Fire Scars

18 Escolhas


Notas iniciais
Oii Cupcakes ♥! Demorei demais para aparecer aqui, mas estou eu com um capítulo curtinho para vocês. Acontece que estou tão atolada de coisa para fazer que não consegui escrever antes e nem entregar um capítulo maior para vocês. Espero que entendam. E eu quero agradecer demais a VacuumCleaner por não desistir de mim. Espero que goste. Boa leitura...

Capítulo XVII – Escolhas

“Depois das colinas e bem longe

Um milhão de milhas de Los Angeles

Apenas em qualquer lugar com você

Eu sei que nós temos que fugir

Em algum lugar onde ninguém conhece nosso nome

Encontraremos o início de algo novo

Apenas me leve a qualquer lugar, me leve a qualquer lugar

Qualquer lugar com você

Apenas me leve a qualquer lugar, me leve a qualquer lugar

Qualquer lugar com você”

Anywhere — Rita Ora

Krósvia – 1995

O dia havia amanhecido nublado e frio. Depois de descansarmos da longa e desgastante caminhada até as margens do rio Óder, que passava pela fronteira de Füssen com a pequena Lofoten, nós preparamos um enterro improvisado para Tony e para a mulher que descobrimos se chamar Dandara.

Em completo silêncio, prestamos nossas homenagens ao casal, sentindo a dor do luto machucar nossos corações. Manu e Tyler ainda choraram um pouco, enquanto Johnny e eu jogávamos a terra sobre os corpos com as duas pás que misteriosamente o loiro conseguiu durante a sua busca por lenha para fazer uma fogueira e nos aquecer.

Assim que terminamos de enterrá-los, permanecemos mais um tempo encarando os túmulos, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Discretamente, encaro Johnny, que tinha os olhos fixados no túmulo de Dandara, sem esboçar qualquer emoção.

Eu não sabia muito bem o que pensar sobre ele. Johnny era um homem misterioso. Falava pouco e era sempre muito desconfiado. Mas o caminho inteiro cuidou para que não fossemos descobertos e ainda nos alimentou com o pouco que tinha. Ainda assim, era evidente que ele não gostava de mim, mesmo dizendo que não me odiava.

De certa forma, não era realmente surpreendente que algo assim acontecesse. Meu pai não era um rei amado. Desde que assumiu o trono, ele tem governado com punhos de ferro de com crueldade. Era normal as pessoas odiarem a família real. E mesmo as pessoas que apostavam sua confiança em mim para um dia assumir o lugar do meu pai e mudar a situação do país, depois de todos os meus problemas com meu pai nos últimos meses, já não tinham mais tanta confiança em mim.

Muitas pessoas acreditavam em mim e isso sempre me assustou. Eu não sou tão forte, inteligente e nem tenho tanta confiança assim para liderar as pessoas. Mesmo sabendo que eu sou a única pessoa no momento que pode tirar o meu pai do poder, eu não acho que sou capaz. Eu só queria ser uma pessoa comum, sem ter que me preocupar com o fato de que todas as minhas atitudes podem influenciar na vida de milhares de pessoas.

Por que está nos ajudando?

— Porque você ainda é a droga do futuro rei de Krósvia e a única pessoa que pode salvar nosso povo do desgraçado do seu pai. Mas sendo sincero, eu não me importo realmente com você e tenho minhas dúvidas se você tem a força necessária para enfrentar o seu querido pai. Agora que a rainha Penny anunciou a gravidez, minhas apostas estão muito mais para o próximo herdeiro do que em você.

As palavras de Johnny ecoam em minha cabeça de repente. Eu vinha evitando pensar demais sobre a criança que minha mãe está esperando. Meu irmão ou irmã nasceria em alguns meses e eu não fazia ideia de como reagir a essa informação. Eu deveria estar feliz, mas sendo sincero, o que havia de bom em nascer nessa família? A criança será apenas mais uma pessoa a crescer cheia de traumas, restrições, responsabilidades e expectativas de outras pessoas sobre si.

Além disso, um sentimento egoísta sempre assume meu coração ao imaginar que talvez, essa criança possa ser aquela que dará a minha liberdade. Com sua presença, eu não seria mais o único a ser a esperança de Krósvia. Eu também não teria mais que lidar sozinho com meu pai e nem seria o único na fila de sucessão ao trono, algo que eu nunca desejei.

