Fire Scars
16 Fuga
Notas iniciais
Capítulo XV- Fuga
“Eu não posso mais aguentar isso Eu estou dizendo tudo que eu já disse antes Todas essas palavras não fazem sentido Encontro felicidade na ignorância Quanto menos eu ouço, menos você falará Mas você vai descobrir de algum jeito.”
One Step Closer — Linkin Park
✻
Krósvia – 1995
Aos poucos, o gás tranquilizador vai se dissipado e os efeitos continuavam a mexer com os meus sentidos. De joelhos, demoro alguns minutos para conseguir recuperar os sentidos e finalmente voltar a realidade. A minha frente, vejo Manu rastejar até o corpo desfalecido do irmão mais velho. Assim que o alcança, ela o abraça e chora desolada, implorando para que ele voltasse. A dor que ela sentia era quase palpável. Tyler não estava muito diferente, enquanto encarava o tio com sofrimento.
Aqueles homens fizeram parte da minha vida, me ensinaram sobre o mundo e foram muito mais a minha família do que um dia meus pais já foram. E era por isso que eu não conseguia acreditar que eles estavam mortos. Não era possível que eu nunca mais fosse os encontrar. Eu simplesmente não conseguia aceitar essa situação. E o pior de tudo era pensar que Taynara havia sido responsável por isso.
A garota era como uma irmã mais nova para mim. Ela era esperta e gentil. A Taynara que eu conheci jamais mataria Henry e Stefan. Eu até mesmo tinha certeza de que ela era apaixonada pelo irmão mais velho de Manu. No entanto, eu vi com os meus próprios olhos o momento em que ela atirou em Stefan e a forma fria com a qual ela puxou a espada do peito de Henry para me enfrentar.
Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Taynara foi embora há três meses, deixando Sean e todos nós para trás. Não houve despedidas ou explicações. Ela simplesmente partiu. Henry, Tony e Gavin pareciam saber o motivo, mas nenhuma palavra era dita. De repente, o nome Taynara parecia ter se tornado proibida na casa da família Santos.
Stefan havia alertado Manu e Tyler sobre uma possível traição de Taynara. Naquele momento, não acreditamos em suas palavras, afinal, conhecíamos a garota bem o bastante para saber que ela jamais nos trairia dessa forma. Tínhamos certeza de que havia um bom motivo para ela ter ido embora sem nos dizer nada. Ainda assim, Stefan afirmava que a garota era uma espiã que se aproximou de nós apenas para obter informações que pudessem destruir o reinado de meu pai.
Eu sempre achei essa história uma verdadeira loucura, mas agora consigo ver que talvez, Taynara sempre tenha sido uma traidora. Talvez, Tony e Henry tivessem com tanto sigilo e cautela, porque não queriam nos machucar. Afinal, qual outro motivo eles teriam para esconder informações sobre a garota como se ela nunca tivesse existido? Além disso, ela havia assassinado Henry e Stefan sem hesitação, mesmo depois de tudo o que essa família havia feito por ela. E então tem Gavin.
Meu primo estava agindo de maneira estranha desde a fuga de Taynara. Ele se dedicava por completo a cuidar de Sean e vivia discutindo com Henry. Nós nunca descobrimos o motivo, mas talvez ele tenha ajudado Taynara de alguma forma e o filho do meio de Stefan estivesse tentando convencer o rapaz a se entregar.
— Droga... – Sussurro, sentindo as lágrimas descerem pelo meu rosto.
O que estava acontecendo no castelo? Onde estava Tony? Por que meu pai decretou a prisão dele e de Henry? Qual o motivo desse ataque repentino? Perguntas como essa continuavam a invadir a minha mente, frustrando-me por não conseguir respostas. Respiro fundo tentando controlar minhas emoções e me aproximo de Manu.
— Por... quê? Por quê, Prince? Por que eu continuo a perder as pessoas que eu amo? – Sussurra Manu com a voz fraca e o rosto manchado pelas lágrimas. Ela soluçava e encarava o irmão com tanta dor que tudo o que consigo fazer é a trazer para mais perto e a abraçar.
Manu esconde o rosto em meu peito e aperta o tecido de minha camisa, passando a chorar com ainda mais intensidade. Acaricio seus cabelos macios e tento controlar meus sentimentos. Eu precisava ser forte nesse momento e dar todo o apoio que Manu e Tyler precisariam de agora em diante. Nós também precisávamos encontrar Tony e achar uma forma de entender o que está acontecendo.
