Fire Scars
15 Perdas
Notas iniciais
Capítulo XIV – Perdas
“Bem, todos nós cometemos errosVocê pode cair em seu rostoMas você tem que se levantarEu prefiro estar altoDo que viver de joelhosPorque eu sou um conquistadorE eu não vou aceitar a derrotaTente me dizendo nãoUma coisa sobre mimÉ que eu sou um conquistadorEu sou um conquistador”Conqueror — Jussie Smollett feat. Estelle
Krósvia — 1995
As lutas intensas continuavam pelo castelo. Dandara, Gavin, Tony e eu corríamos por entre os corpos sem vida jogados pelo chão e os soldados que lutavam contra os membros da resistência. Pessoas gritavam, bombas explodiam e era possível ouvir o som de tiros a todo instante, mas pela primeira vez, eu não me importava com mais nada. Eu não me importava com a dor que sentia em meu abdome, tampouco com os ferimentos causados pelas torturas que sofri durante os últimos dias.
O ódio queimava a minha alma e me dava forças que eu nem mesmo sabia que ainda havia dentro de mim para continuar a lutar contra todos os que ousavam tentar nos parar. Vez ou outra que recebi olhares preocupados de Gavin, que continuava a segurar minha mão com firmeza, mas não dizíamos nada. Não era o momento para lidar com o luto, ainda que a cólera e a dor fossem dilacerantes.
— Onde está o meu pai? – Questiona Gavin, assim que chegamos em um cruzamento do corredor que estava repleto de soldados de Krósvia e de Serafine, os maiores aliados de Lester. – Ele saiu com vocês da sala do trono naquela hora. Para onde ele foi?
— Ele foi atrás de Lester. – Responde Dandara, recarregando sua arma antes de atirar contra os soldados que se aproximavam. – Ele falou alguma coisa sobre tentar colocar juízo na cabeça do primo. Mas todos nós sabemos que isso é inútil. Aquele lixo de ser humano nunca vai mudar.
— De qualquer forma, é melhor nós nos apressarmos. – Afirma Tony, encarando-me com os olhos vermelhos. A dor presente neles era tão intensa quanto a minha. – Taynara precisa de um lugar para descansar e temos que cuidar dos ferimentos dela.
— Eu estou bem. – Dito, atirando nas cabeças de cinco soldados que se aproximavam. Pego a munição no bolso de Gavin e recarrego a arma, atirando em mais homens que ainda tinham coragem de nos enfrentar. Minha mira nunca esteve tão boa quanto naquele momento. Eu apenas queria descontar todo o ódio que percorria minhas veias, mas antes que eu repetisse a ação de recarregar a arma pela terceira vez para impedir que mais soldados se aproximassem, Tony segura meu pulso e retira a arma da minha mão.
— Já chega. – Tony suspira e entrega minha arma a Gavin. Ele coloca as duas mãos em meus ombros e se abaixa até ficar à altura dos meus olhos. – Eu entendo o que está sentindo, mas...
— Não. Você não entende. Nunca vai entender, Tony. – Respondo, afastando-me do rapaz, que suspira e passa a mão pelo rosto, visivelmente frustrado. Pego a arma de volta da mão de Gavin e atiro nos dois homens que se aproximavam, deixando o cruzamento vazio de uma vez por todas.
— Tay...
— Deixa-a em paz, Tony. – Pede Dandara, aproximando-se de mim. Ela suspira e me abraça de forma maternal. – Ela tem razão. Você nunca vai entender o que ela está passando ou sentindo.
— E você entende? Você nem ao menos sabe o que aconteceu! – Exclama Tony, parecendo chateado pela interferência de Dandara.
— Eu não preciso saber para entender o que está acontecendo, Anthony, porque eu já estive no lugar dela!
