer mais. Manu soubera no mesmo instante que a mulher havia morrido.
Em choque, a menina observa os apelos do homem e das crianças. O homem, que comandava as ações dos soldados, aproximasse das duas garotas. Elas não aparentavam ter mais que doze e quatorze anos. Ele pega no cabelo da mais velha e leva uma mecha ao nariz. Inspirando o perfume da jovem garota, ele exibia as feições de um maníaco.
Manu ver os homens repetirem o estupro com a menina e depois com a irmã da mesma. Enquanto eram violentadas, elas imploravam por ajuda. A garota nunca havia visto tanta crueldade. Os gritos ecoavam pela floresta. Os sangues das mulheres manchavam o chão e a mente da já não tão inocente criança.
Lamentavelmente, Manu conhecia bem a guerra. Sabia que havia maldade de todos os lados. O pai da garota deixava bem claro a ela que em um campo de batalha, não existe bondade e muito menos piedade. Todos possuíam o mesmo pensamento: Elimar seus inimigos, não importando qual método seria usado.
Os soldados, cansados de tanto barulho, atiraram na cabeça do homem e do filho, sem demonstrar qualquer traço de arrependimento. A criança colocou a mão frente a boca, evitando que um grito saísse da mesma.
Insaciáveis, os homens continuaram a atirar nos corpos sem vida, gritando e gargalhando em divertimento. O cheiro de carne queimada se espalhava pela floresta. O sangue se espalhou por todos os lados. A floresta havia virado uma carnificina, coberta por corpos inimigos e de krosvianos que lutavam na guerra.
O medo começou a dominá-la de maneira surpreendente. Ela não deveria estar ali. A garota queria apenas o pai, o primo e os irmãos próximos de si. Nunca em sua vida, havia desejado tanto está em casa, embaixo de seus cobertores, protegendo-se do frio típico de Krósvia.
As lágrimas desciam silenciosamente, enquanto a garotinha rezava para que aquele pesadelo tivesse fim. Desde que Stanley, rei de Garbard, havia ordenado um ataque ao seu amado país, os krosvianos não tiveram mais paz.
O exército, comandado por seu pai, lutava dia e noite para proteger Krósvia, mas a morena sabia que a situação era bem mais grave do que aparentava. Os reis tentavam a todo custo por um fim ao que parecia ser a pior guerra de todos os tempos, perdendo apenas para a Guerra dos Vinte Dias.
Assim que os soldados que estavam próximos de Manu foram embora, a garota aproveitou a oportunidade para correr. Ela passou pelos corpos da família e evitou olhar para a cena. Sabia que não podia perder tempo prendendo-se a coisas que não poderiam ser mudadas. O fim havia chegado para aquela família e, se ela permanecesse parada, o mesmo aconteceria a ela.
Por sorte, em poucos minutos, Manu avistou o acampamento inimigo, onde seu pai estava sendo feito de refém. Ela teve que se controlar ao máximo para não gritar pelo homem e, mais ainda, para não correr ao seu encontro.
O lugar estava cercado por soldados inimigos e por armas de fogo. Escondendo-se entre as árvores, ela aproximou-se mais do local, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Seu pai havia lhe ensinado que a discrição, em momentos de crise como o atual, era o segredo para a vitória.
Stefan estava cansado e muito machucado. A filha o olhava com preocupação. A face do pai estava manchada por sangue seco e repleto de hematomas. Havia inúmeros cortes e marcas espalhados pelo corpo e as correntes que o prendiam, cortava a pele do homem, que se controlava ao máximo para manter a consciência.
Em movimento rápido, o homem ver sua filha a alguns metros de si. A garotinha o observava assustada, desesperada por ver o estado do pai. Stefan temia por sua menina e implorava a qualquer entidade divina que ela fugisse dali e encontrasse algum lugar seguro.
A atenção de pai e filha foram tomadas pelo enorme estrondo vindo de um lugar próximo ao acampamento dos soldados de Edgar. Seus fiéis homens, finalmente, haviam conseguido encontrar sua localização. Stefan não conseguiu evitar de soltar um suspiro de alivio, mesmo sabendo que as coisas ficariam mais intensas naquele momento.
