Fire Scars
17 Aliado Misterioso
Notas iniciais
Capítulo XVI – Aliado Misterioso
“Lembro-me de nós sozinhosEsperando pela luz se apagarVocê não sente aquela fome?Tenho muito segredos para mostrarQuando te vi naquele palcoMe arrepiei com o olhar que você me deuVocê não escuta aquele ritmo?Pode me mostrar como podemos escapar”Shine — Years & Years
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Krósvia – 1995
Era difícil explicar o sentimento de frustração e revolta ao ver o choro desesperado de Manu e Tyler. Tony era alguém a quem nós admirávamos e tínhamos como referência de vida. A situação era ainda mais agonizante por ver o estado do corpo do homem, completamente deformado pelos inúmeros tiros recebidos. Ao seu lado, se encontrava uma linda mulher em estado semelhante com a mão entrelaçada a dele e a quem ele estava a abraçado quando o encontramos.
Eu não fazia ideia de quem era ela, mas pela forma como estavam juntos, a minha suposição era que a linda mulher negra de cabelos cacheados se tratava de alguém que importante para o irmão mais velho de Manu. A neve então volta a cair e eu não sabia bem o que fazer.
Pensando de maneira racional, nós precisávamos correr para o mais longe possível do castelo e encontrar um esconderijo onde pudéssemos ficar até decidirmos o que iríamos fazer de agora em diante, já que nos tornamos foragidos. No entanto, como dizer para aqueles dois que estavam lidando com a terceira perda da noite, que deveriam abandonar mais um corpo para trás como se nada tivesse acontecido?
Não era justo. Stefan, Henry e Tony não mereciam morrer. Aquela situação era sufocante e me trazia um gosto amargo na boca. Meu estômago se revirava e eu sentia que poderia vomitar a qualquer momento. A dor em meu coração era avassaladora, mas eu era incapaz de deixar que o choro preso em minha garganta escapasse.
O que eu devo fazer? Como devo reagir? Por que esses três homens honrados foram assassinados e tiveram um fim tão trágico? Por que por mais que eu me esforce, nunca consigo proteger as pessoas que eu amo? Como posso me tornar rei e finalmente trazer a paz para o meu reino se eu continuo sendo um maldito inútil que não é capaz de nem mesmo proteger meus amigos?
— Merda! Esse lugar está um verdadeiro caos! – Um rapaz jovem, de no máximo dezoito anos, surpreendendo-nos. No entanto, por estarem sofrendo com o luto, Manu e Tyler nem mesmo se movem. Eles permanecem abraçados ao corpo desfalecido de Tony como se nada mais importasse. – Ei, o que vocês ainda estão fazendo aqui? Se não quiserem morrer, é melhor que fujam o mais rápido possível. Novas tropas de soldados krosvianos e serafinenses estão se aproximando com velocidade.
— Quem é você? – Questiono, colocando-me em posição de ataque, utilizando a tocha apagada como minha arma.
— Johnny. Johnny Relish. – Responde o jovem de cabelos dourados e olhos azuis, dando de ombros. Ele então se vira para trás, parecendo ouvir algo suspeito e suspira, voltando a nos encarar. – Certo, príncipe Phillip. É melhor você e seus amigos virem comigo. Aqueles malditos estão realmente perto.
— O que você quer com a gente? Como sabe o meu nome? – Indago na defensiva e Johnny suspira, impaciente.
— Escute, todos nesse país sabem quem é você. Uma guerra está acontecendo nesse momento e vocês se tornaram alvos dos soldados de seu pai. Se vocês não quiserem vir comigo, tudo bem, mas se prepare para enfrentar todos os ataques violentos que eles farão. Pelo que posso ver, vocês não resistiriam mais do que a uns dez homens. Ainda mais na situação vulnerável que a sua namorada se encontra. – Responde Johnny com ironia e inconscientemente, viro-me para encarar Manu.
Ela realmente estava vulnerável e bastante fragilizada, assim como Tyler. Eles continuavam a chorar copiosamente. Suspiro e volto a encarar Johnny. Eu não sentia que podíamos confiar nele, mas na situação que estávamos nós não tínhamos muita escolha. Voltar para o castelo estava fora de cogitação e a casa da família Santos já não era mais um lugar seguro depois do que aconteceu. Além disso, com o estado dos primos, eu duvidava que eles conseguiriam retornar para casa naquele momento.
— Por que está nos ajudando? – Pergunto e ele suspira cansado.