— Eu sinto muito. – Sussurro, apertando-a ainda mais. Naquele momento, tudo o que eu mais desejava no mundo era apagar toda a dor que ela sentia. Gostaria de saber o que fazer para consolar seu coração.
Manu funga e se afasta para me encarar. Levo minhas mãos até suas bochechas e limpo as lágrimas que manchavam seu rosto. Ela fecha os olhos e passa a chorar mais calma. Abraço-a mais uma vez e troco olhares com Tyler, que parecia tão desolado quanto a prima. Ele fecha os olhos do tio e se aproxima de nós. Talvez, assim como eu, ele soubesse que precisávamos agir.
Uma guerra sangrenta e intensa ocorria do lado de fora da sala do trono e estávamos longe de estarmos em nossas melhores condições depois de termos inalado aquele gás tranquilizante. Por mais doloroso que fosse, precisávamos procurar por um lugar seguro até descobrirmos o que faríamos de agora em diante. E ainda tem fato de não fazermos ideia de onde Tony pode estar. Definitivamente, ele é o único com quem podemos contar nesse momento.
— Prince. – Tyler me encara com intensidade. – O que faremos agora?
— Precisamos encontrar Tony. – Respondo e Manu se afasta novamente, alternando seu olhar entre Tyler e eu, como se somente naquele momento ela tivesse se lembrado de seu irmão mais velho.
— Tony! Onde está o meu irmão? – Manu estava atordoada. Ela tenta se levantar, mas as pernas parecem falhar e eu preciso segurar a garota para que ela não vá ao chão.
E então, uma nova explosão vinda do lado de fora da sala do trono mostra que a situação tem se tornado cada vez pior. Encaro Tyler assustado e nem mesmo temos tempo para reação. Homens do exército de meu pai entram na sala com as espadas erguidas e nos encaram como se fôssemos inimigos. Ajudo Manu a levantar e encontro minha espada afastada de mim. Manu e Tyler também se encontravam desarmados.
— Entreguem-se! – Exige um dos soldados, apontando a espada para nós. Noto uma arma em sua cintura. O segundo também estava com a espada em mãos e uma pistola pronta para ser sacada. O terceiro apontava uma arma para nós e não parecia disposto a conversar. Respiro fundo e limpo meu rosto na esperança de que eles me reconhecessem, caso contrário, teríamos graves problemas.
— Por favor, esperem um pouco. Abaixem suas armas. Nós não somos inimigos. Eu sou o príncipe Phillip e...
— Sabemos quem são vocês, Alteza. – Interrompe o segundo homem que entrou na sala. Tyler se aproxima de mim e sinto Manu apertar minha blusa, enquanto suas mãos tremiam. – Entreguem-se. Vocês estão presos por traição a coroa de Krósvia.
— O quê? Traição? Mas nós não fizemos nada! – Exclama Tyler, indignado com a situação.
— Vocês estão sendo acusados de serem cúmplices de Taynara Miller, Gavin Darius e Thomas Darius na tentativa de assassinarem o rei de Krósvia. – Informa o primeiro soldado, surpreendendo-me ainda mais.
— Nós não somos cúmplices de nada! Que loucura é essa? Eu tenho certeza de que tudo não passou de um mal entendido. Me levem até o meu pai imediatamente! – Exijo e o terceiro soldado ri com ironia.
— Essas foram as ordens do rei, Alteza. Conforme decretado pelo rei Lester, Phillip Dawson, Emanuelle Santos e Tyler Klin, vocês serão sentenciados a pagarem pelo crime de traição a coroa. Entreguem-se agora ou...
Uma nova explosão ocorre e mais fumaça entra pela sala. Em meio a cortina de fumaça que nos cerca, puxo Manu e Tyler em direção a saída secreta que eu sei que possui na sala do trono. Gritos e barulhos estranhos me alertam da chegada de inimigos no local. Temendo pelo que aconteceria, deixo Manu aos cuidados de Tyler, que me encara confuso, e passo a apalpar a parede de pedra em busca do dispositivo que abriria para a passagem secreta que daria acesso ao túnel que leva para fora do castelo.
No entanto, assim que o encontro a alavanca escondida, surpreendo-me ao ver que ela não está funcionando. Continuo a forçar a alavanca na tentativa de abrir a porta escondida da sala de tronos, mas não demoro a perceber que meu pai havia bloqueado a porta de alguma forma, impossibilitando que mais alguém a usasse.
