Fire Scars
20 Novos Planos
Notas iniciais
Capítulo XIX – Novos Planos
“Se eu tivesse ouvido minha mãe
Senhor hoje eu estaria em casa
Mas eu era jovem e tola
Belo motoqueiro levou-me à perdição
Vá dizer para minha irmãzinha
Nunca fazer o que eu fiz
Para evitar a casa na cidade de Charming
Eles a chamam de Sol Nascente.”
House of the Rising Sun - The White Buffalo
✻
Krósvia – 1995
Johnny me encarava intensamente, esperando alguma resposta. Eu não tinha certeza se o plano do rapaz daria certo, tampouco se suas experiências poderiam ser de alguma ajuda para sua irmã mais nova no caminho tortuoso e doloroso que ela tinha pela frente como a herdeira do trono de Krósvia.
Desvio o olhar de Johnny para encarar o céu que estava especialmente bonito naquele dia, esperando por algum sinal que me mostrasse qual era a decisão correta a se tomar. E para a minha surpresa, em um momento aleatório, ainda em meio aos fogos de artifício que soltavam em celebração ao nascimento da nova princesa, vejo uma estrela cadente passando timidamente pelo céu.
Mesmo que tivesse sido algo rápido e pudesse ser apenas uma mera coincidência, aquela estrela cadente havia acendido em mim um desejo estranho de acreditar que talvez a ideia maluca de Johnny realmente pudesse dar certo.
— Tudo bem — concordo.
— Então você vai fazer o diário para a princesa Allycia?
— Sim. Eu não tenho certeza se isso vai funcionar e nem se minhas experiências ou opiniões poderão influenciar de alguma forma, mas como você disse, eu não quero ser rei e não é justo deixar que essa criança seja manipulada de forma tão cruel como eu fui — respondo, suspirando. — Então, vamos tentar.
Johnny sorri e termina de fumar seu cigarro, com um sorriso satisfeito em seus lábios. Seus olhos brilhavam esperançosos e eu podia sentir que um grande peso havia sido tirado de seus ombros.
— Certo. Vamos voltar. Você tem muito o que fazer em pouco tempo — responde Johnny, jogando o cigarro no chão.
Ele esfrega o pé sobre a bituca e passa a andar em direção a nossa casa. Suspiro e encaro o céu mais uma vez antes de segui-lo. E durante o trajeto, minha mente borbulhava em pensamentos, tentando decidir o que eu deveria escrever a Allycia e como poderia expressar minhas experiências de forma que não parecesse que eu estava apenas tentando deixá-la contra nosso pai.
Assim que adentramos a casa, encontramos Manu e Tyler sentados ao lado da lareira, ouvindo mais detalhes sobre o nascimento da nova monarca de Krósvia.
Ao notarem a nossa presença, Manu se levanta e se aproxima de mim com os olhos preocupados. Assinto e dou um pequeno sorriso, tentando tranquilizar a garota. Eu ainda me sentia um pouco atordoado, mas estranhamente aliviado.
— Está tudo bem? — pergunta Manu.
— Sim. Johnny e eu apenas conversamos um pouco — respondo. — Sairemos de Krósvia em um mês.
— Vocês precisam estar preparados para enfrentar uma longa e perigosa viagem até Boise — informa Johnny, pegando mais um pouco de whisky.
— Como partiremos? — indaga Tyler.
Johnny toma um gole de sua bebida e se senta no sofá. Ao nos encarar, o homem parece ponderar sobre como nos contar seus planos. E eu odiava essa sensação de estar perdido no escuro se tratando do homem.
Era sempre assim. Por não confiar por completo em nós, Johnny dificilmente revelava qualquer coisa sobre ele ou seus planos. Simplesmente, dizia o que achava que era necessário para nós e esperava que nós os seguíssemos ou fossemos simplesmente embora, deixando claro que para ele, nossa participação era opcional.
— Em duas semanas, eu farei contato com os meus conhecidos que moram em Boise para saber a forma mais segura de entrar no país. Como eu disse antes, o rei Lester deve começar a fazer seus movimentos agora. Essa semana mesmo, acredito que ele deve fazer algum anúncio sobre a morte de Prince, mas, mesmo após o anúncio, não podemos abaixar a guarda. As sombras do rei Lester não devem parar até garantir que Prince esteja realmente morto.
— O que faremos quando chegarmos em Boise? — questiona Manu.