As palavras são ditas com dor e pela forma como ela me aperta fez eu entender no mesmo instante que Dandara entendia melhor do que qualquer pessoa nesse lugar como eu me sentia. Tony a encara arrependido e recua. Ele parecia entender ou apenas havia se lembrado que havia tocado em um ponto delicado. Troco olhares com Gavin, que dá um fraco sorriso e se afasta para vigiar os corredores.
— Dandara, eu... eu sinto muito. – Tony suspira e se aproxima da linda mulher que me abraça com ainda mais intensidade. Correspondo ao gesto, sentindo as lágrimas se formarem em meus olhos. Em questão de segundos, entrego-me ao choro doloroso e desesperador.
— O que eu faço agora? Eu perdi a pessoa que eu mais amava nesse mundo, eu nunca mais serei capaz de realizar o meu sonho de ser mãe, eu não tenho família e nem mesmo tenho um lar para onde voltar. – Despejo a minha dor contra o peito de Dandara, sentindo cada célula do meu corpo tremer de medo pelo futuro.
Dandara me afasta e seus olhos verdes me encaram com emoção. Ela dá um lindo sorriso e encosta sua testa na minha. Nossas mãos se entrelaçam e eu sinto uma força inexplicável da mulher, quase como uma afirmação muda de que eu não estava sozinha.
— Tay, eu sinto muito, muito mesmo. Eu deveria ter te protegido. Deveria ter cuidado melhor de você. Evitado que aquele desgraçado te machucasse. Eu...
— Não foi sua culpa. – Afasto-me de Dandara e vejo a culpa brilhar com intensidade em seus olhos. Aperto suas mãos e tento dar um sorriso em meio a toda a dor que sentia. – Você fez muito mais por mim do que qualquer pessoa da minha família já fez. Eu sou muito grata a vocês. Eu só... não sei o que será de mim agora. Sem o Henry ou... ninguém. Eu não tenho mais ninguém, Dandara. Acabou. Eu estou sozinha e a culpa é toda minha. Se eu... se eu tivesse morrido antes da Manu me encontrar, nada disso teria acontecido. Todos estariam bem e felizes, mas por minha culpa, Henry e Sean estão mortos. Manu, Tyler e Prince me odeiam com razão. Minha mãe me deu as costas, minha avó nem mesmo sabe que eu fugi de casa. Por minha causa, Tony se tornou um traidor do trono, Gavin nunca mais será aceito em Krósvia e o pai dele está lutando com o próprio primo. Eu... eu não tenho mais ninguém e depois de tudo, eu realmente mereço ficar sozinha.
— Isso não é verdade! – Afirma Tony se aproximando. Gavin também aparece e seus olhos azuis estavam molhados e vermelhos.
As lágrimas descem mais intensamente pelo meu rosto. Soluços escapam pela minha garganta. Pensar em meu namorado e em Sean trazem toda a dor com ainda mais intensidade. Os pontos em minha barriga latejam e se repuxam, voltando a sangrar, quase como se em um aviso cruel de que eu não merecia ter uma família. Dandara volta a me abraçar apertado. Os braços de Anthony também odeiam meu corpo e Gavin se junta ao gesto caloroso, enquanto todos choravam baixo.
— Nunca mais diga tanta idiotice assim para mim, porque eu juro que eu vou bater em você. – Resmunga Dandara, afastando-se. Os rapazes também dão espaço para que pudéssemos conversar. – Ei, olha para mim.
Ao ver que eu não conseguia encarar seus lindos olhos verdes por estar envergonhada e me sentindo culpada demais para isso, ela pega em meu queixo e me obriga a erguer a cabeça. Mesmo com o rosto manchado de lágrimas e sangue, Dandara continuava a exalar uma beleza inexplicável. Ela respira fundo e limpa o meu rosto.
— A Fire Scars é a sua família, o seu lar. Podemos não ser perfeitos e eu sei que nada do que eu disser vai curar a dor que você está sentindo pela morte de Henry, querida, mas nós estamos aqui para te levar de volta. Você não está sozinha, Taynara. Tony, Gavin e eu sempre estaremos com você. Querendo ou não, você agora é parte da nossa família. – Afirma Dandara e me surpreendo com a sinceridade presente em suas palavras.