— Merda! – Exclamo, frustrado.
— O que você está tentando fazer? – Pergunta Manu, encarando-me confusa.
Mais sons de lutas e explosões fazem com que nos encolhêssemos. O castelo havia se tornado um campo guerra por completo. Pessoas gritavam anunciando que alguma parte do local estava em chamas, tiros e mais explosões ecoam pelo castelo. Mordo meus lábios, tentando criar alguma estratégia para sairmos da sala vivos, mas nada vinha a minha mente.
— Essa saída era a nossa melhor chance de deixarmos o castelo em segurança. – Respondo melancólico. Tyler suspira e Manu se afasta do primo e passa a forçar o dispositivo de segurança que eu mexia anteriormente e bufa frustrada ao ver que também não conseguia abrir. – Eu sinceramente não sei que o que fazer.
— Nós podemos...
— Príncipe Phillip! Emanuelle e Tyler! Vocês estão aí? – Uma voz masculina estranha para mim, ecoa pela sala do trono, interrompendo Tyler. Nós nos encaramos, incertos sobre o que deveríamos fazer. A fumaça ainda atrapalhava a visibilidade, então aproveitamos para permanecermos quietos antes que o desconhecido nos encontrassem. – Eu sou um conhecido de Tony Santos. Ele me pediu tirá-los do castelo em segurança.
— O que faremos? – Sussurra Tyler, encarando-me em dúvida. – Podemos confiar nele?
— Você o conhece, Prince? – Pergunta Manu e eu nego, incerto.
— Eu acho que não. Pelo menos não reconheço a voz dele. – Digo, frustrado com a situação em que estávamos. – Mas no momento, não temos escolha. Se meu pai realmente decretou que traímos a coroa de Krósvia, todos os soldados tentarão nos prender ou até mesmo nos matar. Se ele realmente foi mandado por Tony, talvez tenha algum plano.
— Eu me chamo Scott Marchard e realmente conheço o Tony. Vocês podem confiar em mim. – Garante o homem, aproximando-se. A cada passo dado por ele, sua silhueta vai se tornando mais nítida, assim como seu rosto. A fumaça continuava a prejudicar nossa visão, mas eu tinha certeza de que não o conhecia e seu nome não era nenhum pouco familiar. – O castelo inteiro está um caos. Os soldados de Serafine entraram na batalha e com o anúncio da cabeça de vocês como recompensa, nós precisamos tirar vocês daqui e levá-los para um lugar seguro o mais rápido possível, antes que vocês acabem sendo pegos pelos soldados de Krósvia.
Troco olhares com Manu e Tyler. Estávamos exaustos. Planejamos resgatar Henry e Tony de meu pai, mas não esperávamos que o castelo fosse ser invadido pelos Fire Scars. Isso nos colocou em grande perigo. Depois de tantas lutas e ainda sob o efeito do gás tranquilizante, nós não conseguiríamos sair ilesos desse castelo se tentássemos fugir. Então, ainda que não confiasse no homem, decido que ele talvez seja a nossa melhor opção no momento. Pelo menos, até que a gente recuperasse nossas forças.
— Tudo bem. – Concordo e faço sinal para que Manu e Tyler me acompanhasse. Desconfiados e cautelosos, nós nos aproximamos do homem. Surpreendo-me ao ver que os soldados que haviam nos encurralado estavam inconscientes no chão. Encaro o desconhecido com desconfiança.
— Vamos! Eles estão apenas inconscientes. Vão acordar em poucos minutos. Precisamos sair daqui agora mesmo! – Apressa o tal Scott, pegando as espadas jogadas no chão para nos entregar.
Devidamente armados e um pouco mais recuperados do gás, seguimos Scott pelos corredores do castelo. Como ele havia dito, o caos havia se instalado para todos os lados que olhasse. Tomando cuidado para não sermos reconhecidos, corremos para a região menos movimentada do castelo naquele momento. Reconheço o caminho e lembro que ele nos levaria para uma saída estratégica que levava para o estábulo do castelo.
Scott atacava agilmente os soldados que se aproximavam de nós, sempre parecendo evitar golpes fatais. Ele era esperto, rápido e forte, por isso, nós quase não precisávamos atacar para nos defender. Scott era preciso o bastante para derrubar seus adversários com apenas um golpe certeiro.