Dando um último olhar para a filha, que percebeu que o pai já havia descoberto a sua presença, ele pede, silenciosamente, para que a garota permaneça em sigilo, no lugar onde ela estava, afastada dos tiroteios e bananas de dinamites que eram lançadas no esconderijo do inimigo. Stefan volta a prestar atenção no confronto que seguia com intensidade a sua frente.
Seus homens atacavam sem piedade, matando cada inimigo com agilidade, desejando que aquilo acabasse o mais breve possível. Não estavam em condições de se arriscarem em missões como aquela, afinal, já haviam perdido homens demais, mas precisavam de seu comandante.
Em questão de minutos, o silêncio voltou a reinar pela extensa floresta. Finalmente, Manu se viu em segurança. Conhecia cada um dos homens que estavam ao redor de seu pai e o mesmo estava a salvo.
Quando livre, a primeira coisa que Stefan sentiu foram os bracinhos finos de sua filha rodearem suas pernas. O homem suspirou aliviado por ver que sua garotinha estava bem. Com dificuldade, devido as fortes dores, o moreno ajoelhou-se frente a filha e a abraçou com força, sentindo seu coração se aquecer com carinho.
– Papai. – sussurra a garota, chorando em silêncio. – Faça a guerra parar.
Stefan sente seu coração apertar. Emanuelle não era o tipo de criança que demonstrava seus medos e receios com facilidade. Por conviver cercada por três rapazes, ela jamais permitia que a tratassem como se fosse uma boneca de porcelana, mesmo que no fundo essa fosse a verdade.
Seus homens observavam a cena calados, esperando alguma ordem por parte de seu comandante. Stefan olha nos olhos da filha e limpa as lágrimas que desciam pelo rosto belo e delicado da criança. Ele suspira cansado, não sabendo o que falar para a garotinha.
– Manu. – fala o homem, com a voz suave. – Eu prometo que farei de tudo para acaba-la o mais breve possível. Mas, precisa prometer que se manterá a salva.
– Por que não posso ajuda-lo, como Tony, Henry e Tyler? – pergunta a garota, demonstrando sua insatisfação por não poder participar da luta.
– Já conversamos sobre isso, querida. – responde o pai, tentando convencer a criança. – Você é só uma menina. Não deve se envolver em assuntos tão perigosos como a guerra. Seus irmãos e Tyler são garotos, treinam desde cedo para serem guerreiros.
– Então, treine-me, assim como faz com eles e o príncipe. – pede Manu, fazendo o pai soltar um suspiro cansado.
– Não seja tola. – diz o homem, ainda mantendo a voz suave. – Não quero que se machuque. Precisa ficar longe disso, Emanuelle.
– Por favor, papai. – implora a garota, mesmo sabendo que seria quase impossível ter a aprovação do pai. – Eu posso aprender. Eu não quero ficar parada, vendo todos fazendo o possível para tudo terminar.
– Por que quer tanto aprender a lutar, filha? – pergunta o pai, exasperado. – Você é só uma menina. Por que participar de algo tão destrutivo?
– Porque estou com medo. – responde, surpreendendo a todos. – Não quero sentir medo, papai. Não quero perder você ou Tyler, Tony e Henry. O senhor mesmo disse que somos uma família e devemos permanecer unidos. Deixa-me ajudar, papai. Eu posso aprender! – a garotinha volta a repetir.
O homem olha para a filha, admirado. Jamais imaginou que a garotinha pudesse ser tão corajosa. No entanto, ele não poderia colocá-la em perigo. Havia jurado a si mesmo, assim que a pegou em seus braços pela primeira vez, que a protegeria de todo mal. Não poderia envolvê-la em algo tão arriscado quanto as batalhas que estavam ocorrendo em Krósvia.
– Desculpe, querida. Eu não posso deixá-la correr tanto perigo. – fala o homem, tentando não se deixar levar pelo olhar decepcionado da filha.
– Comandante. – chama um dos soldados. – Nós precisamos ir. Um grupo de soldados inimigos está marchando em direção ao centro da cidade. Eles planejam atacar os civis.
– Papai, por favor. – pede a criança mais uma vez. – Ensine-me a lutar.
Stefan olha para o homem que havia passado a informação do futuro ataque dos inimigos. Ele se levanta e olha para a criança que estava próxima de si. Após soltar um suspiro cansado, o homem acaricia a cabeça da menina e balança a cabeça negativamente.