— Isso é verdade? – Pergunto, soluçando. – Vocês me consideram parte da família?
— Não faça perguntas bobas. Acha mesmo que a gente atacaria o castelo de Lester de maneira tão inconsequente se não a considerássemos? Mesmo eu não sendo tão mais velha que você, ainda a considero como uma filha, Tay. Eu te amo e tenho orgulho de você e da sua força. Você é brilhante e tem um futuro incrível pela frente. Eu sei que você pode ser quem você quiser ser, Taynara. E nós três estaremos sempre com você para te apoiar, te amar e dar toda a força que você precisa para seguir em frente. Nós iremos sempre te proteger. – Declara Dandara e isso é o bastante para que eu chorasse de emoção e alívio. As lágrimas também descem pelo rosto da mulher. – E para de chorar que você está me fazendo perder a pose de durona que eu tenho que ter.
— Todos nós sabemos que essa pode não passa de uma fachada. No fundo, você tem um coração de manteiga derretida. – Brinca Tony, encarando a mulher com aquele brilho apaixonado e de admiração nos olhos.
— Não brinca com fogo. Eu ainda posso acabar com você. – Resmunga a mulher, abraçando-me com carinho.
— Eu tenho certeza que sim. – Garante Tony, dando uma fraca risada. Ele então me encara com seriedade. – Eu fiz uma promessa a você e ao meu irmão. Não importa o que aconteça, eu farei o que for preciso para te proteger e cuidar de você. E quando as coisas melhorarem, vamos dar um jeito de explicar tudo a Emma, Tyler e Prince. Eu tenho certeza de que eles vão entender.
— Eu também sempre estarei ao seu lado, Tay. Eu prometi isso a Henry e também tenho uma dívida eterna com você. Darei a minha vida se for necessário para te proteger e garantir que você conquiste todos os seus sonhos. – Afirma Gavin, aproximando-se de mim. Abraço meu melhor amigo e de alguma forma, as palavras de conforto de todos os três é o bastante para aliviar um pouco a dor e o sentimento de solidão que me corroía.
— Obrigada. – Sussurro, emocionada. Afasto-me de Gavin e encaro as três pessoas que mais me davam apoio naquele momento. – Eu amo vocês.
— Nós também te amamos, mas precisamos mesmo sair daqui. – Comenta Tony, dando um sorriso nervoso. – Mais soldados estão por vir e não podemos permanecer aqui por muito tempo.
— Tudo bem. – Concordo, respirando fundo para acalmar as minhas emoções, assim como Dandara havia me ensinado. Não era momento para me entregar a dor e nem a carga de sentimentos que batalhavam em meu coração para assumir o controle de mim. Nós precisávamos sair do castelo, nos esconder e pensar em como faríamos para resolver essa situação. E só depois é que eu poderia ter o meu momento de luto e sofrimento.
— Pessoas estão se aproximando. – Avisa Gavin, colocando-se em alerta. – Se não sairmos agora, não conseguiremos mais.
— Mas e quanto a Manu, Tyler e Prince? Eles também vão acabar sendo pegos pelo Lester. Aquele maldito os quer morto tanto quanto a gente. – Relembro e vejo a hesitação nos olhos de Tony.
— Eu... eu vou...
— Você não vai atrás dele. – Dandara se impõe com seriedade. – Você é considerado um traidor do trono. Não tem munição suficiente para enfrentar todos os soldados que com certeza estão atrás de você. Vai acabar sendo morto e expondo os três.
— Mas eu não posso deixar os três para trás. – Responde Tony, angustiado.
— Pessoal... – Gavin nos relembra do perigo que se aproximava.
— Dandara! – O grito de um homem vindo da direção da qual havíamos acabado de sair chama a nossa atenção. Reconheço o rapaz de no máximo dezoito anos. Era um dos membros da Fire Scars. Scott Marchard, o membro da equipe de ataque dos rebeldes. – Más notícias!