— Isso depende de vocês — responde Johnny.
— Como assim? — murmura Tyler, desconfiado.
— Se vocês quiserem continuar me seguindo, seguiremos para o interior de Boise, nos preparar para nos preparar para a futura guerra de Krósvia. Agora, se quiserem a liberdade, fica a critério de vocês o que irão fazer. Posso conseguir um lugar para ficarem por tempo provisório, mas precisarão sobreviver por conta própria — explica Johnny, bebendo mais um pouco de seu whisky. — Claro que temos uma terceira alternativa.
— Que seria? — questiono.
Johnny termina de beber seu whisky e suspira, pensativo. Ele então se levanta e vai até a cozinha para lavar o copo. Observamos suas ações, tentando entender o que se passava em sua mente misteriosa.
— Nós nos separarmos aqui Krósvia mesmo. Não é algo que eu particularmente recomendo para vocês, visto que todos iriam reconhecê-los, mas ainda é uma opção para vocês — responde Johnny, voltando para a sala.
— Não. Obrigada — resmunga Manu, irritada. — Não podemos ficar aqui. Se você garantir que podemos chegar em segurança em Boise, podemos decidir o que iremos fazer depois disso.
— Certo — concorda Johnny.
O homem deixa a sala e volta instantes depois com sua jaqueta de couro e um chapéu. Ele esconde uma arma na bainha de sua calça e nos encara com seriedade.
— Eu vou sair. Nada de aprontarem enquanto eu estiver fora.
— Aonde você vai? — pergunta Manu, desconfiada.
— Em busca de mais informações — responde Johnny, deixando claro que não entraria em mais detalhes. — Prince, deixei um caderno em branco sobre sua cama e algumas canetas. Eu volto ao amanhecer.
— Tudo bem.
Johnny nos observa por mais alguns instantes e reforça seu aviso de que deveríamos nos comportar enquanto ele estivesse fora. Ele então vai embora, sem deixar mais explicações, como tem feito desde que passamos a morar juntos.
— Cara estranho — resmunga Tyler, suspirando. — O que acham que ele foi fazer?
— Provavelmente obter mais informações do nascimento da princesa Allycia — supõe Manu, dando de ombros. Ela então se vira para mim. — Sobre o que vocês conversaram? E por que ele deixou um caderno para você?
— Ele me pressionou mais uma vez para saber a minha posição quanto a assumir o trono ou deixar que Allycia assuma assim que atingir a maioridade — respondo, suspirando.
— E o que você decidiu? — indaga Tyler.
Esse assunto não era algo que eu conversava com meus amigos. Na verdade, eles pareciam saber que eu não queria pensar muito sobre a responsabilidade de ser o herdeiro do trono, depois de tudo o que passamos e eu era extremamente grato por isso. Então, era normal que não tivessem certeza da minha decisão.
— Eu irei abdicar do trono — respondo, surpreendendo aos dois. — Ser rei nunca foi algo que eu desejei e nem é uma responsabilidade pela qual estou preparado. Acho que nunca vou estar, se for analisar tudo o que aconteceu.
— Mas, Prince, você realmente vai entregar o trono assim? — questiona Tyler com preocupação. — O que vai acontecer com Krósvia se o rei Lester continuar a governar de forma tão tirana?
— Eu sei que estou sendo egoísta, mas Krósvia merece alguém melhor do que eu para ser o seu rei. E de verdade, mesmo que eu quisesse assumir ao trono, o que eu poderia fazer agora? Eu tenho dezesseis anos e ainda estou fugindo dos soldados do meu pai. Para ir contra ele, eu precisaria de aliados e forças militares fortes o bastante para lutar contra o exército de Krósvia, Serafine e Elpízoume, algo que nem mesmo a Fire Scars é capaz de fazer no momento.
— Mas...
— Não, Tyler. Prince está certo — afirma Manu, encarando o primo com seriedade. — Eu entendo que esteja preocupado com Krósvia. Todos nós estamos, mas precisamos ser realistas. A gente não passa de insetos para o rei Lester nesse momento. E essa é a chance que Prince sempre quis de ter a liberdade dele. Está tudo bem ser egoísta, depois de ter lutado tanto para sobreviver.
Manu parecia estar sendo sincera em suas palavras e ver que eu tinha o seu apoio me deixava ainda mais aliviado. Eu não podia assumir o trono, mas me sentia bastante angustiado pela possibilidade de decepcionar a minha única família no momento.