— Porque você ainda é a droga do futuro rei de Krósvia e a única pessoa que pode salvar nosso povo do desgraçado do seu pai. – Responde e posso sentir a fúria presente em suas palavras. Ele realmente parecia odiar o meu pai. – Mas sendo sincero, eu não me importo realmente com você e tenho minhas dúvidas se você tem a força necessária para enfrentar o seu querido pai. Agora que a rainha Penny anunciou a gravidez, minhas apostas estão muito mais para o próximo herdeiro do que em você.
— Então, o quê? Mesmo odiando a mim e a minha família, você simplesmente decidiu nos ajudar pelo bem maior? Devo acreditar em tamanha nobreza? – Ironizo e Johnny ri, erguendo a camisa.
— Se eu quisesse te matar, já teria feito isso há muito tempo. – Garante o loiro, pegando a arma escondida em sua cintura. De repente, ele atira três vezes próximo de mim e ao me virar para trás, vejo que ele havia acertado três soldados serafinenses que se preparavam para nos atacar. Johnny sorri com ironia e se afasta de mim. – Eu não o odeio. Mas seu pai está na lista de pessoas que eu teria o prazer de destruir com as minhas próprias mãos.
— Ah, agora que descobri que você não me odeia, eu realmente devo confiar em você. – Ironizo e ele ri, aproximando-se de Man eu Tyler. Coloco-me a sua frente, deixando claro que não permitiria que ele chegasse perto deles. – Eu não confio em você.
— Em momento algum eu pedi para que confiasse. – Retruca, empurrando-me para continuar o percurso. No entanto, diferente do que eu imaginei, ele estava muito mais interessado na mulher que estava com Tony do que em nós.
Ignorando Manu e Tyler, ele puxa a mulher para longe deles e a encara com tristeza, sussurrando algo que sou incapaz de ouvir. Ele então se levanta e a pega no colo. Seus olhos brilham em dor. E então, Johnny se vira para nós, encarando-nos por um longo tempo em silêncio, como se estivesse nos estudando.
— Bom... está na hora de ir. Os soldados estão se aproximando. Ba sorte, Alteza. A partir desse momento, nossos caminhos se separam. – Avisa Johnny, passando a andar para longe do castelo.
Encaro Tyler e Manu, observando o comportamento desestabilizado de meus amigos. Eles já haviam passado por muita coisa essa noite e definitivamente mais soldados se aproximavam de nós. Era frustrante, mas Johnny estava certo. Nós não conseguiríamos lutar e eu me recuso a parar nas mãos de meu pai mais uma vez.
— Johnny, espere! – Peço, antes que ele desaparecesse na floresta. O homem para de andar e se vira para mim, enquanto eu me aproximo.
— O que você está fazendo, Prince? – Indaga Tyler com a voz embargada, observando-me com preocupação.
— Para onde você vai levar essa mulher? – Ignoro a pergunta de Tyler e encaro Johnny com seriedade. – O que você está pensando em fazer? Para onde planeja ir?
— Eu darei um enterro digno para ela. – Responde com melancolia. – Quanto ao que fazer, eu vou juntar dinheiro e esperar as coisas se acalmarem em Krósvia para partir em direção a Boise, onde encontrarei uma parente com quem devo ficar até ser capaz de voltar para o meu lar. – O loiro responde de maneira misteriosa com um olhar distante.
— Eu realmente não confio em você. – Comento, aproximando-me de Tony. Manu e Tyler me encaram com desconfiança. – Mas nesse momento, a minha prioridade é nos manter a salvos e, assim como você, eu desejo que essa pessoa tenha um enterro digno. A forma como nós os encontramos me leva a crer que essa mulher foi alguém muito importante para dele se arriscar para protegê-la até o último minuto de sua vida. Por isso, nós iremos com você.
— O quê? – Sussurra Manu, sem acreditar em minhas palavras.
— Ficou maluco, Prince? Nem mesmo conhecemos esse homem. E você mesmo disse que não confia nele. – Aponta Tyler, encarando Johnny com desconfiança.
— Não podemos mais ficar aqui. Ele tem razão. Soldados serafinenses e krosvianos estão a nossa busca e sabemos que não temos força para lutar contra eles. No momento, meu pai nos ver como inimigos perigosos. Ele não hesitaria nem mesmo em um minuto antes de nos torturar até a morte. E eu realmente quero que Tony tenha um enterro digno, algo que infelizmente não seremos capazes de dar a Henry e Stefan. – Respondo e posso ver como minhas palavras machucam o coração de Manu. Seus olhos se enchem de lágrimas mais uma vez e ela passa a encarar o irmão com tristeza.
— Mas se isso for uma armadilha? E se ele for um inimigo disfarçado, esperando o momento certo para nos atacar? Ele pode muito bem ser um espião do seu pai. E nós... nós confiamos em alguém antes e olha só o que aconteceu. Três pessoas que amamos acabaram mortas!