— O que aconteceu, Scott? – Pergunta a mulher com apreensão.
— O rei Mikael acaba de assassinar o Conde Thomas Darius. O rei Lester está anunciando que seu primo estava tentando o matar para se casar com sua esposa e assumir o trono de Krósvia. Ele disse ainda que o príncipe Phillip foi manipulado por Gavin Darius para passar todas as informações sobre os esconderijos do castelo e conseguir assumir o controle de toda o reino. Todas as saídas do castelo foram fechadas e foi decretada a pena de morte para Gavin e Taynara. – Responde o rapaz em desespero.
— Meu pai... – Gavin balbucia, ajoelhando-se em estado de choque. Encaro Dandara e Tony em desespero e corro até meu melhor amigo para dar algum apoio a ele. Gavin idolatrava o pai. Eu entendia bem o sentimento que ele possuía naquele momento, já que passei pela mesma dor alguns anos atrás.
— O que fazemos, Dandara? – Pergunta Scott, encarando a líder com seriedade.
— Merda! – Exclama a mulher, furiosa. – Como vamos sair desse lugar?
— Eu vou atrás da Emma e dos outros. – Avisa Tony, mas Dandara puxa seu braço. – Me larga, Dandara.
— Eu já disse que você não pode voltar, Anthony. Esqueceu a promessa que fez a Taynara? – Questiona a mulher, encarando o homem com seriedade. Tony recua, parecendo perdido sobre o que deveria fazer. Ela então encara Scott. – E como estão nossos companheiros?
— Estamos conseguindo segurar, mas não vamos permanecer assim por muito tempo. O número de soldados está aumentando e não temos guerreiros suficientes para lidar com tantas pessoas ao mesmo tempo. – Explica o rapaz com evidente desanimo e insatisfação.
Encaro Gavin e ele continuava bastante abalado. Os sons de passos me lembram que precisávamos fugir. Dandara e Tony pareciam perdidos sobre o que fazer. Respiro fundo e decido que precisava tomar alguma atitude. Não poderia deixar que mais perdas acontecessem. Eu não estava preparada para isso.
— Scott, anuncie que a Fire Scars vai recuar. Preciso que durante a retirada, dê um jeito de proteger Emanuelle Santos, Phillip Dawson e Tyler Klin. Os adolescentes que estão sendo ameaçados. Tire-os daqui com segurança. Não importa o que aconteça, eles precisam sobreviver. O príncipe deve conhecer uma das inúmeras saídas secretas do castelo. Assim que recuarem, precisam se esconder na floresta por pelo menos vinte e quatro horas. Depois disso, retornem para a vila. – Respondo, chamando a atenção de todos de Tony e Dandara. Scott encara a líder do grupo, como se esperasse sua aprovação, e ela assente concordando com o plano.
— Tudo bem. Eu farei o meu melhor. – Afirma o rapaz com determinação.
— Obrigada, Scott. De verdade. Você é o nosso herói. Obrigada por nos ajudar. Você terá para sempre a minha gratidão. – Agradeço com sinceridade e ele sorri um pouco envergonhado.
— Não precisa agradecer. – Garante Scott, dando um fraco sorriso. – Agora deixa eu ir.
— Ah, Scott! – Tony o chama assim que Scott está prestes a correr de volta para o lugar de onde veio. — E em hipótese alguma conte a eles sobre nós. Não explique sobre o que está acontecendo. Leve-os para a vila que lá nós contaremos tudo. Eu prefiro contar com mais calma os acontecimentos.
— Como desejar, Tony. Eu não contarei nada. Eu prometo. – Responde Scott, fazendo uma rápida reverência em despedida antes de ir embora.
— Você é mesmo brilhante. – Comenta Dandara, bagunçando os meus cabelos com um sorriso orgulhoso nos lábios. Encolho-me e dou um fraco sorriso, encarando Tony que assente, como se concordasse com as palavras para a mulher.