Manu e Tyler são as únicas pessoas em que posso confiar. Somos os três contra o mundo, então eu não queria que eles me achassem um idiota ou me odiassem por estar abandonando o meu dever como príncipe herdeiro.
— Certo. Me desculpe, irmão. Eu só estou...
— Nervoso. Eu sei, Tyler. Está tudo bem. Eu entendo. E de verdade, eu gostaria muito de ser mais forte e competente. Queria ter a confiança para lutar contra meu pai e dizer que eu realmente nasci para ser o rei de Krósvia, mas a verdade, é que eu sinto que não é isso que eu quero e nem que eu posso fazer.
— Nós entendemos, Prince. Você não precisa se obrigar a nada — garante Manu, colocando a mão sobre meu ombro. Ela sorri com doçura, ainda que exista um brilho de dor em seus bonitos olhos. — Você fez tudo o que podia fazer por Krósvia. Nenhum de nós tem o direito de dizer nada contra a sua decisão. É a sua vida. Você merece ser feliz. E como seus amigos, nós vamos te apoiar no que quer que você queira fazer.
— Manu está certa. Nós estamos do seu lado para o que der e vier. Somos uma família. E como uma família, é nosso dever e desejo apoiar a felicidade um do outro, não importa o que aconteça.
— Obrigado.
Eles trocam sorrisos e me abraçam, mostrando que estavam realmente de acordo com o meu desejo. Sinto-me tão acolhido e aliviado, que não consigo evitar as lágrimas. Era como se meu corpo tivesse se tornado muito mais leve e eu me sentia pronto para enfrentar os desafios para conquistar nossa liberdade.
— De qualquer forma, não estou simplesmente abandonando o trono — respondo, assim que me recomponho. — Johnny me fez uma proposta que pode ser que faça toda a diferença ao futuro de Krósvia ou seja uma mera perda de tempo.
— E qual seria essa proposta? — indaga Manu.
— Ele me propôs escrever um diário com as minhas experiências e conselhos que possam ajudar Allycia a sobreviver nesse mundo de insegurança que é a monarquia. Johnny espera que eu possa orientar a nova herdeira do trono e impedir que ela seja manipulada pelo nosso pai — conto, sentando-me no sofá da sala. — Deixaremos esse diário com alguém de confiança do palácio daqui um mês e eu terei a chance de conhecer minha... irmã, antes de irmos.
— Acha que isso vai dar certo? — pergunta Tyler, hesitante. — Isso me parece algo muito utópico. Não querendo soar pessimista, mas o rei Lester tem muitos métodos de manipulação que vão desde usar sua autoridade de pai para fazer tortura psicológica até lavagem cerebral com frequências de choque. Não tenho certeza de que apenas as suas orientações serão o bastante para proteger a princesa e garantir que ela vai ser alguém diferente do seu pai.
— Sendo sincero, eu não sei, mas quero acreditar que essa criança será diferente de mim. Eu tenho esperanças de que ela será muito mais forte e melhor do que eu para assumir o posto de herdeira do trono.
— Prince, você é forte!
— Eu sei, Manu. Mas não sou o suficiente para ser o rei. Johnny me abriu os olhos quanto a isso. Desde sempre, eu senti que essa posição não é para mim e até mesmo me senti aliviado com a descoberta da gravidez de minha mãe. Agora, mesmo que estejamos sendo apenas positivos demais, eu quero tentar.
— E Johnny está confiante quanto a esse plano? — questiona Manu. — Sendo sincera, eu não consigo vê-lo sendo tão otimista com um plano baseado em esperanças e suposições, sendo ele tão racional como é.
— Eu também fiquei surpreso quando ele me fez essa proposta, mas ele realmente parecia esperançoso quanto a essa ideia. Mesmo não sabendo explicar o motivo, Johnny disse que acredita que Allycia será diferente.
— Bom, se você e Johnny acreditam que vale a pena a tentativa, acho que podemos ter um pouco de esperanças de que será diferente — responde Tyler, dando de ombros.
— Aliás, Johnny me contou que todas as vezes que nasce um novo herdeiro de um líder tirano, as forças contrárias a esse rei formam uma espécie de exército secreto, na esperança do trono ser tomado. Aparentemente, a Fire Scars iniciou como uma dessas forças que iriam me apoiar, mas que se dividiu quando uma parte deles pararam de acreditar que eu seria capaz de lutar contra o meu pai.