As palavras de Tyler saem recheadas de dor e revolta. Manu estremece ao se recordar de Taynara e Gavin. Meu coração também sente a amargura da traição nesse momento, mas o som dos soldados inimigos se aproximando era o bastante para eu saber que aquela era a nossa melhor chance de sair vivos da situação em que nós estamos, ainda que eu odiasse a alternativa que nos restava.
Johnny continuava a nos encarar sem demonstrar qualquer emoção. De fato, ele parecia não se importar em ir embora e nos deixar. Era evidente que ele não esperaria por muito mais tempo. Então, engolindo o meu orgulho, passo o braço de Tony por cima do meu ombro e encaro meus amigos com seriedade.
— Nesse momento, a única certeza que eu tenho é que seremos mortos se continuarmos aqui. Não temos armas, nem lugar para ir e estamos sendo procurados por todo país, acusados de trair a coroa. Eu não confio nele, mas eu prometi a mim mesmo que lutarei com todas as minhas forças e farei o que for preciso para nos manter vivos. Então, ainda que eu odeie essa situação, não temos escolha além de ir com ele. – Respondo com seriedade e posso ver a frustração presente nos rostos dos primos. Ainda assim, eles sabiam que eu estava certo, então acabam dando-se por vencidos.
— É melhor vocês se apressarem ou vou realmente deixar vocês aqui. Não tenho a menor intensão de entrar em uma briga de outras pessoas. – Alerta Johnny, ajeitando a mulher em seus braços.
— Nós já estamos indo. – Resmungo, irritado. Faço sinal para que Manu se afastasse e Tyler se aproxima, pegando o outro braço de Tony. – Vamos. Está na hora de sairmos daqui e de darmos a Tony um enterro digno.
À contragosto, passamos a seguir Johnny pela escura floresta. A neve era incomoda e o corpo de Tony se tornava cada vez mais pesado conforme tentávamos superar os obstáculos. O som de tiros, explosões e gritos nos mostrava que a luta ainda continuava no castelo que possuía uma parte de si em chamas. Johnny não disse uma só palavras desde que começamos a segui-lo e eu me perguntava quem era aquele homem, que definitivamente não pertencia a Krósvia.
Em determinado momento, depois de muitas horas andando sem parar, deixando para traz a floresta e pegando uma estrada de chão deserta, meus pulmões doíam com o esforço que Tyler e eu fazíamos para levar o corpo de Tony. No entanto, apesar da exaustão, nós continuávamos a seguir em frente com todas as nossas forças. E conforme adentrávamos aquele caminho desconhecido por mim, mais escuro e silencioso o cenário se tornava.
Depois de tudo, meu corpo inteiro doía e eu sentia que meus pés estavam repletos de bolhas e bastantes machucados pelo calçado desgastado na neve. Mas nós precisávamos continuar. Aos poucos, a paisagem vai mudando mais uma vez, assumindo a aparência de um subúrbio desolado. Nenhuma pessoa a vista, nenhuma luz nas ruas.
Um bando de ratos cruzou a rua em debandada e desapareceu em um bueiro. Ouço o arfar de Manu e posso ver seu corpo estremecer. Ela parecia também está congelando. As roupas que ela usava não ofereciam nenhuma proteção contra os ventos cortantes que nos atingiam. E então ela volta a encarar o irmão.
Seus olhos lacrimejam, mas nada é dito. Ela então balança a cabeça, provavelmente tentando se concentrar em nossa situação, e volta a olhar para Johnny. De rente, o ruído de pneus próximos a nós, faz com que todos parassem de andar e ficassem imóvel, temendo que nossa localização acabasse sendo descoberta.
Johnny mexe a cabeça em um sinal para que o seguíssemos e corre para o acostamento da estrada, escondendo-nos na entrada escura de um prédio recoberto por tábuas de madeira. Prendo a respiração por alguns instantes, orando silenciosamente para que ninguém nos encontrasse.
Quando o carro desaparece e o silêncio volta a assumir o seu lugar, suspiramos aliviados e saímos de nosso esconderijo. Encaro o céu nublado e olho em volta, tentando identificar onde é que nós estávamos. Pelos sinais de maus cuidados da cidade, aquele lugar definitivamente não fazia parte de Füssen.
Um bando de pombos voou para o oeste sobre nossas cabeças e uma rajada de vento nos atinge com tanta força que precisamos nos encolher e fechar os olhos para proteger das cinzas que eram sopradas. E tão rápido quanto surgiu, o vento se foi e o ar se tornou pesado mais uma vez.
O vento trouxe o cheiro pútrido e podre dos corpos em decomposição. O frio intenso os conservava, mas não o bastante para conter as explosões de gases dentro de seus corpos. Johnny volta a andar sem dizer uma só palavra e eu sinto meus joelhos estremecerem pelo cansaço intenso.