— Obrigada. – Agradeço e me viro para Gavin, que chorava em silêncio. Abraço-o apertado e ele se aperta a mim com intensidade. – Eu sinto muito, Gavy. Acredite em mim, eu entendo bem o que você está passando, mas nós precisamos sair daqui. Eu prometo que faremos Lester e Mikael pagarem pelo que fizeram ao seu pai, mas eu imploro que venha com a gente. Eu preciso de você do meu lado e que nos ajude a encontrar alguma passagem secreta para sairmos daqui em segurança.
— Tudo bem. – Ele concorda, suspirando ainda aos prantos. Gavin então me aperta mais forte e então me solta para encarar Tony e Dandara. O rapaz limpa o rosto e engole em seco o choro. Após respirar profundamente para se acalmar, ele aponta para a direção que deveríamos ir. – Existe uma passagem próxima daqui que nos levará direto para a Floresta Negra.
— Ótimo. Então vamos. – Responde Tony, fazendo sinal para que nos apressássemos.
Com os corações partidos e os corpos machucados, passamos a correr pelo corredor, mas como eu esperava, não demora muito para que mais soldados aparecessem, decretando traição ao trono. Eles passam a atirar contra nós e a situação se torna ainda mais complicada com o fim de nossa munição. Sem conseguir revidar aos ataques e com a quantidade de soldados que se aproximavam com armamento cada vez mais pesado, nós nos tornávamos extremamente vulneráveis.
— Droga! – Exclama Tony, frustrado ao nos ver encurralados.
— Gavin, quão longe estamos da passagem? – Questiona Dandara, puxando-me para que ficasse atrás dela.
— Precisamos pegar mais dois corredores e chegaremos lá. – Informa o rapaz, erguendo a espada dele, enquanto também se colocava a minha frente de uma forma que me protegia de ataques dos outros soldados.
— Tay, fique atrás de nós. – Pede Tony, colocando-se em posição de ataque.
— Tudo bem. – Concordo, sentindo o meu corte na barriga sangrar cada vez mais. Os pontos não cicatrizados e inflamados se abriram e estavam retirando todas as minhas forças com o intenso sangramento. Apoio-me na parede e respiro fundo para permanecer consciente.
— Aguente mais um pouco, por favor. Nós já vamos cuidar de você. – Afirma Dandara, encarando-me com preocupação.
— Não se preocupe. Eu estou bem. Apenas um pouco fraca, mas eu aguento. – Respondo, ainda que já não estivesse mais tão confiante em sobreviver até sairmos desse castelo. Dandara assente, mas era eu conseguia ver que seus olhos não acreditavam em minhas palavras.
— Entreguem-se! – Ordena um dos soldados, encarando-nos com seriedade. – Vocês estão cercados.
— Nunca! – Grita Dandara, erguendo a cabeça, mostrando aos dez homens que estavam ao nosso redor que não se entregaria.
— Irão se arrepender dessa escolha. – Afirma um outro soldado, fazendo sinal para os homens, em uma ordem silenciosa de ataque.
Uma luta feroz se inicia entre Dandara, Tony e Gavin contra os soldados dos reis Lester e Mikael. Permaneço ausente, tentando me manter com os olhos abertos. Meu corpo febril não estava ajudando em nada a me manter consciente. Mesmo tentando estancar o sangue, pela falta de água e alimentos durante o tempo em que estive presa, o sangramento persistia. Se continuasse assim, eu provavelmente não aguentaria mais do que algumas horas. Isso sendo otimista.
Olho em minha volta e busco algo que pudesse servir de distração ou colocasse fim a luta que se estendia a minha frente, mas nada parecia ser bom o bastante. Encaro a enorme janela do corredor e vejo que nevava intensamente do lado de fora do castelo e que já era de noite. Observo então a grandiosa cortina que estava na janela e noto que ela se aproximava de algumas vigas de madeira no teto. A estrutura daquela parte do castelo envolvia muita madeira e outros materiais que se fossem expostos ao fogo poderiam facilmente desabar.