Eu odiava pensar assim, mas também não era algo que eu conseguia evitar. Talvez fosse por saber que também existia a possibilidade dessa criança se tornar uma versão ainda pior de meu pai ou alguém tão omisso quanto eu e minha mãe. De toda forma, eu ainda não conseguia ver esse bebê como meu irmão ou irmã. Era como se fosse alguém distante demais para eu sentir algum tipo de apego.

— Nós precisamos ir. – Avisa Johnny, quebrando o silêncio melancólico e me despertando de meus devaneios.

— Para onde nós vamos? – Pergunta Manu com o tom de voz cansado. Ela já havia parado de chorar, mas parecia fazer um grande esforço para permanecer assim.

— Próximo daqui há uma fazenda que pertencia a alguns amigos meus que foram embora. Fica mais ao norte de Lofoten, longe de comércio ou qualquer outra tecnologia. Será um bom lugar para ficar até a poeira em Füssen abaixar. – Responde Johnny, encarando a garota com seriedade. – Do jeito que as coisas estão indo, o rei deve ordenar que todos os seus homens procurem por vocês por alguns dias e, caso não o encontrem, deve declarar a morte do herdeiro da coroa. Agora que ele já tem um novo herdeiro a caminho e sabe que o príncipe Phillip não é muito confiável para assumir seu lugar, ele vai apostar todas as suas fichas na criança que está por vir.

— Então está me dizendo que é só uma questão de tempo até que eu seja declarado como morto? – Indago, surpreso.

— Estou apenas fazendo uma suposição baseado no que presenciei nos últimos meses. Depois que a rainha anunciou a segunda gravidez, o rei nem mesmo voltou a falar sobre você, ainda que estivesse desaparecido. De repente, já não parecia mais tão urgente assim a busca pelo herdeiro da coroa. Os homens do rei diminuíram consideravelmente a sua procura. – Explica o loiro, limpando as roupas que estavam sujas de terra. – Além disso, ontem ele declarou você como um inimigo da coroa. Para mim é óbvio que ele planeja te matar de qualquer forma.

— Ele tem razão. Desde que a rainha Penny anunciou que estava grávida, nós não tivemos tantos problemas para evitar o soldados de Krósvia. E pelo que o rei fez com você quando nós te resgatamos, ele estava determinado a mexer com a sua cabeça, mesmo que isso te matasse. – Comenta Tyler, encarando-me com seriedade. – Ele realmente deve pensar que é muito mais fácil moldar essa criança que está para nascer do que te fazer obedecê-lo. Ainda mais depois de tudo o que aconteceu.

— Sim. – Concordo, pensativo. De fato, seria muito mais fácil para meu pai me matar do que me fazer obedecê-lo. Viro-me para Johnny e o encaro com seriedade. – Então, se ele me pegar, você acha que ele realmente vai me matar? Mesmo eu sendo o primeiro na linha de sucessão?

— O que você acha? – Questiona Johnny com um leve tom de ironia. – É claro que ele vai te matar. Agora tem duas opções do que você pode fazer. Ou você aproveita essa chance para fugir de sua vida e iniciar uma nova, como uma pessoa completamente diferente ou você deve se preparar para aplicar um golpe e assumir a coroa de Krósvia.

Johnny me observa por alguns segundos, como se estivesse lendo a minha alma e dá uma risada anasalada, como se já soubesse a minha resposta. Enquanto isso, eu permanecia imóvel, sem saber como reagir. Apesar de saber que as pessoas esperavam que eu resolvesse dar um golpe para assumir o trono de Krósvia em dois anos, eu simplesmente era incapaz de dizer que estava realmente disposto a isso.

Pela primeira vez na vida eu estava diante da chance de realizar o meu sonho de me tornar uma pessoa livre e eu sabia que essa oportunidade não voltaria a aparecer se eu escolhesse assumir a coroa de Krósvia. E era exatamente por isso que eu hesitava tanto em tomar a decisão que beneficiaria um bem maior.

E em meio a essa guerra interna sobre o que deveria fazer, sinto uma mão pequena e quente apertar a minha. Viro meu rosto, assustado pelo gesto repentino, e me surpreendo com o sorriso doce que Manu me direcionava. Seus olhos escuros transmitiam tanto conforto e compreensão que por alguns instantes, esqueço completamente todos os problemas que rondavam a minha mente.