— Isso... é sério? — murmura Manu, pensativa.
— Bom, parece que sim. Eu não acho que Johnny tenha motivos para mentir sobre esse assunto. Ele não me contou sobre o que aconteceu com a parte que me apoiava, mas a mulher que ele enterrou era a líder daqueles que pararam de acreditar em mim.
— E ele era do lado dela, pelo visto — supõe Tyler.
— Sim e não. Ele começou apoiando as ideias dessa mulher, mas após alguns acontecimentos, Johnny se tornou neutro nesse confronto. Não me apoiava, mas também não era de acordo com as ideias da tal mulher. Agora, ele está realmente esperançoso com o nascimento de Allycia.
— Se esse é realmente o caso, então ele deve estar planejando criar uma organização para apoiar sua irmã.
— Essa é a minha suposição, Manu. De qualquer forma, ele me pediu para que eu me encontrasse com ela antes de irmos. Aparentemente, Johnny acredita que depois de visitar Allycia, eu conseguirei tomar uma decisão sobre me tornar um aliado para protegê-la ou se vou lutar apenas pelo meu suposto desejo de vingança.
— Mas, Prince, você realmente pensa em se vingar? — questiona Tyler com curiosidade.
— Não vou negar que não pensei nisso durante esse tempo em que estivemos aqui, mas a verdade é que eu não tenho certeza de como fazer isso, apesar de desejar com todas as minhas forças fazer com que meu pai pague por tudo o que ele fez a mim e aos meus amigos — respondo, frustrado.
— Bom, eu também não sei como farei isso ainda, mas eu definitivamente não vou deixar as coisas terminarem desse jeito — afirma Manu, surpreendendo-nos.
— O que planeja fazer, Manu?
— O rei Lester, Gavin e Taynara mataram a minha família, Prince. Eles nos traíram e tiraram tudo o que eu tinha. Não importa quanto tempo se passe, eu não vou descansar enquanto não fizer todos eles pagarem por isso — garante Manu com determinação. — Nem que eu tenha que ir ao inferno, eu juro que vou destruir Taynara.
— Não se preocupe, prima. Eu prometo que vou fazer o que for preciso para fazer esses malditos pagarem pelo que fizeram. Você não está sozinho nessa — afirma Tyler, exibindo toda a fúria que ele guardava dentro de seu coração.
— Nós faremos isso, não importa quantos anos se passem. Mas, antes de focarmos em nossa vingança, precisamos nos estabelecer e planejar como vamos sobreviver. Meu pai é alguém poderoso e, por mais frustrante que seja, Gavin e Taynara são extremamente inteligentes. Precisamos de muitos recursos se quisermos destruí-los — respondo, pensativo. — Eles não são inimigos que podemos subestimar. Vimos com nossos próprios olhos do que eles são capazes com muito pouco.
— Eu sei — resmunga Manu, frustrada.
— Então, o que faremos? Seguiremos Johnny na busca de criar um exército apoiador da nova princesa para lutar com o rei Lester ou iniciaremos a nossa própria jornada assim que chegarmos em Boise? — pergunta Tyler.
— Eu... — hesito. Não tinha certeza de como responder. — Eu não sei ainda.
— Nesse caso, vamos seguir o fluxo por enquanto e quando o momento chegar, tomamos uma decisão — responde Tyler, dando de ombros. — Não precisamos ter tanta pressa. Talvez, seja realmente melhor que você se encontre com sua irmã primeiro e somente nesse momento se decida sobre o que fazer.
— Eu concordo — opina Manu. — Não é como se tivéssemos muitas informações para tomarmos uma decisão. Eu nunca fui a Boise, então nem consigo imaginar como vamos sobreviver por lá. Ao mesmo tempo, não confio tanto em Johnny para depositar todas as nossas esperanças nele. Vamos esperar um pouco mais antes de tomarmos uma decisão.
— Já que todos estão de acordo, vamos esperar — respondo, levantando-me. — Agora, eu vou começar a escrever o diário.
— Você já sabe o que vai escrever?
— Sendo sincero, eu não faço ideia, Tyler. Nunca escrevi um diário. Nem mesmo sei que tipo de experiência devo colocar nesse caderno que possa ajudar Allycia de alguma forma. E que tipos de conselhos eu deveria escrever se eu nem mesmo fui capaz de suportar o inferno naquele castelo? — questiono, desanimado.