— Dandara! – Chamo a atenção da mulher, que me encara pelo canto do olho, enquanto lutava contra um soldado.
— O quê? – Pergunta, interceptando um golpe de espada que seu inimigo daria.
— Você está com o isqueiro no bolso de sua jaqueta? – Questiono, relembrando de a mulher ter me contado certa vez que ela sempre andava com um isqueiro e um canivete suíço em seus bolsos para o caso de emergência.
— Claro. – Dandara empurra o soldado e me encara em dúvida. – O que planeja fazer?
Alterno o olhar entre a cortina e o teto como resposta. Se fosse outra pessoa, dificilmente compreenderia a minha ideia, mas Dandara e eu tínhamos aprendido a nos comunicar com o olhar durante os três meses em que ela me ensinou. Eu sabia que ela entenderia perfeitamente a minha ideia. E comprovando a minha teoria, ela sorri e assente. Não demora a chutar o adversário para cima do outro que vinha em sua direção. Aproveitando a distração dos homens, Dandara retira o isqueiro do bolso e me entrega.
Desviando de Gavin e Tony, que também lutavam intensamente, aproximo-me aos poucos da cortina. Acendo o isqueiro e aproximo o fogo da cortina. Felizmente, não demora muito para que o incêndio iniciasse. Observo as chamas se alastrarem pelo tecido até chegar ao teto. Em questão de minutos, o fogo toma conta do lugar. Os soldados tentam controlar, mas era quase impossível com tantos objetos de combustão.
— Vamos! – Grito para os homens, que ainda tentavam derrotar os soldados que os atacavam. – Isso não vai os segurar por muito tempo.
Dandara se aproxima para me ajudar a andar, ao ver que eu não estava muito bem. Apressamos nossos passos pelos corredores até chegar a uma biblioteca. Fechamos a porta e os rapazes arrastam uma mesa que havia no local para impedir que tivessem a chance de nos seguir. Gavin nos guia pela biblioteca até chegar a última estante, onde ele puxa uma espécie de castiçal antigo que parecia um enfeite estranho.
A estante então vira e nesse momento, vemos um túnel. Gavin retira o castiçal e usamos o isqueiro para acender a vela que iluminaria o nosso percurso. Assim que entramos no túnel e fechamos a passagem e suspiramos aliviados. Encosto-me na parede e tento recuperar o fôlego. Tony se aproxima e coloca a mão em minha testa.
— Ela está queimando em febre. – Anuncia Tony com a voz carregada de preocupação.
— Eu estou bem. – Sussurro, arfando.
— Você não está nada bem. Está sangrando. – Afirma Gavin em desespero.
— Nós temos que voltar para a vila o mais rápido possível. Os ferimentos dela estão infeccionados e ela está fraca demais. Se continuar assim, ela não vai resistir. – Informa Dandara com genuína preocupação.
— Vocês não... – Sinto minhas pernas começarem a perder a força, mas antes que fosse direto ao chão, Tony me pega no colo. Ele suspira e encara Dandara e Gavin com seriedade.
— É melhor corrermos. Ela já está começando a perder a consciência. – Alerta Tony, acomodando-me melhor em seus braços.
— Por aqui.
Gavin guia a todos pelo labirinto que era o túnel em que estávamos. Não sei quanto tempo se passou e sendo sincera, eu nem mesmo conseguia prestar atenção ao que ocorria ao meu redor. A dor e a febre estavam se intensificando ao ponto de eu ter lampejos de inconsciência.
No entanto, quando enfim encontramos a saída do túnel, suspiro aliviada ao sentir a brisa gélida da liberdade bagunçar os meus cabelos. Mas a sensação de alívio não durou muito tempo ao ouvir o som de espadas sendo erguidas. O corpo de Tony se torna tenso. Viro meu rosto para entender o que acontecia e arfo com a cena. Dezenas de soldados de Krósvia parados a nossa frente com diversas munições, prontos para nos matar.