Continuamos a correr pelos inúmeros corredores do castelo, que mais se assemelhavam a um labirinto, até que em algum momento, temos que parar para lidar com um grupo de soldados mais habilidosos do rei Mikael, um dos maiores aliados de meu pai. Enquanto lutávamos incessantemente, sinto minhas costas se chocarem com as de Tyler ao sermos encurralados. Troco olhares com o rapaz e não demora muito para que a gente começasse a lutar juntos. Manu estava próxima de nós, logo a nossa frente, e também se esforçava para cuidar dos soldados que tentavam a prender.
— Prince! – Tyler me chama, assim que terminamos de derrubar um dos soldados.
— O quê? – Questiono, sem tirar os olhos de meu adversário.
— Olhe a tatuagem no braço de Scott. – Pede o rapaz, ajudando-me a derrotar o soldado que estava me dando trabalho. Olho brevemente e arfo ao reconhecer a tatuagem da peça rainha de xadrez caída com a peça rei em chamas com as letras “f” e “s” logo abaixo. – Ele é um membro da Fire Scars.
— Acham que ele quer nos usar para chantagear o rei? – Questiona Manu, aproximando-se mais de nós.
— Eu não duvidaria. – Sussurra Tyler ao ver que a atenção de Scott vem para nós.
Olho em volta e vejo que os soldados abriram uma brecha que nos levaria a um corredor, onde havia uma passagem secreta que ligava o castelo até a Floresta Negra. Encaro Scott mais uma vez e ele continuava a lutar com os soldados que não paravam de chegar. Volto a minha atenção aos outros militares de Krósvia que se aproximavam de nós.
— Quando eu der o sinal, corram o mais rápido que conseguirem para aquele corredor. Ele nos levará a um quarto que tem uma passagem secreta até a Floresta Negra. É uma das passagens mais secretas desse castelo e provavelmente a mais segura para nós nesse momento. – Alerto, cravando minha espada em um soldado serafinense.
— Tudo bem. – Concorda Manu, apertando mais o punhal de sua espada.
A cada soldado derrotado, nós nos aproximamos mais do corredor. Quando conseguimos mais uma brecha, mexo a cabeça, indicando que deveríamos correr. Assim, seguimos rapidamente pelos corredores do castelo até chegar a um dos mais de cem quartos de visita do castelo. Abro a porta e assim que conseguimos entrar em segurança, Tyler e eu empurramos a penteadeira do quarto para impedir que alguém entrasse ou nos seguisse.
— E agora? – Questiona Emanuelle, encarando-me com os olhos repletos de dor. Ela estava ofegante e o rosto completamente manchado de sangue.
— Por aqui. – Oriento, empurrando a cama do quarto. Retiro o tapete e não demoro a ver a porta que eu tanto queria. – Vamos lá, pessoal!
Abro a discreta porta de madeira e sorrio ao ver a escada que nos levaria direto ao labirinto de túneis do castelo até o local que eu desejava. Manu, Tyler e eu descemos as escadas e a escuridão nos cerca. Pego as tochas que estavam no final da escada e as esfrego na parede até que as chamas apareçam.
Ansiosos para deixar o local, corremos pelo labirinto de túneis pelo que pareceu ser horas. Quando finalmente nos aproximamos da saída, diminuímos nossos passos. Estávamos exaustos e ofegantes. O ar debaixo da terra era pesado e dificultava a nossa respiração. E então, não demoro a encontrar a tão desejada saída. Sem esperar mais nenhum minuto, Tyler e eu entregamos as tochas para Manu e abrimos a porta.
O vento gélido de inverno nos atinge e nos faz encolher. As chamas das tochas se apagam e o som das lutas no castelo se tornam distantes. Deixamos o túnel com cautela, procurando por algum indício de inimigos. No entanto, tudo o que encontramos são um homem e uma mulher estirados sem vida no chão um pouco mais a nossa frente, enquanto o sangue de seus corpos continuava a manchar a neve, indicando que haviam sido mortos a pouco tempo. Troco olhares com Tyler e Manu, ponderando se deveríamos nos aproximar.
Por fim, Manu entrega as tochas a Tyler e se aproxima. No entanto, o que nenhum de nós três esperávamos era que no momento em que ela encarasse o rosto do homem o reconheceria como seu irmão mais velho, Anthony Santos.
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