– Volte para casa e tome cuidado. – fala Stefan, direcionando o olhar para a filha. – Fique lá até seus irmãos voltarem.
– Papai! – a garota volta a chamar.
– Homens, preparem suas armas. Precisamos impedir que mais inocentes sejam sacrificados. – fala o homem, ignorando os apelos de seu corpo para um descanso, ele continua a gritar para seus soldados: — Eles estão contando conosco. Não podemos decepcionar o povo e muito menos nossos reis!
– Sim, senhor! – grita os homens.
Com o apoio de seus homens e sua força de vontade a todo vapor, Stefan estava pronto para lutar para proteger o país que tanto ama. Sua filha o olhava com preocupação e decepção. Sabia que suas palavras haviam magoado a doce garota e isso o matava.
– Manu, vá! – pede o homem, mais uma vez.
Contrariada, a garota começa a andar na direção oposta. Ela estava frustrada. Todos em sua casa a julgavam incapaz de lutar apenas por ser uma garota. Manu sabia que era capaz de lutar tão bem ou até melhor que qualquer garoto. Ela só precisava aprender.
Observando sua filha partir, enquanto seus homens marchavam em direção a cidade, Stefan passa a mão por seus cabelos castanhos. Foi inevitável não soltar um murmuro de dor, ao sentir os dedos tocarem um de seus ferimentos. E, antes que a filha sumisse de seu campo de vista, o homem solta um suspiro frustrado. Era incrível como não conseguia dizer “não” à sua caçula.
– Manu. – grita o homem, chamando a atenção da garota.
Assustada, a garota se vira para ver o motivo do chamado do pai. Ele faz um gesto para que ela se aproximasse. Desconfiada, Manu começa a andar na direção do homem, que era tão parecido consigo. Após receber um sorriso carinhoso do pai, Manu apressa o passo, não demorando a ficar frente a frente com o homem.
– O que houve, papai? – pergunta a garotinha, confusa com o olhar que o pai lhe lançava.
– Eu irei treina-la. – fala o homem, fazendo a doce criança arregalar os olhos, sorrindo encantada. A animação tomou conta da menina de forma que era impossível não ver o brilho em seu olhar. – Mas, apenas com uma condição.
– O que seria? – pergunta, um pouco menos animada. Ela sabia que o pai havia mudado de ideia muito fácil. Com certeza, havia algo de errado com isso.
– Você terá que obedecer todas as minhas ordens. – diz o homem, com seriedade. – Fará tudo o que eu pedir, sem reclamar. Não importa o que eu peça, terá que cumprir. E então? Está disposta a isso para receber seu treinamento?
Stefan observa a filha, que demonstrava uma seriedade impressionante para uma criança. Seus olhos estavam distantes, pensativos, como se analisasse a situação. Não era para menos. A garota sempre teve a personalidade forte. Seguir ordens não era muito a sua cara. Ela admitia, era teimosa como uma pedra.
– Tudo bem. – ela concorda, sorrindo para o pai. – Obrigada papai.
– Comandante. – um soldado chama a atenção de Stefan.
Estava na hora de partir. Stefan precisava se concentrar na batalha que estava para comandar. No entanto, sabia que agora conseguiria lutar com tudo que tinha, sem se preocupar com sua caçula ou em como partiu o coraçãozinho da menina. Ele não negava que era um pai muito mole, quando se tratava de sua princesinha.
– Eu preciso ir. – diz o homem, dando um beijo na testa da filha. – Volte para casa. Lembre-se, você precisa me obedecer, se quiser ser treinada.
– Eu já entendi, papai. – fala a garota, sorrindo para o pai. O homem sorri para a filha e começa a correr na direção de seus homens, ainda sentindo dor pelos ferimentos. – Papai. – grita a menina.
O homem para de correr e olha para trás. Ele estava com pressa. Precisava chegar o mais rápido possível ao centro da cidade. No entanto, antes que pudesse reclamar com a filha sobre a interferência, ele ver a garotinha sorri de uma maneira que ele jamais a viu antes.
– Eu te amo, papai. – grita, surpreendendo Stefan.
– Eu também te amo, querida. – grita de volta, sorrindo emocionado. Sabia que era bobagem, mas essa era a primeira vez que a filha dizia tal frase ao homem. – Eu também te amo. – ele sussurra para si mesmo.
✻
Continua...
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