— Entreguem a garota e vocês receberão o perdão do rei. – Exige um dos soldados e sinto meu corpo ficar tenso.
O medo me atinge com intensidade ao mesmo tempo que eu já não conseguia mais distinguir o que era apenas peças pregadas pela minha mente afetada pela febre e do corte ou o que era real. Tony me aperta mais contra si e Dandara se coloca a nossa frente em uma espécie de proteção. Aperto sua camisa, tremendo diante do frio que eu sentia.
— O que faremos agora? – Ouço Gavin sussurrar desesperado para Dandara e Tony. – Como vamos sair dessa? Estamos cercados.
— Vocês vão correr naquela direção como se não houvesse um amanhã. – Responde Dandara. – Enquanto vocês fogem, eu os distraio.
— O quê? Não mesmo! – Tony se aproxima de Dandara exasperado. – Não vou te deixar aqui sozinha, sem munição e com um monte de soldados prontos para te matar.
— Taynara precisa de atendimento médico. Ela não vai resistir se continuar a sangrar e com a febre alta. – Responde Dandara, virando-se para nós. Ela se aproxima de mim e retira o anel que ela sempre usava que servia como um indicador de que ela era a líder dos Fire Scars. – Eu te amo demais, garota. Nunca se esqueça de que eu sempre estarei com você. Não importa o que aconteça.
— Não. – Sussurro aos prantos, enquanto ela abre a minha mão para colocar o anel em meu dedo. – Por favor, Dandara. Não...
Ela encosta a testa dela na minha e respira fundo, acariciando meu rosto. Seu toque era delicado e me trazia um carinho maternal que eu nunca experimentei de minha mãe. Dandara abre os olhos e deixa um beijo demorado em minha testa.
— Eu vou sobreviver. Tenha mais fé em mim. – A mulher de lindos e longos cabelos cacheados dá um sorriso confiante, mas eu sabia que isso estava longe de ser a realidade. Dandara encara Tony por alguns instantes e beija seus lábios com intensidade. Tenho a impressão de que eles trocam uma conversa intensa com apenas o olhar. – Não permita que ela morra. Taynara é o futuro de Krósvia e é a única que pode levar nosso povo a nossa tão sonhada liberdade.
— Vocês duas irão. Eu não vou permitir que nem você nem Taynara morram. – Responde, afastando-se. Ele se vira para Gavin e me estende para o rapaz. – Gavin, assim que eu der o sinal, você vai correr o mais rápido que você conseguir com a Taynara e fará tudo o que for preciso para que ela viva. Encontre os Fire Scars e conte toda a verdade a Emma, Prince e Tyler por mim.
— Tony... – Sussurro, sentindo a minha consciência se esvaindo aos poucos.
— Nós te amamos, Tay. Nós sempre iremos amar. Então, faça o que for preciso para sobreviver. – Declara Tony, colocando-me nos braços de Gavin.
— Não... não façam isso. – Imploro, tentando permanecer acordada, mas eu estava fraca demais. Meu corpo estava começando a ficar gelado e sem forças.
— Gavin! – Chama Dandara, enquanto o rapaz me acomoda em seus braços.
— Eu prometo que a protegerei. – Garante meu melhor amigo, começando a correr para longe do casal, enquanto os sodados de Lester começam a se aproximar.
E enquanto Gavin corria com todas as suas forças sem olhar para trás, a última imagem que tenho de Dandara e Tony é o casal lutando bravamente contra até serem alvejados sem qualquer piedade pelos soldados do rei de Krósvia. Tento gritar, mas eu já não tinha mais forças. E o último pensamento que tenho antes de perder a consciência é que eu me vingaria de Lester e Mikael. Eu faria o que fosse preciso para fazer com que eles se arrependessem amargamente por matarem a minha família e destruírem os meus sonhos.
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