— Não se preocupe, Prince. Você não precisa tomar uma decisão agora. – Garante Manu, surpreendendo-me. Mesmo diante de toda a dor que ela sentia pelas recentes perdas de seus irmãos e pai, ela ainda tentava sorrir e me encorajar. Eu realmente sou um covarde.

— É, cara. Qualquer decisão que você tomar, nós sabemos que será a certa. E esse tipo de coisa não é algo que se decide de uma hora para outra. Vamos para um lugar seguro primeiro e lá você pensa no que é melhor para você e para Krósvia. Nós estaremos ao seu lado em qualquer que seja a sua escolha. – Afirma Tyler, apertando meu ombro em sinal de apoio. Ele também tenta dar um sorriso encorajador e isso só faz com que eu perceba ainda mais como eu sou fraco se comparado a essas pessoas diante de mim.

— Obrigado, Manu e Tyler. – Agradeço, suspirando. Balanço a cabeça, tentando dissipar os pensamentos negativos. Não era hora de soar pessimista. Meus amigos estão contando comigo para nos tirar dessa situação.

Viro-me para Johnny mais uma vez, enquanto ele jogava as pás que usamos em algum lugar no meio do matagal que nos rodeava. Ao notar que eu o encarava, o homem corresponde ao olhar com intensidade. Eu realmente não fazia ideia do que se passava em sua mente e nem o motivo de confiar nele, mesmo que meus instintos tivessem falhado quando pensei que poderíamos confiar em Taynara e Gavin, mas ele era a única pessoa que poderia nos ajudar naquele momento.

— Nós estamos prontos para ir. – Digo ao loiro de olhos azuis tão gélidos quanto a Sibéria. Ele assente e bate as mãos, limpando o restante de terra que havia nelas.

— Tudo bem. Vamos aproveitar que ainda é cedo e partir. Ainda teremos que andar mais umas cinco horas até chegarmos lá. Então se querem ir ao banheiro ou comer alguma coisa, a hora é essa. Depois disso, teremos que ser discretos. Muitas pessoas conhecem o seu rosto, então se não tomarmos cuidado, colocaremos tudo a perder. – Explica Johnny, retirando o cachecol que usava e um óculos de seu bolso. Ele me estende os acessórios e me encara com seriedade. – Use isso e mantenha o rosto mais abaixado para que as pessoas não te reconheçam.

— Certo. Obrigado. – Agradeço, fazendo o que ele havia orientado. Encaro Manu e Tyler e assinto, em um sinal mudo de que estava mais confiante. – Vamos. Nós temos uma longa jornada pela frente.

— Vamos lá. – Concorda Manu, respirando fundo. Ela encara o túmulo do irmão mais uma vez e se abaixa para colocar a mão sobre ele. – Tchau, Tony. Proteja a gente onde quer que você esteja. Eu prometo que quando as coisas se acalmarem, eu volto para te ver. E assim como você sempre me ensinou, eu vou ser forte e lutar pelo que é certo, não importa o que aconteça. Eu te amo.

— Eu prometo que vou cuidar da Manu, Tony, e farei com que a sua morte não seja em vão. Mesmo que isso possa demorar anos, eu vou dar continuidade ao seu trabalho e garantir que um dia Krósvia possa se tornar um lugar livre e feliz. – Garante Tyler, abraçando a prima, enquanto encara o túmulo de Tony.

— Obrigado por tudo que fez por mim, Tony. E por favor, me dê toda a força e coragem que você tinha para que eu possa proteger Tyler e Manu. Eu prometo que farei quem fez isso com você, com Henry e com Stefan pagar pelo que fizeram. – Prometo a Tony e logo sou alvo dos meus amigos.

Trocamos olhares sérios e confiantes e nos levantamos. Nós não passamos de crianças que provavelmente não sabem muito sobre a vida e não fazemos ideia do que o destino nos reserva, mas eu sinto que se permanecemos e lutarmos juntos, nós seremos capazes de vencer qualquer que seja o desafio que a gente precise enfrentar.

E até que eu seja capaz de decidir o que farei quanto ao futuro de Krósvia, eu priorizarei a minha sobrevivência e a de meus amigos. Então, com nossas cabeças erguidas e os corações repletos de incertezas, seguimos Johnny a um futuro que mudaria para sempre as nossas vidas.