— Podemos... descansar um pouco? – Pergunto, chamando a atenção do rapaz, que se vira e me encara sem expressar qualquer emoção. – Nós andamos muito e eu realmente não sei se consigo carregar Tony por mais tempo.
— Nós estamos perto do rio. – Responde Johnny, ajeitando o corpo da mulher em seus braços. – As margens dele nós poderemos enterrar os corpos e descansar sem corrermos o risco de sermos encontrados.
— Quão perto estamos? – Indaga Tyler com a respiração ofegante. – Eu também não sei se consigo andar por muito tempo.
— Apenas perto. – Fala o homem, voltando a andar sem olhar para trás.
— Antipático. – Resmunga Manu, cruzando os braços. Ela nos encara com preocupação. – Vocês estão bem? Tem alguma forma de eu ajudar vocês?
Troco olhares com Tyler e suspiro, ajeitando o corpo de Tony. O rapaz parece estar usando o último fio de suas forças, pois realmente respirava com dificuldade. Depois de inspirar e soltar o ar calmamente, ele também ajeita o corpo do primo e assente, dando o sinal de que estava pronto para continuar.
— Não se preocupe. Ainda conseguimos andar mais um pouco. – Garanto e Manu não parece acreditar muito em minhas palavras.
— Vamos apenas apressar os nossos passos. Eu quero chegar logo nas margens do rio que ele disse. – Pede Tyler com a voz cansada.
Seguimos por mais alguns instantes pelo subúrbio e logo estamos dentro de uma nova floresta. Felizmente, ao contrário da Floresta Negra, não foi preciso que andássemos muito e nem que tivéssemos que enfrentar a neve para chegarmos as margens do rio. E enquanto andávamos, vejo ao longe um barco vermelho e preto, abandonado e jogado para a margem do rio. As pilhas de lixo amontoavam-se ao seu redor e ele parecia
— Chegamos. – Avisa Johnny, parando de andar. Ele coloca o corpo da mulher encostado no tronco de uma árvore e se senta no chão, suspirando cansado. Tyler e eu fazemos o mesmo com o corpo de Tony, sentindo nossas pernas tremerem pelo cansaço. – Vamos descansar um pouco e comer alguma coisa para recarregar nossas energias.
Johnny então retira de dentro dos bolsos intensos do casaco grosso que ele usava, sanduiches e frutas. Arrasto-me até o rio e bebo um pouco de água, aliviando a intensa sede que sentia depois do intenso esforço que fizemos. Tyler e Manu também se hidratam, parecendo tão exaustos quanto eu.
— Comam. Não está saboroso por causa do tempo que passaram em meus bolsos, mas é melhor do que ficar com fome. – Johnny faz sinal para que pegássemos algum dos alimentos que colocou no chão, enquanto desembrulha um dos sanduíches que estava protegido por papel alumínio.
Observo as frutas e os sanduíches em embalagens semelhantes à do que ele comia, questionando-me se era seguro comer. No entanto, o aperto doloroso em meu estômago faz com que eu ignorasse qualquer medida de segurança e simplesmente começasse a comer como um louco. Manu e Tyler também parecem pensar o mesmo, pois é só questão de segundos até que também passassem a devorar as bananas, maçãs e os sanduíches. Nós não comíamos há quase um dia inteiro e todo o percurso que fizemos sugou por completo as nossas energias.
Ele tinha razão quanto ao sabor. Não era tão saboroso e tudo parecia a ponto de congelar. Ainda assim, eu estava com tanta fome que não me importava com nada disso. Eu apenas queria dar um jeito naquela dor angustiante em minha barriga, que não via comida a muito tempo. Suspiro assim que eu termino de comer meu sanduíche e observo Johnny se aproximar do rio para beber um pouco de água.
— Obrigado. – Agradeço, assim que ele retorna para perto de nós.
— Tanto faz. – Resmunga Johnny, passando a encarar a mulher que trouxe o caminho inteiro. – Terminem de comer. Eu vou procurar por galhos que possam servir para fazer uma fogueira para nos aquecer.
E sem esperar que o respondêssemos, Johnny simplesmente se levanta e sai em busca de possíveis lenhas para fazer a fogueira. Suspiro e encaro o corpo sem vida de Tony. Meu coração se aperta e eu sinto toda a minha fome se esvair ao pensar que em breve realizaríamos o seu enterro e nem mesmo sabemos o que de fato aconteceu para que ele fosse morto de uma forma tão cruel, mesmo sendo um dos melhores soldados de Krósvia. E sendo sincero, eu não sabia dizer se estava preparado para dizer adeus.
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