— Eu acho que você está pensando demais. Não se pressione tanto. Apenas escreva o que você descobriu ao longo dos anos que gostaria que alguém tivesse dito antes para você — aconselha Manu, dando um sorriso acolhedor. — Ninguém espera que você seja perfeito e você também não pode esperar que Allycia seja, então apenas escreva o que você quiser, sem pensar no que é certo ou errado.
— Você acha que isso vai ser o suficiente?
— Acho que o diário vai servir como uma forma de consolo para ela. Vai mostrar que alguém, em algum momento, entendeu o que ela sentiu quando enfrentou algum político chato ou como foi ter que ouvir os absurdos do rei Lester calado. Conte sobre as experiências boas que teve e sobre como ela pode usar as passagens secretas, quando estiver em perigo ou quiser se esconder de alguém. Ao menos, era o que eu gostaria de ter de meus irmãos.
A melancolia na voz de Manu faz meu coração se apertar. Levanto-me e a abraço, acolhendo-a com todo o lamento que eu sentia pela garota estar nessa situação.
Eu sabia que nenhuma das minhas palavras traria conforto ao seu coração em luto, então tudo o que posso fazer é abraçar a garota e desejar que isso seja o suficiente para trazer um pouco de consolo.
— Obrigado. Eu vou tentar o meu melhor. Por mim e por ela — afirmo e ela sorri, correspondendo ao abraço.
— Eu sei que você vai conseguir — garante Manu, apertando um pouco mais o abraço, antes de se afastar. — Agora, vai lá escrever.
Despeço-me de meus amigos, ignorando o olhar malicioso de Tyler que me lançava após me separar de Manu, e sigo para o quarto que compartilho com os rapazes.
Procurando dar um pouco de privacidade a única garota da casa, Johnny sugeriu que Manu ficasse sozinha no quarto menor da casa. Sendo uma mulher, poderia ser desconfortável para ela dormir com três homens mais velhos que ela, além de que ela definitivamente precisaria ter um pouco de espaço para lidar com seus hormônios durante o período mais sensível.
Assim que chego ao quarto, sento-me na cama de baixo do beliche que divido com Tyler, e encaro o caderno deixado por Johnny. Ele era de capa de couro e as folhas eram um pouco amareladas, sem pauta.
Pondero sobre os conselhos de Manu, pensando sobre como eu deveria escrever aquele diário. Por fim, chego à conclusão que era melhor começar explicando o objetivo daquele estranho caderno.
“Olá, Allycia.
O objetivo desse caderno é te instruir a como sobreviver à monarquia.”
Paro de escrever e encaro as palavras, sentindo-me insatisfeito. Não era exatamente aquele ar formal que eu gostaria de passar. Eu queria que ela se sentisse acolhida, que poderia confiar em minhas palavras e que ao contrário de nosso pai, eu apenas esperava que ela fosse feliz e crescesse bem.
Risco as palavras escritas e pondero mais um pouco sobre como eu deveria me dirigir a Allycia. Então, ainda que fosse estranho, opto por algo mais informal, carinhoso e sincero.
“Olá, Allycia.
O objetivo desse caderno é te instruir a como sobreviver à monarquia.
Querida, Ally. Como você está?
Eu preciso ser sincero com você e dizer que não faço ideia de como começar a escrever esse diário, porque essa é a primeira vez que tento me comunicar com alguém que nem mesmo conheço, mas que anseio com sinceridade para que tenha um futuro brilhante e seja feliz.
Não faço ideia se você vai acreditar em minhas palavras ou se vou ser capaz de me expressar de maneira clara o que eu quero dizer, já que nunca fui muito bom com as palavras. Tampouco tenho certeza se o que vou escrever aqui será de alguma ajuda no futuro para você, mas como seu irmão mais velho, acho que posso dar um ou dois conselhos para te ajudar a sobreviver ao caos que se vive ao ser um membro da família Dawson...”
Assim como Manu havia me orientado, tento não pensar muito se estou escrevendo algo de útil para a minha irmã recém-nascida, e antes que eu percebesse, eu me via sendo esperançoso, escrevendo conselhos e relembrando situações que eu poderia ter evitado se alguém tivesse me avisado anteriormente.
Naquele momento, Allycia passou de uma desconhecida que compartilha comigo pais nada amorosos para a querida Ally, minha irmãzinha que eu desejava com sinceridade que pudesse se tornar alguém muito melhor do que eu.
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